|
Sebastião da Gama, poeta de “ O Segredo é Amar”, olhando com piedade, o drama da perda de liberdade, de um insignificante grilo, preso numa gaiola, escreveu um texto – belo e lúcido, como tudo que nascido da sua alma – em que interpreta, como luto, a cor negra da asa aprisionada - que antes, por natureza, era apenas de cor negra.
 Muitas, muitas vezes, penso neste texto, porque, muitas, muitas vezes, penso no valor da Liberdade, e nas múltiplas formas de forçar a sua privação, quando vejo sem grades nem gaiolas, cercea-la aos mais fracos, talvez da forma mais perversa, a forma sub-reptícia Assim, quando alguém faz um trabalho e outro o apresenta como seu empoleirando-se numa qualquer falsa hierarquia, não há da vitória, branco, ou cor, que ressalte, porque a supressão da verdade, abafa a liberdade que assim fica de luto. - É dos livros!... Mas, por gostar do texto referido e por paixão pela obra de Sebastião da Gama tive curiosidade de investigar que espécie de insecto é o grilo. Tenho a firme convicção de que, à parte o cri-cri do seu canto, bem conhecido, e da crença popular de que os de asas amarelas cantam mais e melhor, nada mais deles se sabe. Que se distinguem das grilas porque elas têm os élitros mais curtos e pelo número das pequenas caudas, também é da sabedoria corrente. Da história de animal tão presente nos nossos campos, pouco, ou nada mais, se refere. Investiguei um pouco, e do seu caracter aprendi: - é anti-social, manifestam uns pelos outros inter-repulsão. São tão belicosos que os chineses os treinam e usam para combates, que transpostos para a nossa escala seriam aterradores e no final o vencedor devora o vencido! “Afirma-se ainda, que, só na altura de acasalar, têm relações mais civilizadas com os seus congéneres e que os que nascem da mesma postura vivem algum tempo juntos mas, breve, parte cada qual para seu destino solitário. Que defendem duramente o seu pequeno território contra os seus congéneres embora a riqueza que os seus intratáveis cérebros guardam, seja apenas um pequeno e escuro túnel.” [in: Os grandes enigmas da vida animal- citação] Quem diria que bichinho tão decorativo era capaz de feitos tais... Mas, a verdade é que tendo as características que tem, porque faz cri-cri, tolera-se, desde que não cante demais, porque então irrita, cansa e desassossega. O seu habitat é o campo, embora às vezes apareçam nas ruas dos povoados, onde, logo chamam a atenção. É que, saindo da erva verde, onde pastam e se escondem, quem os avista logo tenta caça-los o que não é fácil, porque saltitam, mostram-se, aparecem e desaparecem e lá se vão escapando.
 Um dos meus sobrinhos, o Luís, quando criança, caçava-os e guardava-os no boné. Quando o víamos rir sem razão aparente já se sabia que eram os grilos a fazer-lhe cócegas na cabeça. Até dizia que quando crescesse queria ter um filho para lhe chamar – Zé Grilo. Afinal é pai de um João e de um Pedro! De onde se depreende que há quem goste, e goste muito. Pois, quem me diria que bicho tão insignificante – pelo menos na aparência – que até diverte as crianças se pode tornar tão agressivo para os seus semelhantes. Mas, eu vinha falar, não de um insecto, mas de cores e de Liberdade. O saudoso Senhor Professor Agostinho da Silva, afirmava que a Liberdade era o maior bem do homem. Os partidos, ditos democráticos, não sei com que convicção, fazem da Liberdade, bandeira, mas cada qual, tenta subjugar os outros... Porém, sejam os seus símbolos de cor vermelha, rosa, laranja, branca ou às pintinhas, com a visita ao nosso País, de “Hugo da Venezuela” – que pelo que se viu, não faz tenção de se calar e diz o que lhe dá na gana – não restam dúvidas, que a liberdade ao que se confirmou, na nossa era, nasce, vive e floresce nos poços de petróleo, o que torna as cores diferentes com o constrangimento da subordinação à realidade que se impõe. Assim, qualquer cor, para quem necessita de petróleo, por mais vibrante que seja, será apenas como o preto da asa do triste grilo engaiolado – luto.
Maria José Rijo
@@@@@
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.945
29 de Novembro de 2007
|