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“ AOS PÉS DO DONO “ - 1986

Segunda-feira, 07.10.19
Á La Minute
Jornal linhas de Elvas
Nº 1.844 – 4 de Julho de 1986

Resultado de imagem para maria jose rijo - trabalhos madeira
 (( escultura de madeira de Maria José Rijo ))

Foi perto do rio Degebe, nem sei há quantos anos!

Na sombra duma árvore, à beira da estrada, um pastor descansava, apoiado ao cajado, olhos afundados na distância, absorto. Sentado a seus pés um Serra de Aires, quase pardo, orelha afilada, atento a tudo, boca entreaberta como de alguém indeciso, entre um sorriso de acolhimento ou a pergunta curiosa que se adivinha no olhar e se cala a custo.

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Imagem de paz e solidão. “Solidão, ai dão, ai dão – solidão do Alentejo”.

Assomam à memória reminiscências, repetições, aprendidas em dias quentes.

Imagens presentes, fora e dentro da gente que sente e percorre a sua terra.

Paramos a olhar, saboreando o dia, a hora, o instante fugaz, a voz do sangue.

Relembram-se dias, tardes, tempo, visões antigas iguais ao presente, antevendo futuro num clima imutável que institui hábitos com a força de dogmas.

O carro, nós, o pastor, o cão, num instante quedo no tempo, quieto duma espera de contemplação…

Então, surge outro carro, veloz, louco, incontrolado, ruidoso como um besouro a voar ao sol na tarde quente. Guina, ultrapassa e pára mais à frente na valeta baixa.

Gente nova, perturbada, atónita, desculpa-se insegura…

Na sombra redonda da azinheira, bordão caído ao lado, joelhos no pasto seco, o pastor em silêncio afaga o cão, de corpo lasso, mole, deitado agora, com um fiozinho vermelho a escorrer-lhe da boca.

-- “Do mal, o menos, ainda foi sorte, foi o cão! – comenta o causador do dano que tenta violar o silêncio obstinado do pastor.

-- “Quanto quer pelo cão? – Diga homem! – Responda!”

O pastor não fala.

O rapaz insiste: - “ quanto quer, eu pago!”

-- “Não basta o que basta” – Diz enfim o pastor.

“Pago! Pago! Pago! – “Pagas o raio que te parta!”

-- “E à noite os mocinhos!?” – Sim – à noite os mocinhos?!”  - interroga enquanto agarra o bordão e se ergue repetindo na voz do seu pasmo inconformado:

-- “Ali, ós mê’s péis! - Ali, ós mê’s péis!

Afasta-se e as ovelhas seguem-no – os carros partem e o silêncio retoma o seu espaço.

Solidão ai dão, ai dão.

Solidão do Alentejo!

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publicado por Maria José Rijo às 14:56





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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