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Quatro exclamações

Quinta-feira, 19.09.19
À Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1804 – 20 de Setembro de 1985

ig.Piedade-paulalface.JPG

São Mateus 1985
Quando um ventinho assobia e só servem os sentidos
para saber entanguidos, e engadanhados de frio,
os dedos entorpecidos de articulações doloridas,
e nas botas empedernidas – mais duras do que torrões –
em que a terra se tornou, e onde se avança aos baldões,
com todas as intempéries…
-- os pés são pesos de chumbo…
-- É o Inverno, com chuvas, vento,trovões,
e geadas de rachar…
-- Ao proteger o gado, afrontando o temporal…
-- “Ah, vida dum filha da mãe!
Raio de tempo dum sacana!”
Desabafa o maioral!...

Paphotografy.JPG

Quando a seara desponta, e só servem os sentidos
para atentar se é bem nascida (o que é o pão da vida)
de quem na terra trabalha…
-- Quando é a perder de vista
verde, verde, o que se avista…
-- Se a azeitona deu bem, e os lagares ainda gemem…
-- E o Fevereiro não veio quente (com o diabo no ventre).
-- Se de tudo há novidade na sezão em que era esperada…
-- Vendo de longe a mulher que veio espreitar à porta
para ver chegar o marido, o aguarda no umbral
-- Sorrindo – orelha a orelha,
acena com gesto largo…
“Olha lá pr’a este enlevo!
Disto não me lembro igual!
Vai um ano dum sacana!...
Diz a esperança que canta nas falas do maioral.
Quando o calor zumbe aos ouvidos, e só servem os sentidos
para ter medo de os perder…

porta-paulalface.JPG

-- Quando o ar que se respira parece estar a arder,
e a garganta e os pulmões se engasgam com o suão…
e, coitado, o coração bate apressadamente, aflito
como um pobre pardalito, fechado na mão de alguém!
-- Sem dar perdão a ninguém, a canícula avassala!
-- “É dura a vida dos pobres!
Ah! Calorina real

1985.jpg

Raio de tempo dum sacana”
-- Desabafa e limpa o suor, ofegante o maioral!
Quando toda a safra acaba, e só servem os sentidos
para almejar uns festejos,
convívios com gente amiga que só se vê de ano a ano…
-- E o que lembra é um copo, uma cerveja fresquinha,
cantar umas brejeirices, largar umas baboseiras,
galhofar de tudo e nada…
reinventar a mocidade
(onde aparece que coube tudo o que se soube)

IMG_3667.JPG

-- E a feira de São Mateus
-- Festas, jogo e arraiais!
e ao chegar à Piedade
-- Com o azeite da promessa – em prudência inteligente,
alinha os seus pensamentos,
(de joelhos – cheio de fiel ar beato - agradecido )
desfia o que a alma sente:
“Rezo pouco e cá p’ra mim!
Oh, meu Deus – não é por mal!
-- É que a gente tem pendência p’ra…
P’ra largar só asneiradas…”
Remedia ainda a tempo
bem contrito o maioral.

Maria José Rijo

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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