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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

Maria José Rijo

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

As várias faces

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.849 – 8 de Agosto de 1986

  

Numa família, mesmo numerosa e de parcos haveres, quando nasce um elemento é sempre ocasião para festejar.

Foi assim agora. Uma cidade de província, não muito grande, como é a nossa, recebeu a presença de mais um jornal e celebrou o acontecimento.

Não há dois, sem três, diz o povo.

 

Aí está, pois, o terceiro, temos a conta certa ao que parece. E, se pelas condições e dimensões do meio, não poderemos vir a ser mais família de parentes abastados… há uma posição de vida que para todos é possível e desejável… a de família unida…

          Família-unida

correcta… onde cada qual ocupa o lugar que lhe cabe e o exerça com brio.

São sempre possíveis olhares diferentes, e sinceros, sobre as mesmas coisas.

Quando o poeta canta que “importante é a rosa” ele também sabe que para a lagarta voraz, toda aquela beleza é apenas um manjar.

E, se os apaixonados a usam como testemunho de amor, o luto transforma-a num sinal de saudade.

        Quaresma - Tempo de Oração, Jejum, Abstinência e Conversão

Não admira que o crente sinta a rosa como um convite à oração, um motivo de graça a Deus.

Cada olhar tem seu toque de alma frente à vida…

Sua semente de fé…

Sua pitada de esperança!

 

Maria José Rijo

 

A DANÇA

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.782 – 19 de Abril de 1985

  

Muitas vezes me lembro daquele mundo rústico onde cresci, aquela viva universidade onde aprendi o gosto de ser gente.

Lembro a maneira directa de falar e fazer coisas – nem sempre desprovida de malícia – mas de leitura de intenções sempre fácil.

              

Por lá as chuvas não tinham as designações de aguaceiros, chuviscos e outras de meteorologia erudita.

Não! Lá eram “morrinhas”, “moraças”, “molha parvos”, “porradas de água” ou “águas de pedra” que podiam ser coisas de “somenos” e as cearas ainda não eram nascidas ou “desgracia” se vinham com as “trovoadas” de Maio e eram de “pedragulhos” do tamanho de “arraios” ou ovos de perdiz …

Os ventos eram “arages” charôcos” “ventaneras” ou buzaranhas dos diabos” – conforme a intensidade…

As empreitadas eram “adiafas” e, como toda a alegria, tinha por matriz o trabalho – quando terminadas eram motivo para festas com cómoda e bailes – “os balhos”.

As moças, de saia, blusa e lindos aventais, sentavam-se enfileiradas rente ás paredes em redor da “sala” como loiça em cantaria. Os homens apinhavam-se na rua junto ás portas e janelas, fumavam, cuspiam para o chão largavam picardias e dichotes” enquanto com olhos cobiçosos e gulas recalcadas, faziam a escolha do par para a dança.

ODestaque: Os Bailes Tradicionais tocador de gaita-de-beiços ou concertina, lenço de chita colorida atado em volta do pescoço, ás vezes tocava e dançava ao mesmo tempo.

As “acompanhantas” (tias, avós, mães ou comadres) ficavam para salvaguarda do “respêto” “górdando” atentas para evitar “moengas”.

Mal a música começava ou recomeçava – que o tocador tinha ás vezes que cuspinhar nas mãos para as amaciar – “eles” avançavam e, pela força do hábito de lidar com os gados da lavoura – estendendo os braços – faziam o convite da praxe, - “Voceia quer vir batê-las” – engate-se aqui nestes varais!”

Elas, levantavam-se, “com pasua”, alisavam as pregas das roupas com as costas das mãos, deixando-se enlaçar pela cintura e o rodopio começava. Às vezes, levados pelo entusiasmo e pela volúpia do calor da vizinhança dos corpos, os homens, aproveitavam as voltas do baile para “apertar” mais a si as raparigas.

Então, quando poderia parecer que “elas” já nem sabiam o chão que pisavam – temendo pelo decoro – fosse o par manageiro, feitor, filho de patrão, ganhão ou “ratinho” – a moça com uma exclamação “à altura” do convite que recebera, empurrando, com força, o par, pelos ambos, dizia libertando-se: - “Xó aí! – quero-me decéri!”

Voltava então ao lugar, junto das matronas guardiãs, deixando o parceiro, só, especado no meio do baile, (desenvergonhadices, não!”.

 

Lembrei-me disto, a propósito da dança em que anda “o par da coligação reinante”.

Ora um, ora o outro – perdido o pé do chão firme – quase se estrangulam com o abraço que os ata na volúpia do poder.

Nenhum tem, porém, a coragem das moças lá da aldeia para dar o safanão libertador, deixar o baile, e reassumir com dignidade uma posição de compostura – que nós, que presenciamos – merecemos por direito.

 

Maria José Rijo

 

O meu compadre

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.880 – 20 de Março de 1987

  

Enquanto nos levava para a escola, na carrinha que uma velha e pachorrenta mula puxava, o compadre Miguel contava histórias, ensinava coisas ou cantava.

Era sua estratégia para nos manter, a minha irmã e a mim, sentadas e quietas.

Ás vezes, com tempo bom, parava, prendia a “besta” na beira da “estrada nova” e fazia a sua provisão de vegetais.

Foi assim que aprendi a identificar as ervas comestíveis e outras destinadas a mezinhas.

Tengarrinhas, [Acelga]acelgas, funcho, cardo para coalhar o queijo, tornaram-se familiares. Ervas apreciadas por coelhos também ainda as distingo … pimpoilas” poucas!... que os faz “enchar”, recomendava.

A pimpinela, para os problemas intestinais, também era muito procurada para acautelar “andaços” de verão com excessos de frutas.

Abrótea Gamão ou Abrótea (Asphodelus sp.) por Valter Jacinto | Portugal.para as “empinges”, menta para a dor de dentes, rilha-boi para pincelar com azeite virgem nas queimaduras, macela para os “fastios” e fel-da-terra para as “fevres” faziam parte do rol. Aprendi onde nasce e cresce o “poejo”, a merugem” e o mantrasto” e os terrenos onde rebentam os orégãos, colhi agriões em riachos e aprendi como é perigosa a flor de cicuta por Coloraudia.cicuta e enganosa a dedaleira de onde se extrai (sei agora) a digitalina e me encantava com as suas flores cor de rosa em forma de dedais.

Enfim! Coisas de aldeia, onde a natureza nos cercava vibrante e imperiosa.

Por lá os caracóis, além de petisco, eram sustento.

              Dorminhoca da Quinta dos Ouriços

Por lá onde os ouriços guinchavam de agonia a morrer queimados vivos, nos lumes que brilhavam à porta das tabernas, nas ruas sem luz, enquanto os homens aguardando o pitéu, bebiam vinho e cuspiam para o chão entre galhofas e dichotes boçais.

Daí trago o horror à violência, à injustiça social e à brutalidade que via eclodir da ignorância.

Mas, eu falava do meu compadre Miguel que tinha uma navalha que brilhava mais do que a lâmpada de Aladino.

Era uma navalha que saía fechada do bolso, que abria com um estalido seco e, que, de seguida era afiada no couro das botas cambadas que ele arrastava nos pés.

                              B. Alentejo

Sempre. Sempre isto antes de cortar o pão e raspar o toucinho que depois lenta, muito lentamente, seriam cortadas em pequenos nacos e mastigados com delícia.

Ainda hoje penso que aquela navalha que sabia fazer “pipas”, moinhos de cana souça, vergastas e outras coisas mágicas… que cortava o “toicinho” e a “lenguriça”… afiada na bota suja e limpa da calça puída de cotim… dava a tudo um toque especial.

Depois das refeições voltava a navalha aos mistérios do bolso de onde também surgiam cordéis, pregos e outras maravilhas que tais.

Como sobremesa, bebia o compadre mais uma golada da garrafa de vinho que sempre o acompanhava dentro do alforge e lá íamos na carrinha rumo a casa, com a noite a avizinhar-se e o compadre a espantar o silêncio da estrada deserta cantando a “sua versão” do Hino Nacional:

 

“Nação valente e mortal”

“Entre as brumbas da mimória”

“O Pátria senta-se à voz”

“ dos teus engréjos avozes”

Etc… etc…

 

Maria José Rijo

 

Contra-luz no Alentejo

Conversas Soltas

Nº 2.328 – 8 de Dezembro de 1995

Jornal Linhas de Elvas

 

 alentejo-FLobo.jpg

Há dezenas de anos que tento contar esta história.

Porém, à última hora, não sei que sentimento inibidor me detém a intenção e não o tenho feito.

Hoje, porém, decidi-me.

É uma história de vida. De vidas tristes.

Onde perpassa a miséria e a frustração, mas, também plena da luz que irradia de sentimentos fortes como a bondade e a delicadeza de alma.

É uma história de verdade.

Foi-me contada em condições especiais.

Certa noite, numa cozinha grande, escura e inóspita, uma garota com as mãos cheias de frieiras, entrapava dolorosamente os dedos para lavar com menos sofrimento (se possível) tachos e panelas numa barrela de cinza e potassa.

Sem saber muito bem como afastar a garota do suplício sem criar atritos com os patrões da rapariga – ausentes na circunstância – a mulher inquiriu:

-- A Água está quente?

-- Muito quente! – Foi a resposta

-- Tenho as mãos geladas – insistiu a mulher – deixas-me lavar essa louça para as aquecer?

A rapariguita olhou a mulher bem nos olhos e sem dizer palavra afastou-se dos alguidares cedendo o posto à visita da casa e foi sentar-se observando a cena.

Então, volvidos alguns momentos com uma voz decidida, anunciou, sem aparente emoção:

-- Vou-lhe contar a estória de ti Ana das migas.

     

Manifestando, assim, secamente o seu propósito – começou:

-- A gente morava numa barraca lá no Olival

-- A gente criava gado.

-- O porco amanheceu com mal.

-- O mê padrasto disse à nha mãe pró trazer ó alveitar.

-- A nha mãe disse: - atão e o mocinho?

-- Que o mê irmanito andava com fevres.

-- Moços é o ca gente faz mais depressa – disse ele – e o porco custa denhêro.

-- A nha mãe veio para a cidade com o porco.

-- O mê padrasto foi précurar trabalho.

-- E cá fiquei a coidar do mê irmanito e do mê burro.

-- Desatou, atão, a chover. Pracia que o céu desabava desfeito em água.

-- Ospois vieram-nos os trovões.

      Chuva fina

-- O burro assustou-se, soltou-se a fugiu.

-- A gente teve medo de apanhar porrada por mor do burro e abalamos debaixo de água a ver se o agarrávamos

-- Fazia escuro, pracia noite e a gente já nâ sabia por dende haveramos de ir.

-- A gente perdemos e começamos a chorar alto e a bradar.

-- A ti Ana das migas óviu a gente e veio ver.

-- Dêtou o xaile por cima da gente e levou a gente prá barraca dela.

-- Mandou a gente assentar-se ao lume pra enxugar e disse assim:

-- Nã chorem qué faço umas miguinhas e uma penguinha de café e voceis aquecem.

-- Chamavam-lhe Ti Ana das Migas porque ela adorava migas.

-- Ela fritou os alhos, no lume de chão, fez o comeri e o caféi e deu à genti.

-- A mim deu-me os alhos fritos todos e, ê cá comi-os.

-- Amargavam!!

-- Então, se não gostas porque comeste - interferiu a mulher, com um ar quase de malícia e os olhos húmidos de terna compreensão e bondade a garota disse com sinceridade.

-- Ela deu-me o quela mais gostava!

Um silêncio incómodo pairou na lúgubre cozinha após o relato.

A loiça já estava lavada.

A chuva que provocara a visita – havia cessado.

     

A mulher aproveitou a “aberta” e esgueirou-se para a rua onde a calçada molhada luzia como espelhos quebrados em mil estilhaços, sob a luz das lâmpadas.

Sentia o rosto em chamas.

O coração batia-lhe descompassado.

Não sabia se havia de rir ou de chorar.

Qualquer sentimento lhe parecia legítimo.

Sabia que beirara fundo a beleza duma alma de criança com uma experiencia tão grande de sofrimento que se tornara sábia no entendimento das pessoas.

Tão sábia que respeitava o pudor da alma dos outros e da sua própria.

Andando à toa pela rua, a mulher percebeu que acima de tudo sentia medo.

Medo, vergonha, revolta, desespero e raiva por não saber onde encontrar as mãos que é preciso estender às crianças que choram perdidas, à luz dos relâmpagos, e ao som dos trovões, pelos caminhos enlameados pelas tempestades – que colhem – sem que as tenham semeado.

Narrou-se então esta história que, afinal, hoje, deliberadamente, contei.

 

Maria José Rijo

 

 

    

onde está a liberdade?

ALENTEJO - Revista Terra Mãe (em papel)

 

Obras Publicadas

n

... E vim cantar, Poemas, 1955

…Paisagem, 1956

…Rezas e Benzeduras- 2000

…Crónicas do Jornal

…“Linhas de Elvas”

Conversa Soltas –

 

 

 

 

 

 

 

Quadro “os Ciganos”, pintado por Maria José Rijo.

“Adorava ter sido Cigana… A sensação de liberdade…de deslumbramento e o Medo …”

 

Oiça Maria José Rijo na nossa edição on-line

em www.alentejo-terramae.pt.

 

 

TEXTOS DE

Emilia Freire

 

Revista nº 12

3º trimestre - de 2008

Julho - Agosto e Setembro

Entrevista - na revista Terra Mãe - 2008

 Apenas a entrevista

 

http://www.alentejo-terramae.pt/

 

 

Sons

http://www.alentejo-terramae.pt/index.php?lop=conteudo&op=ba2fd310dcaa8781a9a652a31baf3c68&id=cc384c68ad503482fb24e6d1e3b512ae

 

 

 

PERFIL

Nasceu em Moura em 1926. Para que as filhas pudessem estudar, a família alugou uma casa em Beja e Maria José e a irmã foram para lá com uma tia, para frequentarem o liceu.

Quando estava no 6ª ano, conhece José Rijo, começa a namorar e casa. Adoece e fica sem poder ter filhos. Escreve o primeiro livro de poemas:

“Foi uma forma bonita de chorar”. E o segundo ainda veio na mesma linha.

Depois, por acaso, como diz que aconteceu tudo o que lhe aconteceu, começou a fazer artesanato, pintura… escreveu contos para crianças (que nunca publicou) …coisas... como diz.

Andou um pouco por todo o País devido à profissão do marido que era gerente do Banco de Portugal: Elvas, Caldas da Rainha, Coimbra, Guarda, Tomar, Beja (estava lá quando foi o 25 de Abril), Angra do Heroísmo e de novo Elvas…

Começou a escrever a crónica semanal no Linhas de Elvas quase há 30 anos e nessa altura chamava-se “À Là Minute”, passando mais tarde para o título que ainda hoje mantém: “Conversas Soltas”.

Teve uma curta (três anos) passagem pela política local, já que foi vereadora da Cultura e Turismo na Câmara de Elvas: “Aceitei porque achei que podia fazer qualquer coisa, quando senti que já não podia e sabia fazer mais, vim-me embora”.

A mãe viveu até aos 103 anos, depois faleceu há três, deixando-a ainda mais só.

…..

 “Nunca me senti nem uma poetisa, nem uma escritora, nem uma pintora, sinto-me o que sou, uma mulher… com alguma sensibilidade, que gosta de viver, que gosta das coisas, que respeita a vida e que respeita tudo o que a vida tem…”

Maria José Rijo, 82 anos, mulher

texto de Emília Freire

………….

apenas... mulher

Poesia não é gramática,

Não requer explicação,

Poesia, é sonho da alma

Só a sente o coração!...

Olhar as aves nos céus,

E vê-las notas de música

Da magistral sinfonia,

Que foi composta por Deus!...

Achar que o oiro é palha

Que nada vale na vida,

E ver a palha como oiro,

Na campina ressequida…

…É coisa que não se ensina,

Se vive, sente somente!

…Poeta é como ser mágico

Dos sentimentos da gente!...

Ser poeta… como nascer,

É tanto obra de Deus,

Que quando algum deixa a terra,

Nasce uma estrela nos céus!

 

“Tenho pena é de não ter uma história muito interessante para contar…”, disse-me depois de, sei lá, uma hora de conversa… e passaram-se mais três ou quatro… se não havia história, porque terei eu ficado tanto tempo à conversa com aquela mulher?! Porque, de facto, não há história… tudo, contado por ela, é história.

Maria José Rijo é uma pessoa fascinante! Este texto reproduz apenas uma pequena parte dessa conversa de várias horas e, digo com sinceridade: ficava outras tantas.

É uma pessoa que estranha o mais recente interesse que por ela tem havido porque a humildade, daquela mesmo verdadeira, é tamanha que diz coisas como: “acho engraçado… para mim é uma descoberta nova… é ver que as pessoas ligam importância, prestam atenção a coisas que eu fiz…porque fiz, porque me foram tão naturais como respirar… e tão necessárias… só isso”. Uma pessoa que tem a casa cheia de quadros, bonecos de madeira, de conchas, de registos, tudo feito por si… para não falar dos três livros editados e dos contos não editados e das centenas de crónicas publicadas no Linhas de Elvas, mais os escritos que ficaram na gaveta...

Há pessoas que têm dons e Maria José Rijo é uma delas. O dom de fazer qualquer coisa especial a partir de qualquer coisa, ou de quase nada... “Depois comecei afazer artesanato, às vezes de quase nada… sugestões que uma concha oferece, uma concha partida… de qualquer coisa se parte para uma coisa diferente…”os seus ‘escritos’ começaram a ser mais conhecidos em todo o país e por pessoas mais jovens, principalmente no último ano, desde que a sua amiga ‘Paulinha’ fez o blogue onde todos os dias coloca um texto seu.

“A Paulinha ficou muito minha amiga desde que eu estive na câmara de Elvas, Porque trabalhou lá comigo e disse-me que queria fazer um blogue mas não queria pôr o nome dela, gostava de pôr Rijo… o nome do meu marido… disse-lhe então: se queres pôr o meu nome porque te sentes minha irmã, põe Travelho, o meu nome de solteira. E ela pôs: Paula Travelho”. E conta então como foi que lhe aconteceu isto de escrever livros, crónicas, fazer artesanato em madeira e conchas, pintar quadros… a tal história que diz não ter para contar… “estas coisas na minha vida têm acontecido todas por acidente… calha.”Depois de ter ido estudar para Beja, quando estava no 6º ano do liceu veio a Elvas a convite de uns tios às festas do Sr. Jesus da piedade, tinha 17 anos, nessa altura conheceu o marido, que era alferes… “e pronto! Começámos a namorar…”“e casei mesmo… casei porque escolhi casar-me… não escolhi não ter filhos e não escolhi ficar doente e isso tudo aconteceu… e as coisas deram completamente a volta. Esta perda de álibi foi o caminho para eu procurar, e descobrir outros rumos, e a minha primeira intuição foi o lamento… O lamento como? um verso. Porque desde criança que gostava de escrever, gostava de ler…” saiu então o primeiro livro.

E a seguir o segundo foi ainda dentro dessa linha…“foi assim uma espécie de despertar e, a partir daí, procurei outros rumos…aquilo foi uma maneira bonita de chorar…de me libertar…de coisas que me tinham acontecido e que eram inesperadas…”depois continuou sempre a escrever, sobretudo para a gaveta, disse-me. “E depois aconteceram assim coisas… acho que nada acontece por acaso… um dia passámos aí na rua e numa montra estava uma exposição de bonecos de

madeira e eu ia com a minha cunhada, que estava deliciada a olhar… 'olha eu até acho que era capaz de fazer'… ela achou

Aquilo tão esquisito e pareceu-lhe tão mal que arranjou um bocado de pau de bucho e um bom canivete e disse-me: 'já que eras tão capaz de fazer, então faz! ‘ E eu fiz!”

“Que engraçado, pensei assim, como se processa a admiração nas pessoas… a gente admira aquilo que não é capaz de fazer… o que nos ultrapassa”mais tarde, uma grande amiga chamou um pintor a casa para lhe fazer o retrato dos filhos e Maria José viu pintar pela primeira vez. “Fiquei louca… nunca tinha visto aquilo, pintar… deu-me uma sensação extraordinária e então, ali mesmo, fiz o retrato do pintor e ele depois levou-o…”a partir daí comecei a usar as coisas…eu costumo dizer: eu não pinto, eu gasto tintas… eu como saladas porque são bonitas, têm cor, eu gosto de flores, gosto de luz, gosto de vida… gosto dessas coisas… então vou atrás do amor pelas coisas e da emoção… porque saber, não sei… nunca aprendi…faço, apetece-me”. Com os mais de 20 contos que escreveu para o programa meia Hora de recreio da emissora nacional, da responsabilidade de Maria Madalena Patacho, também foi mais ou menos assim. Uma amiga disse-lhe: tens

Tanto jeito para contar histórias aos miúdos, porque não escreves e mandas? “e eu mandei e fui mandando e eles foram aceitando…”

“fujo para estas coisas, porque me são naturais… realmente alguma coisa há em mim que me puxa para isto, para escrever… e eu agradeço a deus porque não há nada que pague a alegria e a emoção que se tem em frente de um papel branco… “o livro rezas e benzeduras foi uma homenagem do Linhas de Elvas quando o jornal fez 50 anos… “sou mais velha lá do que o dono do jornal que é filho do fundador. Fiquei muito grata.”

Maria José Rijo quer dar todo o seu espólio para a casa que tem em Juromenha, na margem do Guadiana. “Gostava que Junta de freguesia ou a câmara do Alandroal fizessem uma espécie de casa museu, como a minha casa lá até é uma casa típica alentejana”.“Sempre fui uma pessoa simples, uma dona de casa gostando de livros, gostando de música, gostando de pintura… e enchia a minha vida disso e depois tinha um marido que era um companheirão!... Fico feliz por isto me ter acontecido a mim”.

 

 

em www.alentejo-terramae.pt.

 

Maria José Rijo. “Adorava ter sido Cigana… A sensação de liberdade…de deslumbramento e o Medo …”

 

n

... E vim cantar, Poemas, 1955

Paisagem, 1956

Conversa Soltas –

Rezas e Benzeduras,

Crónicas do Jornal

“Linhas de Elvas”,

2000

 

 

 

Oiça Maria José Rijo na nossa edição on-line

 

Quadro “os Ciganos”, pintado por

Obras Publicadas

 

QUATRO EXCLAMAÇÕES

À Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1804 – 20 de Setembro de 1985

São Mateus 1985

Quando um ventinho assobia e só servem os sentidos

para saber entanguidos, e engadanhados de frio,

os dedos entorpecidos de articulações doloridas,

e nas botas empedernidas – mais duras do que torrões –

em que a terra se tornou, e onde se avança aos baldões,

com todas as intempéries…

-- os pés são pesos de chumbo…

-- É o Inverno, com chuvas, vento,trovões,

e geadas de rachar…

-- Ao proteger o gado, afrontando o temporal…

-- “Ah, vida dum filha da mãe!

      Raio de tempo dum sacana!”

      Desabafa o maioral!...

            

Quando a seara desponta, e só servem os sentidos

para atentar se é bem nascida (o que é o pão da vida)

        

de quem na terra trabalha…

-- Quando é a perder de vista

verde, verde, o que se avista…

-- Se a azeitona deu bem, e os lagares ainda gemem…

-- E o Fevereiro não veio quente (com o diabo no ventre).

-- Se de tudo há novidade na sezão em que era esperada…

-- Vendo de longe a mulher que veio espreitar à porta

               

para ver chegar o marido, o aguarda no umbral

-- Sorrindo – orelha a orelha,

acena com gesto largo…

“Olha lá pr’a este enlevo!

  Disto não me lembro igual!

  Vai um ano dum sacana!...

Diz a esperança que canta nas falas do maioral.

 

Quando o calor zumbe aos ouvidos, e só servem os sentidos

para ter medo de os perder…

     

-- Quando o ar que se respira parece estar a arder,

e a garganta e os pulmões se engasgam com o suão…

e, coitado, o coração bate apressadamente, aflito

como um pobre pardalito, fechado na mão de alguém!

           O tempo no Alentejo ...

-- Sem dar perdão a ninguém, a canícula avassala!

-- “É dura a vida dos pobres!

      Ah! Calorina real

      Raio de tempo dum sacana”

-- Desabafa e limpa o suor, ofegante o maioral!

 

Quando toda a safra acaba, e só servem os sentidos

para almejar uns festejos,

convívios com gente amiga que só se vê de ano a ano…

-- E o que lembra é um copo, uma cerveja fresquinha,

cantar umas brejeirices, largar umas baboseiras,

galhofar de tudo e nada…

reinventar a mocidade

(onde aparece que coube tudo o que se soube)

-- E a feira de São Mateus

-- Festas, jogo e arraiais!

     e ao chegar à Piedade

-- Com o azeite da promessa – em prudência inteligente,

alinha os seus pensamentos,

(de joelhos – cheio de fiel ar beato - agradecido )

desfia o que a alma sente:

“Rezo pouco e cá p’ra mim!

  Oh, meu Deus – não é por mal!

-- É que a gente tem pendência p’ra…

     P’ra largar só asneiradas…”

Remedia ainda a tempo

bem contrito o maioral.

 

Maria José Rijo

 

Reivindico!

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.719 – 18 /Julho/03

Conversas Soltas

 

Mandaram-me, pessoas amigas, uma bela fotografia tirada no deserto de Moçâmedes, junto a um exemplar dessa maravilha, que merece a toda a gente, visita e registo fotográfico, e, que é, nem mais, nem menos, do que a celebérrima Welwitchia mirábilis.

      

Este nome de Welwitchia, advém-lhe do nome do botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872) que a classificou.

                

Trata-se de uma planta dos desertos quentes de África, em forma de volumoso cogumelo de cinquenta a setenta centímetros de altura que parece partida por um golpe de machado em dois pedaços, configurados por grandes folhas persistentes, podendo ultrapassar dois metros de comprimento.

 

As flores são em espiga, têm seis longos estames, anteras com três células e, o fruto é um cone escamoso, amarelo ou vermelho, de onde as escamas se separam isoladamente libertando as sementes – assim reza a botânica que consultei.

 

Ora, perante tanta celebridade, tanta fama, concedida a uma espécie vegetal só porque consegue viver na adversa secura de um deserto, não admira que me apeteça reivindicar igual ou maior fama, registo individualizado em botânicas e dicionários, glória e destaque para a nossa vulgar e saborosa MELANCIA.

       

       Quente como um deserto, é no Verão o nosso Alentejo.

Bafo de lume é o que parece que se respira na estiagem impiedosa.

 

Nessa estação, saem da terra esturricada pelo sol, ondas de calor que criam miragens aos olhos quase cegos por tanta luminosidade, de quem se afoitar a percorrer os campos silenciosos, onde ás vezes até as cigarras emudecem...

 

E, aí, nessas terras de sequeiro, nasce e se cria a melancia. Serpenteando rastejam seus ramos gavinhosos de grandes folhas verdes que o sol chamusca com a ajuda da aragem escaldante, que, como febre, contorce e resseca o viço de quanto se atreva a querer por lá medrar...

        

Pois aí, sem mais nem menos, com sua casca em tons de verde, escuro, claro, ou listada, na terra de aparência exausta e morta cresce, e engrossa a redonda, gorda e suculenta “citrullus vulgaris”, planta hortense de frutos comestíveis refrescantes e ricos em vitaminas A, B1, B2, e C.(como a retrata a botânica)

Não sei de onde ela extrai a água...

Mas, ela consegue esse milagre.

Depois, oferece-a transformada em sumo vermelho e doce que dessedenta, conforta e lambuza as bocas gulosas que a devoram na procura de consolo e de frescura que regala.

Reivindico, pois, fama e glória para essa milagrosa criação da generosa Natureza.

Afinal a sua origem é também a África...

E, como estamos num pais de permanentes contestações, exijo esta reparação.

Imediatamente!

Já!

Que ninguém mais visite o Alentejo, no Verão, sem levar orgulhosamente consigo, uma bela foto ao lado de uma monumental melancia!

 

           Maria José Rijo 

 

 

 

"Palavras - palavras - palavras "

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.346 – de 12 de Abril de 1996

Conversas Soltas

            alentejo1.jpg

        Chamava-se Fausta.

         Era pálida, loura, franzina.

         Não lhe recordo as feições.

         Se feia ou bonita, nem saberia agora dizer.

         Teria apenas, tão-somente a inocente beleza de ser criança.

         Nem parecia diferente das demais por estar descalça.

         Olhando por essa perspectiva, diferentes, seríamos as cinco ou seis garotas vestidas com conforto e calçadas, de entre as mais de trinta que frequentavam a escola lá da aldeia, onde ela e eu entramos pela primeira vez, naquele dia.

                  Gato no Alentejo

         Corriam os anos trinta.

         Mais de meio século já resistiu esta ponte de tempo que liga esse passado a este presente que ora vivo. É por ela que o vai - vem da memória me traz lembranças que, inesperadamente, se apresentam tão frescas que as fixo com o espanto de quem julga sonhar.

         Estamos na Páscoa.

         Um cântico da procissão que á luz das velas serpenteia subindo a avenida, perto de mim, traz-me ao espírito palavras já antigas no meu conhecimento.

        Escutadas desde a infância, repetidas saboreando-lhes a sonoridade mas, das quais só muito mais tarde se intuiu a profundidade do sentido que carregam.

         Paixão! Paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

         Paixão, é uma delas.

         E, umas palavras acordam outras que vão surgindo, trazendo recordações.

 

         Então, de repente, a Fausta apareceu-me tal e qual como naquele dia distante em que a conheci vestida de preto.

         Preto de luto.

         Preto já ruço, feio, esverdeado, pobre.

         Preto de mágoa.

         Preto de paixão – morrera-lhe o Pai. Mãe, também já não tinha.

        “A mocinha anda morta de paixão” – comentavam as comadres.

         Crianças que éramos, unidas pelo desamparo de ir pela primeira vez à escola, aproximou-nos.

         Foi de mãos dadas que entrámos na aula, nos sentámos juntas e ficamos companheiras.

         “Não queira ficar ai” – segredou a empregada “que essas moças ás vezes, têm piolhos!”

         Não me mexi. Fiquei.

         Os pés dela, espalmados, com a pele grossa e gretada, perturbavam-me, mas faziam parte da imagem pungente da menina.

Numa lamúria aciganada, as mulheres da aldeia apontavam-na a dedo: - Coitadinha!

         Mas, esse dó convencional, impudicamente exposto, não a vestia, não a alimentava, não lhe aquecia o coração.

         Apenas, talvez, mais a humilhasse ou ofendesse.

         Andar descalça, pedir de porta em porta, eram coisas comuns nas pequenas aldeias do Alentejo, naquela época.

         Não ter pai, não ter mãe eram circunstâncias referidas com frequência sobre outras crianças quando o paludismo campeava e outras pragas sociais que devastavam vidas à compita com a tuberculose que a miséria, a falta de higiene e de esclarecimentos tornavam comuns e já nem alarmavam...

         E, – coitadinha! – Dizia-se a muita gente. Quase a toda a gente – por tudo e por nada.

         Foi então que se rotulou a diferença.

         A Fausta era orfã.

         Orfã, significava ainda e também que mesmo que tudo tivesse, nada lhe viria, jamais, daquelas mãos que seguravam a sua enquanto diziam:

-    Anda! – Vem com o Pai ou, com a Mãe!

Os anos passam. A gente vai vivendo.

 Aprende coisas novas.

  Julga esquecer coisas velhas...

Experimenta novas emoções, novos medos, novas esperanças.

Zanga-se, alegra-se. Triunfa, ganha e perde.

         Chora, canta, ri. Sofre e é feliz.

         Deslumbra-se. Habitua-se. Deixa correr.

         Tudo o que foi novo se vai tornando natural, comum. Tão natural como o rio que corre, a nuvem que esvoaça no céu azul, cinzento, negro...

         Mas, um dia, algo muda e redescobre-se de quantos pequenos milagres se faz a maravilha dum quotidiano a que – às vezes – depreciativamente se chama de ronceiro.

Reminiscências do passado afloram ao espírito. Primeiro quase com timidez. Depois vivas e despertas .

São lembranças.

“Com três letrinhas apenas se escreve a palavra Mãe...”

Orfã – tem quatro só, e conta a falta dela.

E, para designar os Pais que perdem os filhos, os Avós que choram os netos – porque não haverá palavra?! – Ou palavras?!

Orfã , também deveria ser considerado um estado civil com direito a bilhete de identidade. Como solteiro, casado...

Como viúvo.

Palavras... Palavras... Palavras...

Ás vezes de mais – às vezes de menos...

Ás vezes para quê? – se todas nem chegariam.

 

Maria José Rijo

 

A Visita de Maio

Jornal O Despertador

Nº 233 – 28 de Maio de 2008

  

A Mulher, tinha nascido na aldeia de Santa Clara do Lorêto, a que toda a gente, não sei porquê, chamava de aldeia da Boa- Vista.

Pensando agora nisso fico surpreendida por, enquanto vivi em Beja, nunca me ter dado à curiosidade de investigar o porquê destas duas designações para a mesma localidade, estando ali tão perto…

Eu tinha feito o Liceu em Beja. Na minha vez de o frequentar já se chamava de Diogo de Gouveia

– pedagogo e teólogo que nascera em Beja em 1467 – (reza a história que foi ele quem fez vir para Portugal os Jesuitas, aí por 1540, e entre eles S. Francisco Xavier, que se havia de tornar o apóstolo do Oriente.)

 Dois anos antes de mim, minha irmã entrara, para o velho Liceu Fialho de Almeida, situado, então, na ampla e bela Praça da República, que pelo novo foi substituído quer no nome, quer na localização.

Fialho de Almeida

Fialho vivera em Cuba, a vila onde me casei, na casa que havia de vir a ser habitada pela minha família. É evidente que, criança que era, não me importou, na altura, a mudança do nome que mais tarde viria a deplorar, pois morar na casa que fora de Fialho dava um certo frisson e, fazia ainda mais desejar para ele todas as homenagens possíveis, principalmente depois de conhecer a sua obra e, pormenores da sua personalidade narrados a cada passo por pessoas que, com ele, ainda, haviam convivido.

A casa era antiga e bela, com um amplo quintal, cheio de violetas nascidas ao acaso pelo chão e, em tufos, rente ás paredes. Tinha uma acácia de copa majestosa, de flores brancas como a da casa de Camilo em Seide, por onde o meu gato se aventurava intrépido perseguindo, em vão, a passarada.

 Dela, também se poderia dizer comoRégio da sua própria: “Cheia dos maus e bons cheiros – Das casas que têm história, - Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória – De antigas gentes e traças, - Cheia de sol nas vidraças – E de escuro nos recantos, Cheia de medo e sossego, de silêncios e de espantos, _ Quis-lhe bem como se fora – Tão feita ao gosto de outrora – Como ao do meu aconchego.”

Era assim – também -  que eu a sentia e, em viver nela me deliciava.

Ora esta conversa encadeou-se, sem que disso, quase, me desse conta, porque a postura absolutamente vertical daquela – tal mulher -  a que dei trabalho e depois se tornaria uma grande amiga que ainda conservo, volta e meia, retorna à minha memória como me ficou registada no coração especialmente quando vejo gente, sem reagir, acomodada ao infortúnio.

E, isso aconteceu, quando regressei a esses locais onde havia passado infância e juventude para, então com meu marido, voltar a habitar em plena época do vinte e cinco de Abril.

A mulher que se postou na minha frente para contratar trabalho, era ainda nova. Trinta anos, talvez.

Deixara o campo, porque sofria do estômago e já não conseguia suportar a dureza dessa vida.

          

Todos os habitantes, da aldeia, como ela também, pagavam foro ao dono do povoado para lá terem suas casas, porque todo o chão lhe pertencia.

Era tudo gente nascida e criada nesses tempos de submissão e dependência dos grandes proprietários.

Pois mesmo assim, ou por virtude disso, ao outro dia quando se apresentou para trabalhar, olhou-me de frente, bem nos olhos e perguntou, numa voz segura e fria: - para onde é que a senhora manda o meu corpo?

 

É desta fibra a minha gente alentejana.

 Isaurinda Brissos esta é a tua gente

                    Maria José Rijo

 

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