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Resolvi falar de Amor

Segunda-feira, 28.05.12

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.987 – 21 de Abril de 1989

A La Minute

RESOLVI FALAR DE AMOR

 

Às vezes, quando para tal tenho oportunidade, folheio os desenhos que os jovens que vão passando pelo espaço que lhes está dedicado na Biblioteca, por lá vão deixando.

Um pouco antes da Páscoa deparei com uma composição a que não resisti, recolhi, e guardo comigo.

Há por lá outras, mais ou menos expressivas. Todas têm interesse. Todas são linguagem de alma de quem as produziu. Todas encobrem (descobrem) uma intenção, algo da vida interior dos seus autores – mágoa – fantasia – imaginação – alegria – desespero – solidão – sei lá…

Mas, aquele desenho especial que guardo comigo, tem uma figuração e uma legenda que fazem pensar.

Diz assim:

 - “é dia de Páscoa construamos a paz e a felicidade”.

 Tem ainda um cão (quase sorridente) que cumprimenta um gato:

 - “olá” e recebe do felino idêntica amabilidade: - “olá”. Tudo isto rematando com o seguinte conceito:

 “o cão não anda a correr atrás do gato, porque estão a construir a paz e a felicidade”.

Completam o trabalho, uma figura de homem, outra de mulher unidas pelo letreiro que seguram nas mãos e no qual se faz o convite à construção da Paz e da Felicidade com as palavras sublinhadas duas vezes. Ao alto da folha brilha um belo sol muito redondo e amarelo. Assina – Pedro Miguel com data 11/3/89.

 

Não conheço o rapazinho. Não sei se é gorducho ou magricela, loiro ou moreno, olhos vivos ou mortiços, nariz pintado de sardas, joelhos esfolados ou qualquer outro traço particular.

Não o conheço eu a ele, nem ele a mim, creio.

Fiquei no entanto a pensar na “palavra certa”, que com alguns erros de ortografia, que por lá deixou, com a sua letrinha irregular de criança como quem deixa flores caídas de um ramo.

Tenho desde então olhado com frequência este desenho, sentindo sempre que me cabia não o guardar só para mim.

Pensei utilizá-lo por várias formas. Tê-lo-ia transformado em cartão de boas-festas de Páscoa se tal me tivesse sido possível. Não calhou.

Não o esqueci entretanto e, hoje, sem premeditação ao reler Rilke sobre tema eterno – o Amor – parei a pensar no menino e no desenho. Relacionei amor com ideal, rumo de vida, sonho, estrela do Norte, anseio de mais alto. Relacionei tudo isto com a esperança de que é feita a alma das pessoas e pensei que devia falar dessa centelha de fé no amor que pulsa no coração dos jovens.

Então resolvi esquecer os amargos e os descrentes, os que já não acreditam nem em si, nem nos outros, os que já tão longe do tempo em que sonhavam pureza e foram inocentes que chamam pejorativamente poetas ou literatos aos que se apoiam na alma limpa das crianças que estão perto ainda da mão do seu Criador que são indesmentíveis na sua fé e na sua esperança.

Dei comigo a sorrir tranquila, em Paz e resolvi falar de Amor.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 01:00

Amores e Amor

Segunda-feira, 12.10.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.014 – 27 de Outubro de 1989

Amores e Amor

 

Por alguma razão a humanidade é formada por indivíduos. Quero dizer: um, mais um, mais um até à soma dos milhões de milhões, de milhões de seres, que mesmo que morressem todos juntos num só instante, teriam que morrer como também se nasce – a um, mais um, mais um, mais um, cada qual da sua morte.

        

Parece que, se não houvesse outras razões, esta, só por si, já seria bastante indicadora do valor que deverá ter na vida o íntimo, o privado, o secreto, a marca da sensibilidade que faz cada individuo diferente de outro individuo, e torna cada um responsável pelo seu comportamento próprio.

      

Penso, que os maiores erros dos nossos dias, provém da excessiva uniformização, da negligência das pessoas em se assumirem nas suas diferenças, nos seus gostos, nas suas ideias, em lugar de aparentarem uma igualização, uma normalização de comportamentos, que degrada a qualidade de ser.

            

“Decreta-se” que parece bem, é moderno, é símbolo de desinibição e… toca de fumar, beber, jogar, namorar como nas novelas aos beijos a este e a mais aquele, de fazer experiências sexuais com este e, mais aquela, utilizando o corpo como um objecto de que se fosse proprietário, destruindo a alma, inteligência, espírito, ou como se queira chamar-lhe.

         

Com arrogância, provocação, ou apenas falta de senso ou de educação – em nome dum estatuto de progresso e niveladora modernidade ou desembaraço europeu – recusa-se qualquer hierarquização e trata-se todo o mundo por vocês – como quem põe rótulos de preços de saldo em produtos mal acabados.

        

E a recusa de ceder ao fácil, ao vulgar, ao abandonar de valores, que forja a força de vontade, a dignidade, a honra, a deferência ou a veneração para com os mais idosos, são valores relegados para o esquecimento.

       

- E a ligação íntima e, secreta que une em exclusivo duas pessoas que podem sorrir ou tocar-se com uma cumplicidade de conhecimento e afecto de que mais ninguém compartilha e geram, no casamento, a devoção que obriga à lealdade no bem e no mal, à mutua e recíproca protecção que fundamentam os laços de família, caiem em desuso.

E entre tanta facilidade sucedem-se amores e outros amores porque afinal se desconhece o amor.

      

Há pouco tempo acompanhei no desgosto da viuvez um homem de avançada idade que chorava o fim do seu casamento de mais de 60 anos. Sofria com uma dignidade respeitável. Só quando viu partir para sempre a sua velha companheira, mais murmurou do que disse, duas frases simples: - “Santa da minha alma”.

Comoveu-me aquele “pranto” que envolvia no seu contido pudor, uma poética declaração de namorado antigo.

    

Nunca mais o esqueci, e agora, sempre que encontro “meninos” e “meninas” de suas mães, pelos cantos, numa gula irreflectida pela vida que devoram e os devora sem que a tentem saborear – fico a pensar se alguma ou algum deles, algum dia, por aqueles antepassados caminhos, colherá da vida uma plenitude a dois, que lhe faça brotar do coração o sentimento profundo de amor que lhe permita murmurar no fim – “ adeus, amor da minha vida – santa ou santo da minha alma…”

    

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:55

Um Grito de Amor

Terça-feira, 09.06.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.829 – 21 de Março de 1986

 Um Grito de Amor- Um grito de Amor por ti – Árvore!

apenas uma floresta

- Árvore da floresta imensa…

Floresta de terra firme

- Árvore de sombra confundida, copa entrelaçada noutras árvores,

- Árvores sem jardim

- Árvore sem quintal

- Árvore sem caminho

 

- Árvore na multidão das árvores

 

 

- Árvore ainda e sempre, mesmo que só se diga: floresta.

- Árvore que viva tempestades de medo, e só se escuta em coro no arvoredo.

 

- Árvore que chora sozinha e engrossa a voz dos corais,

Um grito de amor por ti

- Árvore desconhecida

- Árvore tábua – colher de pau – raspas…

               

- Árvore lenha, seca, verde, podre

- Árvore abatida

Fendida pelo raio – queimada viva

Incendiada – archote

 

 

Ferida, triturada pelos dentes do serrote

- Árvore escavacada – raiz ao sol

- Árvore sem “pedigree”

- Árvore toro amainada boiando ao sabor da corrente

- Árvore de qualquer sorte

- Árvore de qualquer porte

- Árvore de qualquer morte

 

O meu amor por ti…

O meu amor de crente

A minha fé de gente

A minha fé – na gente!

 

Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:54

Poema - Beijei a Vida na boca

Quinta-feira, 30.04.09

Gus – já que começou a ler – leia o resto.
Não se constranja! E, se achar que vale a pena leia alto para que o ouçam a nossa família e os nossos amigos.
.

MeninoAnjo
Beijei a Vida na boca
numa entrega de Amor
louca
como a força de nascer
da semente
que no negro ventre da terra
germina
quebrando a crosta do chão
na procura – que pressente –

do céu
que não lhe dá mão
nem á erva que desponta
nem à boca sequiosa
nem à beleza da rosa
nem à fonte, que o rio, sonha
nem aos vermes nas funduras
nem às aves nas alturas
nem aos loucos
que - o - procuram no Amor

O céu é sonho presente
a distâncias sem medida
sempre alto sempre à vista
mas sempre longe da gente.
.

petalas
Conto sempre com a sua tolerância –

 Beijinhos
tia Zé

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:33

Preciso de amar

Domingo, 08.02.09

 

Arrabida -- Julho de 1956

#####

 

No regresso do "Sobrinho pródigo"
um "poeminha" – ou, "pequena conversa",

que sei eu? –

a dividir por esta família do meu encanto
.
Preciso de amar
para sentir que vivo
Preciso de amar
para acreditar que vivo
Preciso de amar
para saber que vivo
se o Amor
não for o motivo
viver
só pode ser
estar cativo
da sentença de morrer.


Assim, confesso como preciso de vós...

beijinhos

Maria José

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publicado por Maria José Rijo às 00:06

Meditação

Domingo, 09.11.08

Hibisco 01.

Talvez este poeminha de 92

possa ter agora alguma

oportunidade

 

Como quem consuma

um amor

capaz de redimir

da solidão de ser

nos possui a morte

nesse abraço forte

onde tudo se esquece

porque é a Vida

que adormece

 

Maria José Rijo

1992

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:13

Do Amor

Domingo, 12.10.08

.

Era pequeno o menino!...

 

Na mão dum outro, na rua,

Viu um pobre passarinho!

 

Doeu-se o seu coração

Voltou p’ra casa à sucapa

Foi quebrar o mealheiro

E  deu todo o seu dinheiro

Por uma ave implume

Que não sabia voar

E não lhe quiseram dar…

 

Era pequeno o menino!...

 

Pé ante pé, qual ladrão,

Andou de casa p’rá rua,

Sabendo que o castigavam

Porque faltava à lição!

 

Era pequeno o menino!...

 

Chegou à escola tarde,

Não recreou nesse dia,

Viu zangar-se o professor,

E o menino chorou!...

-- Mas calou-se, não contou

Que sofria por amor,

Que só lhe doía a dor

De não ter asas, não ter ninho

Para dar ao passarinho!

 

Era pequeno o menino!...

 

Tinha asas, não as via

Porque elas não serviam,

P’ra voar, ao passarinho!

 

Era pequeno o menino!...

Porque morrem os meninos?...

 

… E morrem sempre os meninos!

 

Maria José Rijo

2 – Julho – 1956

.

Livro paisagem

II Livro de Poemas

Poema nº 22

Pág .- 99

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:06

POEMA DE SAUDADE

Quinta-feira, 14.02.08

Fátima

14 de Setembro de 1997

Dia da exaltação da cruz

(seriam Bodas de Ouro)

.

.

Tive do Amor

              a fome e o fogo

Tive da vida

              a glória e a dor

Deu-me Deus por ti

              a ternura – a compreensão

              a prudência e o saber

              de somar dia por dia

              o gosto do viver

… E, daquele momento

              a saudade em brasa – o tormento

              o vazio da tua ausência

              enchendo a nossa casa

E… esta mágoa – onde tudo cabe

        até a alegria

        de ter para recordar a força

        e a fragilidade do Amor

 

       Assim – com luto e luz

       Exalto a minha Cruz

 

 

                   Maria José Rijo     

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publicado por Maria José Rijo às 16:48

A Carta

Domingo, 06.01.08

        

    

      Por muito engraçado me passaram para as mãos um documento significativo de uma pobreza de espírito flagrante que pretende ser uma carta dirigida por uma mulher alentejana, a um filho seu, algures, na Bósnia.

            Segue a transcrição:

          

            “Mê crido filho

           

Escrevo-te algumas linhas p´ra saberis questou viva. Estou-te a escrever devagari  pois ê sei que nã sabes ler depressa

           Nã vais reconhecer a nossa casa quando voltares, pois nós mudámo-nos.

            Temos uma maquina de lavar rõpa mas nã trabalha muito bêin; a semana passada

pus lá 14 camisas, puxe a correti e nunca mais as vi!

Acerca do tê pai, ele arranjou um emprego, tem 1500 homens debaixo dele pois está cortando relva no cemitério.

A magana da tua irmã Maria teve bebei esta semana, mas sabes, é nã consegui saberi sé menino ó menina, portanto nã sei se és tio ou tia.

O té tio Patricio afogou-se a semana passada num depósito de vinho lá na adega cuprativa. Alguns compadris tentaram salva-lo, mas sabis, ele lutou bravamente contra elis, porra! O corpo foi cremado mas levou 3 dias para apagar o incendio.

Na Quinta feira fui ao médico e o té pai foi comigo. O médico pos-me um tubona boca e disse-me p´ra nã falari durante 10 minutos. Atão nã sabis que o té pai ofereceu-si p´ra comprar o tubo ao médico?

Esta semana só chuveu duas vezes, na primera vez chuveu  durante 3dias, na 2ª durante 4.

Na Segunda feira teve tanto vento, que uma das galinhas pos o mesmo ovo 4 vezes!

Recebemos uma carta do cangalhêro que dizia que se o ultimo pagamento do enterro da tua avó nã for fêto no prazo de 7 dias, devolvem-na.

Olha mê filho........ cuida-ti !

 

Nã te esqueças de beber o lêti todas as nôtes, antes de enterrares os cornos na frônha.

 

Um bêjo

 

Joaquina Chaparra.

 

P.S. Era p´ra te mandari 5 contos, mas já tinha fechado o envelopi, nã tos mandei. Fica p´ra próxima, porra! “

--

            Pasmo com a falta de imaginação que permite a meia dúzia de Xicos espertos rir sem se darem conta que da sua própria ignorância, (e de mais alguma coisa...) se estão a rir.

            Penso que é preciso desconhecer por completo o Alentejo e as suas gentes para enfiar um chorrilho de estúpidas asneiras e pretender que do léxico alentejano se trata.

            Explico: o Alentejano (e escrevo a palavra com maiúscula) não diz – pois nós mudamo-nos – diria. - A gente mudou-se...etc. etc, etc,...

            Não é, porém, por aí que quero ir...

            É que, penso, que já era tempo, de nos preocuparmos um pouquinho mais que fosse, em compreender os outros e tentar aprender a rir do que é realmente engraçado e, não de ridículas anedotas saídas da tacanhez de alguns pobres de espírito que não sendo capazes de apreender o pitoresco dum dialecto ou duma situação se atrevem, (ultrapassando os limites do respeito que devem aos sentimentos do próximo), a meter o nariz onde não são chamados.

            Nem todos podem ser, ou ter, o talento – de um Raúl Solnado - para fazer rir falando duma guerra, com o pudor de não ferir o coração de ninguém.

            Fique-se cada qual nos seus limites. E pense que para se rir dum assunto como este; quem o escolheu, teria que inventar a carta como escrita pela sua própria mãe, e dirigida para si próprio! Porque, nesse caso, era opção, só sua, rir ou não rir...

            E, deixem em paz as Mães Alentejanas, tão iguais no Amor e cuidados a todas as Mães e que – ainda que analfabetas, por vezes – não deixam de dar a Vida dos seus filhos para todas as Bósnias deste mundo, enquanto muitos “destes engraçados heróis” pagam para fugir aos seus deveres.

                         

                                                     Maria José Rijo

@@@@@

Revista – Norte Alentejo

Nº 6 – Novembro/Dezembro - 2000

Crónica

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:28

O DIVINO NETO – Á Laia de conto de Natal

Terça-feira, 11.12.07

Tristes ou alegres, doces ou amargos – aqui está a época certa em que “elas” chegam e se instalam sem pedir licença ocupando tudo.

“Elas” estão mesmo presas a tudo – rendemo-nos e deixamo-las fazer de nós “gato-sapato” – que sendo Natal a festa da família, tem forçosamente que ser a festa da saudade e, o reino “delas”das recordações…

 Pois que floresçam!

 

-- No quarto da minha Avó havia um oratório, tinha muitos quadrinhos e lembranças (chaves de urnas, madeixinhas de cabelos baços) e alguns santos. No centro, ao fundo, “O senhor” – pregado na cruz – à frente, um belo menino Jesus, sobre uma peanha e, a seus pés um pequeno presépio (um ex-voto aí, do século XVII, não havia dúvidas)!

Num dos lados uma bonita imagem de Nossa Senhora do Rosário e, do outro, antiquíssima também, outra escultura: - Santo António com o menino Jesus pequenino, nu, sentado sobre o missal, tendo na outra mão o rosário. Enfiada nesse braço, ainda a “coroinha”.

 

Este era o mundo das orações, das preces, da angústia e dos devotos agradecimentos.

Era o altar das reverências.

-- “Vai-te benzer ao oratório! – que são horas de deitar”

-- “Vai pedir a Jesus! – Vai agradecer a Jesus”.

-- “Vai rezar aos santinhos”

--“És capaz de repetir isso ao pé de Jesus?”

-- “Vai acender a luz do oratório! – que isto – que aquilo! … “

--“Alumia Santa Barbara, que vem aí a trovoada!...”

-- “Muda as flores aos santinhos…”

Era assim o ano inteiro.

 

Ah! – Mas no Natal!

No Natal o menino Jesus mudava de roupa. Saia do seu fato de cetim cor de azeite, das suas chinelas bordadas, a cordão com pérolas miúdas, da sua roupinha de Bretanha enfeitada de rendas e fitinhas. Antes de vestir a túnica branca bordada a ouro (pelas mãos habilidosíssimas de uma de minhas tias) que exibira entre os dias de Natal e de Reis, minha Avó despia-“O”, deitava-“O” sobre uma pequena toalha de linho com franjas, que num canto,

a vermelho, tinha a marca “M.J.” (Menino Jesus) bordada em ponto de cruz miúdo – ponto de marca – assim se dizia – já tinha água morna (provada com as costas da mão) na bacia enorme do “lavatório grande” – onde diariamente mergulhava e ensaboava as suas duas netas – e estava interdito a mais, quem quer que fosse – e seguia com carinho o mesmo ritual da cerimónia das abluções. Depois de “O” lavar, voltando a envolve-l”O” na toalhinha bendita, aconchegava-“O” ao peito como se faz às crianças e, dizendo palavrinhas de amor e conforto: - “coitadinho”! – “Está muito frio!” – “Eu visto-“O” já” – “pronto!” – “pronto!”—dava-lhe palmadinhas nas costas e, a seguir compunha-“O “ para ficar durante as “festas” culminando o monte de pedras com musgos, areia e laguinhos de espelhos onde se exibiam – rodeando o Presépio – figuras de barro e celulóide de tamanhos tão distintos , como distintas foram as gerações de que provinham e as acumularam.

Talvez, na tímida e infantil adoração, com que há meio século, minha irmã e eu, olhávamos o “Novo Menino Jesus” – houvesse a ingénua convicção de que “Ele” era também neto da nossa Avó.

 

Ainda hoje, afogada na saudade desse tempo, dou comigo a sorrir, pensando que é a “Ele” agora, que a nossa Avó, lá no céu, aconchega as roupas da cama, falando-lhe de nós com o humaníssimo amor que usava a falar-nos d’Ele.

 

Natal de 1984

 

                             Maria José Rijo

@@@@@

À La Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.765 – 21 de Dezembro de 1984

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:30





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LIVROS PUBLICADOS:

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