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Olhar e entender

Domingo, 16.09.12

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.997 – 30 de Junho de 1989

A La Minute

OLHAR E ENTENDER

 

Desconheço se é possível inventariar o número de dados que a mente humana armazena ao longo da vida.

Uma coisa, porém, na memória, me deslumbra: é o espectro caleidoscópico que se desenvolve por vezes, em torno de um simples olhar de acaso, que, acordando lembranças, traz de volta vozes, cores e imagens perdidas do saber consciente.

Vi numa freguesia, um beiral de uma escola apinhado de ninhos de andorinhas.

Olhava-os, escutando as queixas do que sujam e mais não sei quantos “catastróficos” males que causam.

Olhava-os, e louvava os homens por ainda haver edifícios públicos que possam suportar “tantas famílias de alados inquilinos” sem dinheiro para comprar paredes de suporte para as suas frágeis habitações.

Olhava-os, e louvava a Deus, por esses homens, e pela Sua infinita sabedoria em guardar as asas para as oferecer às negras andorinhas que deixam menos mancha na roupa do que a intolerância dos homens nas almas.

Olhava-os, e pensava que tudo na vida tem o seu avesso e até as rosas coroam troncos com espinhos.

Olhava-os, e via-me criança de escola, assistindo em cada dia à “cerimónia”, várias vezes repetida, de limpeza dos parapeitos das janelas da nossa casa.

Olhava-os e parecia-me escutar a minha Avó entrar no quarto de manhã cedinho, abrir a vidraça e dizer com alegria:

Toca a levantar!

Ainda a dormir, que vergonha!

Escutem as andorinhas o que já fizeram, e, fingindo interpretar os seus chilreios cantarolava:

“Fui à missa, vim da missa, lavei a casa e estou aqui… quiri-qui-qui…”.

Olhava-as e lembrava os belos olhos azuis de meu Pai, repassados de terna intenção, ensinando um poema que repetia de cor:

“Sabeis o que é um ninho,

Esse ditoso lar

Onde a ventura mora em

Noites de luar

Onde a brisa suspira e canta a

Cotovia… etc… etc…”

E que rematava assim:

“Não? – não sabeis? – Pois bem!

Juntai toda a ventura do vosso lar ditoso,

Os beijos, a ternura de uma extremosa Mãe,

Os cuidados de um Pai,

Um doce olhar de Avó,

Vaidoso no carinho,

E ficareis sabendo a que se

Chama um ninho.”

 

Não sei quem é o autor do poema. Não me recordo, mas hei-de investigar – porém, lembro-me, lembro-me perfeitamente, que aprendi ainda na escola a entender o que é um ninho.

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 16:05

A partida das andorinhas

Quinta-feira, 08.11.07

“Uma velha tinha um gato, debaixo da cama o tinha. O gato miava, o pinto piava e a velha dizia: mil raivas vos persigam – que não vos posso aturar!”

Não! - Não é a velha história!

Esta é diferente.

Eu tinha um gato. - Até aqui coincide. No resto é completamente distinta esta narrativa.

O meu gato chamava-se Picolino e era filho da gata Bambina.

Ambos eram de boa estirpe. Casta apurada.

Eram persas, mas exprimiam-se no idioma universal dos felinos. Miavam.

Noutras ocasiões, davam marradinhas nas nossas pernas, pulavam-nos para o regaço e, mesmo sem miar a gente entendia o que eles queriam fazer entender.

Não é que as pessoas falem língua de gato ou de cão.

Não, não é isso.

A verdade é que quando as pessoas assim o pretendem, todas são capazes mesmo sem palavras, de falar e entender a linguagem do amor.

Mesmo que seja do afecto por um animal de companhia.

Ora, naquele dia em que as andorinhas irrequietas esvoaçavam, treinando o voo da partida, fugindo ao frio, rumo à rota das temperaturas amenas, tendo eu as janelas abertas de par em par, para não perder aquela bela mensagem do Outono a instalar-se entre nós, percebi que o meu gato estava impaciente porque queria cuidar de si e, eu, andando de um lado para o outro não lhe dava paz.

Ajeitei uma pequena poltrona no vão da janela, acomodei-me nela com gosto, agarrei nas meias que tinha para cerzir e, por ali me quedei, gozando a bela tarde daquele dia, agora já bem distante.

Ainda se cerziam meias! - Veja-se! a que distância no tempo isto aconteceu...

Então o meu gato que gostava de seguir os meus passos como uma sombra silenciosa sentou-se no chão, bem na minha frente, e começou a lamber as patas e a esfrega-las pelo focinho, lavando as orelhas e penteando os bigodes com a delicadeza e a suavidade que caracterizam os movimentos de um gato bem disposto, que se presa!

Eu olhava-o apreciando como são elegantes as atitudes dos gatos. Como são meigos e mansos quando descuidados e confiantes e pensava como são ardilosos, falsos e agressivos, se por qualquer razão se tornam desconfiados.

Então toda aquela doçura se esvai, arqueiam o lombo para parecerem mais volumosos, eriçam o pêlo, silvam como serpentes, acendem chamas nos olhos e, as tais patitas almofadadas de pelúcia e cetim desembainham como lancetas afiadas, as suas unhas retracteis capazes de cegar, ou ferir, qualquer incauto.

Ora acontece que enquanto eu assim pensava, olhando-o, o meu gato se apercebeu, talvez por algum chilreio de tom mais elevado do esvoaçar das andorinhas tão ansiosas que pareciam recear esquecer-se de realizar alguma tarefa importante.

Penso que elas andavam num difícil trabalho de contagem, dificultado pela irrequietude das componentes do bando. Por certo, seria isso.

Então, de repente levantaram voo dos fios dos telefones onde se passavam estes ensaios que referi, e, a pouco e pouco foram desaparecendo do meu horizonte.

Mas o curioso da história é que foi através dos olhos do meu gato que eu presenciei a partida das andorinhas.

Quando ele se apercebeu daquele burburinho e vaivém, ficou extasiado, imóvel olhando...Nos seus grandes olhos verdes, a sombra daquelas asas em movimento reflectia-se como num espelho. Tremiam-lhe os bigodes, pela força da cobiça. Emitia uns sons velados como gemidos ou suspiros, e, quando o rectângulo de céu que a janela lhe mostrava ficou apenas enfeitado com umas leves nuvens brancas, começou a miar para que eu o seguisse, o que fiz. Levou-me até junto do prato onde sempre comia.

 Olhou-o, virou-se e começou a raspar como os gatos fazem, quando querem tapar alguma porcaria.

Em seguida, com um jeito de resmungão, ostensivo, foi deitar-se na sua almofada para mostrar claramente que os petiscos dos seus sonhos - tinham asas...

 

 

                                                        Maria José Rijo

@@@@

Revista Norte Alentejo

Novembro 2001 – nº 15                          

Crónica

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:28

Reminiscências- Andorinhas e Olaias

Sexta-feira, 27.04.07

 

            Um dos encantos particulares das Avós doutros tempos era a arte de contar histórias.

            Estávamos ainda bem longe destes tempos em que distrair crianças significa comprar coisas.

            A linguagem das Avós centrava-se no convite: - vem-me fazer companhia, conversamos, conto-te uma história...

            Agora é : - vem que te pago um gelado, ou, vamos ao “super”, ou ao “macro” fazer compras...

            Às vezes na linguagem antiga também entravam outros aliciantes, como por exemplo: - ajudas-me a fazer um bolinho, lanchamos,... Ou: - levo-te à novena, ao mês de Maria, posso-te ensinar a costurar, podemos ver gravuras lindas nos livros, postais antigos, podemos jogar qualquer coisa que te apeteça, etc. etc. etc...

            Era então nesse convívio confiado, amigo e protector que se escutavam episódios vividos por familiares e amigos ilustres ou muito amados, se recontavam velhos contos e lendas transmitidas de geração em geração, se enraizavam laços de afecto contra os quais, nem o tempo se atrevia a atentar.

Quando as andorinhas chegavam, já em qualquer família, as crianças andavam havia dias e dias a espreitar o seu aparecimento. Mal o Natal passava começava-se a dizer: - reparem -  os dias já estão a crescer. Já se sabe, no Natal crescem a passada dum pardal, Janeiro em fora crescem uma hora, e quem bem contar, hora e meia há-de encontrar. Qualquer dia chegam as andorinhas para anunciar a Primavera.

Então, um belo dia, ao abrir as janelas ouvia-se o seu inconfundível chilreio e lá estavam elas enfileiradas nos fios dos telefones como notas musicais em pautas gigantes, e era evidente que ainda que o frio subsistisse e a chuva marcasse presença mais ou menos constante, qualquer coisa de indefinido se insinuava no ar e um certo cheirinho a Primavera, uma suave sugestão de fresco e de flores enfeitiçava a atmosfera enquanto que, uma vaga penugem verdinha recobria a terra nos longes do horizonte como nos ensinavam a observar.

Não restavam dúvidas: - O Inverno despedia-se.

A Primavera avizinhava-se.

Era então que minha Avó a quem cabia o “privilégio” de acordar e arranjar as netas para irem à escola, abrindo de par em par a janela do quarto onde os ninhos se conservavam de ano para ano, dizia numa voz feliz: - Vocês ainda a dormir! - que vergonha !  - vá! - toca a levantar! - escutem as andorinhas o que já fizeram! - e, imitando o seu canto ia repetindo : - fui à missa, vim da missa, lavei a casa e estou aqui, quiri, qui , quiiii...

Vamos lá! Não sejam preguiçosas, façam como as andorinhas...

Outro sinal anunciador da aproximação da Primavera, para nós, era o florir de algumas árvores. Principalmente as olaias.

Costuma-se dizer que as violetas e as mimosas florescem no Carnaval porque Fevereiro é o seu mês por excelência, porém, até na literatura se alia o florir das olaias ao anuncio da Primavera.

Recordo-me que em Rebeca, o celebre romance de Daphne du Maurier se faz essa referência.

Também essa lembrança é uma reminiscência, embora de outras épocas consequentes. Como é, também, a história dos lilases que não resisto a contar. Alias todas as histórias antigas eram como botões de flor. Começavam aparentemente insignificantes, como se não tivessem nada que oferecer e acabavam abrindo-se à nossa compreensão como as flores se abrem ao nossos olhos e encanto...

Ora, pois:- foram prevenidas as plantas que deviam preparar-se para a festa das  rosas que seria no mês de Maio. Todas se recolheram no seu silêncio de mistério a preparar as cores e formatos que pretendiam exibir. Elaboraram seus perfumes, seus matizes e esperaram a sua hora, com recato e paciência que a festa era para todas.

O lilás não!

Alvoroçado, apreçado, vaidoso da sua beleza, não olhou a datas nem a recomendações. Mal se sentiu perfumado explodiu florindo num alarde de formosura indescritível.

Chamava as abelhas, espargia essências, embriagava os sentidos de quem o admirava. Sentia-se triunfante.

Foi então que reparou que tendo cada coisa seu tempo, nada sendo eterno, a sua oportunidade se esgotara e, ele teria que partir sem assistir à festa das rosas!

Fora apressado. Não soubera esperar.

Florira, é certo! - mas não iria à festa...

Chegara e partira sozinho...

                                                  Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.602 – 13/Abril /01

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:28





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