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Achega para uma nova toponímia

Sexta-feira, 20.11.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1733 – 4 de Maio de 1984

Achega para uma nova toponímia

     

Muitas vezes me perguntei se seria necessário, para que as árvores vivessem, tratá-las de forma tão cruel como acontece todos os anos com as “nossas árvores de cada dia” as árvores que ornamentam, as ruas e avenidas da nossa cidade.

          

Um dia fiz esta pergunta a um agrónomo, que sabia estar a dirigir cursos sobre limpeza e poda de arvoredo. Fiquei assim a saber que não, NÃO é necessário tão “zeloso” exagero.

Logicamente a minha perplexidade renova-se em cada ano e a minha angustia, também, quando vejo cortarem até quase matar, árvores que deveriam querer-se frondosas para amenizar um clima como o nosso onde o Verão é sufocante.

       

Vi, outro dia, com enlevo, com que inteligência, foram limpos os plátanos que em Badajoz, na praça frente ao Simago, convidam, com a sua sobra murmurante, naturais e forasteiros, para saboroso descanso, enquanto as crianças espalham alegria com brincadeiras e correrias.

Vi! Vi e percebi como poderia e deveria ser por cá se tivéssemos igual critério de bom censo.

        

A não ser que queiramos ter que chamar à bela estradinha que vai da frente do Morgadinho até à Piedade e desta, até à avenida António Sardinha – “Estrada dos Vasculhos” ou “Avenida dos Espanadores” – isto não se entende!

            

Ou teremos que admitir que como “vanguardistas empenhados” nos programas criar uma “zona modelo” de calamidade onde se possa aprender como em pouco tempo – sem respeito por um bem que é de todos – se desfeiam a matam por amputação sem critério, vidas vegetais, que levaram anos e anos a crescer e a formar-se.

     

Como as aves do céu, as árvores vivem apenas do que o céu lhes dá, e oferecem o conforto da sua sombra e abrigo até a quem nada faz para o merecer.

Sabe bem meditar as vezes…

 

Nós não “somos” por parecer

Nem parecemos o que somos

“somos” só o que fizermos

Que só por actos ficamos

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:53

Não lavemos as mãos

Quarta-feira, 14.10.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.759 – 9 de Novembro de 1984

 Não lavemos as mãos

 

Tenho andado a querer falar duma árvore que vicejava aqui na Av. da Piedade, antes das Festas do São Mateus.

Quando saia, pelas noites de verão, em procura do fresco, olhava-a e, cá por dentro “torcia” por ela:

       

--Aí, sua valente! Cresça. Não se mostre aos vândalos! Veja se escapa mais um aninho ou dois e talvez já aguente algumas inscrições a canivete sem morrer, como aconteceu a algumas das suas companheiras já de mais idade. Estas e outras coisas diziam-lhe os meus olhos contentes por a ver, frágil, mais viva, nesta nossa terra, onde o uso de partir e estropiar árvores já vai tomando ares de feição – quer dizer: - deformação aceite!

  

A policia anda a multar viaturas mal estacionadas (no que faz muito bem) e, como isso origina um apertado circuito de ronda, porque os carros mal arrumados estão sempre nos mesmos conhecidos lugares – as árvores são plantadas e arrancadas também nos mesmos conhecidos lugares em velocidades paralelas, pelo que os autores das proezas nunca se cruzam ou encontram com a aludida actividade policial.

Eis aqui, explicado, porque ao segundo dia de feira, alguém impunemente, terá feito um bordão com o tronquinho tenro e vivo duma pequena árvore que queria crescer enfeitada de folhas e pássaros em cada primavera.

         Pouso para pose

Escusada violência! Escusada brutalidade!

Nesta terra que é nossa, situada num país que é nosso também, todos temos um quinhão de responsabilidade em tudo quanto acontece.

Quem nos governa são as pessoas que contaram para si e maior número de votos que nós lhe demos.

          

Tenhamos disso consciência e a coragem de o reconhecer.

Tenhamos o bom senso de reconsiderar no pouco, muito ou nada, que colaboramos para o bem comum, e, façamo-lo pelo menos antes de … lavar as mãos… fingindo que não contribuímos em nada para a sorte que nos cabe e de que nos lamentamos…

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:04

Na mesma tecla…

Sábado, 15.08.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1882 – 3 Abril de 1987

 Na mesma tecla…

Fala-se de poluição, de defesa do ambiente. Fala-se!

Difundem-se opiniões. Fazem-se colóquios, seminários, congressos.

        

Agita-se a opinião publica através de jornais, rádio, televisão e sei lá que mais!

Parece que depois de tudo isto haveria um mínimo de normas a estabelecer, a cumprir e a fazer cumprir.

Parece! … mas não!

            

Porque depois, sem regras diferentes, ou novas directrizes, entregam-se às mesmas pessoas, os meios para que desgracem e reduzam a espantalhos as árvores… quando já em plena Primavera ousavam a ventura de reverdecer, prometendo aos homens que as agridem a sombra amenizante… benesse almejada… para quem calcularia os caminhos no nosso tórrido Verão.

    

Decepadas… tragicamente sinistras… aí estão circundando a cidade como visões de pesadelo… as velhas árvores que tentaram ser frondosas e generosas de sombra e beleza. Ai estão, talvez, vivas ainda, por mais algum tempo, ou… talvez a morrer de pé… como tantas outras que quiseram florir e foram mortas noutras Primaveras já passadas. Aí estão, escuras como silhuetas de fantasmas acusadores da nossa insensatez…

    

Para que então mais congressos, seminários e palestras, publicações coloridas, ilustrações e filmes se depois de tudo isso, ou apesar disso, se mete o serrote, a podoa, a escada, na mão não especializada, e para cúmulo… depois de passada a época própria… se deixa atentar contra a vida de tão doces e indefesas vítimas?

       

Limpar uma árvore é como que afaga-la e protege-la, não é certamente provocar-lhe a morte.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:20

Um Grito de Amor

Terça-feira, 09.06.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.829 – 21 de Março de 1986

 Um Grito de Amor- Um grito de Amor por ti – Árvore!

apenas uma floresta

- Árvore da floresta imensa…

Floresta de terra firme

- Árvore de sombra confundida, copa entrelaçada noutras árvores,

- Árvores sem jardim

- Árvore sem quintal

- Árvore sem caminho

 

- Árvore na multidão das árvores

 

 

- Árvore ainda e sempre, mesmo que só se diga: floresta.

- Árvore que viva tempestades de medo, e só se escuta em coro no arvoredo.

 

- Árvore que chora sozinha e engrossa a voz dos corais,

Um grito de amor por ti

- Árvore desconhecida

- Árvore tábua – colher de pau – raspas…

               

- Árvore lenha, seca, verde, podre

- Árvore abatida

Fendida pelo raio – queimada viva

Incendiada – archote

 

 

Ferida, triturada pelos dentes do serrote

- Árvore escavacada – raiz ao sol

- Árvore sem “pedigree”

- Árvore toro amainada boiando ao sabor da corrente

- Árvore de qualquer sorte

- Árvore de qualquer porte

- Árvore de qualquer morte

 

O meu amor por ti…

O meu amor de crente

A minha fé de gente

A minha fé – na gente!

 

Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:54

A pedido de Gus

Domingo, 19.10.08

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:25

Encarecidamente

Quarta-feira, 17.09.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.724 – 29 – Agosto - 2003

Conversas Soltas

 O único acesso que resta, ainda com alguma arborização, para fazer a pé visitas ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, é um velho troço de estrada, onde as olaias aí pelos fins de Fevereiro, começos de Março, cantam hosanas em flor.

Fatalmente as recordações, as lembranças de como era e como é, impõem-se como presenças vivas a quem a percorre.

Desde a memória daquela velha e querida Amiga, Senhora Dona Maria José Ferreira que me contava que seu pai, sendo Irmão da Confraria, fizera parte da Mesa que mandara construir, (como rezam as lápides), aqueles 810 metros de estrada, entre os anos de 1860 e 1863, aquele caminho, – ao longo, já de muitas gerações, – tenho a certeza, tem assento no coração de todos os elvenses, com fundas raízes de afecto.

Como é óbvio, eu, não sou a excepção!

Assim que, já por mais do que uma vez, tenho reparado no envelhecimento das árvores que fazem alas sabe Deus, se desde essa “tal” data, à passagem dos devotos, ou simplesmente, de quem gostando de caminhar, aproveite da beleza e da paz, que por aqueles lados ainda se pode usufruir.

E, recentemente, dei comigo pensado, e dizendo em voz alta para quem me dava companhia: - é urgente pedir encarecidamente a quem de direito, que cuide de repovoar com árvores novas, tapando as falhas – pelo menos – esta estradinha ensombrada e bela que faz parte do imaginário de todos nós.

E, porque, como diz o poeta: “não há machado que corte a raiz ao pensamento” que é capaz de encadear, lembranças soltas e perdidas da nossa consciência, a palavra “encarecidamente” levou-me para um Alentejo rural, hoje inexistente, talvez, a não ser na memória de pessoas de idade, como eu.

Então, achei curioso, recordar aqui, outras palavras e expressões que fixei ao entrar para a escola, quando tinha seis, sete anos, e tomei contacto com uma realidade tão diferente do meio em que eu vivia, que, talvez por isso, não mais as esqueci.

Que mais não seja como curiosidade lexical, parece-me certo, dar nota de vocábulos arcaicos, que o homem do campo, naquele tempo, ainda usava no seu dia a dia.

Termos medievais, alguns dos quais se podem encontrar em escritores dessa época, por exemplo.

Pranta-te quedo! - Era a advertência para mandar aquietar alguém.

Não coles por aí! – Não passes por aí.

Ter avondo! – Ter suficiente.

Estar empalagosa! – Estar adoentada.

Estar doente era sofrer de moléstias.

Morrinha ou morraça era chuva miúda.

Esquilas, eram guisos.

Rir, era galhofar, ser curiosa ou bisbilhoteira, era ser calhandreira e penisca.

Brincar, era retoiçar;

Para além destes, e outros termos arcaicos, usavam expressões de uma beleza tão simples que mais pareciam pinturas feitas de palavras.

Para referir o anoitecer, toda a gente dizia – ao acender das candeias.

            À estrela d’alva  ou ao romper da aurora, se dizia - amanhecer.

Não saber como mostrar gratidão pela satisfação dum desejo que nos tornava felizes era:

        Não ter boca avondo que encareça!

E, com esta frase, bela e genuinamente alentejana, termino este apontamento, onde, a quem de direito, encarecidamente peço mais árvores, para a velha e poética estradinha por onde se pode passear devagarinho, a caminho do altar da nossa terra – O Senhor Jesus da Piedade.

 

 

     Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:49

Poema - Arrojo

Quinta-feira, 20.03.08

 

Se fores seguro da tua verdade

Mesmo a percorrer caminho errado,

Não pecarás…

Digo-te eu!...

 

-- Só é pecador o que por medo ou traição

Anda a percorrer rotas várias

Sem convicção!

 

-- O raciocínio é fraco?

 

-- Por ser humano é falível?

 

-- Não te importes!

 

Se foi Deus quem me criou,

Ele aceitará o fruto

Da inteligência com que me dotou!

 

Maria José Rijo

8 de Janeiro de 1954

 

I Livro de poemas

Poema - nº 7

Pag 45

Desenhos da Autora

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publicado por Maria José Rijo às 19:33

E digo porquê!

Quinta-feira, 21.02.08

            Vi nos noticiários, a indignação da população de Cascais porque a pretexto de obras se estão a sacrificar árvores de porte majestoso – plátanos - com mais de quarenta anos, neste referido caso.

Lembrei-me então da notícia bem documentada fotograficamente no “ “Público” sobre o mesmo assunto e, também, da reacção da população de Coimbra porque se atentava com o mesmo fundamento - obras - contra árvores da cidade.

Mesmo sem determinação consciente, ocorreu-me o lamentável abate das olaias do jardim de Elvas; decisão que considerei e considero cruel e atentatória do nosso património, e, digo porquê.

Historiemos:

Havia um bosque de olaias.

Para esse espaço, sem bulir nas árvores, poderia ter-se criado um projecto de melhoramento. Penso, até, que existia um, que serviu de base à tese de fim de curso de uma senhora educadora de infância.

Não se quis saber, não se soube, ou não se pensou em estudar soluções.

 Um belo dia, deu-se largas ao serrote, e foi o que foi.

Entre frases pouco corteses, que melhor retratam quem as profere, do que beliscam quem quer que as escute... Foi explicado que ali iria nascer um parque de merendas...

Para tanto, em vez do repovoamento – sem abate – com a mesma espécie (olaias) plantaram-se árvores que: “ iriam crescer rapidamente“ para abreviar a realização do projecto enunciado.

As árvores não foram avisadas, (a linguagem delas é outra) cresceram no seu ritmo próprio, e, coitadas, foram também arrancadas para dar lugar a um espaço pelado, árido, que nada tem que ver com “um renovado espaço verde”, como canta a propaganda da nova imagem do jardim.

(Se, se quer um parque de merendas está lá o local,- por tratar e aproveitar - bem sombreado, com sanitários por perto - o defunto mini-golfe - que aliás, nunca teve adeptos. Vem de outros tempos, eu sei, mas isso não obriga, quem quer que seja, a chamar útil ao inútil...A seu lado, jaz outro projecto gorado - um tanque sem dimensões para sonhar com barcos...)

Não restam dúvidas a ninguém que o abate do pequeno bosque foi uma decisão avulsa, fora de qualquer ordenamento estudado e, portanto desnecessária e injusta , além de ter sido um atentado contra o ambiente.

Quere isto significar que estou contra a remodelação do jardim? - nem por sombras. Estou, sim, contra a areia nos olhos...

Mas, vamos por partes:

Um jardim é uma realidade. Um parque de diversões, outra, bem diferente.

O nosso jardim – como tal – foi amputado de um largo espaço dos seus verdes em favor duma zona de desportos radicais, que, sendo útil, nunca deveria estar situada onde a implantaram. Certamente, não fora o que foi e o local escolhido teria sido outro mais apropriado, que acrescentasse grandeza ao jardim, como acontece com o anfiteatro.

À entrada de um jardim querem-se flores, muitas flores, e árvores, muitas, árvores. Árvores vetustas, apontando o céu às árvores jovens...

Haverá alguém que não sinta que isto é verdade!

Haverá alguém que não veja que aquela zona de desportos radicais, justamente ali, esconde mal a ausência do velho bosque que ao longo de dezenas de anos perfumou e embelezou e coloriu aquele recinto?

Jean Guitton, escreveu:

A árvore liga o mais baixo ao mais alto. Pelas suas raízes, ela suga o solo, e pelas suas folhas, bebe o sol. A árvore mergulha nas trevas, expira na luz”.

E Rilke dizia

 das árvores despidas deixando ver a sua estrutura, que os seus ramos desfolhados são “raizes bebendo os céus”.

Quem ama a natureza, entende a voz dos poetas, que por sua vez escutam a voz das árvores...

Mas, continuando:

Haverá alguém que não sinta que, certo, era ter sido escolhido outro espaço para zona de desportos?

No resto, aparte pequenos pormenores menos elegantes - para meu gosto pessoal -como seja o atafulhamento de engenhos no lago da entrada. Pequeno para tanta exibição, o debrum de cimento contornando os canteiros material hirto, que freia a sensação de natureza em liberdade que sempre se pede aos jardins – todo o mais está equilibrado, limpo e bonito. Muito principalmente o parque infantil, que pela graça de Deus e sensibilidade de quem o desenhou não se viu rodeado de redes e privado de bancos de apoio para os avós, acompanhantes de netos, como coube em má sorte à “jaula” ou “galinheiro” da Praceta das Descobrimentos, renascido tão contra-natura que até destrói todo o equilíbrio estético dos veios diagonais, em tijoleira, do traçado inicial...

Outra coisa de louvar é o acesso sem entraves ao parque infantil.

Concluindo: a cidade ganhou, embora perdendo, porque todos verificamos que: sempre se podem implantar parques de diversão em jardins enriquecendo-os, ao invés de os empobrecer, com o corte impiedoso, de uma só que seja das suas árvores.

                              Maria José Rijo.

                                   

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 6/Julho/01 – Nº 2.614

Conversas Soltas

 

 

                              

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publicado por Maria José Rijo às 23:20

Falas tristes de Outono para a Carmita

Sábado, 12.01.08

            Estes fins de Verão...

            Estes primeiros indícios de Outono...

            Estes verdes das folhagens resistindo já timidamente à efusão dos amarelos que a estação impõe...

            Estes ares lavados pelas chuvas violentas e breves...

            Esta humidade latente que da terra emana...

            Esta luz doce, clara e limpa. Linda e triste como um adeus sem retorno...

            Tudo somado chama a velha lembrança do recomeço das aulas. O reencontro aconchegante com roupas mais grossinhas e confortáveis...

            Evoca as tardinhas mansas que as castanhas assadas perfumavam estalando nos fogareiros crepitantes das vendedeiras alapardadas em barraquinhas pelas esquinas das ruas onde o vai-vem da estudantada era mais do que certo...

            Denunciava-as o cheiro e um fumozinho azul, ondeando sob a batuta do abanico que lá ía espevitando o lume.

            O cartucho de papel pardo, o passar de mão em mão com gritinhos de prazer – que – do assador, quentinhas e boas, saiam escaldando como brasas.

            Estes fins de Verão.

            Estes fins de Verão são como fins de sonhos.

            Despojam-se as árvores. Recolhe-se toda a sua força e vitalidade aos labores misteriosos das raízes.

            Começa a apetecer o lume, a sopa quente, o canto da casa, o serão tranquilo, o nosso canto.

            Mesmo sem o desejar, qualquer de nós evoca, pensa, sofre, sonha.

            Como as árvores – interioriza – e sente-se perturbado com o vigor das recordações que teimosamente permanecem vivas e nos alimentam como o ar que se respira.

            Como a seiva das árvores as vai alimentando em secretos silêncios.

            Toda a madrugada a chuva bateu nas vidraças e foi molhando o asfalto até espelhar o casario e as luzes da rua.

            Perturba os sonos leves e faz música de fundo para a insónia de quem recorda e resiste a sucumbir à saudade e ao sofrimento que sempre se guarda no segredo da alma.

            Mas, a chuva cessa. A manhã nasce. Como que um espreguiçar de vontade nos sacode, arrepia e acorda em cada dia como as árvores hão-de acordar em cada Primavera.

            E, como se nos segredasse ao ouvido uma voz que a memória fixou para sempre apreende-se a mensagem que herdamos como despedida: Não esqueças.

- A vida continua!

           - Vai em frente!

            Afinal, assim terá que ser até que Deus queira.

           Os foguetes enchem os ares. Fazem nuvens pequeninas que o vento afasta.

            Nuvenzinhas de brincar.

            As bandas ao sol tocam o hino que comove a cidade que o sabe de cor e o repete e reza.

            A procissão passa.

            São filas imensas. Cada um vale por um passado, marca o seu presente e carrega anseios de futuro, de esperança.

            A noite destaca as luzes do arraial, que os Pendões já recolheram e a festa soberana marca o compasso da vida da Cidade – da tua Cidade – a nossa Cidade.

            “Guarda a tua dor e faze dela um poema” – disse Goethe.

 

                                    Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.369 – 27 / Set./ 1996

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 00:18

Requiem por uma bela árvore

Segunda-feira, 17.12.07

            O barulho dos dentes da serra acordou-me. Eram mais ou menos oito horas da manhã. Acordar cedo num dia bonito é reconfortante. Mas acordar ao som da serra mecânica que esfrangalha a árvore mais pujante que embeleza a nossa rua é uma dor de alma.

            E é, também, o acordar para uma realidade impensável nos nossos tempos em que tanto se apregoa a defesa do ambiente e da natureza.

            Como é possível que o comodismo de cada qual triunfe sobre o bem-estar duma comunidade e o respeito que se deve à vida nem que ela seja apenas a de uma árvore que cresce e floresce para bem de todos! – Interrogo-me!

            Então lembrei-me de uma casa onde morei, na cidade de Tomar.

            A porta da rua ficava numa praceta chamada de: Olivença. Era singela, sem enfeites, calcetada à portuguesa e, como único embelezamento dispunha de uma árvore, tão esguia e alta que a sua ramaria me batia nas vidraças do primeiro andar e aventurava-se casa a dentro mal eu abria a janela.

            Meu Pai havia morrido, e, essa mágoa apertava o meu coração.

           Acabava de deixar uma cidade, a Guarda, onde criara bons amigos e onde tinha gostado de viver. Sofria daquele desconforto de quem de repente, se vê desenraizado e privado para sempre de pessoas queridas. Pois foi com todas estas emoções tumultuando o meu espírito que entrei na minha nova habitação. Aquela bela casa que tinha para me oferecer uma copa de árvore roçando as minhas vidraças, marcando a sua presença, não me deixando mais sentir tão só, nem tão triste.

            Ela era um veículo de ligação privilegiado da natureza entre mim e o meio. Ela era um presente de Deus para aliviar a minha solidão. Era o meu aceno de esperança para os céus. Pelo menos foi assim que a entendi, e aceitei com alegria o meu encargo de limpar as folhas que soltava para dentro da minha sala de jantar. Nela pousava, nidificava e se acoitava a passarada para dormir. E eram tantas as horas que eu passava imóvel encostada à ombreira da janela compartilhando aquela generosa vizinhança, que, a certa altura algumas  das aves já nem fugiam de mim, tão acostumadas estavam à minha presença.

            Vi um parzinho, delas construir o ninho. Vi chocar pacientemente os pequenos ovos de casca salpicadinha, vi nascer moles e feios três pequenos seres de bicos famintos debruados de amarelo vivo. Quase podia dizer que lhes vi nascer as penas uma. Vi-os ensaiar os primeiros voos. Faziam parte da minha alegria.

            Era uma presente que eu agradecia aos céus em cada dia.

            Por esse tempo, havia uns meninos, o Zé Manuel e o Tó Luis, que pela mão de sua mãe frequentavam muito a nossa casa. Com eles dividia aquela minha “riqueza” e quando mum dia de temporal, o vento e a chuva tudo fustigaram, abri a janela, indiferente ao desconforto e recolhi dois dos passaritos que com a ajuda do Tó Luis enxuguei, secando-lhe as penas. Depois do temporal acalmar, o menino, palpitante de emoção, devolveu-os à liberdade.

            Não se trata aqui de alguém ser pior, nem melhor do que outrem. Todos somos diferentes. Apenas, diferentes. Como tal, também são diferentes os nossos valores!

            Evoco estes factos quase como quem conta uma história para crianças, porque ás vezes, endurecemos a nossa sensibilidade no turbilhão dos nossos afazeres e preocupações, e esquecemos o valor divino das pequenas coisas que passam à nossa beira! E, em nome do pó, do brilho das vidraças e outras coisas de somenos importância, perdemos muitos momentos felizes que o dia a dia nos dá de presente se para eles abrirmos o coração.

            Adeus jovem e bela árvore.

            Dia a dia deitarei em redor do teu tronco mutilado, ainda erecto, como uma cruz de martírio, uma pouca de água.

            Faço-o como quem reza um requiem pela privação da tua sombra, pelo encanto perdido, da tua vida, tão cruel e inutilmente sacrificada.

 

                        Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.664 – 28/Junho/02

 Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:58





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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