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Rezas e Benzeduras – XVI

Segunda-feira, 12.11.07

“A Relíquia”

 (( Desenhos de Manuel Jesus))

              Os pequenos da família tinham crescido sem que contabilizássemos o tempo

              Cada ano, nas datas próprias, faziam-se as festas de aniversários, compravam-se as prendas, juntavam-se tios e primos, apareciam, sem convite, os amigos íntimos, esperávamos o Avô que chegava, como que por acaso e, como sempre, presidia à reunião, calado, mas via-se muito bem que – feliz.

              Saudosas suspirávamos: parece mentira!

              Já 18...

              Já 19...

              Já 20...

Parece que foi ontem...e continuávamos a falar dos garotos, dos pequenos...

             Um belo dia, porém, acordamos para a realidade.

              Os seus nomes começaram a constar dos editais dos mancebos que deviam ir à inspecção.

              Os” garotos “iam à tropa.

              Iam viver essa experiência.

A seguir à comoção, à estranheza... o quê?!! Os garotos!... Àquele calor estranho que conforta e assusta simultaneamente, enchendo corpo e alma quando se repara, se olha e vê, que os garotos fazem a barba, mudaram de voz, fazem noitadas... a seguir, logo a seguir, veio aquela dor aguda como uma punhalada.

               E, se os garotos, vão para o Ultramar?..

               E....

               E....

Afinal, a guerra lá de longe batia-nos à porta

               E bateu.

               E entrou

               E comeu connosco à mesa.

               Dormiu connosco, nas nossas camas, como uma chaga viva nos nossos corações. Levou-nos a alegria. Deixou-nos o medo do que poderia acontecer e a esperança de que nada acontecesse.

               Fizeram-se recomendações atrás de recomendações.

               Fingiram-se orgulhos, valentias.

               Exacerbaram-se patriotismos, inventou-se coragem para dar e para viver , num fazer e desfazer de quem anda à roda, em círculos, convencido de que está a avançar no caminho.

               Então, cada qual, descobriu que isto e mais aquilo, poderia servir de talismã.

               Quando em grupo, com uma falsa serenidade, dizíamos depreciativamente – crendices, superstições...

               Depois à sucapa, cada qual com um certo ar displicente, passava de mão a mão a sua lembrancinha.

                Trago esta medalha ao pescoço desde o dia do meu baptizado. Deu-ma minha Madrinha. Leva-a! Vai-te dar sorte.

               Guarda contigo este livrito. É a ”Imitação de Cristo” Tenho-o sempre cabeceira. Verás que nele encontras resposta para todas as tuas dúvidas.

                Os dias passaram.

                A data do embarque aproximava-se...

                Então, naquele dia, o Avô que a tudo assistira em silêncio com os olhos a brilhar, usando uma brusquidão que não enganava ninguém, mas que lhe parecia disfarçar a sua vontade de chorar disse:

                Toma! - Leva contigo.

                Era um saquinho de brocado vermelho, puído, quase roto, cosido e recosido à mão com pontos miudinhos, esmerados. Fechado como uma almofadinha. Com cinco centímetros no máximo de dimensão.

                O que é isto? - Foi a pergunta.

                Tem dentro os Credos escritos em cruz, uma relíquia do Santo Lenho e uns fios do manto de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Costurou-o tua Avó, que Deus tem, e coseu-mo no forro da farda quando fui para a França na guerra de 14.

                Agora é para ti!

                Como uma criança apanhada em falta o Avô tinha o rosto vermelho e um ar confuso.

                Mas eu nunca vi isso! - Exclamou a filha absolutamente surpreendida.

                Mudei-o sempre de bolso para bolso, até do pijama, confessou.

                Todos guardamos segredos acrescentou. Não há ninguém sem mistérios!

                Devolvo-lho quando voltar disse o rapaz abraçando-o.

                Cá te espero – respondeu o Avô, afastando-se apressado.

     

                E, assim se despediram...

 

                                                              Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.450 – 24-Abril-1998

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Rezas e Benzeduras XV

Sábado, 10.11.07

“Uma boa achega”

 

            Uma ilustre elvense destas que a profissão ou a vida situou lá longe – e vivem não sei como! Pois que têm o coração por aqui. - Enviou-me uma preciosa achega para esta série de ”rezas e benzeduras”.

            Trata-se, como também, com Maria Isabel de Mendonça Soares, de outra ilustre escritora, refiro-me a: Maria do Céu Cavalheiro Ponce Dentinho.

            Logicamente que nunca me atreveria a trocar uma vírgula sequer da bela história que me foi oferecida -. a mim e aos meus leitores - aliás, cada oração que na infância se decorou traz com ela ao ser recordada todo o peso das circunstâncias que com ela se viveram e às vezes até a voz de quem connosco ou  para nós a rezou .

            Céu Dentinho, lembra assim:

            “Havia na casa uma tradição, só de mulheres, a realizar uma vez por ano mas com pompa e circunstância...

 

.           No dia 25 de Março, da Anunciação, era costume de as senhoras da Família se reunirem em casa da mais velha, ao tempo dos meus poucos anos era a avó Maria do Carmo, para cumprir uma devoção. No seu lindo quarto de vestir estava o oratório, cheio de imagens, fitas, dourados e velas e em frente nos ajoelhávamos. A luz vinha de um pátio com clarabóia. Era uma oração que era uma poesia, em que a gente se persignava cem vezes e rezava cem Avé-Marias, alternadamente e a cada uma se levantava e ajoelhava, portanto cem vezes...

Como  se fossem dois terços. E em cada mistério vinha a oração que era assim:   

                             (( desenhos de Manuel Jesus))                                                

Ergue-te, alma minha,

com Deus e a Virgem Maria,

Lembra-te que morrerás,

Não morrerás mas viverás.

      

No vale de Josafá

O inimigo encontrarás,

Da parte de Deus lhe dirás

Arreda de mim Satanás

Que em mim parte não terás...

 

Porque no mundo aonde andei

Cem vezes me ajoelhei

Cem vezes me persignei

Cem vezes disse Amen.

No dia em que a Virgem

Encarnou o Verbo Divino, Amen.

 

            A Avó dirigia. Começava – todas respondíamos. E era também a Avó que ralhava – porque havia sempre quem tivesse vontade de rir ou se enganasse no ritual – novos risos. Depois, havia interrupções – felizmente! De uma vez veio alguém avisar que os bolos estavam fintos, de outra passou uma procissão e lá fomos todos para a janela. E havia sempre chá e enchovalhada para completar a tarde.

 

            Assim rezávamos aquela poesia que era uma oração, as 100 Avé-Marias tradicionais. Essa, a tradição, é que já não tinha anos para serem contados. Parou quando a Avó partiu para o outro lado da vida. Mais uma conta do rosário dos perdidos.”

           

            Enquanto alguém recorda as coisas que estando longe no tempo se conservam na lembrança continuamos a poder dizer que permanecem vivas nos nossos corações... 

 

 

 

                                             Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas                                                                                                                   

Nº 2.448 – 10-Abril – 1998

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Rezas e Benzeduras XIV

Quarta-feira, 07.11.07

A Loja do senhor Camacho

                                (( Desenhos de Manuel Jesus))

           A loja fazia esquina com a estrada nova (assim era designada a estrada nacional) e uma ruela mal calcetada como, alias, eram todas as ruas das aldeias do Baixo Alentejo há 50 anos.

        Havia na aldeia uma certa profusão de “vendas”, mas, loja, loja, digna desse nome só mesmo aquela o que conferia ao seu proprietário e família um estatuto de pessoas importantes.

        Não que tivesse montra ou qualquer sinal de beleza; apenas uma tabuleta esmaltada com o símbolo dos C.T.T, assinalava funções diferentes. Nas ”vendas” para além de algumas bugigangas o que mais se procurava era vinho, enquanto que na loja havia meadas de linhas para dobar e fazer meias, riscados, cotins, serrubecas, pano cru, chitas, flanelas, estamenha, xailes, lenços, – que, crepe da China e popelines, só por encomenda. Como sinal de civilização vendia jornais, – o Século, e o Notícias mas, apenas dois ou três exemplares (que ler era um luxo) e selos de correio, mas também, feijão, grão, e muitas outras coisas mais... cordas, ratoeiras, armadilhas para pássaros, chocalhos para o gado, etc. etc. etc...

        Até na forma de vestir o senhor Camacho era diferente.

        Jamais alguém se poderia gabar de o ver por detrás do balcão da sua loja sem estar de casaco, colete, gravata e camisa de colarinho engomado.

        Às vezes usava guarda - pó, mas, mesmo esse “bibe” de riscado cinzento listadinho de preto lhe conferia um ar de dignidade que ia a matar com o seu rosto sério, o seu bigode muito bem aparado e a sua barba muito escanhoada. O senhor Camacho era um dos grandes da aldeia; como era o ferrador (investido também na dignidade de regedor) e o dono da moagem. A estes distinguia-os o facto de não serem analfabetos porque os outros homens importantes eram os lavradores e, a esses, como aos fidalgos no exército, nada mais lhe era requerido. Do que ser rico ou ser fidalgo.      

Nos dias de receber a jorna ou, quando acabavam as “adiafas” o movimento da loja crescia de forma inopinada, não tinha nada que ver com a ronceirice do dia a dia. Então, a dona Aninhas, sua recatada esposa, abria a porta de ligação entre a casa e a loja dirigia um cumprimento a todos em geral, instalava-se à secretária, pegava no livro dos assentos e ia dando baixa nas listas do: - ” aponte aí, tenha lá paciência, qu’ê cá levo fiado mas, pago assim quê possa!”que enchiam o livro comprido e estreito, de capa preta, que guardava o registo da penúria daquela pobre gente que, tal como as searas, dependiam do tempo a favor para crescer, também dependiam do tempo para trabalhar e ter que comer.

            Dona Aninhas era mouca, e tal como o marido, sem ser velha, também não se diria que fosse jovem, tinha um tom de voz velado, um arzinho nostálgico de funda tristeza (sofria de enxaquecas, males, que o povo não entendia, nem podia entender, já que tinha boa mesa o ano inteiro e criada ao seu serviço que, aliás viera junto com o bragal de casa de seus pais); assim que todas as conversas com ela começavam invariavelmente pela delicada informação das melhoras da senhora que curvando-se um pouco para o interessado amavelmente lhe estendia a corneta acústica para receber a resposta. As comunicações não passavam mesmo disso, já que com aquela minúscula

Campânula de gramofone de permeio o constrangimento entre credor e devedor sofria mais esse atrito.

            Dona Aninhas dizia: - uma quarta de toucinho, dois côvados de cotim, uma onça de linha roxa, tantos arrateis de açúcar...etc. etc. etc...

            A freguesa conferia as parcelas enumeradas pelo monte de papelinhos que trazia fechados na mão, então, molhado o aparo no tinteiro de tinta vermelha, com uma cruz por cima do apontamento se amortalhava o débito.

            Algumas vezes, porém, o rame, rame, desta contabilidade era cortado; bastava começarem-se a ouvir ao longe as guiseiras do macho da carrinha do correio. Então como formigas num formigueiro esventrado, atabalhoadamente, quase em atropelo a loja enchia-se de gente espectante de curiosidade.

            Aberta a mala da correspondência começava a distribuição.

        Numa voz clara o senhor Camacho lia os nomes. Mãos ávidas recebiam cartas e

 postais. E, afastavam-se quase tão rapidamente como tinham surgido. Discretamente, pelos cantos, iam apenas ficando aqueles que não sabendo ler e não tendo em casa quem lho fizesse dependiam de dona Aninhas ou do senhor Camacho para a decifração das mensagens.

            Para Mariquinhas, a filha do casal, era essa a hora mágica do deslumbramento! - e  quando seu pai começava aquelas leituras, apertava ainda mais ao peito a sua boneca francesa com cara de porcelana, e ficava imóvel como que petrificada com os olhitos estrábicos emoldurados pelos enormes óculos  redondos fixando a cena sem pestanejar ... 

                                       “ Mana Zefa

             A tal mulheri que tinha o livro de S. Supriano já nã mora no monte do olivali.

             Contou-me a nora dela, a Ludres, você alembra-se? era aquela qu’era falada com o managero; qu’o patrão assim que esconfiou qu’ela fazia aquelas bruxices e détava as cartas e esputava alfinetes nos sapos p’ra fazer mal ás criaturas, pos‘i-a no olho da rua.                                                                              

              A modos que se voceia queri chegari ás falas com ela, peça à Marianita do correio qu’a traga na carrinha qu’ela agora ‘stá morando p’rós lados da Mina na casa do neto aquele que le chamam o Chico Torto.

              Se voceia quer tirar as provas já sabe. Mas ouvi dezer que comeri um ovo de cigonha frito bubido com vinho forvido com funcho faz desenmaginar da bubida e p´ra mais reze-le a reza que le mando por mor de le sair o diabo do corpo e do esprito-cruzes ,cruzes, cruzes !... De resto faça-le a cruz de sali pro baxo do cólchão e vai a ver qu ‘ele s’emenda, dexa as buboderas e dexa de le dar porrada. A gente est’ano tem uma bela lera de pupinos e uma grande novidade de molões.

          Se voceia vieri leva p’ra si e p’rós mocinhos.

          Atão já sabi. O pessoal daqui manda-le visitas         

          Sua ermã

                         Donzelica

           

            Atão a reza é assim : Oração para afastar o diabo - Olhe, foi a Custoidinha do Posto da ‘scola qu’a tirou p’ra ela do livro de S. Supriano e agora deu-ma a mim p’ra ê l’a dari a si .É boa criatura sempre dá uma mão òs pobres”

                                               Eu me entrego a Jesus

                                              e à Santíssima Cruz,

                                               ao Santíssimo Sacramento,

 

ás três relíquias que tem dentro,

ás três missas de Natal,

                                               que me não aconteça nenhum mal.

                                               Maria Santíssima seja sempre

 

                                               comigo, o anjo da minha guarda

                                               me guarde e me livre

                                               das astucias de Satanás.

                                              

                                               Pai Nosso

                                               Ave Maria

 

                                          

 

                                                                       Maria José Rijo                  

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.446 – 27-Março-1998

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publicado por Maria José Rijo às 21:41

Rezas e benzeduras XIII

Domingo, 04.11.07

   

“As linhas torcidas”

 

         A senhora Isauraa Ti Isarua – como era conhecida no monte e nas redondezas era especialista em benzeduras.

            Viera numa leva de ceifeiros na força dum Verão ainda mais inclemente do que era habitual. Chegou com o bando dos “ratinhos” e foi ficando...ficando..., agora por isto, logo por aquilo, que ela era pau para toda a obra, e, às tantas, a bem dizer, já fazia parte da mobília! --       Ti Isarua faz a boia, - Ti Isarua vá lá aparar o bezerrinho, que o raio da vaca está com’á galinha pedrês – tem o ovo atravessado! -ti Isarua mate lá um frango, – Ti Isarua vá lá entreter as crianças...para tudo a Ti Isarua tinha préstimo.

            Ti Isarua tem que cuidar do amojo da cabra malhada que na certa foi mamada por cobra, está luzindo de inchaço... e, assim por aí adiante!     

Porem onde o seu saber tinha cátedra era no conserto de ossos fora do sítio, espinhelas caídas, entorces e outras maleitas afins.

            Quase sempre à tardinha, se era no Verão, ou antes do almoço, se era no tempo dos dias pequenos, apareciam os mitigantes da sua sabedoria

Ti Isaura era ossuda, fortalhaça, pouco ou nada devia à formosura, mas tinha um jeito doce que agradava, era paciente com as lamúrias dos queixosos e tinha aquela habilidade de mãos que seduzia e sabia confortar.

Era solicitada com frequência para trabalhos fora, e por vezes, levava por lá dias e dias até voltar.

Então cochichava-se à boca pequena, isto e mais aquilo, -envenções como ela dizia, dessas malucas que nem sabem prantar um jantar ao lume!

Tá-se memo a ver que nem les respondo e acabou-se! Isso era o qu’elas queriam! Logo se calam! - Toda a conversa òs três dias esmorece.

E, assim, com estes despachos, encerrava o seu expediente.

Naquela tarde chegou uma cliente ainda nova empurrando à sua frente de escantilhão “de tabefe em tabefe “um rapazito que lamuriava sem cessar.

O que é isso mulher? - Largue o garoto e diga lá o que aconteceu, interveio conciliadora a ti Isaura que já havia sido avisada da necessidade de abrir a “consulta”        Ora o que havera de ser! Voceia já sabe como são-nos moços; por mais qu’a gente diga. Pranta-te quedo! - Pranta-te quedo! Nã senhora, colam por cima dos tarrões e ospois vá de esmurrar as ventas e trocer as linhas.

Dexi-o a tomar conta das manas; qu’é fui fazeri uns mandados por mor de ganhar umas molhaduras e quando volti tinha desapracido e déchou as mocinhas fechadas à chave. Voceia já viu o cabrão do gaiato? - Já viu? - Isto só partindo-le os cornos e ospois ainda me volta desasado!

Já s’ontro dia se nã chego à justa matava -me a ermã mais pequena. Atão nã le ia dar o lete na almintolia do pitrole?

Já viu o que m’havia de cabedari? - Já viu?

            Só a mim è que me cabeda esta sina...

Oh, moçada dum cabrão- com sua alicença - nem com uma calda de porrada de manhêm e outra à noite a gente os assocegava !

Entretanto mãe e filho carpiam as suas lástimas a Ti Isarua tirava da panela de ferro que se eternizava ao rés do lume uma pucarada de água fervente e dobrava-lhe sobre a boca uma toalha turca.

Sobre o pano humedecido com o vapor de água quente ajeitaram o cotovelo do rapazinho que imediatamente o retirou rezingando: está quente, porra!

Habituada a tal léxico Ti Isarua continuava, sem esmorecer, as suas funções

Sob a ameaça de mais algumas “orelhadas”o franganote magoado e ofendido acabou por acatar as recomendações e colaborar.

Quando eu precurar: o que é que ê coso tu dás de resposta: carne quebrada e nervo torto. Nã te esqueças mod’a reza dar certa qu’ê cá precuro tres vezes.

 Então assumindo uns ares de seriedade de quem estivesse investida em poderes secretos começava, a Ti Isarua, depois de ter esfregado a região doente com azeite, a coser e recoser com uma agulha desenfiada num novelo de linhas e a recitar a milagrosa benzedura:

                             (Desenhos de Manuel Jesus)

Coso!

O que é que eu coso?

            Vinha a resposta: - carne quebrada e nervo torto

            Isso mesmo é que eu coso

            Carne quebrada volte ao seu lugar

            Nervo torto volte ao seu posto

            Melhor cose a Virgem que eu coso

            Que eu coso pela carne

            E a Virgem cose pelo osso

            Em louvor de Deus e da Virgem Maria

            Padre-nosso e Avé – Maria

 

           O rapazote, a fungar, esfregava o nariz na manga do braço são, para enxugar o pingo e as lágrimas mas submetia-se com docilidade.

            Voltando a friccionar o cotovelo, – que na circunstância já estava vermelho como um pimento, – outra vez com azeite, terminava o tratamento que se repetiria três dias seguidos e sempre seria acompanhado da mesma recomendação: - agora agasalha bem o cotovelo p’ra não constipares o braço não seja o caso de ainda por cima apanhares erisipela!

            Depois com uma palmadinha amigável, discretamente, a Ti Isarua meteu uma guloseima no bolso do rapazinho que, finalmente, mostrou um sorriso aberto de criança.

            Respondendo: - não é nada! Deixe-se lá dessas coisas...à inquietação da consolente, Ti Isarua ficou encostada à parede do “monte” a vê-los afastar.

A mãe já serena pusera o braço sobre os ombros do garoto aconchegando-o a si.

            Nos ouvidos de Ti Isarua a frase de despedida:

            A pobreza é uma desgraça! - A gente pede às crienças favores qu’eles nã têm-na idade de fazer, mas é a precisão... e ospois, coitadnhos, ainda “as mamam” por cima....

                                          Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.445 – 20 – Março - 1998

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Rezas e benzeduras XII

Sexta-feira, 02.11.07

Entro na sala de espera do Hospital da Vila e, depois de cumprimentar, sento-me entre gentes da terra e enovelo-me no meu abafo semicerrando os olhos, como se dormitasse, para que pudesse recomeçar o falatório, que, pressinto, cessara com a minha aparição.

                              ( desenhos de Manuel Jesus)

Ainda não aquecera lugar, quando um velhote, no outro canto, comentou, julgando falar baixo:

- A que fede?

- A água de chêro --  respondeu-lhe a mulher.

- Empesturices! - Resmungou ele.

- Cala-te qu’a criatura ouve; julgas qu’é tudo mouco com’a ti?

-- Tá bem, dêxa! - Tornou ele a rezingar, voltando-se de costas para a companheira, em jeito de amúo.

 (O mulherio presente ria à sucapa com gozo matreiro, olhando-me) Nem pestanejei com receio de denunciar o meu deleite pela cena, e assim, a breve trecho, a conversa retomou o fio.)

-......atão foi memo na tu rua e tu nã deste por nada?

-Nã di! - Nã di! - Nã bradaram por nenguém, nem ouvi falas, ó chôros de rijo...

-Ê cá ouvi os dobres, mas pensi que fosse a asilada que está p’ra acabar desde transantontem

.           Transantontem? --Ò tempo que o doutor a despediu!

           - Mandem apregoar a pobre! Queres veri qu’ a mulher comeu carne de grou sem saberi?

           -Xi! S`é parva!

           - Parva a quêi? - Tem havido casos... é só o pregoêro, ir à meia-noite, bradar a três esquinas:

            “Senhor fulano de tal

            Deus o quera perdoari

           Quer passari e nã passou

            Porque comeu carne de grou!”

e a criatura assocega logo!    

          --  Então a que já comentara: xi s’é parva! - Disse risonha:

          -- Olha, como o pregoêro já morreu, apregoa-a tu, já que nem pranteaste a tu vizinha Parreirinha.

         --Vái mangar pr’a uma parte qu ‘ê cá sei - respondeu a interpelada, que acrescentou :

           - Estas, em pondem as moças no “circulo”, até parece que tamém têm letras - sabem de tudo !

          - Nã di por isso ! - Nã di, atão!

            Nã se vá sem resposta, - atalhou outra, - que quando morreu o mê tio, agente morava nos baxos e a nha tia, pr’a nã acordar nenguém, andou descalça a vesti-lo e amortalhá-lo e só de manhã é que deu a saberi à genti.

            O quêi?... - Interferiu a que galhofara do pregão - atão morre-le o homem e ela fica-se só com o defunto sem abrir olho nem buraco ?

            Atão! É mulher de corage!

            Corage? - Pergunta-le lá, se ela já tinha algum “amigo” escondido debaxo da cama, e nã queria qu’ o vissem fugiri!

           Cada um, éi, como éi! Replica a “sobrinha” agastada, mas, logo o velho a tossir, sacudido de riso, diz bem alto:

           - Raio de mulheri qu’é mesmo desbocada!

            E, depois já mais calmo e ainda risonho acrescentou:

           - Essa mulheri, essa tal Parreirinha – tive cá pensando – era da minha edade

            Tinha os seus oitenta e quatro – ainda balhi com ela quando eramos moços

            -Alarvêrão! - Já nem ata as botas, mas dos balhos alembra-se...

            (Não resisti. Ri, como toda a gente, tanto mais que o velho com os seus olhinhos escuros brilhando de malícia levantou a mão simulando ameaça e disse jovial:

            -Queres uma orelhada? Queris?

             -Alarverão! - Repetiu a mulher confusa sorrindo e corando com um pudor antigo de rapariga.

             -Ela morreu soltêra? - Insistiu curiosa a folgazona.

             -Pois! - Assentiu o velho que explicou: - Nunca di que namorasse.

            - Mas ela nã teve fora lá pr’o Barrero, ó pr’o Lavradio, a coidar duma madrinha que lhe dexou as casas!

             -Teve, teve! Concordaram todos

             -Atão pode ser que tenha namorado por lá! - –Confortou-se esperançada a brincalhona  muito séria desta vez.

              Depois, levantou-se, foi abanar a amiga que persistia calada no seu ar ofendido; e disse-lhe com bondade:

             -Desenchofra-te mulheri! Qu’ê fali de reinação! - E sem mais palavras foi encostar-se à janela que abriu de par em par e ficou a olhar para fora, pensativamente.

             O ar dos campos inundou o ambiente.

             Então o velho respirando fundo, disse com prazer:

             Chêra bem! Chêra a terra acabada de lavrari!...  

                                                              

 

                                            Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.443 – 6-Março-1998

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Este livro foi publicado em Novembro de 2000

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publicado por Maria José Rijo às 17:23

Rezas e Benzeduras IX

Sábado, 27.10.07

Pedi a Maria Isabel de Mendonça Soares, essa Mulher com letra grande do nosso mundo da cultura, – cuja obra, especialmente dedicada aos jovens – é por demais conhecida quer pela publicação de livros, quer por conferencias, quer pela preciosa colaboração com artigos de opinião em jornais e revistas, e outras acções de mérito a que tem dedicado toda a sua vida de docente - pedi - a essa querida amiga que me falasse sobre esta série de: rezas e benzeduras.   

           Então ela a certo passo da sua resposta, escreveu assim:

          “ Que teria sido feito dos romances populares da tradição oral, se Garrett, lembrando-se de que os ouvira da boca das criadas velhas na sua infância, lhes não tivesse «deitado mão» e dado à estampa? Por isso não desista.

           Não sei se estas que refere são exclusivamente da terra Alentejana.

           Se assim não for, permita-me mais uma achega que aprendi em pequena com a minha avó:

                                      ( Desenhos de Manuel Jesus)

          Quando nos queixávamos de ter um pé dormente, o que acontecia quando, sentadas no chão a brincar, dobrávamos uma perna, a avó aconselhava que nos puséssemos de pé, e esticando-nos fizéssemos uma cruz no peito do pé, com o dedo molhado em cuspo, dizendo ao mesmo tempo e repetidas vezes:

             Desadormenta-te pé

             Que lá vem o lobo Mé

             Que te há-de querer comer

             E tu não podes correr.

             Remédio santo! Resultava sempre; e ainda hoje resulta quando a rir o faço.

             Hoje penso que o «remédio» provém certamente da extensão muscular que permite ao nervo retomar a sua posição correcta.

             Não sei a origem desta «reza», tanto mais que minha avó era nada e criada em Lisboa, só tendo ido morar para Pernes depois de casada, e aí nunca ouvi menção de semelhante prática.”

            - Escusei-me logicamente a substituir por discurso meu as palavras de Maria Isabel de Mendonça Soares escritas ao correr da pena, numa carta particular, onde o estilo bonito da sua prosa sempre escorreita, ressalta tão limpo que me pareceu aceitável esta pequena traição!

 

             Penso, que, como eu, muita gente ainda se lembrará daquelas tardes imensas em que sentadas no chão, acomodadas em circulo - quando eramos crianças -  jogávamos ás cinco pedrinhas ,até ter as pernas dormentes .

             Jogar os jancros dizia-se no Algarve.

             Calhauzinhos escolhidos, pequenos como ovos de passarinhos.Recolhidos à beira do mar ou à beira rio, ou em passeios ao campo no leito das ribeiras pluviais que o Inverno cria e o Verão, sedento bebe...

              Atiravam-se ao ar, um a um, recolhiam-se com a palma ou com as costas das

mãos, ou, também com suaves toques faziam-se deslizar sob um arquinho  que se criava apoiando o indicador e o polegar da mão esquerda no chão enquanto com a direita se

movimentavam as pedras uma  a uma aproveitando o curto espaço de tempo em que subia no ar a que antes se lançava para que as outras preparadas em fileira fossem passando a ponte como a destreza do jogo mandava .    

                      Histórias que já fazem história

                      Histórias desta cadeia sem fim onde as nossas mãos só valem se abertas para dar o que de outras receberam...

  

 

                                                  Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.437 – 23 – Jan. – 1998

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Este Livro de Rezas e Benzeduras foi editado

em Novembro de 2000

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REZAS E BENZEDURAS VIII

Quinta-feira, 25.10.07

O Ti Carrapiço era o maioral das vacas.

Não sabia ler nem escrever, mas com uma técnica da sua autoria por meio de risquinhos conseguia dar conta da história toda da manada.

Sabia os dias e os meses em que cada vaca parira, os preços que cada cria rendera e, portanto, era impossível não saber com segurança o rendimento que cada vaca dava.

Aliás, cada bicho tinha um nome, era a malhada, a estrelinha, a pimpona, a cotovia, a salpicada, etc, etc. 

Chamava-as pelos nomes e movia-se entre elas falando com tal à-vontade que parecia esperar que lhe respondessem.  

Pessoalmente nunca me cansava de apreciar aquelas cenas e sempre ficava convencida que havia um secreto entendimento entre eles, tanto mais, que os animais obedeciam a todas as ordens que o velhote lhes dava ainda que o fizesse num tom quase sussurrado. 

O outro comparsa destas andanças era o cão. Era um Serra d’Aires magrito, de olhinhos vivos e atentos que respondia por: Chito.

Bem! - Nem sei contar!

É que, se com as vacas já era um entendimento surpreendente, com o cão era autentica telepatia. Ti Carrapiço, mal acabava de cortar com a sua navalha de folha reluzente o resto da «linguriça» que mastigava com visível deleite com a última dentada de pão – logo se preparava para deixar o assento. 

Qualquer «padragulho» ou tronco de árvore caído servia de instalação para merendar repartindo com o Chito.

Era o maioral a fechar a navalha e o cão a por-se de pé antes do dono, mas sempre a olha-lo de olhos fitos e orelhas afiladas.

Então, pensando alto, o velhote dizia: -“ a gente agora podíamos ir dirêtos ós pocinhos mas nã vamos, tá bem de veri que vamos ó rés da estrada velha.”

O cão disparava numa corrida para cumprir o desejo do homem.

Verdade, verdade, que Ti Carrapiço nunca dizia: “o mê cão” – dizia sempre: ê cá, trabalho com o mê ajuda, ou com o mê companhêro.

E, porque assim era, porque tinha ajuda, ia sempre arranjando tempo para fazer umas “porquerinhas”em pau de buxo...

É que usando aquela navalha luzidia que ele afiava no couro das grossas botas de atanado quer fosse antes de começar as refeições, quer fosse antes de iniciar as suas obras de arte: - marcadores de pão, cadeirinhas minúsculas para pendurar ao ombro como corrediças de linha; que mulher, filhas e até já a neta, eram peritas em fazer meia de cinco agulhas... as suas mãos, tinham o condão de falar da sua alma.

A mulher, a Ti Estrudes, até já lhes deixara para elas essa arte que, para ser perfeita, precisava de “boa vista” - coisa que já lhe faltava.

Ensinara-lhes os pontos, os segredos de armar os calcanhares e as biqueíras para que os “mates” fizessem lindos feitios em vez de “ catramolhos “.

Para si própria guardara a recolha das ervas para as “fevres e fastios” e as benzeduras.

“Nove cabecinhas de macela postas de molho de véspera – e beber essa água em jajum – amarga mas cura e o que aperta é que segura.”

“A folha do rilha-boi, tem a gente sempre em casa num frasquinho dentro de azeite virgem. A gente queima-se bersunta-se com uma pena de galinha e alivia.

 A raiz da abrótea é o melhor que há p´rás empinges.”

 “A gente parte-as, espreme aquele charume amarelo e esfrega-se.”

São três dias.

P’rós males de feridas arejadas nada se chega ao chá das malvas! - Isso atão é bom p’ra tudo, até se bebe.

É remédio santo!

Até p’ra quistéles – desenvolve os entestinos.

Ele é p’ra bortoejas, pegamaço d’olhos, mal de pele, – dum tudo! 

Só p’ras almorroidas é que é melhor a alfavaca - p’ros banhos de assento - de restos p’ra mais nada , - veja lá!

P’ras pontadas nas costas esfricções e copos de ventosa; p’ras dores de cólicas: - chazes.

P’ras dores no pêto e tossera enxúndias de galinha em papel pardo bem quente.

E depois de prontamente dar estas lições de sabedoria popular herdada, sem esperar pagamento pelas consultas, lá ia benzer qualquer comadre atacada de cobro.

                                (desenhos de Manuel Jesus)

Pegando numa faca e fazendo cruzes sobre a zona doente dizia com convicção:

                                           “ Eu te corto cobro

                                             A cabeça e o rabo todo

                                             Para secares e não rebentares

                                             E daqui não passares”

Três vezes repetia o exorcismo que completava rezando um Padre-nosso e uma Avé Maria.

A seguir metendo num bolso um punhadinho de trigo tremês levava a paciente até ao ferreiro mais próximo. Aí, sobre a chapa com um ferro em brasa o ferrador esmagava o trigo. Com o óleo obtido enegrecido com a fuligem da forja mascarrava-se de negro toda aquela borbulhagem miudinha.

O óleo de trigo ao fim de três dias tinha feito o milagre, mas a aureola coroava a cabeça da ti Estrudes que, também três dias seguidos fizeram brilhar a sua navalha num bailado em cruz sobre as mazelas da crédula paciente.

                                           

 

                                                                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.428 – 21 – Nov. - 1997

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Rezas e Benzeduras VII

Terça-feira, 23.10.07

                A prima Guiomar era uma pessoa muito especial.

                Na verdade, quando as famílias estavam organizadas dentro dos antigos moldes convencionais em todas as casas havia uma prima Guiomar, uma tia ou uma comadre Guiomar...

                Também não era possível imaginar sequer um aglomerado familiar que não comportasse um cão de estimação e dois ou três gatos dando marradinhas nas pernas de quem se aventurasse a abrir a porta e entrar em qualquer cozinha.

                Quer queiramos, quer não, temos que reconhecer que o facto de o mercado de trabalho não estar aberto às mulheres criava uma espécie de casta constituída pelos parentes pobres a que se juntavam ainda os amigos que quase sempre por morte de pais ou parentes se viam desprovidos de meios de subsistência.

                Esta classe constituída por pessoas de boa educação, um certo orgulho de berço mas, sem meios, era um drama pungente que a sociedade disfarçava dando-se ares de muito generosa quando na verdade em muitos casos, sob uma capa de afectuosa protecção, se limitava a engrossar com esses deserdados a legião de pessoas que as serviam sem receber quaisquer proventos em troca.

               Engolindo por força das circunstâncias o seu amor-próprio muitas vezes a revolta pelas injustiças e humilhações recebidas tornava as pessoas dissimuladas e falsas sempre prontas a servir quem no momento lhes desse maiores vantagens.

                Balzac, no seu romance Prima Bette, como mestre que foi, ergue com essa personagem o retrato exemplar dessa trágica situação.

               Mas, a prima Guiomar, em nada se comparava à Prima Bette.

               A prima Guiomar era um doce de pessoa.

               Ela tinha o dom de ser sempre a primeira a aparecer para ajudar em qualquer aflição, para tomar conta de doentes, entreter crianças e o mais que fosse necessário.

               De avental e lenço branco sujeitando-lhe o cabelo, era vê-la em actividade nas matanças.

               Temperava os chouriços, as morcelas, era mestra na feitura de paios e cacholeiras e tinham fama as farinheiras saídas da sua mão.

               Ah! - mas o forte; o seu ex-libris eram as sopas de cachola que juntavam toda a família e amigos em redor da mesa celebrando a festa da abundância como uma orgia romana.

               Depois, cheios como odres, cada comensal tentava dormitar por seu canto e ainda era a prima Guiomar que, solicita, aparecia com um barrigudo bule cheio de chá de ervinhas milagrosas, (segredos e mistérios que ela conhecia mas não confessava) para aliviar os tormentos daquelas digestões em que as gorduras e as especiarias regurgitavam guelra acima com diabólica insistência.

Entregues os adultos às merecidas penitências da sua própria gula, a prima Guiomar, aliciava a criançada com velhas histórias que sabia contar como ninguém.

Na frescura das casas de altas abóbadas instalava-se um silêncio de recolhimento como se ali se fora praticar um culto a qualquer deus primitivo, então a sua voz fraca e já um pouco insegura pontuava frente a uma assistência sempre interessada.

                               (Desenhos de Manuel Jesus )

Naquele dia em que surpreendi este ritual, contava ela:

Noutros tempos quando não chovia era costume levar o andor de Nossa Senhora ao campo para lhe mostrar as cearas, então rezava-se:

 

Ó minha Mãe Santíssima

Dai-nos o perdão

          Senhor mandai-nos água

Para regar o pão

Eu sou pecadora

Não vos sei pedir

Não sou merecedora

Do Senhor me ouvir.

 

Cantado:

 

Bendito e louvado seja

O Santíssimo Sacramento da Eucaristia

Virgem Sagrada

Santa Maria.

 

Ora vai, ora vai com cuidado

Mas nunca te esqueças

Do Bendito e Louvado

Do Bendito e Louvado

Não me hei-de esquecer

Que a Virgem do Carmo

Nos há-de valer na maior aflição

Bradai Deus por Ela

No meu coração

No meu coração

Tenho grande dor

Em ter ofendido

A Deus Nosso Senhor

 

               

          Isto era cantado várias vezes até dar a volta ao campo e regressar à Igreja.

          Entretanto, os adultos pé ante pé já se tinham aproximado e, mal a prima Guiomar terminava o seu conto logo em coro lhe pediam:

                        - Conte, conte mais, conte outra história!

Sem mostrar cansaço sorrindo por vezes ela recomeçava ou, mantendo o sorriso, discretamente, desaparecia para os fundos da casa, dizendo apenas: - volto já!

 

 

 

                                   Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.426 – 7-Nov. -1997

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REZAS E BENZEDURAS VI

Domingo, 21.10.07

Nos meses de Junho e Julho, naqueles tempos da primeira metade deste século, quando ainda não se falava em “buraco de ozono”, muitas coisas eram diferentes.

          Naqueles tempos a pureza do ar que se respirava era um facto incontroverso.

Os rios eram de “águas cristalinas” e tinham “peixes de prata” – como apregoavam as canções meladas e românticas de então. Não admira que as músicas tenham mudado porque os rios também mudaram. Agora são correntes de águas poluídas, esgotos a céu aberto onde flutuam dejectos e espumas ácidas que não consentem vida.

As matas e as florestas eram habitat e refúgio de pequenos animais e de passarada que cantava nas ramarias.

Os ovos, nos ninhos, eram anúncio de novas vidas e não trágicos esquifes onde os pesticidas escondem selos de morte na sequência de uma envenenada cadeia alimentar

As árvores assinalavam fecundidade dos solos oxigénio, saúde... e não se contavam como inevitáveis candidatas a archotes vivos, por qualquer “vil cobiça” ou negociata de gente sem escrúpulos.

Nesses tempos ainda recentes, não se falava, porque não se receava do excessivo aquecimento da terra, da fusão dos gelos polares, das alterações climáticas dos sufocantes níveis de poluição que comprometem a vida no nosso planeta etc. etc...

Então, Verões e Invernos eram épocas do ano genuinamente características – quase diria: puras - e  assinaladas  como certas  nos calendários.

Se Primaveras e Outonos, eram tempos caprichosos de humores vários, com assomos exuberantes de alegria e birras de arrufos de namorados nos Marços e Abris; as crises de cinzentas tristezas e lagrimais de chuva eram em meses outoniços mais languidos e doentios – os invernos e verões alentejanos eram bem castiços.

Senhores absolutos de um frio de rachar que contrapunham aos dias de Verão luminosos até à cegueira e tão quentes e abafados como deverão ser as portas do inferno

           Então, lá pelas pequenas aldeias, como aquela onde cresci, lá onde se acreditava em bruxas a dançar à meia noite nas encruzilhadas, e em lobisomens que uivavam como cães raivosos, lá, parecia que a terra arfava de febre exalando um bafo cheiroso de restolho que embebedava os sentidos.

           Pois era nessas alturas, ali, em plenas labaredas desses calores de Junho e Julho que aconteciam os exames nas escolas e liceus.

                           ( Desenhos de Manuel Jesus

                                     - pintor de Elvas)                               

 

              E, se durante todo o ano mal se perdia lápis ou caneta, livro ou borracha - logo se atava um nó no lenço que depois se entalava debaixo de pé de mesa ou de cadeira para prender com firmeza o rabo do diabo e achar o perdido , por acréscimo de eficiência também se rezava a Santo António:

                                Contra males e demónios

                                rezar sempre a Santo António

                                aplaca as fúrias do mar

                                tira os presos da prisão

                                e o perdido faz achar

                                apareça , apareça o diabo  sem cabeça .

 

              Avalie-se como o pobre do Santo, era importunado no seu próprio mês quando se esperava que os milagres resolvessem as tragédias da ignorância escolar.

             Então com o sol no zénite - o meio dia solar - que isto de adivinhações recusa os preceitos de Greenwich  tentava-se prescrutar os mistérios do futuro .

             Cada candidata a Sibila rezava baixinho:

    

                        Indo Santo António para o seu montinho 

                        perdeu o seu bendito rosário e o seu bendito

                        livrinho

                         três brados ouviu de sua tia e madrinha :

                        beato António , beato António,

                                         beato António                         

                        volta atrás que o que me pediste

                        será lembrado

                        e o que perdeste será achado

                        peço à sua santa madrinha pelos martírios

                         que passou

                        pelo seu afilhado que me descubra em vozes

                         do mundo

                       ( faz-se o pedido)

                       Padre Nosso - Avé Maria

                     

          Terminada a oração cada suplicante ia colocar-se de ouvido à escuta pelas frinchas das janelas ou das portas os sinais das vozes do mundo que interpretadas lhe trariam as respostas desejadas.

          Portas a bater, galos a cantar, crianças a rir, cães a ladrar.

          Nas pedras da calçada a violenta luz do sol incidia faiscando como em espelhos.

          As moscas zumbiam nas sarjetas secas e fedorentas ao mais pequeno estremecimento - e nós imóveis como estátuas aguardávamos sinais de resposta  para o que de  antemão  saibiamos  como iria acontecer.

          Porém, na juventude até a aprendizagem da vida tem seu lado lúdico, medos, ousadias, tudo são experiências...

         E, se nada é novo sobre a terra tudo será sempre novo  para cada um  que pela primeira vez faça qualquer descoberta por insignificante que pareça.                  

                                      

 

                                               Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.424 – 24-Outubro-1997  

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REZAS E BENZEDURAS IV

Sexta-feira, 19.10.07

                    De um local chamado “o alto das covas”, na Ilha Terceira, em Angra do Heroismo, avista-se a Ilha de S. Jorge. Tal como os outros pontos da mesma ilha Terceira se avista além de S. Jorge, a Ilha Graciosa.

                    Que a alegria de uma ilha é, dela, avistar-se outra ilha – dizem os naturais insulanos.

                     Porém, só reconhece a profunda sabedoria que o “dito” encerra quem, aportando ao arquipélago experimente dar uma destas voltinhas, com destinos de acaso, a que uma noite de luar ou um dia ameno nos costuma tentar.

                     É que, então descobre como é verdadeira a definição de ilha, que, ainda criança, decorou na escola.

                     Ilha: é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

                     Aprende que, vá para onde for, volta e meia; meia volta, encontra o mar e, por mais que alongue o olhar ele só encontra na imensidade azul que nos envolve - mar e céu - como constantes sem fim.

                     Conforta-se então a pensar que as nove ilhas constituem com que uma família que de longe se avistam entre si. E, assim de umas avistando outras quebra-se dentro de nós a estranha sensação de nostalgia que o irremediável isolamento cria. Apontar: ali está outra, já é ter companhia, embora o mar continue a ser o fiel guardião que nos tolhe o passo.

                    Compreende-se também, mais e melhor, o que é um barco - pequeno ou grande ! - Não importa.

                    Um barco é sempre um aliado do sonho.                                      

                    Uma porta aberta para a aventura.

                    Entende-se a nervosa alegria, a expectativa, com que se aguardava a chegada a Angra, ao Cais das Pipas, do pequeno vapor que quinzenalmente chegava, vindo de S. Jorge.

                      Até eu, estranha a estes hábitos, aprendi a viver a gostosa emoção de o ver

chegar.

                      Subia ao mirante da nossa casa e ficava tempo e tempo a observar aquele pontinho minusculo, perdido no horizonte entre mar e céu, crescer, crescer, até se mostrar como o mensageiro deligente que apitava contente, antes de ancorar.

                      Era ele que trazia as encomendas dos panos de linho de tear que uma velha Senhora em S. Jorge, lá para os lados das Fajãs ainda tecia, e o queijo picante (artesanal) e outras preciosidades mais...

                      Todos nós, somos um pouco, também, uma espécie de cais de onde sonho se solta e onde retorna e atraca, de novo, vitorioso ou desfeito.

                      Um barco, mesmo antiquado, continua a ser um forte esteio para a imagem da aventura.

                      Um ponto de partida para as rotas que soubermos imaginar.

                      Inter - ilhas, as famílias e os amigos visitavam-se, por festas, acontecimentos sociais  ... Como aqui no continente inter-cidades.

                      Aqui leva-nos o carro, o comboio.

                      Nos Açores, hoje, é o avião que “vorazmente” consome as distâncias que o mar nem sempre permitia transpor.

                                      (( Desenho de Manuel Jesus )) 

                 De Angra a S. Miguel fomos às Festas do Senhor Santo Cristo numa certa Primavera.

                      Esperavam-nos elvenses amigos, que, como nós, residiam temporariamente nos Açores.

                      Juntamos às festas da cidade a nossa festa de alentejanos elvenses que se abraçavam saudosos de evocar um passado de amizade que nos unia.

                      Na hora da despedida ao beijar a Senhora Dona Joaquina Abreu – mãe da nossa anfitriã – com um doce sorriso no seu lindo rosto - cheiroso de pó de arroz (à moda antiga, como também ainda usa minha Mãe) disse-me carinhosa a excelentíssima Senhora:

             “ Deixe que a response como sempre faço aos meus filhos” e rezou alto:

                Eu te responso

                Com as armas de Cristo andes armado

                Com o leite da Virgem, andes borrifado,

                O sangue de Cristo tragas no teu corpo

                Não hás-de ser ferido nem morto

                Nem mal tratado, nem mordido de bicho

                Nem de cão danado.

                Por caminhos e estradas andarás

                os maus nunca os verás

                E os bons encontrarás

                Responso-te a Santo António e a S.Francisco

                E às cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo

                                                            Amém

 

                Comovidamente beijei-lhe as mãos e pedi-lhe que me deixasse escrever tão bela oração.

                Prontamente, sua neta mais nova, a Isabelinha, me deu uma folhinha de caderno onde fiz o apontamento que ainda conservo – impresso na margem lê-se. Liceu Antero de Quental.

                Recordo este acontecimento, aliando-lhe a lembrança de dois poemas:

                “ A Rua de S. Francisco” - onde esta Senhora viveu e criou seus filhos - que deu o nome a um poema de Casimiro de Abreu e, um outro, de  seu filho Álvaro cantando Elvas. Cidade que ele invoca como:

               “Minha dama doutros tempos

                 minha linda dama antiga”

                E, sempre esta imagem se ajusta à memória que guardo da linda Senhora ao fixar-me com seus olhos de cor céu e mar a rezar por mim a sua oração de mãe.

                Dir-se-ia que foi a agorinha mesmo.

                Mas... era o ano de 1979 e, ao passado não se volta.

                Ele anda connosco.

      

                                                      Maria José Rijo  

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.412 – 25 – Julho-1997

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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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