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Memórias

Sábado, 28.03.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.282 – 13 de Janeiro de 1995

Conversas Soltas

 

Mandei para este jornal que considero “meu”, mas a que respeito a Liberdade que lhe reconheço de ser “ele” – uma carta que recebi pelo Natal.

Outras cartas, cartões e postais compuseram a minha safra de saudades e lembranças. Confortável, graças a Deus!

Curioso foi que, muitas delas, quase todas, me trouxeram referências sobre a colaboração que presto ao “Linhas” e que, com amizade, encorajam saudando nós dois.

Daquela, porém, era diferente. Evocava uma Elvas que já andará perdida da memória de alguns e que outros, nem sequer conheceram.

                     jornal.jpg

Perdi licença, a quem a escreveu, para que ela pudesse ser publicada e entreguei-a a esse provável destino; ou outro… enviando-a ao jornal.

Depois, fiquei a pensar em tantas, tantas coisas que já posso recordar, que me surgiu na consciência uma palavra muito frequente no vocabulário das pessoas de idade – memórias.

Encostada assim à parede – reconheci: aquele bilhete de comboio que tinha em letras grandes e pretas a palavra idoso – era mesmo meu!

Aquilo de idoso, sem dúvida, diz-me respeito.

Ora veja-se!

Primavera, Verão, Outono ou Inverno – para novos e velhos são estações do ano.

Dão as mesmas flores, têm os mesmos sóis, as mesmas árvores nuas de folhas, os mesmos ventos, as mesmas chuvas, neves e geadas…

À primeira vista, estas coisas parecem não ter ligações com os bilhetes de identidade! – Mas, têm.

Para quem ainda contou poucas “estações” – o comboio chama – criança e convida:

         estacoesdoano.JPG

Vem – anda! – Nem pagas – o caminho é teu.

Quem já se esqueceu de quantos Verões ou Invernos contou – impiedosamente o bilhete acusa: - Idoso!

Reduz-lhe os custos da viagem mas, como se rabujasse comenta a negro: Idoso!

Aquilo deve ser para não escreverem: Chato! Ainda a ocupar um lugar.

Importuno.

Isto dos bilhetes não é assunto claro.

É adolescente? – Meio bilhete.

Meio porquê? – Não é meia gente. Se não é porquê meio bilhete?

É maior de idade? – Bilhete inteiro! Não será so para gerar confusão?

Também há bilhete de soldado e de graduado!

Porque não haverá bilhete de desempregado – (paga quando ganha).

Bilhete de coitado! – Entre lá, não pense nisso, onde é que “o” vai buscar?

Bilhete de piqueniqueiro – desde que limpe as migalhas e coma de boca fechada (quem se vai importar?)

Bilhete de prestativo – vai de pé, dá o lugar.

Bilhete de falador – fala, fala e não se cala.

Bilhete de estremunhado – ressona, acorda, boceja e fareja: onde estamos? – o que se passou?

Bilhete de ilustrado – mete pasta, jornais, livros, em inglês e encadernados.

Sei lá que mais bilhetes poderia ou deveria haver! Bilhetes rosa e azul para românticos, com direitos a olhares e suspiros…

Bilhetes de ir (nunca de ida) – de ir atrás do sonho.

Então de ida e volta?! – Jamais. Quem sabe se volta?

               

E bilhetes com borboletas, flores, gatos ao sol preguiçando, patos no charco, crianças a rir, barcos à distância, a chegar ou a partir…

Tudo pode valer.

Tudo.

Menos a palavra carimbo que retira a qualidade ao que não tem idade ou rótulo possível: A VIDA.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:31





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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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