Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
POEMA – A LUZ

Lá muito ao longe… está a luz!
Eu já a vi!
E agora…
Procuro o caminho que a Ela conduz…
Mas afastai-vos, caridoso intento!
Saí da minha frente,
Gentes que ouvistes meu lamento!
Perdoai o meu tom brutal, irado…
… Mas eu não quero fazer o tema copiado!
Eu quero ir sozinha!
Consciente dos meus passos!
Ainda que gaste a vida em sofrimento…
Eu quero ir sozinha!...
Deixai-me passar!...
Deixai-me enganar e recomeçar…
Deixai-me ficar aos bocados pela estrada,
Deixai-me que procure em direcção errada,
Mas deixai-me ir sozinha!...
E se eu morrer antes de alcança-la,
A Luz saberá
Que eu gastei a vida a procurá-la!...
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Maria José Rijo
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Poema nº V
Pag – 37
I LIVRO DE POEMAS
… E VIM CANTAR
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DESENHOS da Autora
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Reminiscências – O tempo e as cantigas
Estava a ouvir algumas cantigas que um homem vestido de preto, entoa ao som duma concertina tocando e saltitando em palco, sempre de chapéu na cabeça, como se estivesse numa romaria. Estava a ouvir, a olhar e a pensar, como até através das cantigas, se podem de certo modo caracterizar as diferentes épocas e os seus costumes e linguagem.

Os cantores populares de agora, de uma maneira geral, cantam de forma mais ou menos brejeira histórias cujo tema é o sexo, fazendo trocadilhos com o significado real das palavras e o sentido picante que em gíria se lhes pode atribuir.
Assim cantigas que em cantes ao despique, ou nas “ velhas” nos Açores têm todo o sentido pelo seu enquadramento intrínseco em festas populares e arraiais, aparecem, na minha opinião, por vezes muito fora do contexto inseridas em programas onde ganham uma certa perversidade por não terem neles igual cabimento.
Resulta um pouco como se alguém que aprecie touradas, em lugar de ir a um redondel apreciar o espectáculo, ou vê-lo em filmes em casa, ou no cinema, resolvesse trazer o touro para a sala.
Mas, queria eu, assim, dizer que em todos os tempos até as cantigas dão informação da linguagem e usos de cada época.
Lá na aldeia, onde passei a minha infância, ninguém ousaria nessa altura, cantar o cheiro ou o tempero do bacalhau de qualquer Maria ou graça quejanda, mas, cantavam-se coisas tais como:
“ É o luxo dos rapazes, ( é a moda)
chapéu preto e cachinéi (cache-nez)
todos têm meixão alta (missão, profissão importante)
meu amor tão baxo éi ( tão modesto, tão humilde)
meu amor tão baxo éi
quirido do coração
olha a menina que já ‘stá noiva
p`ra se casar no fim do Verão”
Fico agora a pensar se será ainda possível, depois do advento da televisão que, para além das suas muitas e inegáveis virtudes, também muito tem contribuído, sustentado e promovido a banalização, miscigenação e normalização – por baixo – de usos e costumes, se seria – ou, será - ainda possível em qualquer recanto do nosso país nascerem canções ingénuas que falem de esperança de trabalho e de amor sem trocadilhos de gosto duvidoso ou referências a sexo.
Verdade que gostaria de acreditar.
Entretanto, ecoam na minha lembrança reminiscências das vozes sadias que cantavam:
“Fui-te ver
Estavas lavando, no rio, sem ter sabão
Lavas-te em água de rosas, fica-te o cheiro na mão
Fica-te o cheiro na mão, fica-te o cheiro no fato
Se eu morrer e tu ficares, adora-me no meu retrato
Adora-me no meu retrato, vai-me ver à sepultura
Se eu morrer e tu ficares, adora a minha figura.”
Lavava-se no rio, não nas máquinas – é evidente! – Mas cantava-se o cheiro das rosas, não do bacalhau, também é evidente!
É na verdade diferenciado o perfume dos tempos.
Maria José Rijo
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Jornal linhas de Elvas
Nº 2.820 – 30 / Junho / 2005
.Conversas Soltas
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As cores e o luto
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Sebastião da Gama, poeta de “ O Segredo é Amar”, olhando com piedade, o drama da perda de liberdade, de um insignificante grilo, preso numa gaiola, escreveu um texto – belo e lúcido, como tudo que nascido da sua alma – em que interpreta, como luto, a cor negra da asa aprisionada - que antes, por natureza, era apenas de cor negra.
Maria José Rijo @@@@@ CONVERSAS SOLTAS Nº 2.945 29 de Novembro de 2007
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Ai deve de ser bom estar louco!
Nada fazer como os outros,
Ser espontâneo !
E tão pouco
Recear a má figura!...
Ai deve de ser bom estar louco!
Fazer o que dá na gana,
Nada temer, nem ninguém!
Nem bondades, nem castigo,
Que é sempre prémio também!...
Ai deve de ser bom estar louco!
Fazer o que o pensamento
Como deus absoluto
Nos ordena e nos impõe!
Porque ser louco afinal,
É ser bom e ser brutal ,
Mas é sermos nós, finalmente,
Quando da vida e do mundo,
Tudo nos é indiferente...
Quando os últimos preconceitos
Cedem à nossa vontade...
Ai deve de ser bom estar louco!
Dentro da nossa verdade!!!
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Poema extraído do livro
... E VIM CANTAR
POEMAS
de
Maria José Travelho Rijo
Coimbra
1955



