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POEMA – A LUZ

Quinta-feira, 06.03.08

Lá muito ao longe… está a luz!

Eu já a vi!

E agora…

Procuro o caminho que a Ela conduz…

 

Mas afastai-vos, caridoso intento!

Saí da minha frente,

Gentes que ouvistes meu lamento!

 

Perdoai o meu tom brutal, irado…

… Mas eu não quero fazer o tema copiado!

 

Eu quero ir sozinha!

Consciente dos meus passos!

Ainda que gaste a vida em sofrimento…

Eu quero ir sozinha!...

 

Deixai-me passar!...

Deixai-me enganar e recomeçar…

Deixai-me ficar aos bocados pela estrada,

Deixai-me que procure em direcção errada,

Mas deixai-me ir sozinha!...

 

E se eu morrer antes de alcança-la,

A Luz saberá

Que eu gastei a vida a procurá-la!...

 

 

Maria José Rijo

 

Poema nº V

Pag – 37

I LIVRO DE POEMAS

… E VIM CANTAR

DESENHOS da Autora

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publicado por Maria José Rijo às 17:33

Reminiscências – O tempo e as cantigas

Sábado, 02.02.08

Estava a ouvir algumas cantigas que um homem vestido de preto, entoa ao som duma concertina tocando e saltitando em palco, sempre de chapéu na cabeça, como se estivesse numa romaria. Estava a ouvir, a olhar e a pensar, como até através das cantigas, se podem de certo modo caracterizar as diferentes épocas e os seus costumes e linguagem.

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Os cantores populares de agora, de uma maneira geral, cantam de forma mais ou menos brejeira histórias cujo tema é o sexo, fazendo trocadilhos com o significado real das palavras e o sentido picante que em gíria se lhes pode atribuir.

Assim cantigas que em cantes ao despique, ou nas “ velhas” nos Açores têm todo o sentido pelo seu enquadramento intrínseco em festas populares e arraiais, aparecem, na minha opinião, por vezes muito fora do contexto inseridas em programas onde ganham uma certa perversidade por não terem neles igual cabimento.

Resulta um pouco como se alguém que aprecie touradas, em lugar de ir a um redondel apreciar o espectáculo, ou vê-lo em filmes em casa, ou no cinema, resolvesse trazer o touro para a sala.

Mas, queria eu, assim, dizer que em todos os tempos até as cantigas dão informação da linguagem e usos de cada época.

Lá na aldeia, onde passei a minha infância, ninguém ousaria nessa altura, cantar o cheiro ou o tempero do bacalhau de qualquer Maria ou graça quejanda, mas, cantavam-se coisas tais como:

“ É o luxo dos rapazes,    ( é a moda)

chapéu preto e cachinéi   (cache-nez)

todos têm meixão alta    (missão, profissão importante)

meu amor tão baxo éi     ( tão modesto, tão humilde)

meu amor tão baxo éi

quirido do coração

olha a menina que já ‘stá noiva

p`ra se casar no fim do Verão”

 

Fico agora a pensar se será ainda possível, depois do advento da televisão que, para além das suas muitas e inegáveis virtudes, também muito tem contribuído, sustentado e promovido a banalização, miscigenação e normalização – por baixo – de usos e costumes, se seria – ou, será - ainda possível em qualquer recanto do nosso país nascerem canções ingénuas que falem de esperança de trabalho e de amor sem trocadilhos de gosto duvidoso ou referências a sexo.

Verdade que gostaria de acreditar.

Entretanto, ecoam na minha lembrança reminiscências das vozes sadias que cantavam:

“Fui-te ver

Estavas lavando, no rio, sem ter sabão

Lavas-te em água de rosas, fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão, fica-te o cheiro no fato

Se eu morrer e tu ficares, adora-me no meu retrato

Adora-me no meu retrato, vai-me ver à sepultura

Se eu morrer e tu ficares, adora a minha figura.”

 

 

Lavava-se no rio, não nas máquinas – é evidente! – Mas cantava-se o cheiro das rosas, não do bacalhau, também é evidente!

 

É na verdade diferenciado o perfume dos tempos.

                          Maria José Rijo

@@@@@

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.820 – 30 / Junho / 2005

.Conversas Soltas

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:36

As cores e o luto

Quinta-feira, 29.11.07

Sebastião da Gama, poeta de “ O Segredo é Amar”, olhando com piedade, o drama da perda de liberdade, de um insignificante grilo, preso numa gaiola, escreveu um texto – belo e lúcido, como tudo que nascido da sua alma – em que interpreta, como luto, a cor negra da asa aprisionada - que antes, por natureza, era apenas de cor negra.


Muitas, muitas vezes, penso neste texto, porque, muitas, muitas vezes, penso no valor da Liberdade, e nas múltiplas formas de forçar a sua privação, quando vejo sem grades nem gaiolas, cercea-la aos mais fracos, talvez da forma mais perversa, a forma sub-reptícia
Assim, quando alguém faz um trabalho e outro o apresenta como seu empoleirando-se numa qualquer falsa hierarquia, não há da vitória, branco, ou cor, que ressalte, porque a supressão da verdade, abafa a liberdade que assim fica de luto.
- É dos livros!...
Mas, por gostar do texto referido e por paixão pela obra de Sebastião da Gama tive curiosidade de investigar que espécie de insecto é o grilo.
Tenho a firme convicção de que, à parte o cri-cri do seu canto, bem conhecido, e da crença popular de que os de asas amarelas cantam mais e melhor, nada mais deles se sabe.
Que se distinguem das grilas porque elas têm os élitros mais curtos e pelo número das pequenas caudas, também é da sabedoria corrente.
Da história de animal tão presente nos nossos campos, pouco, ou nada mais, se refere.
Investiguei um pouco, e do seu caracter aprendi: - é anti-social, manifestam uns pelos outros inter-repulsão. São tão belicosos que os chineses os treinam e usam para combates, que transpostos para a nossa escala seriam aterradores e no final o vencedor devora o vencido!
“Afirma-se ainda, que, só na altura de acasalar, têm relações mais civilizadas com os seus congéneres e que os que nascem da mesma postura vivem algum tempo juntos mas, breve, parte cada qual para seu destino solitário. Que defendem duramente o seu pequeno território contra os seus congéneres embora a riqueza que os seus intratáveis cérebros guardam, seja apenas um pequeno e escuro túnel.” [in: Os grandes enigmas da vida animal- citação]
Quem diria que bichinho tão decorativo era capaz de feitos tais...
Mas, a verdade é que tendo as características que tem, porque faz cri-cri, tolera-se, desde que não cante demais, porque então irrita, cansa e desassossega. O seu habitat é o campo, embora às vezes apareçam nas ruas dos povoados, onde, logo chamam a atenção.
É que, saindo da erva verde, onde pastam e se escondem, quem os avista logo tenta caça-los o que não é fácil, porque saltitam, mostram-se, aparecem e desaparecem e lá se vão escapando.


Um dos meus sobrinhos, o Luís, quando criança, caçava-os e guardava-os no boné. Quando o víamos rir sem razão aparente já se sabia que eram os grilos a fazer-lhe cócegas na cabeça.
Até dizia que quando crescesse queria ter um filho para lhe chamar – Zé Grilo. Afinal é pai de um João e de um Pedro!
De onde se depreende que há quem goste, e goste muito.
Pois, quem me diria que bicho tão insignificante – pelo menos na aparência – que até diverte as crianças se pode tornar tão agressivo para os seus semelhantes.
Mas, eu vinha falar, não de um insecto, mas de cores e de Liberdade.
O saudoso Senhor Professor Agostinho da Silva, afirmava que a Liberdade era o maior bem do homem.
Os partidos, ditos democráticos, não sei com que convicção, fazem da Liberdade, bandeira, mas cada qual, tenta subjugar os outros...
Porém, sejam os seus símbolos de cor vermelha, rosa, laranja, branca ou às pintinhas, com a visita ao nosso País, de “Hugo da Venezuela” – que pelo que se viu, não faz tenção de se calar e diz o que lhe dá na gana – não restam dúvidas, que a liberdade ao que se confirmou, na nossa era, nasce, vive e floresce nos poços de petróleo, o que torna as cores diferentes com o constrangimento da subordinação à realidade que se impõe.
Assim, qualquer cor, para quem necessita de petróleo, por mais vibrante que seja, será apenas como o preto da asa do triste grilo engaiolado – luto.

 

           Maria José Rijo

      @@@@@

CONVERSAS SOLTAS

Nº 2.945

29 de Novembro de 2007

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:39

Ai deve de ser bom estar louco!

Quinta-feira, 21.06.07

Nada fazer como os outros,

Ser espontâneo !

E tão pouco

Recear a má figura!...

 

Ai deve de ser bom estar louco!

 

Fazer o que dá na gana,

Nada temer, nem ninguém!

Nem bondades, nem castigo,

Que é sempre prémio também!...

 

Ai deve de ser bom estar louco!

 

Fazer o que o pensamento

Como deus absoluto

Nos ordena e nos impõe!

Porque ser louco afinal,

É ser bom e ser brutal ,

Mas é sermos nós, finalmente,

Quando da vida e do mundo,

Tudo nos é indiferente...

Quando os últimos preconceitos

Cedem à nossa vontade...

 

Ai deve de ser bom estar louco!

Dentro da nossa verdade!!!

 

 

 

Poema extraído do livro

... E VIM CANTAR

POEMAS

de

Maria José Travelho Rijo

 

Coimbra

1955

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publicado por Maria José Rijo às 00:25





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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