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Minha querida Democracia

Segunda-feira, 07.06.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1786 – 17 de Maio de 1985

Minha querida Democracia

 

Quando te conheci brilhavas bem intencionada, no rosto de toda a gente, num belo desfile de primeiro de Maio.

Tinhas nascido a 25 do mês anterior e, pelas esperanças que trouxeste todos te receberam de braços abertos e te festejavam.

Pouco tempo depois, já se falava de ti em arruaças, desmandos e roubalheiras!...

Sofreste todos os males de quem nasce bem e, sem preocupações e defesa, caíste nas vielas e em más companhias.

-- Coitadinha!

Falando em teu nome à boca cheia, andavam pelas cidades e campos, gentes meio despidas, mal lavadas, mal cheirosas, “panças” à mostra, chinelo no pé, sem sombra de compostura - o que só te comprometia.

Mesmo quando o M.F.A dizia que saia contigo, era de farda ás três pancadas, em “arranjos” tão desbragados que, se não causassem dó, fariam medo.

Também se gabavam de andar contigo aqueles alarves bebedolas que se exibiam – emborcados de mistura com vinho e cerveja, sobre mesas e cadeiras de estilo, preciosas, (verdadeiras peças de museu) roubadas em casas antigas e palácios – e passeadas pelas ruas dentro de galéras  puxadas por tractores vindos de “montes” espoliados.

Enfim!

- Entre greves, madracices e barafundas tens vindo a crescer comendo fiado e do que havia…

Porém – graças a Deus e à coragem de muitos que te respeitam – ainda não morreste.

No último momento, quando já não parece, por vezes, restar esperança para ti – lá aparece alguém que te reconhece, porque te sonha – te agarra pelos cabelos, te puxa da lama, te lava, penteia e te dá nova oportunidade para mostrares o que vales.

Podemos gostar ou não do Mário, mas olha que se ele não te deita a mão quando o Vasco se meteu contigo “naquelas farras” – tinhas dado o último suspiro nessa altura!...

Mas não é para te falar da “Crónica” que te atribuem (e que tu conheces bem melhor do que eu) que te escrevo.

Faço-o, para comentar contigo o teu comportamento na Assembleia da Republica quando recebemos cá o representante do “Imperialismo”.

Penso que te portaste bem, embora “aquela gente” (que ninguém lá obrigou a ir) tivesse desfilado frente à visita, com as mãos nos bolsos das calças, os casacos desabotoados, como quem sai do futebol – ao sair da Assembleia de todos nós!

Sabendo como sempre tens tido as “costas largas”, vi logo que também te caberia a responsabilidade da descortesia.

Será que lá onde as liberdades são “tão amplas” que são obrigatoriamente vermelhas, isto seria possível?

Penso que não.

Não te roubo mais tempo. Só quero que saibas que achei os verdes, tão verdes, que se lhes não acodem e os livram da gaiola – “o Imperialismo” – que como se sabe, só tem um pensamento – poderia pensar que a história da pomba era alusão “ao milho” que nos falta.

De qualquer modo, acredito na tua boa fé mesmo quando te vejo consentir que encubram com o teu nome atitudes que reprovamos.

Aproveita a experiência do que tens vivido e vai em frente.

Coragem!

Com a esperança e a cumplicidade de quem crê nos outros, porque também se sente gente, afectuosamente “pisco-te o olho”.

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 15:04

Ocupei outra vez!

Sexta-feira, 13.02.09

Jornal Linhas de Elvas

3 – Março – 2005 – Nº 2.803

Conversas Soltas

Reminiscência – 15

 

 

Lá na aldeia, naqueles anos trinta, as mulheres trabalhadoras do campo, carregadas de filhos, de cuidados e de miséria, por vezes, confessavam em lágrimas qualquer nova gravidez dizendo num lamento:”- ocupei outra vez!”

E, choravam.

Choravam frente ao peso dum destino cruel e injusto que as fazia sentir como maldição aquilo que mais amavam: - “ ter os seus filhos, os mocinhos, as criencinhas, os injinhos os enocentes” – que a designação bebé, como a de papá ou de mamã ainda não tinha entrado no seu vocabulário genuíno, onde as palavras pai e mãe eram pronunciadas com a unção de quem dissesse – santo. Era um tempo em que se lhes pedia a benção ao começar e ao findar do dia, não se tratavam os pais por tu, mas sim por senhora ou senhor.

           

Reminiscências...

Não havia retórica na comunicação, as conversas eram autênticas, directas, nascidas dos sentimentos impressos a sangue, a sofrimento nas suas almas como os calos do peso das enxadas nas suas mãos. As palavras não eram pronunciadas com exactidão académica, a sua pronúncia era modelada pela emoção e facilidade de expressão.

Mas uma coisa é a pronúncia certa e a fonética, outra são os sentimentos subjacentes ao que se deseja expressar, e, aí, não havia, nem poderia haver, nem jamais houve, erro.

Aí falava um povo analfabeto mas sábio de vida, formado em raiva (como de si próprio dizia o professor Agostinho) e em privações.

Aprendi a ler – lá – entre crianças com fome de conforto nos olhos – lá – onde esses olhares me marcaram o coração e a consciência com as mesmas cicatrizes que as pedras do chão marcavam os seus pés descalços, chagados de frieiras na dureza dos Invernos que me faziam ter pudor de andar calçada.

Por estas e outras razões, ao ver políticos bem enfarpelados em roupas de marca, neste rescaldo eleitoral a propor à pressa (como com medo que alguém se lhe antecipe e ganhe a maratona)–o aborto -  como panaceia para a negligência social, impõe-se-me o direito e a obrigação da revolta, da raiva que me impele a perguntar:

Como é que uma esquerda que se diz avançada, progressista, pode ter como solução para um problema de ordem social, (já não direi moral, porque isso sendo uma das objecções de consciência dos católicos parece não a tocar) apenas e tão só a solução simplista da pura eliminação do efeito, sem atender às causas?

 Não será esta uma forma, direi terrorista, de tentar resolver um problema tão premente, tão grave que o próprio Papa acaba de mais uma vez o estigmatizar?

Será que a urgência não é lutar para que se cumpram os direitos das crianças?

Será que aqueles que detêm o poder não têm – antes de tudo como obrigação maior - garantir o direito à vida, à saúde, ao trabalho, à educação, ao apoio social, condições de dignidade sem o facilitismo  da eliminação com leis perversas e desumanizantes?

Não será essa, entre outras, uma das funções dum estado de direito?

             

Difícil? – Certamente! - Mas esse é que é o desafio.

Isso é que se pode considerar vanguardismo revolucionário

E, os que sabem “quanto vale um sorriso de criança”, também devem ponderar quanto vale a dor de uma qualquer mulher, quando, mesmo que a coberto da impunidade de uma lei cobarde, tenha tido como única opção eliminar uma Vida dentro de si, transformando o seu ventre fértil num sarcófago.

Antecipar, prever, evitar, são os verdadeiros caminhos do progresso.

Ninguém nasce porque quer, nem é verdade que alguém seja dono do seu corpo, é só pensar:

Vida, beleza, saúde, juventude, quem as retém?

Não há democracia onde nascer não seja um direito de quem foi gerado. Porque a essência da democracia – ao que julgo – é dar voz e protecção aos mais fracos e desprotegidos.      

 

Maria José Rijo

                                                                                                              

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publicado por Maria José Rijo às 20:19

Considerações avulsas

Quarta-feira, 12.11.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.947 – 13 de Dezembro de 2007

Conversas Soltas

 

Começo por agradecer a prontidão da resposta de Miguel Mota, que confesso me aqueceu o coração.

Muitas vezes penso em mim, quase, como uma sobrevivente, tantos dos que enchiam o “meu mundo” já partiram.

         

Dos amigos comuns, que Miguel Mota recorda, conservo um agradável e enriquecedor convívio com João Pinheiro, a quem, para além  do muito de bom que dele se diga, devo a companhia que fez a meu marido ao longo da sua doença e que estes quase dezasseis anos de “distância” não conseguem apagar do horizonte de cada dia.

Outro amigo é o “tal jovem muito habilidoso” – que o tempo transformou no artista notável de que falei – O Cadete.

                              

(Tela de Bento Coelho da Silveira (1620-1708)

 

Hoje celebra-se Nossa Senhora da Conceição – Mãe do Céu – Mãe de todos nós. Padroeira de Portugal.

É dia de festa na cidade. Nunca pensou voltar a Elvas?

Invoco-A, dando-LHE graças e desejando também para si, todo o bem.

  - ECOLOGIA E MODELOS POLÍTICOS

Muitas vezes, mais do que supostamente seria normal, se fosse evidente a honestidade e clareza de atitudes dos políticos, dou comigo a pensar: - afinal que espécie de democracias governam no mundo?

Faço um balanço, penso, comparo e, não sei se encontro alguma em estado de pureza – sem contaminação de prepotência ou trejeitos de ditadura...

Segundo a minha óptica, cada vez há mais monarcas “ auto - proclamados” e, reconheçamos, monarcas absolutos, ou, dissolutos! Vá-se lá saber...

Se bem calhar – ainda - onde há mais democracia é nos países onde as velhas e tradicionais monarquias subsistem.

 

 Os políticos – todos os políticos, de carreira ou ofício – nem sei como os designe, arvoram-se em campeões dos valores da liberdade e da democracia.

Todos.

Porém, mal chegam ao poder, muito embora eleitos pelo povo, arranjam formas mais ou menos encapotadas de se conservarem no comando e agem como soberanos absolutos cerceando liberdades, coagindo e submetendo à sua vontade quem neles acreditou e os elegeu.

Em quase todos eles, é evidente, a preocupação de tornar vitalício um cargo para o qual foram escolhidos – à experiência...

Perseguem quem os contesta.

Tornam-se fundamentalistas ferozes.

Querem ser seguidos como os cães atrás da caça, pelo rasto.

Arvoram-se em infalíveis. Não admitem diversidade de pareceres.

Só reconhecem uma pista – a que eles traçam e trilham.

Consideram-se intangíveis, insubstituíveis.

Chegam tarde aos encontros, às cerimónias.

Ignoram a obrigação do cumprimento rigoroso de horários em espectáculos e exibem, sem pudor, o seu desrespeito por artistas e público fazendo-se aguardar como se deles dependesse o ciclo dos astros e das marés...

         

Brincam aos donos do mundo porque são “donos” do emprego...

Servem-se dos lugares – não servem o seu verdadeiro Patrão – o Povo – que os elegeu e lhes paga.

Nunca pedem desculpa, porque culpados são os outros, sempre os outros, até da sua falta de cortesia, de pontualidade...

Desmentem e calam pela ameaça quem os contesta.

  Usam palavreado cuja “latitude” está ficando tão abrangente, que vai da grosseria galhofeira – de chamar castrado ao povo a que pertencem – perfilando-se eles, como “sementais” corajosos – só – porque dispõem da força de poder que lhes permite ofender “por graça” - até ao “didáctico” discurso - já célebre - de quem , classificou as eleições do seu país – como qualquer um de nós classificaria a sua desfaçatez e educação, se tivéssemos igual privação de decência ...

 

Penso: - porque cada um de nós sacode os ombros com um desinteressado: - não é comigo! - Que já vai sendo opressora a soma das parcelas cujo total todos teremos que pagar – caro – muito – muito caro...

  

 Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 21:36





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

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