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Desejos legítimos

Sexta-feira, 22.08.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.698

de 21- Fevereiro - 2003

Conversas Soltas

 

 

Uma velha Senhora parente de meu marido que conheci e tive por amiga, deu-me certo dia com gestos tímidos mas firmeza no olhar, a fotocópia de algumas folhas de uma revista – com data de 21 de Outubro de 1909 – que se intitulava: - “Seroens Trastaganos”. Deu-me aquelas três ou quatro folhinhas de papel e pediu-me que se eu pensasse que valia a pena, desse ao assunto de que tratavam a publicidade que muito bem entendesse.

Recebo com alguma frequência, “legados” assim ou parecidos.

                          

Como o juiz, que nestas causas decide, sou sempre eu, sem conselheiros nem testemunhas, por vezes, de imediato, arquivo sem hesitações a papelada que me fornecem, outras, guardo-a para pensar e repensar e, ainda que decorra muito tempo, fica-me sempre uma certa dúvida entre o - vale – ou, não- vale- a pena...

E, porque isto de arquivar papelada também obriga, como a roupa fora de uso, a vistorias, não vá o bicho traça-la..., quando menos se espera, na luta contra os bibliófagos que sempre se vão alimentando dos papeis empoeirados e esquecidos nas prateleiras, lá nos vêm parar à mão as mensagens do passado.

Eis, que assim me encontrei de novo com a notícia da morte e relato dos feitos heróicos do capitão de Caçadores nº4 José da Conceição Costa e Silva que uma de suas filhas com orgulho havia religiosamente guardado e em minhas mãos depositou. Acreditava que sendo eu, então, ainda jovem, relativamente a elas, semeava desse modo a esperança de estar a passar o testemunho que salvaria do imediato esquecimento a memória de seu ilustre pai.

Pareceu-me então que não era pressa. Pareceu-me porque quando se é novo todos nos cuidamos milionários de tempo.

Hoje? – Amanhã isso que importa!

Tempo é o que parece não faltar a quem é jovem!

Temer não dispor de tempo é o que mais aflige quem sente, nem sempre ter tido o melhor critério para usar o que já lhe foi concedido...

E, porque reencontrei essa velha papelada e a reli, achei por bem, e por justo, trazer à luz dos nossos dias, o nome esquecido deste homem que mereceu dos amigos como homenagem póstuma a oferta de um túmulo, no cemitério desta nossa cidade de onde ele também era natural.

Em Fevereiro de1896, por subscrição popular a oferta de uma espada de honra (que está depositada no Museu Tomaz Pires), e ser o seu nome afixado em lapide na casa onde nasceu.

 

Da Câmara de então, em sessão de26 de Outubro de 1909, sob proposta do vereador José David Nunes da Silva, ser dado o seu nome à rua de São Pedro.

         E, de Mousinho d´Albuquerque que o propôs para várias das muitas condecorações que recebeu,-  referências, tais como:

“O Costa e Silva, da 1ª companhia, com a omoplata atravessada por uma bala, caiu de costas. Os soldados gritam: ai o nosso alferes! E três da 2ª fila correm para o levantar.

Ele levanta-se, só, corre-os á pranchada para a fileira, e continua a mandar o fogo, até que desmaiou e os maqueiros o levaram para o hospital de sangue.”

E, o relato prossegue: - Quatro dias depois, apesar da gravidade do ferimento, faz a jornada de Manjacaze comandando uma das faces do quadrado que defendia o comboio. Dessa marcha diz o coronel Galhardo na sua Ordem Geral nº 158:.........................................................;” o alferes Costa e Silva, ferido num ombro, aceitou pressuroso o comando duma das faces do quadro que defendia o comboio, e um cabo e dois soldados tendo o primeiro o pescoço atravessado por uma bala, fugiram da ambulância para tomar parte na coluna de ataque

Estas são as referências honrosas da campanha de 1895. Finda a campanha foi Cosa e Silva condecorado com a medalha de Torre Espada, sendo-lhe concedida uma pensão e sangue.

Em 1897, oferece-se novamente para acompanhar Mousinho na campanha contra os Namarraes, tendo tomado parte nos combates de Naguema, Ibrahimo e Mocuto – Muno sendo outra vez ferido no último destes combates.

E, de novo os relatos da sua valentia e heroicidade.

E, a transcrição de louvores e, mais louvores, condecorações e mais condecorações...

E, porquê hoje assunto tão antigo?

Porque se era desejo legítimo de sua filha que a memória de seu pai fosse enaltecida, é justo que a cidade que o teve como filho lhe honre a memória e, não o esqueça.

Tendo eu notado que desapareceram do cemitério as sepulturas, (vou citar Joaquim Tomaz Miguel Pereira, erudito conhecedor da nossa terra)

“Exemplares artísticos bastante significativos e que muitas lápides sepulcrais entre elas as do quarteirão Nº1,o mais antigo, ao cimo e à esquerda da avenida central. Que ostentam, algumas, nomes de personalidades ilustres, ou pelo menos de relevo no seu tempo...”

Sabendo-se que o cemitério de Elvas é dos mais antigos do país, data de1860, fica evidente que assim se amputou, mais uma vez impiedosamente, um importante testemunho da nossa história colectiva, da história da nossa cidade, da nossa gente...

Então, quem me garante que aquele túmulo, que de quando em vez mando limpar, não irá para aí desaparecer um dia destes se for do apetite de algum renovador encartado voltar a fazer tábua rasa da memória dos tempos?!!!

Por isso venho cumprir o desejo legítimo que me foi confiado, e aqui deixar este alerta, na esperança de que se escute quem estuda e investiga, e não se atropele e arrase o que de nós falará.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:01

Entrevista- Qual a sua maior aspiração?

Sábado, 14.06.08

ENTREVISTAS

Alentejo Ilustrado

Nov.Dez. – nº 16

1960

@@@

 

UM CURIOSO

QUAL A SUA MAIOR…

 

Uma poetisa sul-alentejana

 

 

 

 

A poesia está em toda a parte. Não podia faltar a este nosso inquérito.

Ela surge pela boca de Maria José Travelho Rijo, poetisa de fina sensibilidade,

Nascida em Moura e que presentemente reside em Elvas.

Eis o DESEJO maior da Autora de “… E vim cantar”.

 

 

 

-- A minha maior aspiração para este ano é igual à minha única aspiração de cada dia – cumprir.

Como vê – sou muito vulgar – aspiro ao mesmo que toda a gente, por certo.

 

 

 

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:56

POEMA – DESEJO

Sexta-feira, 14.03.08

Que bom seria ser calhau da beira-rio!...

 

Redondo, oval, achatado,

Mas polido, amaciado

Tal calhau da beira-mar…

Sem arestas…

Calhau rolado, rolado…

Por mil ondas e marés!

Calhau rolado, rolado…

Sem destino fixado

No seu destino fatal!...

 

E não ser pedra cortada

Duma rua calcetada

Onde a mesma gente passa…

Que se vê amaciada,

Mas tem ângulos escondidos,

Enterrados, esquecidos…

E só mostra dia a dia

A face lisa e macia!...

 

Maria José Rijo

20-Maio-1954

LIVRO I

…E Vim Cantar

Poema- nº 12

Pag – 71

Desenhos da Autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:56

Não se volta ao passado

Sábado, 16.06.07

Classes inteiras vivem suas infâncias e adolescências par a par.

Criam-se vínculos, raízes, quase dependências afectivas entre companheiros de escolas.

Escolhem-se os íntimos, de acordo com afinidades, simpatias...

Fazem-se confidências, projectos futuros, sonha-se vida e acredita-se que tudo  virá a acontecer de acordo com os nossos desejos.

A pouco e pouco, o tempo vai impondo suas normas. Acontecem mudanças imprevistas e imprevisíveis.

Como as raízes de uma árvore procuram seu sustento ramificando-se de acordo com as possibilidades que o solo lhe oferece, assim, cada qual, se encaminha, e se enreda na vida na procura da porta de saída que o leve ao sonho imaginado.

Divergem as rotas que se haviam julgado comuns.

Acenam-se de longe os que quereriam caminhar lado a lado.

Somam-se os anos.

Somam-se as distâncias.

Alargam-se os intervalos das lembranças.

Algumas perdem-se. Outras persistem, e insistem em povoar-nos de recordações.

Chamamos-lhes saudades!

A elas nos agarramos. São as nossas ancoras. Estamos fundeadas nelas. Presos ali, como que defendidos de todos os males.

Sabemos de onde somos.

Somos dali! Do que retivemos na memória.

São como a nossa casa no tempo. São o nosso passado.

Levamo-las connosco como uma feição, um tique, herdado de família.

Pode a sorte, ou o azar serem a nossa companhia. Não interessa.

Conhecemos cada canto, cada minúcia do que nos enche a alma.

Temos tudo de cor.

Aquele mundo de lembranças é o nosso mundo interior.

Então, um dia, não resistimos. Vamos afoitos em demanda do que julgamos pertencer-nos.

Pula-nos no peito o coração à medida que os nossos passos nos aproximam do almejado intento.

Paramos para ganhar fôlego. Controlamos a emoção.

Seja ao anoitecer, seja a que hora for, a luz não nos desilude. Conhecemos-lhe todos os cambiantes seja em que instante for.

O cheiros também o nosso olfacto os identifica.

Seja o da cal das paredes molhadas pela chuva, seja o da calçada que o calor do sol parece rachar, seja o ar húmido da madrugada, ou a doçura morna das tardes outonais , seja lá que momento for tudo está conforme, nesse aspecto com o que trazemos no coração.

Tudo parece certo. Volta-nos o sorriso, a ousadia, e avançamos.

Na catadupa de abraços com que nos recebem, nos aconchegamos, nas lágrimas de alegria dos reencontros a alma se nos refresca.

As notícias saem em atropelos. As perguntas e respostas também.

Então passada a euforia, olhamo-nos pela primeira vez, de verdade, após tanto tempo decorrido.

O coração, então, balança.

Não são as rugas, os cabelos brancos que fazem a diferença.

Foram os anos, que cavaram o fosso.

Bem se pode chamar à presença tudo que do passado nos lembramos.

Esgotado o impacto do primeiro momento, o passado é um fato fora de uso que não serve mais a quem quer que seja.

Reconhecemos-lhe a beleza, mas está fora de questão usá-lo a não ser como máscara de fingimento.

Há entre ele e o momento actual uma distância intransponível.

Podem os locais persistir iguais, as pessoas não!

Reatar, significa tornar a atar. Significa o reconhecimento de que algo estava partido, separado. Significa que a continuidade estava interrompida...

Significa que entre um dia e outro dia se viveu uma noite.

Significa que se podem revisitar os locais, e, ainda que sejam as mesmas pessoas a tentar recuperar o tempo passado, jamais o poderão conseguir.

Cada instante que passa não volta jamais, e ao passado ninguém volta por muito vivo que ele permaneça no nosso coração.

 

 

                            Maria José Horta Travelho Rijo

                                 Escritora e Poetisa

 

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.727 – 19/Set./03

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:07





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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