Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Um doce pormenor
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1833 – 18 de Abril de 1986
Á Lá Minute
O dia estava chuvoso e frio.
Na igreja, parentes e amigos, atentos à cerimónia juntavam-se nas filas da frente. Não éramos muitos. A saudade da Senhora que nos reunira pela segunda vez no espaço de 7 dias não nos vinculava a qualquer sentimento de tragédia.

Unia-nos um desgosto verdadeiro, mas também um sentimento de paz.
Sabíamos que iria ser muito sentida pela meia dúzia dos habituais frequentadores da sua casa nas tardes de domingo. A sua irreparável ausência.

Todos conhecêramos o seu gosto de receber, as suas observações argutas e engraçadas. Mesmo já depois de muito velhinha – morreu beirando um século – ainda conservava o hábito de ler os jornais e reler os seus autores preferidos.
Exma.Srª D. Ana Julia Nunes da Silva Sardinha
(víuva de António Sardinha)

Enviuvara cedo.
Fora companheira inteligente de um homem ilustre e, porque conservava, até ao fim a lucidez e memória tinha assunto de conversa para quem quer que a visitasse e lhe soubesse merecer simpatia e afecto.

Era distinto o seu convívio e, era enternecedora a maneira como tentava superar a sua debilidade física. Decaia a olhos vistos ultimamente. Entristecia-nos vê-la sofrer. Mas, mesmo assim, sabe-la ali, poder bater à sua porta, entrar nas suas salas, ricas de passado, com aquele cheirinho de casa antiga, sentindo ranger as tábuas do soalho sob os nossos passos, nos sítios já sabidos de cor, provocar-lhe com qualquer dito de espírito uma daquelas pequenas gargalhadas – frescas, como que de rapariga – ou qualquer comentário proferido com uma segurança, que já lhe faltava na voz – dava a todas as suas amigas consolo de alma de quem tivesse Avó de conto de fadas.

- Cedia! Entregava-me.
Foi então, que percebi, que alguém batia ao de leve na porta da igreja.
O guarda atento, ergueu-se prestimoso e, sorrindo, foi abrir.
Com passinho miúdo, entrou decidida uma menina, tão pequena, que batera, por não chegar ainda ao fecho da porta.
-- “Bate sempre”! – Segredou-me o homem, correspondendo ao meu interesse.
Perdi o fio à cerimonia a pensar como a minha Amiga, se visse, teria sido sensível a este doce pormenor, e sai para a rua, enfrentando a tarde agreste com o coração transbordando de ternura pela vida.
Maria José Rijo
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QUEIJADAS

Ingredientes:
-- 1kg de requeijão
-- 12 gemas de ovos
-- 4 claras
-- 0,5kg de açúcar
-- 2 colheres de sopa de farinha
-- raspa de limão e canela
-- 1 colher de manteiga de vaca
: Mistura-se tudo – é o RECHEIO.

PARA A MASSA:
-- 0,5kg de farinha
-- 100g de banha
-- água e sal q.b
Enquanto forra as forminhas, pense em como são lindos na Primavera
os campos do Alentejo, onde os rebanhos pastam docemente.
Maria José Rijo
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ENXOVALHADA

No dia das amassadura deixa-se um pouco de massa de pão no fundo do alguidar, coisa de 1 quilo.
Picam-se e aquecem-se uns torresmos, dos que ainda restam da matança – cerca de 250g.
Sovam-se na massa. Junta-se o açúcar, mais ou menos 250g e meia chávena de leite.
Deita-se a massa num tabuleiro untado com banha beliscando-a por cima para ficar aos bicos.
Polvilha-se generosamente com açúcar e canela, e coze em forno quente.
Com o calor, o açúcar cristaliza e fica a brilhar sobre a massa como a geada, nos campos, nas manhãs frias de Inverno…
Maria José Rijo
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Biscoitos (de Páscoa)

Ingredientes:
- 1kg de pão em massa
- 250g de banha (derretida)
- 500g de açúcar
- 1,250g de farinha (+ ou -)
- Canela em pó (uma colherada)
- Erva-doce – duas colheres de chá
Ferve a erva-doce em duas chícaras de água. Com o chá obtido
e a banha, adelgace o pão
Dê largas à sua habilidade. Tenda biscoitos, cobras, lagartos, pombinhas.
Ponha-lhes olhos de cravo cabecinha.
Pinte com gema de ovo. Dê-lhe alguma espera depois de arrumados nos tabuleiros de lata e coza em forno esperto.
Cheiram e sabem bem.

Maria José Rijo
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NÓGADOS

Os nógados são o requinte na doçaria do Natal de Elvas.
Tendem-se como “grossos e longos cordões de oiro” – ensinavam as velhas às novas que lhes herdavam o saber.
Vão-se estendendo sobre brancos panais.
Fritam-se depois como meadas que se escorrem em grandes passadores.
Partem-se à mão em pequenos troços que misturados com mel de abelhas, em ponto de rebuçado, se arrumam em barras sobre a pedra da mesa, tendo o cuidado de molhar as mãos em água fria para evitar escaldões.
6 Ovos bem batidos com uma colher de azeite frio;
A farinha que embeber para tender 500g de mel.

Maria José Rijo
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FILHÓS

Pelas Festas, no sossego do serão, quando a criançada já dorme, as famílias juntam-se para preparar o milagre da fartura frigindo as filhós que, tenras de gordura, gostosas de vinho e sumo de laranja, se hão-de derreter na boca, salpicadas de canela ou besuntadas de mel: 2 chávenas de banha derretida: 1 chávena de sumo de laranja; 1 chávena de vinho branco e a farinha que embeber até tender com o rolo.
Recortar com a carretilha e fritar em azeite fervente.

Maria José Rijo
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AZEVIAS

Para as azevias – use a massa das filhós é fácil de estender.
Pode rechear com grão cozido, pelado e passado – igual porção
de açúcar e meia dose de amêndoas (se tiver).
Quando o açúcar estiver em ponto de pasta leva o grão (e a amêndoa); quando fizer estrada sai do lume e arrefecerá um pouco para se lhe juntarem as gemas bem batidas (
Coze um nadinha.
Perfuma-se com raspa de limão e canela.
Serão também empoadas depois de fritas com açúcar e canela em mistura a gosto.

Maria José Rijo
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Fatias Douradas

Vai-se mergulhando o pão, já fatiado, em leite quente e
depois em ovos batidos temperados com uma pitada de sal.
Fritam-se depois as fatias em óleo fervente e polvilham-se
com uma mistura de açúcar e canela.
Podem também regar-se com calda de açúcar perfumada de
baunilha, calda de frutas ou mel.

Maria José Rijo
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Sericaia

Ingredientes:
8 ovos
0,5 de leite
250g de açúcar
50g de farinha
Canela
Casca de limão
Modo de Fazer:
Batem-se as gemas, junta-se-lhes o açúcar e torna-se a bater.
Pouco a pouco adiciona-se a farinha e depois o leite, também aos
poucos, e a casca de limão.
Depois de tudo batido,vai a lume brando mexendo-se sempre.
Quando o creme estiver espesso deixa-se arrefecer um pouco antes
de se lhe misturarem as claras em castelo.
Em colheradas desencontradas uma a direito outra de atravessado,
alternadamente, deita-se toda a massa num prato que possa ir a forno
esperto, depois de polvilhada generosamente em canela.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia Doces

Colecção de Gastronomia
SABORES DE SABER HERDADO
Os DOCES populares
de
"DIAS de Santo e Nomeada"

Sem dúvida, os doces de tacho e as massas fritas, por lhes bastar apenas lume de brasas ou labareda de gravetos, enchapota ou chamiços para a sua cozedura, foram, desde sempre, as gulodices de preparação mais acessível e portanto as mais vulgarizadas.
O arroz doce, o leite-creme, as fatias douradas os nógados e as azevias, tornaram-se assim património gastronómico comum a todo o povo.
Para os bolos de lata as famílias modestas recorriam aos fornos das povoações, onde, mediante o usual pagamento da “maquia” aos forneiros, costumavam cozer semanalmente o pão da amassadura.
Alinhavam-se então, sobre o poial do alpendre (que protegia de chuvas e ventos a boca do forno) esperando que se lhes criasse espaço quando a fornada fosse “mexida” e o calor descaísse: - enxovalhadas, biscoitos, broinhas ou queijadas que incensavam o ar já cheiroso de pão quente com laivos a canela, erva-doce e raspas de limão.
No culto de tradições, especialmente em meios pequenos, na província, revivendo a memória de “sabores de saber herdado” se vão festejando ainda hoje – entre famílias – Natais e Páscoas “Dias de Santo e Nomeada”.
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Edição Patrocinada pela
Câmara Municipal de Elvas
Serviços de Turismo
( 1986 -- 1989 )


