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Vou pensar …

Sexta-feira, 10.04.09

Á LÁ Minute

Nº 1741 – 29 de Junho de 1984

Jornal Linhas de Elvas

 

Distraidamente, escutava o noticiário, enquanto relia de Fernando Pessoa – “O Mostrengo”.

               Adamastor, escultura de Júlio Vaz Júnior e foto de Reinaldo de Carvalho.

“Á roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: - “Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo meus tectos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse tremendo:…”

 

O noticiário distrai-me. Como que intrometendo-se o locutor diz: o partido comunista ameaça…

Sempre o mesmo! Penso e volto ao poema um pouco ao acaso.

                      

“…-De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?

- disse o mostrengo, e rodou três vezes, três vezes rodou imundo e grosso.

-“Quem vem poder o que só eu posso, que moro onde nunca ninguém me visse e escorro os medos do mar sem fundo?”

E o homem do leme tremeu e disse:…

                

A voz do locutor volta a interpor-se propagando a notícia que parece emocioná-lo:

O bloco central treme! A coligação treme!

O partido comunista acha que o governo deve cair!

Não quero pensar no que ouço!

Volto ao poema, volto ao homem do leme que o mostrengo ameaça.

             

“… três  vezes do leme as mãos ergueu, três vezes ao leme as repreendeu e disse ao fim de tremer três vezes:

-“Aqui, ao lume, sou mais do que eu:

Sou um povo…”

 

Ergo os olhos do livro saboreando o que li. Fixo sem dar por isso o rosto do locutor que faz a súmula do noticiário:

O governo acusou o partido comunista de destabilização. A coligação treme! O ministro disse…

            

“… Aqui ao leme sou mais do que eu

Sou um povo… e mais do que o mostrengo, que minha alma teme e roda nas trevas do fim do mundo manda a vontade que me ata ao lume…”

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Decididamente é difícil ler poesia e simultaneamente ouvir o noticiário.

Fixo o meu olhar no dedo espetado do ministro que parece agora no “ecran” da televisão:

“O governo foi eleito por sufrágio popular e se o povo português repudiou certos partidos…”

- Quero só pensar no poema que vou já sabendo de cor:

“…Aqui ao leme sou mais do que eu

Sou um povo

e mais do que o mostrengo que me a alma teme manda vontade que me ata ao leme…”

 

“do povo que nos manda” – remata o ministro.

Fecha a televisão e não leio mais hoje.

Vou pensar…

 

Maria José Rijo

       

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:39

'Sinto a saudade mais perto'

Sexta-feira, 04.07.08

CONVERSAS SOLTAS

 3 de Julho de 2008

Nº 2.976

Jornal Linhas de Elvas

Fernando Pessoa,

 

'também' escreveu sobre os sinos. Aliás na nossa literatura, muitos poetas e prosadores dissertaram sobre esse tema.
Alguns, limitaram-se a fazer-lhe referências, quando retratavam costumes das nossas gentes e, sempre que de temas campestres se falava, lá vinha a referência ao toque das Avé-Marias por ser das tradições mais arreigadas na alma do nosso povo.
Assim ao correr da conversa, ocorre-me por ser alentejano, o Conde de Monsaraz, no célebre poema ;- Tragédia Rústica .


'Quando o sino batia
As doze badaladas do meio-dia,
O trabalho parava.
E todo o bom católico rezava,
De cabeça inclinada e olhos no chão,
Um Padre-Nosso e uma
Avé – Maria,
Com o chapéu na mão. ‘
[Este escritor viveu entre 1852 e 1913]


O sino, é uma referência sempre presente na nossa cultura de católicos.

O sino, quase pode dizer-se, que, se não comandava, pelo menos pontuava a vida de aldeias, cidades e lugares.

sino1.gif
Até nas lendas com que se entretinham as crianças, quando a cultura era mais oralizada lá vinham as referências aos sinos:
'Tocam os sinos da torre!
Ai, meu Deus - quem morreria!?
- responde o filho de colo que inda falar nem sabia:
- morreu Dona Silvana pelo mal que fazia
- descasar os bem casados, coisa que Deus não queria'


Os sinos tocavam a rebate nas desgraças.
Os sinos repicavam nas festas.
Os sinos 'dobravam ' nos funerais...
Os sinos, sempre foram e são os anunciantes dos actos religioso que regem as nossas vidas de católicos.
'Foi a enterrar, como um cão, nem o sino tocou', dizia-se também nas histórias para execrar o comportamento dos bandidos e proscritos.
E, estas referências, passam de geração em geração, agarram-se

à nossa alma, fazem parte dela e entram nos nossos costumes

mais queridos.
- Vê se ouves o sino para irmos ver a noiva a sair da Igreja...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos à Missa ou à novena...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos ao funeral...
Mas o sino do cemitério de Elvas, não tem espalhado pelos ares a notícia da dor que até aqui sempre anunciava...
- Vêm perguntar-me porquê? - que não entendem - queixam-se...
- Não sei. É o que posso responder.
Mas, posso relembrar a todos, como Fernando Pessoa falou dos sinos. Para que se entenda que o assunto não é de brincadeira...

 

 

 

 

Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida

Por mais que tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho
Soas-me na alma distante

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto
Sinto mais longe o passado
Sinto a saudade mais perto

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publicado por Maria José Rijo às 12:17

“O Mostrengo”

Quinta-feira, 24.04.08

A gente é vária e consequentemente as opiniões também.

Qualquer novela desde que se lhe torne conhecido algum capítulo ou apenas bocado de entrecho fica, desde logo, sujeita a intervenções alheias pressionando o autor.

Vem um e interroga: - então agora o que lhes dizes? – Não dizes nada? – Não comentas?

Vem outro e adverte: - cuidado, cautela, olha que até com Bruxos e Feitiçarias andam metidos!

Pensa, reflecte bem, se valerá a pena! - Olha os riscos!...

Mal se ouve tal comentário, até Portugal inteiro reagiria, num reflexo, como por instinto, com o verso de Fernando Pessoa (que já fez seu, sem disso se dar conta) -“ Tudo vale a pena se a alma não é pequena”

Desiste! – Insiste Insiste! Desiste! – São os conselhos contraditórios que, como é da norma, todos escutamos.

O telefone toca e, inesperadamente, uma voz feminina ameaça:...

- E desliga.

-          É diferente o silêncio que se restabelece – é mais opaco...

-          (O romance está a tornar-se Vida - pensa o autor)

Quer dizer, as coisas ganham tais foros de realismo que se confundem os actores com os papéis que representam e as causas que defendem...

Qualquer protagonista de qualquer história tem de saber situar-se no meio do enredo dela, mesmo que em ficção a esteja a viver.

E, tem que ter um rumo, uma linha de pensamento e de acção se quiser que as suas personagens tenham credibilidade.

Pessoalmente, estou até convencida de que toda a ficção tem de ter os pés bem assentes na realidade para ser convincente.

Sempre os contos de fadas, e até recentemente a história mágica do Harry Potter, têm seguido a mesma linha. Peripécias e mais peripécias, bruxarias e mais bruxarias ao serviço de interesses e intentos vários – inconfessáveis, talvez! - e, depois, contra malefícios e perfídias  o triunfo do Bem, da Justiça, do Bom Senso e  da Razão .

Só com essas coordenadas bem delineadas o entrecho comove o grande público, é autêntico, e convence. 

É que a ficção manobra-se - a realidade  - não.

Ela impõe-se.

Domina. Comanda.

Cria e mata conforme decidir quem do alto diz: “ no meu reinado...”

Felizmente, por cá, desde 1910, como Republica, tentamos agora viver em Democracia.

Falemos então de nós:

Uma coisa é pôr e sobrepor o mesmo nome a tudo, melhor ou pior, que mascare a inferioridade e o desperdício com fachadas de grandeza – outra - é invocar um Santo para encobrir a afronta gratuita, o pecado da perseguição pessoal, do gozo perverso da humilhação que se inflige a outrem, da sanha de vingança e outros sentimentos menores por muito encapotados ou, até, mascarados de loiras fadas que se apresentem...

Até o próprio Santo, que, como todos os Santos, vê os corações e neles lê, frente a homenagem tão temporã, como mal intencionada, poderia ter dito como o povo repetiu: - engana-me que eu gosto!...

              Mostrengo que está no fundo do mar

Ainda que em qualquer episódio da novela eu possa sair da ficção para a realidade, ou, talvez por isso, como a minha escrita é o leme com que traço a minha rota, fico com Fernando Pessoa e aprendo, reaprendo e repito – firme - com o Poeta, as falas frente ao Mostrengo:

 

“ Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o Mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!”

 

 

 

                                  Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.891 – 9 de Novembro de 2007

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 01:08





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