Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Uma surpresa agradável
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.961 – 20 de Março de 2008
Conversas Soltas

Muito recentemente, tomei conhecimento de algumas directrizes novas, que a igreja vai implantar nas manifestações de culto.
Não sei se todas elas terão concretização, mas tudo quanto ouvi me pareceu absolutamente razoável, inteligente e justo.
Por acaso, uma delas, desde há muito tempo que eu pensara que deveria ter sido imposta.

É justamente a que se refere ao tamanho das homílias, que com frequência são tão extensas, que esgotam a capacidade de atenção, mesmo dos mais devotos.
Então, nas minhas idas a Fátima, raramente, não me surpreendia o alheamento de quem falava, relativamente ao desconforto de quem movido pela Fé, pacientemente, por vezes à chuva, outras sob tórridas temperaturas, não arredava pé, escutando.

Quantas, e quantas vezes, era imposto aos peregrinos, pela longa homília, o sacrifício que chegava ao desmaio, para alguns, menos resistentes, de estar de pé em adversas condições atmosféricas, como se não fosse obvio, mesmo a um olhar de relance que, ultrapassados os limites do razoável, o que impera na assistência é o cansaço e a desatenção.
Não posso dizer que o Papa Bento XVI, me surpreendesse, com este olhar piedoso sobre o povo de Deus que reza, sofre e chora e se verga sem revolta ao sofrimento.
Não. Não posso.

Apenas me admirava que tal medida não tivesse sido prescrita por ele próprio, ou, por qualquer dos seus antecessores, há muito tempo.
Mas, nem tudo lembra a toda a hora, e medidas destas quando chegam, como todas as medidas de justiça e amor do próximo – mesmo tardias, são sempre bem-vindas, até porque Roma e Pavia não se fizeram num dia...
Quis Deus, que tivesse sido permitido, a um grupo do qual fiz parte, ver o Papa no seu palácio de férias em Gandolfo e escuta-lo, bem de perto, no Verão de 2005.
Habituados que todos estávamos à voz possante de João Paulo II, sentimos a diferença no confronto com o tom doce da sua voz, e a fragilidade da sua pequena figura.
Nenhum Homem é igual a outro Homem.
Nenhum Papa é igual a outro Papa.
Mas quem quer que ele seja – representa o nosso único Deus.
Ninguém substitui ninguém, mas, quando, quem, estando acima, olha em seu redor, com misericórdia, até nestas minúcias, quando um Papa abençoa “também” o ursinho de peluche de uma criança doente, ou, como assistimos, volta à sua janela para pedir desculpa pelo lapso e abençoar, um grupo que não nomeara, teremos que concordar que é com um humaníssimo olhar de Pai, que se nos dirige e dar graças a Deus por ele.

Uma Santa Páscoa para todos.
Boas – Festas.
Maria José Rijo
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Requiem por um Rio – Noticias de Juromenha
Dias 5 e 6 de A gosto – ou seja: sábado e domingo próximos – Juromenha vai reviver a sua tradição de honrar com festejos religiosos e populares a Santa Padroeira da sua Igreja e povoação.
Assim, oferece às pessoas que durante todo o ano, lá habitam e por lá labutam, dois dias de intervalo no rame-rame das suas honradas vidas modestas e pacatas para de forma mais alegre e aberta conviverem.
De todos os lados chegam familiares, forasteiros e amigos, por esta altura do ano.
Vêm matar saudades e abrilhantar as festas.
Fazem-se touradas, petisqueiras, solta-se fogo de artifício. Dá-se largas à alegria.
Baila-se nas ruas. Conversa-se e ri-se.
Vivem-se revivendo-as, amizades, tradições, recordações comuns.
Mas… se as festas têm o nome de Nossa Senhora do Loreto – a cujo culto – o nosso rei D. Dinis consagrou a então muito importante Praça de Juromenha – lá por esses longínquos, séc. XIII/XIV – a componente religiosa a tudo o mais se sobrepõe.
No Sábado, dia 5, ás 16 horas, a Missa será celebrada por alma dos filhos da terra que Deus já chamou a si.
No domingo, dia 6, às 16.30 será a Missa solene seguida de procissão.
A vila é pequena. Aninha-se num alto, à sombra dum castelo, como nos contos de fadas. Vale a pena ir espreitá-la!...
A procissão, segue o percurso dos passeios turísticos de qualquer forasteiro.
Afasta-se um pouco das casas e caminha pela estradinha modesta que se desenha entre os campos e a Fortaleza – separando-os.
Cenário constante do quotidiano dos seus naturais.
Depois, lá ao fundo, num pequeno largo do Arrabalde de S. Lazaro – dá a volta para mostrar o rio à mãe de Jesus e regressa pacatamente ao povoado para repor a imagem no seu altar – que o seu culto – esse - está entronizado no coração de toda a população.
A Banda, solenemente toca e o sol acende faíscas, como brasas, nos metais reluzentes dos instrumentos musicais…
Só que, este ano…
Este ano – não há rio!
No seu leito vazio – como numa cama de hospital, onde a morte recentemente tivesse passado, restam as marcas de quem a ocupou – então, neste caso, metros sem fim de grossas mangueiras a dar testemunho das tranfusões que o rio suportou até exaurir.
O rio foi sugado até dele restarem apenas poças, como rastos de chuvadas em terras de lama, ou manchas de sangue em locais de crime.
O rio foi morto na pátria onde nasceu vítima do uso desabusado do seu sangue – a sua água.
Nas suas margens, glorificando o crime, vicejam exuberantes pomares cuja sede excede as generosas capacidades de dádiva do rio.
Na geografia da Península – aprendia-se assim:
Guadiana – nasce na Lagoa da Regedora em Espanha e corre, beneficiando terras, gentes e bichos, até ao Atlântico, que encontra
Os seus afluentes principais, no nosso país são, Xévora, Ceia, Degebe, Vascão e Odeleite na margem direita. Na margem esquerda: Ardila e Chanca. Porém …
Em nome de um desenfreado progresso – Será progresso, meu Deus? – O Homem que inventa necessidades que ultrapassam as suas reais necessidades e, até, a generosidade da terra, do mar, dos rios da própria atmosfera – tudo modifica.
Prende os rios.
Sufoca-lhes o destino.
E, em lugar de neles se deleitar, pescar e dos rios beber – bebe-os!
Inverte tudo.
Brinca aos deuses.
Faz pomares em terras de Oliveiras sóbrias e chaparros protectores da humidade dos solos…
Determina as árvores que são proscritas; como se alguma vez, alguma árvore, não tivesse sentido de existir… e, delirante, glorifica o excesso de outras.
Se em democracia se afirma que as regalias de um indivíduo acabam onde começam os direitos de outro indivíduo…
As regalias de todos os habitantes do planeta acabam, necessariamente, onde começa a perigar o equilíbrio da própria Natureza.
É tão lógico, tão evidente como: não estender o pé além do lençol – coisa que o Povo ensina, apenas, por intuição.
Requiem por um rio, que morre com seus peixes, seus cágados, seus mil bichos de água…
Requiem por um rio, que Deus criou também para embelezar a vida espelhando, árvores, tufos de loendros, céus, sóis e luar e, do céu, beber as chuvas.
Requiem por um rio, onde o gado bebia, de onde os pobres sustentavam o verde dos seus hortejos nas margens… e perfumava as noites quentes do Alentejo com cheiros de hortelã, mantrasto e poejos…
Requiem por um caminheiro que sonhava o mar e, a má-fé, cruelmente interrompem o seu destino…
Mas… Requiem, também, pelo Homem que quer aprisionar o sonho de seu Criador para o acomodar à sua precária medida.
Ámen!
Maria José Rijo
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Acabei de regressar...
Olhem as coisas que ela descobre! E com que cuidado tem coleccionado papelada, retratos, tudo...
É justo que as minhas primeiras palavras de agradecimento sejam para ela e que as estenda a todos com um beijo de Boas Festas e de afecto pelo encanto que o vosso convivio tem emprestado à minha vida.
Bem à moda alentejana - aqui vos digo que "nã tenho boca avondo qu'encareça!- o mimo que me dão.
Bom Ano para todos
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Boas Festas















Encontrei, por acaso, num livro que um Amigo me emprestou um pensamento de Horácio, que é, para mim, dos poemas mais belos que já li.


Vou transcrevê-lo e, deixá-lo aqui como presente de Natal para todos os Amigos- assim os considero- que com os seus comentários me têm feito sentir que, de algum modo, todos somos muito mais irmãos na forma de olhar a Vida, do que por vezes queremos admitir.

Para
Dolores e seu Marido, Gustavo Frederich, Flor do Cardo e Dina com quem privo dia a dia e, para todos os demais a quem devo a atenção do sinal de presença

um abraço grande de Boas-Festas e um beijo agradecido
"Como el almendro florido
has de ser en los rigores
Si un fuerte golpe recibe,
suelta una lluvia de flores"
Maria José Rijo



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EU HEI-DE IR AO PRESÉPIO
Há sensivelmente cinco anos, um frágil rapazinho, muito aprumado e impante de satisfacção,veio bater à nossa porta para anunciar a chegada do irmão.
Fê-lo de forma tão linda que a frase que proferiu, fez circuito entre a nossa família e amigos: - “Venho dizer que já tive um menino”.
Agora, esse que então chegara à vida e assim fora anunciado de forma tão luminosa como se fora a estrelinha de Belém…
Esse, veio até mim, com a graça própria dos seus escassos anos e, o também próprio, encanto de qualquer criança fazer-me um convite:
== Venha ver-me na festa de Natal da minha escola! – Escola que identificou como sendo a da Fafita, da Celeste e da Isabel.
Fiquei também a saber que os meninos todos faziam “coisas” e as famílias e amigos eram convidados para assistir e para o convívio no final.
Deliciada aceitei e fiquei a aguardar o acontecimento com o coração flutuando em ternura.
Da forma mais inesperada, mas, talvez, mais doce possível – o Natal – tão arredio da minha vida, agora, viera bater-me à porta pela mão de uma figura do Presépio.
Quem me lembrara era justamente alguém, que me disse ser – na dramatização do Nascimento de Jesus – uma ovelhinha.
Perante tanto encanto e inocência senti que o Presépio por inteiro voltava a encher os meus dias tão cheios de lembranças e saudades.
E, tive consciência de que no mais fundo da minha alma me nascia um sorriso tão bom como se eu fosse terra e me nascesse uma flor.
É verdade que continuam os mesmos noticiários…
Guerras, guerras, guerras e mais guerras, flagelam a humanidade e não se lhes vislumbra o fim.
Problemas de secas e chuvas e águas de rios indevidamente represadas, tornam vizinhos em potenciais inimigos…
Injustiças, geram greves…
Ganâncias, geram falcratuas…
Falcatruas geram revoltas…
Revoltas, geram violência...

E, como o cão, que com a boca, morde a ponta da própria cauda, presa de si própria, roda a vida, e roda, e roda, roda…
Numa Europa onde os governantes, coroados de tantos louros que lhes ofuscam a visão, passeiam as suas ambições pessoais, na procura de sucessos de carreira, olimpicamente indiferentes a tudo que não seja o próprio êxito… quando já não se vislumbra, sequer a solução para os humaníssimos anseios de quantos, pelas suas mãos, dia a dia construindo o bem estar de todos, sustentam o sistema e calam o sonho…
Quando até nas aldeias mais remotas do nosso País – o Natal – vai sendo gradualmente transformado num arraial folclórico, esvaziado de sentido…
Quando as televisões oferecem ao domicílio – por atacado – a fúria de comprar, o luxo e a ostentação, que encobre a ternura sublime – da maior Festa de Amor do Mundo – que tentem reduzir à dimensão e valor de prendas…
Quando um quotidiano rotineiro e difícil, empobrecido de valores verdadeiros quase nos rouba o gosto de pensar e nos vai privando do encanto de viver…
Na luz deslumbrada de uns olhos de criança, ávidos de descobertas, surge a alegria de se anunciar – cordeirinho, ou pastor, ou rei, ou s. José, ou Nossa Senhora – não importa o quê!...
Importa apenas – e, daí, as estrelas nos seus olhos – fazer parte – entrar na representação.
Encaixar no todo.
Como pedra ou estrela completar o quadro.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Renasce com a força do Natal.
Lá fui.
Fomos – a família e eu também.
Agora, no rescaldo, não resisto ao gosto de contar.
Foi uma maravilha.
Ajeitamos os nossos “tamanhões” às cadeiras feitas à medida das crianças.
Assim começamos a descer do nosso poleiro de “adultos”, de “grandes”, para a dimensão sem medida da infância que nos lembra como é bom ser feliz com simplicidade.
Comecei a observar em redor.
Eram todos lindos.
Ás vezes, um qualquer pormenor prendia-me a atenção. Dei comigo a “recordar” agora vestida de saias e com laços uma figurinha loira que eu vira (ontem?) parecia-me que sim – mas vão 3 dezenas de anos – igual, mas vestindo de menino, golinha branca, calção azul e a cabeça assim, tal e qual cheínha de caracóis.
Procurei com o olhar resposta para a “confusão” e o Pai que eu reencontrara na filha – estava lá.
Na espontaneidade de outros, nos olhos, nos risos, na alegria – surpreendi-me a reencontrar, esta, aquela, a outra… que lá estava também.
Não admira.
Era a festa do futuro da nossa terra.
E, as Lauras, os Eduardos, os Ricardos, as Andreias, as Rutes, as Margaridas, as Anãs e os Pedros – nascidos das raízes desta cidade são parte do Natal do futuro deste País.
Era uma festa do futuro cantada pelo Presente.
Não era espectáculo pago.
Não exigia fatiotas arrebicadas.
Era “apenas” – o que era…
E, se é verdade que ninguém precisa equipar-se especialmente para ver o mar, o céu, o nascer do sol ou o pôr-do-sol, um rio a correr, uma árvore em flor ou derreada ao peso dos frutos, pássaros a voar – e, tudo o que mais que não é pago porque não tem preço…
Se para estas “pequeninas” grandes coisas, é apenas necessário sentir a vida de que fazemos parte…
Apetecia-me ter voz para fazer chegar aos “grandes” do mundo aquela modesta quadrinha de Natal que o Sr. Padre Ramiro incluiu no repertório do Coral da nossa cidade:
Eu hei-de ir ao Presépio
Assentar-me num cantinho
Para ver como Jesus
Nasceu lá – tão pobrezinho
Maria José Rijo
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Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.330 – 22-Dezembro – 1995




