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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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Partidos, partidas e desafios

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1732 – 27 de Abril de 1984

Partidos, partidas e desafios

       

Depois de se terem separado e repartido por partidos com a mesma cega paixão clubista, o mesmo entusiasmo com que militavam nos velhos futebóis – tinham adeptos das diferentes cores – que se alhear, por cansaço, dos novos desafios, ao reconhecer a evidente falta de lógica com que decorrem as modernas partidas…

       

Não que se negue a semelhança que persiste… continuam as negociações… não se recusa compra ou venda… fazem-se cálculos sobre os resultados possíveis depois das novas aquisições… estudam-se surtidas pela direita… e pela esquerda… calculam-se avanços e recuos…

          

Pára-se, jogo ao centro … multiplicam-se ataques e contra ataques… há cargas! Há caneladas! Jogo alto e jogo rasteiro… toques duvidosos em áreas perigosas…

Sofrem-se impensadas lesões traiçoeiras… exibem-se vistosos lances individuais a procurar o ângulo certo para o pontapé ou a cabeçada que gera o golo almejado…

      

Caiem jogadores no campo. Precipitam-se ávidos os possíveis substitutos. Surgem os estímulos de circunstância – as palmadas nas costas, as palavras encorajantes, os apoios…

Há perdas e recuperações imprevistas. Aparecem ameaças nas cores com que se acena – amarelo – vermelho! Alguns mudam com o aviso e reencontram o equilíbrio no jogo. A outros nada os detém.

      

Há rubros de raiva. Há cores de medo.

Realmente as leis não mudam…

Porém no futebol tradicional o jogo – o tira teimas – é à frente de todos num rectângulo limitado, e a assistência julga, aplaude, apupa, em cima da refrega. Vê perder e ganhar – “ganhava ou perdia” – sabendo da lealdade da contenda – da sorte – do acaso – que sempre conta, também.

Nos novos “futebóis” é tal a subtileza de meios e intenções que muito embora se “goze” em directo da vista de certos lances, perde-se o fio à jogada e vêem-se tropeçar e cair jogadores com tal rapidez que as cores se baralham, não se notou a rasteira, e não se percebe de imediato onde começou ou vai acabar a jogada. Mas… o resultado fica a evidencia.

       

Não admira pois que o povo saiba distinguir entre “futebol” e “futebóis” e soberanamente decidida quando quer que o apito mude de boca…

 

Futebol é uma festa

“Futebóis” uma festança

Já que o povo anda na roda…

Que ao menos comande a dança.

 

 

Maria José Rijo

 

 

Grão a Grão

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.918 – 11 de Dezembro de 1987

 Grão a Grão

 

Tinha um projecto em mente, distraía-me a olhar para a televisão, perdi o fio à meada e dei comigo a fazer comparações entre coisas de ontem e hoje.

Do ponto de vista da técnica e da ciência, o distanciamento para melhor é incomensurável, mas do ponto de vista do comportamento do homem em termos de civilidade tende-se para o mesmo grau de distanciamento, porem, em sentido negativo.

    

Ouvem-se coisas impensáveis ditas em publico com uma naturalidade arrepiante, como ainda há pouco tempo,o que escutei só atribuível a insensatez ou má educação. Agora parece, que se chama a isso franqueza ou, se calhar, coragem.

Ainda não percebi.

O que percebo, vejo e escuto é que estas coisas acontecem tão frequentemente que já nem se vai dando por elas.

Um técnico de futebol, ao dar a sua opinião sobre um outro disse e repetiu que, esse tal era uma “besta”.

        

Penso que esta definição simplista apenas informou sobre a descortesia do próprio entrevistado e que toda a gente alheia ao meio, como eu, nada mais entendeu do despropósito.

As pessoas que vão a televisão, seja porque razão for, deveriam usar uma certa contenção de linguagem.

Ao dizer-se de um indivíduo que é cruel, desonesto, desleal, vingativo, incompetente, qualquer ouvinte ficará com a noção da falta pela qual ele é acusado.

Tendo como informação de que o visado é uma “besta”, fica-se com a noção de que quem insulta em lugar de informar, nada esclarece e dá mau testemunho porque dá mau exemplo.

      

Não me digam que estas coisas não têm importância porque é da soma das pequenas cedências que provem o clima do relacionamento entre as pessoas e, como tal, a qualidade das nossas vidas.

Especialmente no futebol, onde a linguagem é tantas vezes a semente da violência, parece-me que o treino da moderação poderia fazer parte das virtudes do desportista.

 

Maria José Rijo

 

Não resisto!

Não resisto à tentação de me imaginar treinadora de futebol!

Não, logicamente, treinadora mixoruca, dessas que não conseguiriam jamais ganhar trinta e cinco mil contos por mês!...

Falo em contos porque o euro é a moeda actual que escasseia nos bolsos do comum dos mortais e, que, por conseguinte, não tem o poder de alimentar a imaginação como a palavra “conto.”

Por acaso, pensei, agorinha mesmo que nós os portugueses temos uma capacidade imaginativa fora do comum.

Senão vejamos: - onde teríamos nós ido desencantar a designação de conto para a defunta nota de mil escudos?

Se a moeda padrão era o escudo, e as notas, ao longo dos tempos que a nossa tradicional moeda circulou, eram referenciadas em escudos; vinte, cinquenta, cem, quinhentos, mil, porque cargas de água, as milenas, (como aos trabalhadores do campo, também lhes ouvi chamar), ganharam a referência de contos?

Juro que não sei, nem jamais ouvi quem quer que fosse explicar o porquê dessa designação.

Pessoalmente, acredito que por serem as mais poderosas antes do aparecimento das de cinco mil e dez mil - e porque o seu “ reinado” de mais poderosas, foi longo -  teriam entrado no reino da fantasia, como uma miragem ou um sonho: - um conto...

Também, coitadas, quando partiram para o reino das lembranças, como recordação do povo que somos, já iam tão desvalorizadas, tão sem importância, tão sem poder de compra que me conforta pensar que elas próprias ficaram gratas por sair da circulação antes de serem apodadas de “conto do vigário” por já não prestarem para quase nada...

Penso isto porque sempre traziam gravadas em si, figuras de relevo da nossa história de aventura pelos mares, de reis e de rainhas, da nossa veia literária e poética, da política, da ciência, etc...etc...

E, ninguém pensa em gente desta, célebre por seus feitos, a fazer a triste figura de não ser capaz de pagar o que deseja e precisa comprar...

Isso era desacreditar injuriosamente o seu prestígio...

Mas adiante, que hoje, o que me surpreende e me leva ao mais desvairado espanto, também tem um símbolo redondo como o mundo, mas – é uma bola!

Quem diria que daí, desse mundo, me viria a ponta da meada que nos abre às vezes inesperadamente as portas da fantasia.

Mas, foi.

Saber que uma soma vultosa como um prémio de totoloto pode ser a verba acordada para pagar – mensalmente -  um treinador de futebol, provoca em mim, um espanto de tal ordem que temo faça explodir a minha capacidade de encaixe de suportar emoções violentas.

Pensando bem, depois de reler o que escrevi, não é razoável que eu tema assim pelo receio de ver o meu queixo caído!

Não, não é justo!

Se o meu queixo ainda não desencaixou, tendo eu conhecimento de tudo o que por aí vai em todos os sentidos... e se também não me matou o espanto de saber quanto é um salário mínimo, ou, do número de pessoas que não têm salário algum, porque me havia de acontecer agora algum mal com os trinta e cinco mil contos por mês que vai receber um treinador de futebol!

Somos indiscutivelmente, gente forte!

Gente que aguenta muito!

Gente que aguenta tudo...

Ou, então, rezemos como me ensinou um saudoso Amigo: - Livrai-nos Senhor daquilo que nós somos capazes de aguentar!...

.

Maria José Rijo

.

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 Crónica

Nº 23 -- Nov./ Dez. - 2002

 

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