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As gavetas da memória

Sexta-feira, 11.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006
Conversas Soltas

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As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

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A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

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Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

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Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

HÁ TAMBÉM AS GAVETAS PRAZEROSAS, SÃO AS DO BRAGAL, COM SEUS BORDADOS E RENDAS DE ENFEITES, SEU CHEIRINHO DE GUARDADOS, COM RESSAIBOS DE ALFAZEMA, TÉNUES, COMO LEMBRANÇAS VAGAS, DAS MÃOS HÁBEIS DE QUEM AS URDIU PACIENTEMENTE E, AGORA NOS APARECE NUMA MISTURA DE ENCANTO E SAUDADE...

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Quantas horas de amor de mães, avós, tias,  amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

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Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas, clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

  Resultado de imagem para fotos maria jose rijo  

E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

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Maria José Travelho Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:50

A escrita e o tempo

Terça-feira, 04.12.07

Quer queiramos, quer não, tudo o que nos cerca tem influência no nosso ritmo de vida.

 Até o tempo. Ou melhor, especialmente o tempo.

E, já nem me refiro ao tempo condições atmosféricas.

Penso que todos reconhecemos que um dia luminoso tem sobre nós a influencia positiva que um dia sombrio ou chuvoso, não oferece.

Porém, mais do que as condições atmosféricas: o tempo - época; quero dizer: - Natal, Páscoa...agarram-se á consciência de cada pessoa como se fora um atributo, um sinal, um jeito, quase um desígnio incontrolável, que nos altera o comportamento.

Retornam do passado as lembranças arrumadas na memória, que tantas vezes julgamos sepultadas no esquecimento.

Aparecem-nos vivas, frescas, viçosas como acontecidas na hora, cores, tons de voz, gestos, situações, presenças, perfumes...

Talvez que no Natal todos nos sintamos mais dispostos à ternura, ao perdão e ao amor porque todos nós deixamos reviver nos nossos corações as crianças que fomos. Todos nos enternecemos com o sonho e a esperança que canta inconsciente no olhar das crianças e, sem remissão, mesmo aqueles que o negam, deixam aflorar ao espírito alguma reminiscência mais teimosa que persiste em sobreviver...

São as toalhas de mesa que só em aniversários e festas aparecem...

É a mesa, mais farta, onde azevias e nógados, imiscuem o cheiro de fritos com o perfume exótico da canela...

São as conversas cruzadas de amigos e familiares que se cumprimentam e procuram porque é Natal...

É a troca de segredos de receitas novas de petiscos especiais provados algures, em festas ou viagens...

É o por em dia das novidades de casamentos, mortes, doenças e nascimentos... 

É o exibir de testemunhos: - Retratos das bodas, baptizados, comunhões, queima de fitas, praxes, festas...

É a troca de lembranças...

É o aquecer do coração no convívio de que se faz o melhor da Vida...

É, até, um bocado de poema que na adolescência se escreveu, e nos martela na memória quase ininterruptamente...

...................................

...eu lembro-me ainda!

 

E como esquecer o mundo das gavetas,

Proibido de mexer?

As malas da Avózinha e das Tias,

Que só elas abriam...e em certos dias!...

 

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos...

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de pranto!...

................................................

Minha Avózinha morreu...

Não mais mexe em suas malas,

Agora, mexo-lhes eu!..

 

É também isto o Natal. Passagem de testemunho de tradições, heranças de Amor que cabem nas almas de todos, pobres e ricos, velhos e novos... e, também, tema obrigatório até para divagar, quando se escreve seja lá o que for que sempre se remata, por este tempo, com a cordial saudação de:

      - Boas Festas!

Assim seja!

 

 

                                              Maria José Rijo

@@@@

Norte Alentejo

Dezembro 2001 nº 16

Crónica Norte Alentejano

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publicado por Maria José Rijo às 00:06

As gavetas da memória

Domingo, 22.04.07

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006

Conversas Soltas

           ConfrontaÁo

As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

              

Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

             

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

                

Há também as gavetas prazerosas, são as do bragal, com seus bordados e rendas de enfeites, seu cheirinho de guardados, com ressaibos de alfazema, ténues, como lembranças vagas, das mãos hábeis de quem as urdiu pacientemente e, agora nos aparece numa mistura de encanto e saudade...

 

Quantas horas de amor de mães, avós, tias, amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

   

Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas,

Clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

   

E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

 

Maria José Rijo

 

 

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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

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