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A pomada para “os queimados” - 6

Quinta-feira, 20.01.11

Jornal linhas de Elvas

Nº 3.106 de 20 Janeiro de 2011

Historias com receitas e mezinhas - 6

 

A pomada para “os queimados”

 

 

Miraldina conseguiu arranjar uma casa de família na cidade, para onde ir servir. Não foi fácil. Não conhecia por lá quem quer que fosse mas, uma tendeira que passava regularmente pela aldeia para vender roupas engraçou com ela e, depois de muita pedinchisse lá fez o jeito à rapariga.

Por ser a mais velha da irmandade, coubera-lhe naquela vida dura a pior fatia, fora ficando em casa para ajudar a criar os irmãos e, nem a escola conseguiu frequentar.

Aceitara a situação porque não via outro caminho e era jovem demais para recusar o que por ela decidiam. Afinal, era assim em todas as famílias da aldeia, que a isso obrigava a pobreza do meio, mas agora que a moçada já dava conta de si, pareceu-lhe a hora certa para se aventurar noutros mundos.

 

Chorou, berrou, “amarrou a burra, andou dias e dias de trombas, sem dar a salvação, nem ao pai, nem à mãe, levou porrada,” mas não cedeu.

Na aldeia todos sabem tudo da vida uns dos outros.

Tudo se comenta, todos dão palpites porém, se alguém conhece mezinha ou segredo da feitura do que quer que seja, então, aí a coisa muda de figura porque essa sabedoria é guardada avaramente até à morte.

Os priviligiados assumem a importância do conhecimento que os diferencia, prestam os serviços correspondentes aos seus conhecimentos, mas não ensinam as fórmulas.

Assim, preservam a importância que do saber lhes advém e fazem jus ao ditado que afirma:

“Do que o meu vizinho não sabe, o proveito me cabe.”

E, assim se vivia nas pequenas aldeias isoladas entre montados lá pelos anos trinta.

A maior parte da população nem sabia ler.

 As contas eram apontadas por risquinhos que somados davam o numero que se pretendia saber, fosse ele dos ovos que se haviam posto para aproveitar o choco de qualquer galinha, pata ou perua, fossem os dias em que levantavam da taberna o tabaco de onça, o pão, o café ou o açúcar fiados até novo ciclo de trabalho rural que permitisse pagar “os atrasados”

Todo o conhecimento da população, era mais ou menos empírico. Recorria-se à professora para ler alguma carta que surgisse e festejava-se a chegada para passar férias na aldeia dos filhos dos lavradores, que estudavam fora, como se fossem dias de nomeada.

 

Eles agitavam a pacatez ronceira dos dias de pobreza que se arrastavam ciclicamente. Vestiam de maneira diferente dos trabalhadores, dispunham de dinheiro falavam de coisas novas, riam, folgavam, faziam a diferença.

Às vezes por efeito do vinho e do desespero as brigas eclodiam como erupções incontroláveis. Muitas vezes no meio de murros e insultos aconteciam as facadas e aos gritos de: ponho-te as tripas ao sol, acudia a guarda que, montada, enquadrava o prevaricador a pé entre os cavalos e o conduzia humilhado e submisso até à cidade onde ficaria preso.

As mulheres choravam enquanto deitavam baldes de água para lavar o sangue que manchava o chão lamentavam a sorte dos feridos ou dos mortos que brigas com vinho, destapam os corações.

Miraldina fugiu a tudo isto e, porque teve a sorte de encontrar patrões que a trataram como família, a ensinaram a ler e a transformaram numa excelente cozinheira, ensinou como fazer a pomada dos queimados, cujo segredo vinha de gerações para acudir às escaldadelas que a preparação dos petiscos às vezes ocasionava.

 

Pomada para queimaduras

Fervem-se as cascas e os caroços dos marmelos numa boa porção de banha de porco até que a gordura frite na colher; o que acontece quando as cascas já estão negras e ressequidas.

Côa-se então o liquido obtido, que se guarda - e conserva durante anos – e se usa para sarar as queimaduras.

 

Maria José Rijo

 

 

 

 

 

*

 

 

algumas Imagens de:

Postais da colecção Trajes antigos do Alentejo
www.traje-antigo-alentejo.blogspot.com

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publicado por Maria José Rijo às 10:25

Vinho de Carne - 4

Quinta-feira, 23.12.10

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.102  23  de Dezembro de 2010

Histórias com mezinhas e receitas

O vinho de carne  4

#

O Romão era moleiro, profissão que exercia a gosto numa azenha do rio Guadiana lá perto da aldeia de Pedrógão onde nascera.

Veio para a tropa contrariado, como acontecia com quase todos “os mancebos” (como então se designavam nos editais os jovens que vinham à inspecção) mas, como lhe calhou ficar apurado, ser impedido de um alferes de cavalaria, e ter cavalos para tratar, ficou feliz, porque, disso, de bicharada, gostava ele.

Depois, quando o trabalho permitia, escapava-se com a montada para o Guadiana, ali, na Ajuda, a matar saudades do rio e da liberdade, que gozava na sua aldeia, e era uma pândega dos diabos, como ele dizia: - uma retoiça!

  

Um dia em que, na brincadeira, ao debruçar-se para afagar o cavalo, escorregou e ficou pendurado com a cabeça debaixo de água porque uma bota lhe ficou presa no estribo, até foi o cavalo, o “ulissipo” que intuindo o perigo o abocanhou pelos fundilhos e o carregou para a margem onde o pousou a salvo.

“Desse dia p´rá frente, semos ermãos”, dizia comovido.

Mas, isto vem à conversa porque, por via dessa “fraternidade”  anos passados o Romão resolveu vir  matar saudades do cavalo e do “patrão”.

 

Trazia de presente um grande pão feito com farinha de trigo que ele próprio moera e fora amassado e tendido por sua Mãe.

Trazia, também, uma garrafa de vinho de carne para “ enfortalecer” os meninos porque pelo retrato que lhe fora oferecido – a pedido - naquele Natal, toda a gente da família achara as “crienças relezinhas” .

 

Trazia “atão” a receita porque para ganharem peso tinham que tomar o vinho uns tempos sem parar e, aquele não chegaria.

Recomendava também que “prantasse” nove cabeças de macela num copo de água de noite ao relento “por modo buber em jum” afim de terem apetite.

E, rematava: - vai a ver que se dão bem e ganham carnes.

Ora, como por aquele tempo, naquelas terras era verdade assente que: - gordura é formosura! – Não admira que ao descrever a beldade que era a sua amada ele dissesse : - “é profêta graças a Deus!

Tem uns pêtos que nã vê a barriga e tem uma barriga que nã a dêxa ver os péis!”

 

Vinho da carne

 

125g de carne de vaca

125g de açúcar

1l de vinho branco

Uma colher de chá de canela e outra passas de uvas

Torra-se a vaca, depois passa-se pela máquina até ficar em pó.

Juntam-se-lhe o açúcar, canela e uvas doces

Mexe-se tudo bem mexido e junta-se ao vinho.

Deixa-se repousar três dias, côa-se e está pronto a beber.

Deve tomar-se um cálice em jejum, outro ao almoço, outro ao jantar

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 10:50

Histórias com mezinhas e receitas – 2

Quinta-feira, 25.11.10

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3098 -  25 de Novembro de 2010

Histórias com mezinhas e receitas – 2

O xarope milagroso

 

A Rosaria passou mal a ter a criança, mas a Ti Ermelinda, que lhe assistiu, até na “venda” da Ti Carapinha, disse “ que nã na julgassem pela cara sardenta e queimada do sol, porque o corpo dela era branco como o “lête”.

Parece que o marido da rapariga soube da conversa e não gostou.

“Há coisas que se sabem nas horas do íntimo que nã se querem faladas nem nas tabernas, nem no lavar das roupas nas rubêras, nem em parte nenhuma! São do íntimo! São do íntimo! - e acabou-se.” Comentou agastado.

 

 Dizia-se até que não pediu contas do dito à Comadre porque a Rosaria já não tinha Mãe, e a irmã, a Bia Anica, morava longe, lá p´rós lados das Minas de Aljustrel e não lhe poderia acudir em tais horas, porque também tinha “uma porrada de mocinhos pequenos.”

Pesadas as circunstâncias, calou-se, e aceitou os cuidados da Comadre que, valha a verdade, por muito entendida, era sempre chamada a “aparar” bezerros, crianças e qualquer criatura que precisasse de ajuda para entrar no mundo.

Era pessoa respeitada e com muito préstimo também para amortalhar defuntos, que era outra circunstância para que era muito requisitada. Indispensável, até!

Sabia atar-lhes os “quexos” com força na hora certa e quem ela “proparasse” ia bem composto para o outro mundo, sem levar a boca aberta, habilidade que fazia também parte do seu prestigioso currículo.

Era viúva havia muitos anos, mas com todos estes préstimos, nunca lhe faltavam “molhaduras” e, delas tirava, sem miséria o seu sustento. Depois, juntava a tudo isto a sabedoria da prática e conhecimento de colher ervas milagrosas, e, com elas fazer afamados mezinhas.

 

Ora, a Mãe da Rosaria morrera com “aquela moléstia nos polmões”que matava mais gente do que a pneumónica, e, como desde que “emprenhou gomitava” dia e noite, estava numa fraqueza que só visto e tinha que se lhe acudir com urgência.

 Não havia dúvidas que para dar mama à criança precisava de um bom tratamento. Então, mais uma vez, solícita a velha comadre resolveu o problema ensinando a receita do xarope milagroso.

 

Apanha-se numa grande molhada de espinafres, põem-se ao lume sem água porque quando aquecem os espinafres “choram tanto ou tampouco” que dá para cozer juntamente com eles, também, uma grande molhada de agriões e outra de urtigas. Depois de cozidas as ervas, espremem-se muito bem e côa-se esse “chorume”que volta ao lume com mel e casca de limão para fazer um ponto fraco.

Se quiser também pode fazer com açúcar mascavado, ou com a mistura das duas coisas.

Toma-se às colheres, três ou quatro vezes ao dia e não há fraqueza nem tosse que lhe resista.

E, assim se tratou e curou a Rosaria.

 

 

 Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 16:41

Histórias com mezinhas e receitas - 1

Quinta-feira, 11.11.10

Histórias com mezinhas e receitas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3096  11 de Novembro de 2010

 

 

Histórias com mezinhas e receitas - I

A sobremesa do Senhor General

 

As manas eram solteiras. Tinham ficado para tias, como ainda hoje se costuma dizer quando, numa família alguns elementos do sexo feminino não contraem matrimónio. Dispunham de algum rendimento e, como tinham casa própria, herança de seus Pais, subsistiam sem grandes percalços.

Tinham uma velha criada que as cuidava com amizade e quase poderia ser considerada herança de família, porque também já estava na casa quando a mais nova das manas nasceu.

 

Era gente de boa educação e bom-tom. Embora já fossem idosas eram tratadas por “as meninas”entre familiares, amigos e empregados. Até na rua onde sempre habitaram, desde o senhor da mercearia, ao carismático sapateiro da esquina que tudo sabia das vidas alheias por trabalhar com a banca na soleira da porta, eram referenciadas por: - as meninas da casa da  sacada grande.

Já ninguém se lembrava se haviam sido bonitas ou feias, ou sequer se haviam sido jovens. Havia muitos anos já que eram simplesmente “senhoras de idade”, ou, com alguma ternura: - “as velhotas”, como também eram designadas.

Em tempos, quando os pais viviam, saíam frequentemente de trem para passeios e visitas de circunstância. Agora, os amigos fieis que ainda conservavam, como “bens de herança”, uma ou outra vez, levavam-nas de automóvel a algumas festas de igreja, e, muito principalmente, a missas de aniversários, por alma dos que partiram…

À parte isso, pouco ou nada saiam de casa. Em contrapartida, continuavam, a receber para o chá, (como fazia a mamã) as visitas da casa, todas as quartas-feiras.

Então era um rememorar de lembranças, um evocar de histórias, tão cheias de pormenores que pareciam ser saboreadas com tanto deleite como os doces especialíssimos que sempre eram servidos quase com requintes de sadismo para uma assistência que vivia subordinada aos preceitos de dietas a que as maleitas crónicas impunham distância de açucares manteigas e ovos...

Afora isso, havia as datas de aniversários e festas de Natais e Páscoas em que os sobrinhos, compareciam, vindos de longe, talvez, mais em procura dos resquícios de memórias de infância que a casa e as velhas senhoras ainda configuravam do que qualquer outra fonte de prazer.

Então, as Tias aprimoravam-se. Voltavam a consultar os antigos livros, de receitas manuscritas, herdados de outras gerações, para reler o que há muito sabiam de cor e salteado mas a que a consulta dos velhos alfarrábios parecia emprestar um requinte especial.

Fulano gosta mais disto; beltrano, daquilo, evocavam. Fazemos tudo – decidiam! e que não falte a “barriga de freira “ para o senhor General, ajuntava a velha serva que o considerava o “meu menino” – tão brincalhão, tão divertido!

Então podes tu mesma faze-la – decidiam as manas e, entre as três

Recapitulavam a receita:

500 Gramas de açúcar - mais ou menos 5oo gramas de miolo de pão -18 gemas e mais 2oogramas de açúcar para o caramelo.

Esfarela-se o pão

Leva-se o açúcar ao lume até fazer ponto de pérola.

Introduz –se -lhe o pão para embeber a calda fervendo sem deixar queimar. Juntam-se as gemas, volta ao lume para as cozer deixando tostar levemente a mistura.

Deita-se o doce num prato raso – sem o alisar – e verte-se-lhe por cima o caramelo de forma irregular.

 

Tens que ter cuidado para tostar, sem que queime. Já sabes que o Senhor General, diz sempre que das barrigas de freira só gosta do tostadinho.

E, só de lembrar a graça coravam as três, pudicamente, dando em coro, pequenas gargalhadas guturais.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 12:11

A verdade dos mitos...

Terça-feira, 19.10.10

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1861 –  7 de Novembro  1986

A VERDADE DOS MITOS…

 

Uma das minhas histórias preferidas, quando era criança, contava a vida de uma princesa, que em todos os momentos de pavor que tinha que suportar, ao atravessar a floresta de cobre, de prata e de ferro – sempre defendida por horríveis dragões que vomitavam chamas – se via “ in extremix” – salva miraculosamente, porque nascera com uma estrelinha na testa.

 

Nas histórias antigas, as meninas princesas boas, eram de beleza idílica e bondade sem mácula e sofriam tratos de polé pela inveja de madrastas, que eram sempre feias e más, pavorosas como sustos! Como as histórias eram tecidas de terrores, maldades e generosidades de dimensões impensáveis, ficava-se a saber que todas estas coisas eram mais antigas no mundo do que as próprias histórias, já que eram estas que as narravam.

 

Claro que nestes contos do maravilhoso, os milagres, quero dizer, os acontecimentos fora do comum, sucediam aos bons e aos maus. Assim as lágrimas podiam ser pérolas, quando vertidas pelos bons, enquanto os maus choravam sapos e caganitas de ratos.

Também no fim das embrulhadas os maus eram punidos duramente, enquanto os bons recebiam recompensas mirabolantes… eram cobertas de pedrarias, príncipes ou princesas para consortes, e quer eles, também exemplos insuperáveis de virtudes, beleza, juventude, graça… aliás era um estado de graça que ficavam depois a viver para sempre…

 

Não sei muito bem porquê, e se o suspeito calo por não ter a certeza - aqueles contos fantásticos que sempre tinham sentido e intenção acodem-me muitas vezes ao espírito.

 

Vejo as florestas de cobre em cada árvore que o Outono despe, com o sol a incendiar o tons de laranja das folhas que esvoaçam e também…

Vejo as florestas de ferro em cada pinheiro ou eucalipto queimado, ainda de pé e já sem mais esperança de verdes renovados…

Vejo a prata no brilho de cada copa florida de branco quando os frutos são ainda promessas…

Sei, sabemos, como são comovedoras e belas – verdadeiras pérolas – as lágrimas de ternura, e como são revoltantes, asquerosos como feios repteis ou fétidos ratos os sentimentos maus.

No entanto, nas histórias reais também o bom e o mau – fadas e bruxas - de cuja mistura todos somos feitos se degladiam  dentro de cada um. E, se ninguém encontra, quando passa a mão pela testa, a tal estrelinha que dá imunidade e garante o bem, o prémio, o conforto depois de qualquer légua de mau caminho, ou luta terrível com perigoso dragão -  não porque a estrelinha não exista – ela é o ideal porque se orienta cada vida, para a qual se aponta o sentido de cada existência .

 

Por isso, à última hora, “in extremis”, quase sempre se salvava a princesa idilicamente bela porque era a imagem daquilo que se propunha defender, o Bem e a justiça, pelos quais lutava com decisão e coragem. Eis que, compreendido ou não, cada um tem que lutar e sofrer pela “estrelinha” que o guia porque “in extremis”, a fé o salvará.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:30

Lição da História

Terça-feira, 06.04.10

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Ex-Libris de Elvas...

 

 

O Aqueduto da Amoreira (mon. Nac.) é o mais imponente do país, depois do das Águas Livres, e talvez o mais elegante de todos. Foi construído de 1498 – 1622, à custa do povo de Elvas, pela finta denominada do Real de Agua, que nele dispensou mais de 200000 cruzados.

“ Várias gerações sucessivas – escreve Ramalho Ortigão – acarretaram para essa construção os materiais; e lentamente, pacientemente, foram colocando pedra sobre pedra, para que um dia a água chegasse a Elvas, e bebessem dela os netos dos netos daqueles que de tão longe principiaram recolhe-la e a canaliza-la. Uma tal empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, incapaz de pagar com igual carinho ao futuro aquilo que deve à previdência, aos sacrifícios e aos desvelos do passado.”

 

(In Guia de Portugal)

 

Ex-Libris...

 

 

Em passadas de gigante

Nobre de traça e de idade

Vem da nascente p'ras fontes

dar de beber à cidade

 

 Olaia em flor...

 

 Sabe bem em Dia de Anos, revisitar os lugares

que nos abrem caminhos

e convidam à meditação

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:38

Povo, Povo, eu te pertenço…

Sexta-feira, 27.03.09

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.310 – 8 de Julho de 1995

 

 

 

Seu Pai fizera uma carreira brilhante.

Foi um militar notável e veio a falecer com o posto de general.

Era filha única.

Família com tradições e haveres, aparentada com a nobreza.

Sua mãe contara-lhe histórias de seus antepassados. Coisas cruéis, mas verdadeiras – que mais pareciam fantasias de contos de fadas.

… Era a vida de fausto e de martírio de sua lindíssima bisavó – que o retrato pintado a óleo, e pendurado na parede do salão – dava testemunho.

… Haviam-se casado aos quinze anos, por decisões de família. Às escondidas, nas malas do enxoval aconchegou as duas bonecas preferidas.

                  ilustração do anúncio

… Era o violento ciúme do velho Senhor que a desposou mercadeando beleza e juventude por vultosos interesses…

… Era a sua vida de martírio, com as longas tranças entaladas com a tampa dum arca, onde as duas açafatas lhe traziam mimos e gulodices e se revezavam a contar histórias para a distrair e lhe secar as lágrimas.

Ali a serviam até com o peniquinho de prata, naquela humilhante circunstância, engendrada pelos caprichos doentios de seu marido e senhor…

                    

Quando o seu algoz voltava das caçadas e outros afazeres de rico ocioso, mandava que a libertassem cedendo a chave que carregava no bolso; que a levassem e perfumassem; que a enfeitassem com roupas, laços e jóias e lha trouxessem à presença com vénia.

Então, olhava-a deliciado e despia-a com requintes de vagar para satisfazer a sua gula incestuosa de velho sádico que, sem pudor, enxovalhava um corpinho de criança como quem desfaz uma flor com o tacão da bota. Por mórbido prazer.

                             

Porém, como a natureza é capaz de funcionar indiferente aos sentimentos, nasceram-lhe filhos, prisão que amou.

Mas, tantos foram que lhe esgotaram a vida.

Desta tragédia que era contada – apesar de tal, com certo orgulho pela grandeza desse passado – veio a decisão de liberdade para casar a gosto – de que fruíram as gerações seguintes.

Ela casara por amor.

Seu marido fora dono de armazéns e armazéns e lojas e lojas de vendas por grosso e por retalho.

Morreu cedo. Estupidamente – que as gerações, mesmo os mais apaixonados – cedem ás mazelas e pararam.

Impreparada, para gerir aquele império, vendeu tudo.

Pôs o dinheiro a render e dispôs-se a viver dos rendimentos.

A guerra – a grande guerra – gorou-lhe o projecto.

Desvalorizou a moeda e ela viu-se na casa cheia de coisas belas, apenas com a criada que desde mocinha a servia.

Começou a vender coisas… a vender…

Ficou pobre.

Aceitava com dignidade “ofertas” das pessoas que lhe queriam bem.

Morreu velhinha, bem cuidada pela criada, que trabalhava para a sustentar.

Se tivesse tido filhos, talvez, algum deles contasse esta história de uma família em que todos os elementos estavam identificados um a um, de geração em geração, como quem narra um romance medieval.

               

Talvez…

E, por certo, daria lugar de destaque à criada, sem estirpe, mas, com nobreza e coragem bastantes para transformar, apagada e humilde, uma tragédia num poema de amor e dedicação.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:34

HOMENS e BICHOS

Quinta-feira, 20.11.08

Á lá Minute

Jornal linhas de Elvas

Nº 1.885 – 24 de Abril de 1987

 

Bicho de Estimação metendo o bico em prato alheio! 

Duas vezes consecutivas escutei, interessada, o Dr. Alçada Batista falar sobre relações surpreendentes entre alguns

 

homens e o meio que os circunda.

Contava ele histórias breves sobre monges, ascetas e eremitas, que algures, em regiões isoladas do mundo, repartiram em paz o seu espaço com animais, ditos selvagens ou perigosos, que com eles coabitam ou conviviam familiarmente.

           

Destacou, até, a estranha paz estabelecida entre um monge eremita, que abrigava na sua cabana um ninho de víboras, e que muito naturalmente recomendou a uns hospedes de ocasião, que tivessem cuidado para não as perturbar pois que uma delas tinha tido filhos, e necessariamente, carecia de mais tranquilidade e paz na circunstância.

Tudo isto são relatos tão estranhos que frente a eles só há, a meu ver, duas atitudes possíveis: - Ou se encolhem os ombros e se sorri como de outras doces lendas, e se passa à frente – ou – se pára e se pensa a sério no comportamento da espécie humana frente aos animais.

                 

Lembro-me, de ter visto em certa ocasião, na televisão espanhola, alguém que afirmou ser o homem o único animal capaz de atacar sem motivos, o chão que o suporta, e para provar a sua teoria, deixou ali frente às câmaras, que escorpiões e aranhas venenosas passeassem livremente sobre os seus braços nus.

                            escorpiao

Perante coisas assim, quase parece lógico deduzir, que em lugar de usar a inteligência para suprir dificuldades e procurar uma equilibrada relação de paz com o resto da criação, o homem acusa como defeitos e perigos todas as diferenças que o separa e distingue dos outros animais.

Deste modo justifica os sofrimentos, que, por vezes, lhes inflige o destino a que os condena e o espaço que lhes disputa empurrando já para a extinção de algumas espécies.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:34

Retrato de Grupo (do negativo)

Terça-feira, 11.11.08

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1747 – 10 de Agosto de 1984

        

 

Aqui estamos: - uma geração inteira, frente à objectiva da história.

Olhemo-nos! – Que figuras!...

Aqui estamos, estáticas, como múmias, vendo desmoronar tanta coisa à nossa volta e permanecendo inertes, como se mortos estivéssemos.

                 

-- Onde estão os filhos, os netos, os bisnetos dos Homens que engrandeceram esta nossa cidade?

-- Onde estão os descendentes de quantos plantaram as árvores, abriram as ruas, fizeram as casas e jardins?

-- Onde estão os descendentes das mulheres resolutas que faziam da sua rua brasão de nobreza, caiando as ombreiras das portas e levando desde os poiais até ao meio da calçada, ainda que já vergadas pelo cansaço de um dia de duro trabalho, a soldo de outrem!

               

-- Mesmo pelo “negativo” vê-se bem – somos nós – é a nossa geração!

-- Somos nós que deixamos perder benefícios e privilégios que herdamos:

-- Comando Militar, Hospital Militar, Regimento de Cavalaria, Banco de Portugal…

- Elvas, que até já teve o seu Bispado Arrisca-se hoje a perder o próprio HOSPITAL DA MISERICORDIA!!...

                          

- Somos nós que consentimos que estropeiem árvores, que se usem em praças e avenidas, espingardas de pressão de ar para atirar aos passarinhos…

- Nós que deixamos deitar lixo nas ruas, cuspir no chão, apedrejar candeeiros de iluminação pública, escrever obscenidades nas paredes, arrancar placas de trânsito e bancos de jardins…

- Somos nós que – em lugar de nos organizarmos como uma poderosa colmeia em torno do amor e cuidado que devemos a Elvas, criando núcleos de cultura e recreio (teatro, música, manifestações desportivas, excursões de estudo, de investigação, convívios, etc, etc.) deixamos que andem por aí à toa a tomar uns copos ou a “gastar-se” gastando nas “máquinas”, o potencial humano que motivado com inteligência, faria por suas mãos melhorar a própria sorte e repor o cariz da cidade.

- Somos nós que recusando o gesto largo do semeador que transforma o chão em seara, nos fechamos na avareza do desinteresse…

- Somos nós que até já deixamos de ter o recurso de discar o 115 em caso de aflição! (Contou a rádio local). Agora só Estremoz nos acode se o fizermos…

 

Eis-nos, como somos; frente a frente; olhos nos olhos – fixados neste “negativo de retrato de grupo”, parado, preto e baço, feito “a lá minute” neste ano de 1984…

Que a história nos esqueça – se perdoar não puder…

 

Estamos mais feios – que bonitos

Sem má fé e – sem favor –

Vamos lá reagrupar-nos

P’ra um retrato melhor!

 

 

Maria José Rijo

                      

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publicado por Maria José Rijo às 09:59

O Fiasco

Sábado, 12.04.08

Não vou falar de política local.

Dessa cruzada, praticamente, já desisti, até porque moro aqui mesmo na frente da Quinta do Bispo, e a dor, de presenciar o que ali se fez, em lugar do que se poderia ter feito, por certo me acompanhará até ao fim dos meus dias.

E, também, porque sei que o maior cego é aquele que não quer ver.

Também, não me apraz falar de política a nível do país.

Estamos todos saturados, do que não era para ser, mas acabou sendo e da falta de compostura de quem, podendo ou devendo ser,

respeitável pela obra executada, na linguagem nos envergonha com desaforos da mais ostensiva falta de senso.

Também de nada serve invectivar o terrorismo.

Palavras e mais palavras, promessas e mais promessas não servem para levar às compras e trazer, em troca, para casa com paz e segurança, o pão-nosso de cada dia.

       Assim sendo, vou contar uma curiosidade que encontrei numa folha de almanaque já muito envelhecida, com que alguém que nunca saberei quem foi, marcou uma página de leitura, dobrando-a muito bem dobradinha.

É evidente que quando se encontra um papel muito dobrado o primeiro instinto, leva-nos a desfazer dobra por dobra e ler o que lá está escrito nem que seja, como já me aconteceu, o anúncio de uma loção capilar- o restaurador olex - que deve ter estado na moda no século passado, ou o retrato do rei de Saxe, que segundo constava da legenda, em rodapé  na imagem, visitou Lisboa em 1907.

                                 

A história do “Fiasco” remonta no entanto a épocas muito mais remotas, e narra assim:

“Nos fins do século XVII, existia em Bolonha um artista chamado Biancolelli, que era o mais célebre arlecchino da cidade.

Todas as noites improvisava em cena um monólogo, tomando por assunto um objecto qualquer – por vezes o mais insignificante - que trazia dos bastidores : uma carta, que dizia ter encontrado, uma cabeleira, etc.

Ora uma noite entrou em cena com um frasco (fiasco, em italiano). Infelizmente não estava nas suas noites de espírito e o monólogo resultou sem graça nenhuma. O público começou a dar pateada e o arlecchino, atirando o frasco ao chão, exclamou: - Vês, tu é que tens a culpa! Alguns espectadores riram, mas Biancolelli tinha perdido a sua popularidade.

Desde então, o público bolonhês quando algum artista era menos feliz, habituou-se a dizer: - è um fiasco!

A expressão espalhou-se por toda a Itália, chegou a outros países e, em português, deu o conhecido “fazer fiasco.”

Assim, quem não sabia, e por acaso, esteve aqui, comigo à conversa, ficou a saber a origem da expressão que todos aplicamos cheios de sinceridade quando pensamos para onde nos têm empurrado os nossos beneméritos políticos.

- Que Deus lhes pague e os ajude a gastar com proveito o dinheiro que têm acumulado, incluindo – se o tiverem - o que tiverem em bom recato nas contas da Suíça .

 Que assim seja!

-          Amen!

 

                         Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

14-Julho – 2005 – Nº 2.822

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 15:40





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