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Ser de cá

Segunda-feira, 16.03.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.860 – 31 de Outubro de 1986

                       

Lembrei-me duma história verdadeira, que em tempos me fez rir com gosto, embora se tivesse passado num velatório.

Uma velha Senhora chorava inconsolável o marido morto, então, sua filha já também de certa idade, abanou-a com ar reprovador dizendo:

- “Porque chora a mãe tanto? – “Ele” nem sequer era do seu sangue! – Eu, é que não poderei ter conformação – era o meu Pai”

E, com ares de dignidade ultrajada foi chorar para outra sala, o seu direito a um desgosto maior e diferente.

            Ana a Chorar.JPG

Foi disto que me lembrei – quando as pessoas mais ou menos afavelmente me dizem, conforme as circunstâncias – “Você não é de cá” – ou – “Você é como se fosse de cá”…

Qualquer das formas tem como conclusão única que – afinal – sou de outro lugar. Qual?

Ninguém sabe para mo dizer.

Dentro da original lógica da minha amiga da Guarda – só o sangue faz parentesco. Dentro da humana lógica da velha Senhora viúva, o amor, é o sangue que ata e desata os parentescos.

                  http://www.gin2008.org/kotisivut/docs/f837485183/logica_logo.jpg

Não discuto lógicas e, menos ainda, - Que Deus me defenda! – a lógica do amor… que nunca a teve – valha a verdade. Nem discuto o direito de cada qual, de chamar a si “dimensões” especiais de sentimentos nunca mensuráveis – quanto mais por manifestações mais ou menos históricas. Mas…como todos temos as nossas susceptibilidades deixem-me cultivar esta – quero saber de onde sou! – e já que de cá não sou embora pareça e, de onde sou, nem já parece ser – escolho para mim “pátria” a minha infância – que da sua lembrança colho o começo de tudo quanto fiz, faço, gostaria de vir a fazer ou de já ter feito.

Deste modo – estando aqui ou ali – serei sempre e apenas eu – à procura de mim – tendo como ponto de partida o amor daqueles a quem pelo sangue pertencerei sempre – mesmo que ninguém me reclame de qualquer terra ou lugar.

Assim – ser de cá ou de lá – já pouco importa – SER – será a minha meta.

 

Maria José Rijo

 

                       

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:26

Conversa a três

Segunda-feira, 05.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.702 – 21 – Março - 2003

Conversas Soltas

 

                 

Suspendi a leitura de um pequeno livro da autoria de Maria Isabel de Mendonça Soares “Ao Ritmo do Calendário” - Tradições Populares Portuguesas,

(que recomendo vivamente a quem gosta destas coisas), para ler o Linhas de Elvas acabadinho de chegar nesse momento.

                

Este livro que refiro, é, cito: «um feixe de artigos publicados nos Cadernos de Educação da Infância, órgão da Associação de Profissionais de Educação Pré- escolar» que a Escola Superior de Educadores Da Infância Maria Ulrich, editou.

Ia eu a páginas trinta e sete, e lia precisamente o capítulo intitulado: “Carnaval português”, quando troquei o livro pela apetência das noticias locais.

Saciada a interessada curiosidade passei aos artigos de opinião.

E, eis que o meu grande Amigo João Aranha (quando traz cá a Fernanda?) após ter focado o tema dos seus deleites, o toureio, junta à sua crónica um apontamento sobre o figurino do Carnaval de agora que compara com velhas tradições bem portuguesas, mais ou menos em desuso.

Então, somei: uma, mais um, mais uma, e já ficamos três a “olhar” o Carnaval...

Vamos ver como...

Maria Isabel (ou não fosse formada em Filologia Românica, e, autora de literatura para a infância), o capítulo, Carnaval Português, assim: “No tempo em que as penitências e jejuns quaresmais eram muito rigorosas, a Igreja concedeu pedagogicamente três dias de folia imediatamente anteriores ao inicio da Quaresma, durante os quais os cristãos podiam dar largas às danças, comidas e bebidas, uma vez que ao longo dos quarenta dias seguintes estariam privados de o fazer.

Daí, segundo alguns, a expressão latina «Carne vale» isto é, «adeus, ó carne». Há também quem faça derivar a palavra «carnaval» de «carro naval», ou seja, um carro em forma de barco onde era transportada, na Grécia, a estátua do deus Diónisos por ocasião dos festejos, em sua honra que, como todos os festejos, metiam comida, bebida e folia à farta.

De um modo ou de outro, o certo é que a tradição do Carnaval se mantém, apenas variável no dia de Fevereiro ou Março, consoante o início da Quaresma, a qual, por sua vez, estará dependente do Domingo de Páscoa, este devendo coincidir com a primeira lua cheia depois do equinócio da Primavera.

                           

E como tudo se interliga, também o Carnaval tem sofrido metamorfoses por influência de outros, que disto a comunicação audiovisual é a principal responsável.

Por isso se assiste a desfiles carnavalescos com «majoretes» à americana, e em que «cariocas» da Malveira ou de Freixo-de Espada-à-Cinta tiritam de frio sob as chuvadas e ventanias muito comuns nessa quadra, em clima português...”

Depois segue o texto falando da origem das máscaras, dos confetti, evocando velhos usos de Norte a Sul do nosso País e, como se trata de um livro resultante de “lições” dadas por quem ensinou Cultura Portuguesa e Literatura para a Infância, é logicamente um livro que distrai, observa... compara e ensina reavivando memórias.

Por tudo isto me assentou na alma como uma luva o apontamento, escrito como ele muito bem sabe fazer, quer na forma, quer no conteúdo, de João Aranha.

E, então ali fiquei eu a reviver as engraçadas touradas com palhaços a tourear bezerros tão pequenos, que também eles cabriolavam e, como que colaboravam com as palhaçadas que faziam rir até cansar novos e velhos naqueles saudáveis carnavais à portuguesa, quando pelo Alentejo, também as “danças” percorriam as ruas dos “lugares” e das aldeias oferecendo os seus espectáculos.

                

Eram sempre grupos de homens trajados com saiotes brancos enfeitados de cores vivas, vestidos sobre as calças de uso, que metiam nos canos das botas e atavam com nastros coloridos. Usavam camisas ou blusas , também de cor branca, lenços policromos ao pescoço e chapéus pretos com lindas  penas de pavão entaladas na fita que sempre contorna a copa.

         

Lembravam um pouco no trajar os Pauliteiros de Miranda.

Traziam consigo um mastro coberto de fitas de tons garridos, entrançadas com engenho de modo a cobri-lo todo. A dança consistia em desfazer e tornar a fazer o entrançado.

Um deles segurava o mastro em posição perpendicular ao solo. Os outros pegando cada um a ponta de uma fita giravam em  seu redor ao som da concertina, que nestas andanças, nunca faltava, cruzando-se de forma a  que, nunca se enganando  teciam a cobertura encanastrada.

Depois, agradeciam os aplausos, passavam o chapéu pela assistência recebendo os bolos e, certo e sabido que os taberneiros das redondezas tinham bom dia de negócio...

Outro costume, e esse ainda subsiste, era o dos mascarados trapalhões.

             

Confesso que para meu gosto, é a única manifestação carnavalesca a que acho graça, muito principalmente quando na sua apresentação está implícita qualquer espécie de critica, social ou política, desde que não seja ofensiva ou grosseira.

Mas...o curioso desta conversa, para mim, está apenas no acaso de se terem juntado três olhares sobre o mesmo tema duma forma  tão inesperada como coincidente.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:22

Em nome da coerência

Sábado, 06.12.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.480 – 27-- Novembro -- 1998

Conversas Soltas

 

 

Num “ A la minute” escrito em Dezembro de 1985, fiz neste jornal, umas considerações, de onde, por ainda serem pertinentes, respigo hoje – 13 anos após – algumas ideias. Era mais ou menos assim:

......toda Elvas – terá que servir Elvas - como cada um de nós se serve a si próprio - porque de nada serve a força e o trabalho de quem constrói se o desinteresse e desamor de outros se empenhar em destruir !

Para que o dinheiro - que será sempre pouco para a largueza do sonho - dê  frutos palpáveis, é urgente que cada elvense repense a sua forma de o ser. É preciso que não mais se juntem grupos de pessoas para quebrar (fortes) bancos de cimento, etc. etc. etc...porque cada um que queira ser digno desta terra que o acolhe ou lhe foi berço - tem que sentir em si próprio e saber vive-la , a consciência do que é pertencer a uma cidade, a uma comunidade, que , por sua vez também lhe pertence. Tem que saber encontrar em si, o sentido de dever e de justiça que lhe permitam e imponham o comportamento exemplar que deve à sua terra e à sua gente…

Quando, em cada manhã que desponta espreito o céu da minha janela, ao baixar o olhar, avisto invariavelmente os cacos de garrafas, e toda a espécie de porcarias que os adeptos da vida nocturna deixam atapetando o chão onde as crianças poderiam e deveriam brincar com segurança. O PARQUE INFANTIL!

Pode-se, é justo que se faça – e, eu faço-o, mais uma vez, frontalmente – criticar

a colocação dos contentores do lixo sobre as passadeiras e ao magote !

Pode-se dizer que uma papeleira nesse espaço ficava a matar!

Pode-se.

MAS A VERDADE, é que os contentores estão lá! E não há Câmara nenhuma que possa controlar o vandalismo que estes casos demonstram.

Qualquer Câmara pode e deve planear melhor ou pior, como for capaz, o escoamento do lixo. Esse dever cabe-lhe. Mas, o que nenhuma, jamais poderá é controlar a falta de civismo que faz transformar lagos em escoadouros públicos; a inconsciência, ou a malvadez que permite (e sendo a tarefa nocturna não se pode

 Papel no Chao

atribuir a garotinhos) escaqueirar vidros de garrafas de cervejas até tornar o chão resplandecente, num espaço reservado a crianças! Repito: UM PARQUE INFANTIL!

 

Quando? Quando, será o civismo e a coerência entre o gesto e a palavra uma evidência identificável pela ausência destas lamentáveis atitudes que a cada passo nos envergonham e nos ultrajam como gente?

Quando? - Pergunta-se!

Quando? Quando? Quando? Continuaremos a perguntar!

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 00:04

“Relacionando...”

Quinta-feira, 01.05.08

            Muitas vezes, por razões afectivas e outras, me recordo de pessoas, verdadeiras personagens, que povoaram o mundo da minha infância e adolescência e, hoje, povoam o mundo das minhas mais gratas recordações.

            De algumas delas até já tenho contado algumas histórias, tristes, ou alegres, conforme me ocorrem.

            Hoje é quase uma anedota o que vou lembrar mas, como todos os factos reais, quer os mais ligeiros, quer os mais complicados, acabam por ter algum significado no nosso quotidiano.

            A senhora Cesaltina, que trabalhava em casa de meus pais, fazia pegas de lãs em feitio de pintaínhos, galinhitas e mais coisas que tais. Fazia cestinhos e chaveninhas de chá, em renda e outras belas e inúteis habilidades que exibia, com vaidade, nas mostras de artesanato lá da terra mas, tinha - e com toda a razão - um incontido orgulho do seu passado.

            Com uma certa raiva contida, superada, no entanto por um gozo de triunfo que lhe punha no olhar um brilhinho de alegria húmido de comoção - nas horas de calma - quando as tarefas não rendem , não gostando de dormir sesta , arregimentava-nos e dava largas às suas lembranças ,sabendo como apreciávamos ser seu público .

                 ...abandonado...

            Ela criara “ à força do seu braço”, sozinha na sua viuvez, os dois filhos que tinha. Não fora empresa fácil.

            Desdobrara-se em trabalho e sacrifícios.

            “Mondava, acefava, não faltava ao apanho, saroava fazendo jêtos; ò sábedo por mor de ganhar a poia acarretava lenha p’ró forno,...e, assim, os crií” - contava.

            “Ora, duma vez , ganhi umas molhaduras ,e pensi :- àmanhem vou dar a provar òs mocinhos mantêga de vacas . Porra! - que tamém têem-no dirêto!  Atão, chami o mê Lexandre e disse-le : vai ali à loja do Jasuìno e compra dez tostões de mantêga de vaca.

            Nã dês assoada! - Espera até saírem aquelas maganas todas que lá tejam quê aporcebam do que tu vás a comprari. Olha que, se dizis, levase-as! Já sabis - ou te calas , ou levas porrada .”nã quero que s`

                      Planos

            Assim industriado lá foi de pé descalço, amigo Alexandre, cúmplice feliz daquela aventura secreta:- comer pela primeira vez na vida : manteiga de vaca! - Estranha ousadia de pobres que em fugindo ao pão com toucinho, cru, ou cozido, se supunham roubando privilégios aos mais abastados.

O melhor da história começa aqui.

            De tão assustado, tão recomendado, o nosso herói, foi-se quedando pela loja irrequieto, mas mudo. Entrava gente e saía e, à pergunta: - queres alguma coisa Lexandre? - o menino respondia :- quero sim senhora! - Então o que é?

Com um ar de quem está bem senhor de si e das suas responsabilidades o garoto só dizia:” - tá bem dêxa ! isso era o que voceia queria sabéri !...e nem ao dono da tenda confessava a pretensão conservando a moeda de escudo tão bem fechada na mão como o segredo que, cioso ,ia calando.

            A certa altura inquieta com a demora foi a mãe procurá-lo e o enigma desvaneceu-se. Anos passados, ainda contava a rir, estas e outras facécias do crescer dos filhos, das dificuldades e das alegrias cujas recordações lhe enchiam o coração.

             Altos e baixos....

            Pensando hoje nisso e no relato do alvoroço que foi a entrada em casa do primeiro calçado para não irem descalços à escola: - botas de atanado cardadas, amaciadas a poder de sebo. Grandes, enormes, pesadas, incomodas como o sacrifício de quem as comprou.

 Mas,” com fiture , quai´s qu´eu as calçava! qu’o calçado custa os olhos da cara!”

            “Suí-as eu!” – confessava.

            Lembrei-me destes acontecimentos passados por comparação com outros recentes que vou relacionando....

            Quem quiser 250 gramas, daquele pó azul, para pintar os rodapés das paredes – só encontra embalagens de quilo a 1.300$00.

            Quem quiser aguarrás, óleo de linhaça, etc. etc. também, em belas embalagens de lata – de litro – por mais de quinhentos escudos - comprará as porções que lhe são impostas e não aquelas de que necessita ou lhe convém adquirir...

            E, assim sucessivamente, seja mercearia, batatas, cenouras ou o que quer que seja. Se julga que dispõe do seu dinheiro para o usar a seu contento...desengane-se!

Estamos, quer queiramos, quer não, numa época de violência. E esta moda que sub-reptíciamente se instalou de obrigar o indefeso cidadão a adquirir porções de géneros de que não necessita, nem economicamente lhe convém, não é, por certo, das mais ortodoxas...

           [ Vinda da mercearia ]

            É destas encapotadas faltas de consideração e respeito pela dignidade da pessoa humana, que, como num plano inclinado, o abuso, a permissividade, derrapam, derrapam, até às impensáveis proporções de que todos nos queixamos em todas as vertentes...

            Se bem repararmos há muitos serviços que pagamos cada vez mais caros e que cada vez nos servem pior... veja-se as contagens da luz, os vazamentos de lixo, etc. etc. etc.... preste-se atenção em como tudo se vai organizando à revelia da comodidade do Zé pagante...e reconheça-se que violência não é apenas pancada. Às vezes essa é, até, a menos cruel das violências...

 

                                    Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.467 – 28 –Agosto - 1998

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:37

“Alentejo da minh’alma”

Sábado, 05.01.08

 Deteve-me a curiosidade, quando ouvi a mulher afirmar que era natural de Ourique e não mudei de canal.

Não sou parte interessada em programas como “ponto de encontro”. Apoio calorosamente o seu préstimo, porém, a forma como é apresentado o resultado final, confrange-me.

Há um pudor intrínseco de certas misérias, de certas alegrias e tristezas tanto do foro íntimo de cada um… que, aquela câmara, como um olho espião, espiolhando os sinais de emoção de tanta vítima das crueldades da vida só me doe e ofende.

Aliás, o apresentador muito comportadinho de gestos e palavras, permanece a abissais distâncias das “vítimas”, o que, ainda mais acentua o meu desencantamento.

Penso, às vezes, que se fora alguém como um Raul Solnado, com um humanismo quente à flor da pele, a orientar o programa seria diferente porque tudo se poderia passar entre iguais. Quero dizer: entre gente semelhante a quem as mesmas coisas podem acontecer.

Assim, será sempre um “Senhor” muito bem arrumadinho e comedido a falar de desgraças alheias – sem perigo de contágio.

E, quer queiramos, quer não – aquelas desgraças são nossas.

São a nossa desgraça.

São o fruto da incapacidade que temos de criar um mundo melhor, onde as crianças não se soltem dos braços dos pais e dos irmãos para fugir à fome e à miséria que as aperta mais ou tão fortemente como os laços de sangue e amor. Onde as guerras não devastem o espaço que cabe à alegria de viver etc. etc.etc.

Mas… adiante.

Contava eu que a mulher, toda desempoeirada, e ainda nova, se disse natural de “Ourique”.

Eu, que cresci, estudei e casai lá por esses lados de Beja, pensei interessada: aquilo é gente minha – quero ver.

E, vi.

Tão frontal, tão franca e aberta como um trigal a perder de vista.

Repisando a “paxão” que sentia por nunca mais ter visto um parente da sua idade com quem brincara e crescera.

E, foi essa palavra “paixão” que me ocorreu escrever estas notas.

É que o entrevistador – ao que me pareceu – não captou que paixão, lá na nossa linguagem, também significa desgosto – profunda mágoa e insistiu em repeti-la com um toque de ambiguidade de quem jamais terá escutado o desabafo de qualquer mãe dizendo:

“Trago uma paixão cá dentro des’qu’a nha mocinha se casou! – xi! – qu’é cá um vazio de morte que já nem sê tar em casa”!

Enfim! – Terminada a entrevista fechei a televisão e quedei-me a recordar os grupos de homens que, noite dentro, saindo das tabernas onde confraternizavam, recolhiam a casa de braço dado, em passo lento, cadenciado, cantando.

Por vezes paravam, mesmo frente à nossa porta e janelas e eu ouvi e fixava.

Vila Nova de Ferreira

tem uma fonte à entrada

para não morrer à sede

bebem água enxovalhada

II Encontro de Música Tradicional de Mozelos - Grupo Coral de Ourique 

bebem água enxovalhada

para não morrer à sede

não há terra que eu mais goste

que é Ourique e Castro Verde

 

Que é Ourique e Castro Verde

Cabeça Gorda e Salvador

para não morrer à sede

bebem água enxovalhada

 

Eram os mesmos – o mesmo povo – que em cortejo acompanhavam os noivos a casa findo o banquete que encerrava a cerimónia e, de chapéu na mão entoavam comovidos.

 

Oh Senhor noivo eu lhe peço

que não trate a noiva mal

Ela sabe o que deixou

Não sabe o que vai buscar

 

Os noivos agradeciam. Entravam em casa fechavam a porta e o grupo voltava a pôr o chapéu na cabeça e afastava-se enchendo as ruas com a musicalidade das suas vozes.

 

Mas que linda vai a noiva

no seu dia de noivado

também eu queria ser – também eu queria

também queria ser casado

 

Ser casado e ser feliz

deve ser um lindo estado

também eu queria ser – também eu queria

também queria ser casado

@

Ai “Alentejo da minha alma!” – que “paxão” por ti, e que “paxão” por te ver arrancar tão sem dó as generosas e fundas raízes que brotam do teu coração como brota o pão da tua terra imensa e fértil.

 

                            Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.386 – 24 /Janeiro/1997

Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:34

Esparsos da memória

Quarta-feira, 24.10.07

            Num dia quente de Verão, destes nossos, que qualquer alentejano arrosta com a sua costumada dignidade de viver. Destes que põem os “ críticos,” da nossa tão mal entendida indolência estival, frente à dureza do clima na mais ridícula prostração e desespero. Destes que põem, esses nossos “críticos”, em fuga das nossas terras e lugares, por incapacidade, até, de se portarem como gente civilizada; num desses dias, tendo que sair em horas em que o sol não permite, qualquer manifestação de familiaridade ou afoiteza, dei comigo a compulsar a evolução das meias desde que me conheço.

            Entre as meias de hoje feitas industrialmente e as meias artísticas, verdadeiras obras de arte artesanal, que distância no tempo, na qualidade e feitura. 

 

            Tenho numa vitrine um exemplar antigo. Uma meia de fio de linho, branca, tecida com cinco agulhas finas, com pontos complicados que formam folhinhas, flores, e diversos feitios, combinando abertos e fechados e, que ainda está bordada por cima com requintes de bom gosto e habilidade. Foi-me dada como sendo de uma de minhas avós e, com a explicação de que tal preciosidade, nem sequer era para ser vista senão pela própria já que as saias nesses tempos tocavam a biqueira dos sapatos. Das botinas, melhor dizendo, pois que até havia uns ganchos próprios - alguns com cabinhos de marfim e outros requintes - para fechar as abotoaduras  que alongavam tornozelo acima os canos do calçado, que pudicamente defendiam dos olhares cobiçosos ,ou, atrevidos,  todo e qualquer pormenor do físico feminino.

            Sòzinha sorria a estas lembranças como quem desvenda um arquivo ignorado.

            Jamais me ocorrera ter fixado tamanhas bagatelas e, a sua descoberta tornava-se- me divertida.

            Recordava perfeitamente as meias masculinas. Revia as ligas ajustadas debaixo do joelho com fivelas metálicas, e as presilhas com molas de prender penduradas uma de cada lado que mantinham as peúgas ou, peúgos esticadas a rigor, que via meu pai, meus tios e meu avô usarem...

            As polainas, com passadeira por debaixo da sola dos sapatos que todos os senhores usavam. Pensando nas diferenças ao comparar com os costumes de hoje, foi irreprimível a minha vontade de rir.

Reportei-me então à minha infância, quando pelas manhãs dos dias frios, nos equipávamos também com polainas de malha de lã, grossas e macias, cobrindo as meias como remate da indumentária invernosa e, para conforto evidentemente!

            As polainas deviam representar um sucedâneo, bem mais económico, da protecção e aconchego que davam os canos das botinas, penso eu...

            Anos mais tarde o uso indiscriminado das calças compridas para raparigas e rapazes havia, de substituir, com vantagem, tais acessórios.

            Das polainas às meias de lã tecidas à mão, e às meias de linhas de algodão, com cores berrantes que as mulheres do campo eram exímias em executar sentadas às portas conversando umas com as outras enquanto tomavam o fresquinho , ou aproveitavam a dádiva do calor do sol no tempo frio - foi um fluir de recordações que acordavam e se cruzavam como riscos de luz  dum fogo de artifício inesperado.

            Os desafios mal disfarçados de rivalidades de sabedoria apreendidos nos comentários: A fulana deita melhores biqueiras que a sicrana, mas em calcanhares

ninguém a bate! - Com que se alfinetavam as comadres no soalheiro das aldeias, apareceram por acréscimo à evocação das meias grosseiras que se usavam no campo e que consertadas e reconsertadas ficavam às riscas já que o sol e as lavagens se encarregavam de ir alterando as cores. Embora da mesma meada nunca o tom dos remendos se aparelhava com o esmaecido do trabalho primitivo já muito batido pelo uso.       

 

             Desta forma até as meias contavam os prodígios de poupança a que o viver dos pobres obrigava.

            “Remenda o teu pano que chegará ao ano! – se o tornares a remendar, tornará a chegar!”

            Ainda não chegara a fúria do consumismo. O poder económico do trabalhador do campo, já então, era uma figura de retórica...

            Enquanto isso, nas cidades, triunfava a meia de fio de Escócia. Quanto mais fina mais cara e mais frágil e mais elegante! E eram as raparigas a desejar substituir as peúgas por meias altas como testemunho de já serem umas senhoras. E era o irrecusável apelo dos jogos e brincadeiras próprias da pouca idade que transformavam essa vitória no mais lamentável desastre com buraqueiras e malhas caídas comprovativas da glória imerecida.

            Mas, quando já espigadotas “que charme” poder perguntar: - tenho o revesilho das meias direito? E as baguetes?- E as meias caídas? Mal esticadas? - Céus! Isso seria o cúmulo do descrédito!

            Não consentir na exibição desses sinais de desmazelo, era o máximo do apuro.

            “Menina prendada não é desmazelada “ era outro aforismo desse tempo em que havia como que um código de compostura pelo qual toda a gente se regia.        

            Penso que só por acaso alguma rapariga de agora saberá o que é um revesilho.

            No entanto estas memórias não estão muito longe no tempo, isto não é história de há séculos, mas sim do fim da primeira metade deste que agora se despede...

            Quando tudo começou a evoluir mais rapidamente, apareceram as fibras, e o nylon destronou sem piedade as conceituadas meias aparentemente instaladas como donas do mercado. As apanhadeiras de malhas que por detrás das meias portas ou nos vãos de escada gastavam os olhos, iludindo a pobreza, a troco duns escudos, para reconstruir, quase sem rasto ou com pequeníssimas cicatrizes aquelas finas teias de aranha em que as meias se tornaram foram desaparecendo na medida em que o consumismo foi triunfando e o usa e deita fora ganhou com segurança a guerra contra as poupanças

            Estamos no apogeu desse usa e deita fora. E a perna ao léu é uma conquista da liberdade de cada qual viver à sua realíssima vontade

Neste descontraído falazar que são por vezes estas conversas soltas calhou-me hoje lançar um olhar sorridente para coisas passadas, tão sem importância, que ninguém nelas pensa, mas que são capazes ainda de acordar reminiscências no coração de quem viveu esses tempos.

Se assim tiver acontecido, por um só sorriso, que tenha feito nascer a alguém mais só, ou mais triste, terá valido a pena evocar estas ninharias.

                                            

                                          Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.464 – 31-7-1998

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 20:59





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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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