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Maria José Rijo

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Reminiscências 7

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.497 – 26 / Março / 1999

Conversas Soltas

Reminiscencia nº 7

 

Num dia seis de Março, há vinte anos, faleceu, já então, muito velhinha uma pessoa maravilhosa, cheia de sabedoria e bondade, que encheu a nossa infância e adolescência (de minha irmã e minha) com contos, poemas, histórias e orações. Era irmã de meu Pai e, tal como a dele, a sua vida foi, para nós, lição de coragem, trabalho, dignidade e caracter.

            Como era muito inteligente e generosa tinha sempre a preocupação de encontrar forma de ensinar o que achava necessário da maneira mais subtil e mais divertida que pudesse.

            Daí, que usasse o célebre poema de João de Deus – Militarão - para nos precaver contra a gula. Quando na via irresistivelmente tentadas a comer doces em excesso, com um bondoso sorriso de condescendência ela repetia: - daqui a pouco nem vos cabem dois dedos na boca, como ao militarão, e sorrindo ia recordando:

 

                        Um valente militar

                        Ficou tão abarrotado

                        N’um opíparo jantar

                        A que fora convidado,

                        Que o que fazia era impar,

                        E estava dando cuidado.

 

                        Diz - lhe aflita uma das manas:

                        “Meta dois dedos na boca,

                        Provoque as ânsias, a ver!

Dois dedos na boca... louca?

Se eu os pudesse meter,

Metia duas bananas.

 

Também jamais poderia esquecer a delicadeza com que nos estimulava a coragem que ás vezes é necessária para cultivar a lealdade.

Contava que quando Nossa Senhora fugia com S. José para salvar o menino Jesus da fúria de Heródes encontrou duas aves, um pisco e um chasco.

Assustada, receando encontrar-se com os seus perseguidores, perguntou Nossa Senhora aos passarinhos: pisco! - Indo por aqui encontrarei os soldados?

Sem sequer pensar, o pisco respondeu: pis, pis, por í, bem is e, foi à sua vida fugindo às confusões, sem mais se importar com a aflição daquela Sagrada Família.

            Foi então que o chasco muito aflito começou a voar por todos os lados até que avistando os soldados voltou, para alertar, piando: chás, chás, por í, mal vás e os carrascos encontrarás .

            Agradecida, Nossa Senhora, abençoou o chasco para que fizesse o ninho nos buracos das rochas, bem alto, para que as suas crias ficassem mais protegidas

 .          Seguiu Nossa Senhora o seu caminho e ao passar junto do mar perguntou a um linguado se a maré enchia ou vazava. Sentindo-se muito seguro pela sua cor de areia que

o dissimulava aos olhares e pela facilidade com que na água se deslocava, permitiu-se o peixe , sem saber com quem falava, troçar  da pergunta fazendo uma careta e repetindo-a com desdém , em lugar de dar a resposta que lhe tinham solicitado.

            Que a boca te fique de lado, disse-lhe então a Senhora, para sempre te lembrares que quem pede ajuda deve ser ajudado e não arremedado.

            Ao perceber com quem falara quis o peixe desfazer o mal pedindo desculpas.

Mas, Nossa Senhora, avisou:- assim te lembrarás que o bem se faz sem olhar a quem.  Outra pequena história, engraçada, servia para que fixássemos que tudo na vida está nas mãos de Deus e que nunca deveríamos ser arrogantes.                 

            Era assim: - em certo dia, Jesus disfarçado de mendigo perguntou a um vaidoso: - aonde vais montado no teu burrinho? - Vou à feira; foi a resposta.

            Se Deus quiser, – acrescentou Jesus.

            Logo o outro com arrogância retorque: que Deus queira que não queira, com o meu burro vou à feira.

Calou-se Jesus e o feirante seguiu o seu caminho. Porém, logo adiante ao passar por um riacho apareceram tantas rãs aos saltos que o animal se assustou e deitou o homem ao chão. Lamentando-se, com o fato todo molhado, como uma sopa queria o arrogante segurar o burro que só escoiceava e não dava mão. Então, passa de novo Jesus que volta a perguntar: aonde vais? - À feira, disse o outro voltando a escorregar.

            À feira? Insistiu Jesus.

            Sim! Desde que Deus queira. E, dizendo assim, imediatamente se levantou agarrou o burro e retomou a marcha tendo-lhe o fato secado como por milagre.

            Olhou então em redor para ver se avistava quem lhe falara. Já não viu ninguém, mas havia por todos os lados uma música tão suave, um ar tão lavado e fresco, uma tal paz na Natureza que o homem percebeu que Deus dele se compadecera e lhe mostrara que é erro grave viver com o coração tão cheio de soberba.

 

 

                           Maria José Rijo

 

                       

A VOZ DOS POETAS

São Bartolomeu de Messines, numa rua que sobe à direita de quem sai da Igreja Matriz - frente a frente ficam duas velhas casas .

     De uma delas, a da esquerda, quando se sobe a calçada - a mais pequena, saiu minha Mãe um dia, vestida de noiva e foi depois residência de meu Tio mais velho e, ainda hoje, através dos seus descendentes, permanece na família .

     Na outra, que faz esquina, é enorme e tem uma das frentes virada para o lado da Igreja - habitou João de Deus.

    Há alguns anos quando, mercê de circunstâncias, por lá passei integrando um grupo de elvenses, ao contar, que um dia no passado, eu saíra daquela casa ao colo de minha Tia mais nova para ser baptizada naquela mesma igreja feita de pedra vermelha, como não vi outra ainda - espontaneamente, para meu enlevo, escutei os parabéns a você.

     Nesta época de Natal e Ano Novo, em que mais do que nunca o coração canta e chora saudades, mesmo sem querer as recordações fluem e, muitas vezes, na voz dos poetas encontra-se a resposta para os nossos próprios sentimentos. Não fora a época que é, e eu, de João de Deus - esse lírico ímpar da nossa poesia - recordaria hoje aqui, a história do Leão Moribundo!...

     Porém, como é a época que é - acho mais a propósito deixar-vos com um poema que mostra como João de Deus, via, no seu tempo, as eleições. Ou será que a escrita é de hoje e fui eu que não percebi...

          

                            entre el-rei e o povo

                         Por certo um acordo eterno:

                         Forma el-rei governo novo,

                         Logo o povo é do governo

                         Por aquele acordo eterno

                        Que há entre el-rei e o povo.

 

                       Graças a esta harmonia,

                       Que é realmente um mistério,

                       Havendo tantas facções,

                       O governo, o ministério

                       Ganha sempre as eleições

                       Por enorme maioria !

 

                       Havendo tantas facções,

                       É realmente um mistério !

 

        Se Deus me der vida e saúde conto, já de posse da cassete que me proporcionará o som para juntar à prova literária que já possuo - com toda a dignidade, como é minha obrigação e timbre - fazer uma série de artigos sobre as eleições que recentemente decorreram em Elvas.

         É minha obrigação de cidadania explicar os porquês de cada coisa .

         Elvas sempre me mereceu e merece pôr os seus interesses acima dos meus, o que corajosamente conto fazer.

                                    Maria José Horta Travelho de Almeida Rijo

                                       Poetisa, Escritora, Articulista, Pintora... ...

In :

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.434 – 2-Janeiro - 1998

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