Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Apresentação do Livro de Amadeus Lopes Sabino

A sala polivalente da Biblioteca Municipal de Elvas
Dra. Elsa Grilo acolhe, a 6 de dezembro, pelas 18 horas,
a apresentação do livro “O Todo ou o Seu Nada"
de Amadeu Lopes Sabino e
editado pela Editorial Bizâncio.
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A apresentação do Livro
será feita por
Maria José Rijo
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1-O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Todo ou o Seu Nada»?
R- O regresso a uma época que vivi intensamente, o fim da ditadura portuguesa, a transição,
o início do novo regime. Interessam-me muito a ideia, o tempo e as
muitas faces de uma transição de regimes, momento contraditório e
criativo em que as personalidades se forjam e se revelam.
O homem, dizia Nietzshe, é transição e queda.
2-Ao escrever este romance, o que o mais o fascinou em João Falcato?
R- João Falcato (1915-2005), que conheci bem, foi um homem
sempre em trânsito: entre a glória, a queda e a ressurreição.
Genial na banalidade, criativo na insignificância, indiferente
à grandeza e à catástrofe, inteiro na tragédia.
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Penso pouco no futuro, o que, tendo em conta a minha idade,
é sinal de alguma prudência. Escrevo tudo e escrevo nada.
O que resultará, eis um enigma. Gosto de enigmas.
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Amadeu Lopes Sabino
O Todo ou o Seu Nada
Bizâncio 15€
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Sete de Fevereiro
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.646 – 22 - Fevereiro - 2002
Conversas Soltas
Sete de Fevereiro

Às vezes, algumas vezes mais do que seria para desejar, ando perdida do calendário. Outras, acerto o passo com o tempo e lembro-me de datas, eventos, efemérides...
No passado dia sete completaram-se cinquenta anos sobre o desaparecimento físico do Poeta Sebastião da Gama.
Por razões diversas, sendo a principal o meu apreço pela sua poesia e a minha admiração pelo humanista que ele foi, muitas vezes penso em Sebastião da Gama.

Não o conheci, mas sendo velha amiga de Matilde Araújo e de João Falcato que foram seus condiscípulos; tendo ainda

tido oportunidade de conviver muito de perto com os pais do grande poeta e correspondendo-me com Joana Luísa sua inconsolável viúva, fui juntando memórias várias do seu percurso entre os demais, e, muitas vezes reflicto sobre atitudes desse homem enternecido pela Vida que Sebastião foi e procuro delas tirar força e exemplo.

Bem entendido que para lhe estar grata, já era mais do que suficiente toda a beleza da sua poesia e do mais que ele escreveu, como só ele podia e sabia.
Mas Sebastião era uma bênção de Deus e o seu rasto na Vida foi como um traço de luz deixado pela passagem de um anjo - que ele talvez seja ainda, lá nessa outra dimensão para onde a vida terrena se esvai. – Isso, não sei, nem posso dizer.

Mas esta conversa vem à colação porque para homenagear um escritor ou um poeta nada faz mais sentido do que ler as suas obras. Assim que agarrei num livro seu e abri ao acaso.
Era assim :- Sobre António Sardinha
Numa nota de rodapé, esclarecia: Este trabalho incompleto destinava-se a uma conferência que Sebastião pensava fazer

Abria com esta frase: - Cabe aos poetas mostrar a grandeza da Vida. Vê-la – muitos a verão também. Mas como são quase sempre as menos aparatosas as coisas muito grandes, aí temos meio mundo de olhos fechados.
... Da última parte consta: -...Como se depreende do meu preâmbulo, não falarei senão da faceta de Sardinha que se acomoda ao que expus; e já agora vos digo que limitei a minha leitura à Epopeia da Planície – por motivos vários e até por este motivo irónico: chamar-se epopeia o livro,

Basta correr os olhos pelo índice para ver que não são as armas e os barões que assinalam esta epopeia: À Pedra da Lareira, O Louvor da Cal, O Elogio do Púcaro, A cantiga da Pedra, Ladainha da Agua dos Cântaros, O louvor do Sal. Eis parte do índice, eis os barões: a água, o púcaro, o sal, a lareira; coisas de nada.

Com o livro em mãos chego à minha janela penso em Sebastião e olho o que resta da Quinta onde viveu António Sardinha e onde agora se sepulta sem dó, sem beleza e sem dignidade tanta memória desta cidade de Elvas...
Na verdade não se pode, infelizmente, fazer entender às pessoas “importantes deste mundo” o valor sem conta das coisas de nada, que fazem a grandeza da Vida...
Maria José Rijo
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Alçada Baptista e outras lembranças...
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3003 – 15 de Janeiro – 2009
Conversas Soltas
Elvas, 10 de Janeiro 2009. Olhava a Quinta do Bispo pensando: - faz hoje 84 anos que António Sardinha morreu.
Tinha então – quase – 37 de idade.
Vou reler qualquer texto dele, é a minha homenagem possível.

Abri – Doze Sonetos – Edição de uma Câmara de Elvas que, parece, até, lia poesia...era em 1973.
Na contracapa, com a sua letra miúda, escrita por mão já tremula uma dedicatória para meu marido e para mim, de sua saudosa viúva.
Mentalmente recordava – “vesperal” – “se eu te pintasse posta na tardinha...”
Uma notícia, chama-me á realidade.
Decididamente ando fora do mundo.
Então, não é que Alçada Baptista morreu, e eu não me apercebi?
Devo-lhe tantas horas de prazer e encantamento com a leitura dos seus livros que sinto, sinto de todo o coração, que tinha o dever de não chorar em silêncio a sua perda.

Eu tinha começado por ler :- Tia Suzana, Meu Amor - que de tal forma me encantou que, me lembro de , aqui neste jornal, ter falado nesse livro – já nem sei há quantos anos.
Em relação a isso estou perdida no tempo, o que não admira, tantos são!
Brincando, brincando, devem somar bem perto de novecentos os textos que escrevi para o jornal e para a sua extinta revista
Eu tinha o costume de ouvir na rádio e ler em jornais e revistas crónicas de Alçada, - ou - onde quer que as descobrisse.
![[o+riso+de+deus.jpg]](https://1.bp.blogspot.com/_xtUAsaKRuHg/SKxbEPG9KhI/AAAAAAAAABg/OwBhfNykIE8/s1600/o%2Briso%2Bde%2Bdeus.jpg)
Pois, quando li “O riso de Deus”, fiquei tão curiosa, tão ávida de conhecer Alçada, que me apeteceu escrever-lhe, metendo-me na pele de uma personagem e fazendo-lhe as perguntas e os comentários que essa leitura me sugeriu.
Entre o que se pensa e o que se faz há uma distância pequena, às vezes, mas, onde cabe o: não fazer.
Assim aconteceu, mas ficou-me sempre a frustração da perdida oportunidade de ter procurado entender melhor as subtilezas do fascínio de Alçada - não pela Mulher – se bem que, esse, também – mas, pelo feminino, quase como um culto latente na sua escrita.
Lembro-me de ter comentado o livro com o Dr. João Falcato que sendo seu amigo de curso, me prometeu proporcionar um encontro , numa das visitas que dele recebia em Borba.
Porém, isto de promessas entre gente de muitos anos, mete, com frequência, viagens sem regresso que ninguém controla.
Assim veio a acontecer.
Encontrei Alçada, uma única vez, no cemitério do Alto de São João no funeral de Helena Vaz da Silva, mas ele estava tão arrasado que seria até, impudico, tê-lo incomodado.
O que não perdi, foi o contacto com a obra do escritor.
Fui comprando. Comprando e lendo. Lendo e pensando e, sempre sentindo o “tal” dialogo entre o homem e Deus e o tal fascínio...
“O deus que ri, o deus que joga, no sentido mais lúdico do termo, um deus apaixonado pela pura alegria de existir”
Acompanhei-o em “ Peregrinação Interior”, “A cor dos dias” e pus à minha cabeceira – “O Tecido do Outono” onde retorno, sempre com interesse, para ler coisas tais como:
- “ Aquilo que vivemos não está no mundo, está na maneira como olhamos para ele.
É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz”

Este livro de que acabo de citar um pequeníssimo excerto
abre
- citando Ruy Belo - assim:
“É triste no Outono concluir
que era o Verão a única estação”
De outro livro, respigo também uma citação de abertura, de
Martin Buber
“Deus não me pedirá contas de não ter sido
Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo.
Deus vai pedir-me contas de eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber”

Vou fechar estes comentários parafraseando – para Alçada – uma dedicatória que ele próprio, escreveu – para Alexandre O’Neeill - com toda a simplicidade da sua enorme dimensão humana e intelectual,

“ Na recordação de (Alçada Baptista), como sussurro da saudade”
Maria José Rijo


