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Maria José Rijo

Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@

Quantos outros?

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1826 –  28 de Fevereiro  1986

Quantos outros?

 

Mesmo com este tempo irregular, já se sente a Primavera – que não tardará – incubada na macieza do vento que passa.

Mentalmente já se começam a estruturar passeios ao campo, cujo apetite transparece logo que o sol, mesmo tímido, aparece, e o ar amorna.

As tardes são maiores, a luz é mais viva, talvez o tempo comece a render melhor e se possam, enfim, cumprir desejos que se guardam de ano para ano.

A televisão avassala os serões m que se lia, ouvia-se musica ou conversava. Os empregos retêm as pessoas fora de casa quase todos os dias da semana.

As tarefas ficam mais breves a atravancadas pelas tarefas inadiáveis, a que obriga a subsistência. Os congelados – acabados à pressa – facilitam – e vão surgindo sobre a mesa em lugar das sopas perfumadas que se insinuavam pelo olfacto, espevitando o apetite. As casas já não são as colmeias que giravam em torno da abelha-mestra, e onde cada criança passava o dia à descoberta, cirandando de cá para lá, aprendendo a conviver com as outras gerações e descobrindo o seu próprio espaço. Os tempos mudaram! Esse “Tapete de segurança”  da vida de família em torno da Mãe e dos Avós – em casa – com o Pai a regressar à tarde, com o jornal para se ler ao serão e, a família, em festa a recebe-lo, como se de longe chegasse – passou.

Os meninos, já não são os pintainhos que a asa da galinha aquecia protegendo. Agora, igualizados, são parte do bando maior que o aviário cria, com regras sabiamente estabelecidas e exercidas com rigor científico. Até por isso, porque a casa e a família, já não podem ter o espaço, de preponderância, que regia as influencias para a desejada formação dos filhos que seguiam hora a hora – a sociedade que absorve e usa o tempo de todos – tem mais deveres para as gerações novas.

É vulgar ouvir e censurar a mocidade – é corrente fazer-lhe exigências – é frequente enche-la de presentes (como quem compra cumplicidades ou paga compensações…) mas, já ninguém estranha ver os filhos sós, entregues a si próprios, sem esclarecimento a tempo, a maior parte das vezes sem ideias que os reúnam e despertem para causas superiores.

Pensava em tudo isto, nesta tardinha de Fevereiro, vendo vaguear ao acaso, a gente nova, e, deixando crescer dentro de mim a esperança de que a Biblioteca e o Museu possam ser em breve os espaços de cultura de que Elvas precisa, se Elvas o quiser verdadeiramente.

Aos nomes consagrados de Eusébio Nunes da Silva que fundou o Museu e de António Torres de Carvalho, Francisco de Paula Santa Clara, Vitorino de Almada, António Domingos Lavadinho, Major Baião, António Tomás Pires, Júlio Botelho, e mais recentemente Eurico Gama – (e tantos mais, cito de memória ao correr da pena) – quantos outros elvenses poderão, se quiserem, acrescentar os seus nomes a esta lista revitalizando como oferta de meios de modo a tornar vivos e actuantes os espaços culturais:

Biblioteca – Museu – que antepassados seus – com rara visão de futuro – criaram com as suas doações.

 

Maria José Rijo

Três citações

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.726 – 19 de Setembro de 2003

Conversas Soltas

 

 

Já poucos livros compro.

Já nem devoro com incontrolável avidez, um ou outro a que não vou conseguindo ainda resistir, e, ou pelo tema, ou até, á vezes, pela sedução que a capa em mim exerce, compro um pouco ao acaso, sucumbindo à tentação, como quem se submete, vencido, ao apelo da gula.

Agora, tiro mais encanto e conforto interior, a reler. A revisitar textos de que guardo memória. A bisbilhotar as marcações de páginas, que ao longo dos anos fui deixando a assinalar, uma ou outra frase, um ou outro pensamento que, por razões de que já nem sei o porquê, deixei a jeito de consultar com mais facilidade.

É um pouco como quem procura amigos de sempre, em cuja sabedoria confia e acredita.

Nesta linha de procedimento, chamei a mim, de novo, o encanto que já repetidas vezes tenho saboreado a ler e reler Marcelo Mathias em “Lembrar de Raízes”.

 

Tinham acabado de me garantir que a decisão de construir o parque de estacionamento sob o tabuleiro da Praça da Republica, era irreversível...porém, como enquanto há Vida há esperança tive a tentação de reavivar o meu protesto contra projecto tão insólito e tão repudiado por todos os elvenses. Quase logo de seguida desisti do meu intento e para me libertar do “pesadelo”, optei por ler um pouco.

Lidas algumas linhas, impôs-se-me uma mudança de atitude.

É que acabara de encontrar a resposta adequada às minhas hesitações.

Cito:

“Aos outros a conquista da Liberdade.

A mim pertence-me conquistar as liberdades que me pertencem.”

“Entre os servos que se julgam senhores e os senhores que pretendem continuar a sê-lo estou eu, cuja única ambição é parecer-me comigo. (pelos tempos que correm, nem sempre é fácil.”

 

Muitos de nós sabemos isto.

Que, pelo menos alguns de nós, não desistamos!

 

Sem comentários, transcrevo a terceira citação...

De resto comentários para quê!...

 

“ Lembro-me de julgar que só era governo quem fosse mais inteligente do que os outros.”

 

 

Maria José Rijo

                 

 

Enquanto Se Esperam As Naus Do Reino...'

Maria José Rijo

Nº 2.992--30- Outubro 2008

Jornal Linhas de Elvas

Conversas Soltas

 

Às vezes invade-me uma estranha sensação de nostalgia e nasce-me uma premente vontade de desistir.
Mas, desistir de quê? - O que faço eu, além de receber o Dom da Vida, que me permita atrever a afirmar que vou desistir!
Ora se não sou eu que faço a minha Vida, e, é ela que me molda a mim, não me cabe desistir do que, usando, não possuo.
Resta-me acreditar que o Bem, a Amizade, o Reconhecimento, a Justiça, a Gratidão, e todos os sentimentos que devem constituir a génese da alma humana – existem – e seguir em frente sem esperar do céu o milagre da retribuição a que, sempre, nos julgamos com direito pelo empenho com que vivemos os nossos afectos.
E, se como disse Santo Agostinho – viver é conviver.
Honremos os Amigos de quem nos honra o convívio.
Com uma dedicatória que me comoveu, pela amizade que, subjacente, lhe está implícita – talvez também porque a noite da passagem para aquele dia de Ano Novo antes da partida para a Índia foi vivido em nossa casa e, as já nascentes saudades das separações foram adoçadas com aqueles 'sonhos' boiando em rescendente calda de açúcar e canela, como só a Fernanda sabia fazer - recebi, do seu autor, um livro cujo título encabeça esta conversa e, me fora 'prometido acontecer', num passado mais recente, também pelo Ano Novo, em Cascais, num reencontro imposto pelos nossos já bem experimentados corações.
Foi de mãos trementes que o desembrulhei.
Fora-me anunciado pelo telefone. O livro é da autoria de João Aranha. Melhor: conta da sua vida, mas logo pela capa, bela, evocativa da nossa história e dos românticos sonhos desse colonialismo obsoleto que tudo sacrificou sem honra nem glória, fui sensível ao título que leio como a notícia da esperança de que a cada causa defendida às vezes com o sacrifício da própria vida, aportem um dia, não importa quando 'as naus do reino' trazendo respostas – daquilo que, o que se diz ser: politicamente certo – esconde, mas sempre se espera que os ventos da história reconduzam a porto certo.
João Aranha, prestigiou e enriqueceu - também - com o seu saber e a sua prosa escorreita, este jornal, com as suas crónicas tauromáquicas de saudosa memória.
João Aranha, foi militar em Elvas, e daqui, como oficial, partiu para a Índia, em 1957 num luminoso dia de Abril integrando um esquadrão comandado, pelo capitão de cavalaria, José David Baena Nunes da Silva, o 'Pepe', como por todos os amigos era identificado, que o mesmo é dizer por todos os elvenses do seu tempo.
Quando se completaram cinquenta anos sobre esse histórico acontecimento João Aranha promoveu AQUI, na nossa cidade uma comemoração para a qual convidou os sobreviventes dessa saga, suas viúvas e descendentes e, como é obvio, as autoridades locais, que apenas se fizeram representar no almoço, e a que nem o Boletim Municipal fez referência...
Dessa efeméride, na parada do antigo quartel de Lanceiros um, uma lápide comemorativa, dá testemunho.
Agora, a verdade dessa odisseia está ao alcance de todos, patente num livro escrito sobre um diário, desses tempos de guerra colonial - contados, não por quem ouviu dizer - mas, sim por quem fez parte daqueles que em sacrifício morreram ou a viveram por todos nós.
É um impressionante documento.
São acontecimentos da vida de um homem jovem, que ao contá-los hoje, com 85 anos, a esta distância no tempo - os narra com a humilde maturidade de protagonista que foi, da história do seu país, deste nosso país, que os vilipendiou para não dar a face e se recusou, depois, a tratá-los pelo que foram em boa verdade - heróis e vítimas.
Aconselho vivamente esta leitura e, presto a minha homenagem ao seu autor que nos enriquece não só pela qualidade da escrita, como por aduzir ao nosso conhecimento importante documentação sobre a guerra colonial portuguesa.

Maria José Rijo

 

Um sarau com “ Prata da Casa”

Se é sempre bom um pretexto para falar de outras coisa, que não a subida de preços e preocupações quejandas, melhor ainda para qualquer de nós quando a ocasião nos aporta conhecimento de novas pessoas, novos assuntos, e novos livros.

Assim aconteceu. No auditório, chamado muito recentemente de São Mateus, anexo ao Museu da Fotografia João Carpinteiro.

Um Poeta – José Corrêa Guerra – lançou - um  livro –“Palavras Convexas” o segundo de sua autoria; e, uma figura incontestável da cultura elvense – Doutor Moura Fernandes - fez  em seu jeito erudito, para a interessada assistência, a  sua apresentação.

Uma Senhora que não foi apresentada, leu, e muito bem, alguns poemas do livro estreado; e, uma Menina, também não identificada para o público, tocando piano, emprestou beleza à festa que, assim, com música encerrou.

Foi agradável, e os dois pequenos reparos que aqui deixo, visam apenas ajudar para que, em idênticas circunstâncias, no futuro, não fique incógnito qualquer interveniente no desenvolvimento cultural do nosso meio.

O sarau, começou com o autor do livro a dissertar sobre esse tema inesgotável que é a tentativa de definir – o que é a poesia - a que eu junto aqui uma achega, talvez menos estudada,  de Adolfo Casais Monteiro:

 

A poesia, não é voz – é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho,

E aos homens um sentido que não há

Nos gestos nem nas coisas:

Voo sem pássaro dentro.”

 

Usou da palavra, em representação da Câmara, o senhor vereador Bagorro, que, com simplicidade, disse o que era certo para a circunstância, e falando embora dos méritos da instituição que ali representava, como se esperava e era justo que o fizesse, não caiu na tentação de enveredar para o pendor político transformando em comício, uma festa de diferente temática, que honrou com a sua presença. – Parabéns!

 

Comentar os poemas do livro, que já li, é tarefa a que não me abalanço.

Falta-me, para tanto “ engenho e arte ”.

Até porque, cada poema, em princípio, para mim é sempre um estranho que cruza o meu caminho.

Pode até seduzir-me, intrigar-me a forma, a musica das palavras, a mensagem que pressinto que me traz, pode…

Mas ninguém se familiariza, por norma, à primeira vista, com o que lhe era desconhecido, sem tempo, sem identificação...

Eu explico o que pretendo dizer: a primeira vez- muito nova ainda - que li os Lusíadas, logo no final do primeiro verso fiquei a pensar: - “As armas e os barões assinalados?”

Então as armas eram um exército, os barões outro? - E assinalados como? – Com que sinais?

E, a “ocidental praia lusitana”, onde seria? – Sendo lusitana era nossa, mas onde seria? - Mais a sul? – Ou, mais a norte?

            Lembro-me de concluir que aquilo era demais para mim. E, era.

O tempo passou e, com ele veio o conhecimento, o enlevo, o deslumbramento, a compreensão, a paixão pelos Lusíadas.

Já os barões se apresentavam como os lusíadas, que somos, já os assinalados, não eram marcas físicas mas carisma de valentia e grandeza. E, já repetia de cor versos e versos sem pensar o que quereriam dizer, mas sentindo-os, já sendo conhecidos e reconhecidos, da minha, da nossa colectiva, alma lusíada.

Evidentemente que o tempo, nesse “tempo”, não é o “meu” de agora, mas, mesmo assim, ainda preciso “dele” para chegar, por vezes, ao lugar de entendimento, onde os poetas, põem o coração nas palavras, de modo a permitir-me descobrir o mundo através da sua linguagem simbólica e misteriosa.

 

Aproveito para agradecer com muito carinho o livro “ Íntimos Afectos”- de José António Chocolate –outro poeta que nessa mesma noite conheci. Livro que já li – e com muito apreço vou relendo -  e, que,  também , aqui ,recomendo.

 

Mais uma nota, mas, depois de tratar de coisas belas, não poderia deixar de mencionar a iluminação do Convento de São Francisco, verdadeiramente preciosa.   

 

 Maria José Rijo.

 

Do Amor

.

Era pequeno o menino!...

 

Na mão dum outro, na rua,

Viu um pobre passarinho!

 

Doeu-se o seu coração

Voltou p’ra casa à sucapa

Foi quebrar o mealheiro

E  deu todo o seu dinheiro

Por uma ave implume

Que não sabia voar

E não lhe quiseram dar…

 

Era pequeno o menino!...

 

Pé ante pé, qual ladrão,

Andou de casa p’rá rua,

Sabendo que o castigavam

Porque faltava à lição!

 

Era pequeno o menino!...

 

Chegou à escola tarde,

Não recreou nesse dia,

Viu zangar-se o professor,

E o menino chorou!...

-- Mas calou-se, não contou

Que sofria por amor,

Que só lhe doía a dor

De não ter asas, não ter ninho

Para dar ao passarinho!

 

Era pequeno o menino!...

 

Tinha asas, não as via

Porque elas não serviam,

P’ra voar, ao passarinho!

 

Era pequeno o menino!...

Porque morrem os meninos?...

 

… E morrem sempre os meninos!

 

Maria José Rijo

2 – Julho – 1956

.

Livro paisagem

II Livro de Poemas

Poema nº 22

Pág .- 99

 

Esperança

Vem lá o sol!...

Lá vem ele, vitorioso a nascer!

Vou olhá-lo bem de frente

Quero-o ver! – Quero-o ver!

 

Vem lá o sol, outra vez!

Ainda ontem morreu…

Morreu com um dia triste

Só de nuvens, só de vento…

De tom carregado – cinzento…

E ele volta outra vez!

 

Não sabe inda o que vai ver!

Não sabe – e volta outra vez!

 

Vem lá o sol!...

Lá vem ele!

 

Ai, que alegria saber

Que mesmo envolto em mau tempo,

Pela borrasca escondido,

Ele morre suavemente

Como nos dias felizes

Em que reina soberano!

 

E ainda que não brilhe

E nem calor possa dar…

Há dias, e em cada dia,

Sempre o sol há-de voltar!

 

Maria José Rijo

Julho de 1956

 

Livro de Poemas

Paisagem

Poema nº 20

Pág.- 91

Desenhos da autora

 

O aniversário do Avô livro

Conversas Soltas

Nº 2.244 – 15 de Abril de 1994

Jornal Linhas de Elvas

---

Jornal O Dia

 

Com a minha amizade agradecida a todos quantos faziam o favor de ler o meu “À Lá Minute” e também para as delicadas colaboradoras que ainda hoje se empenham na defesa do Património inestimável que a nossa Biblioteca contém.

A notícia correu na cidade.

Em 30 de Dezembro de 1988 – na nota da semana do Jornal “Linhas de Elvas” JOSÉ RIJO escrevera:

“Festejar o lançamento de um livro é normal, é do dia a dia. Festejar 500 anos de vida de um livro é ideia que ultrapassa a simples satisfação e orgulho de um autor pela obra concluída para ser uma demonstração do respeito natural e dignificação pelo “Livro” na generalidade.”.

 

Por entre as altas estantes repletas de livros que vestem as paredes de salas e corredores do velho convento dos Jesuítas adaptado a Biblioteca desde o dia 10 de Junho de 1880 – no reinado do Senhor Dom Luís que Deus tenha em sua Santa Guarda – passava eu naqueles anos 86/89 vezes incontáveis.

Faze-lo era uma preocupação do meu quotidiano que nunca se tornou rotineira.

Fosse das brancas abóbadas, do vermelho da tijoleira encerada, da passadeira de corda que abafava os passos, fosse dos reflexos de luz nas estantes castanhas. Fosse da presença dos cerca de 80.000 livros. Fosse dos nomes gravados de autores, beneméritos, fundadores… fosse do que fosse o ambiente por lá tem qualquer coisa de poético e sagrado que prende.

Nos dias bonitos, pelas janelas talhadas nas paredes espessas por onde se espreita o jardim, entravam nesgas de sol que no movimento cadenciado do tempo iam como ponteiros luminosos indicando lombadas, avivando oiro de letras acordando da sombra títulos mais gastos como que sugerindo: - olha aqui.

Os livros novos, com seu cheiro de colas e tintas frescas despertam o apetite, a gula como caramelos. São apetecíveis, alegres, vistosos. São quase “barulhentos” na vivacidade das cores das capas.

Os livros antigos são mais silenciosos e comoventes. São discretos, quietos e sábios como eremitas.

Passar por entre eles, assim – tu cá, tu lá – já era um privilégio.

Então sentia-me como um centurião cheio de fé a quem -  segundo S. Mateus no Evangelho Jesus disse: “Vai e assim como acreditaste assim será”.

Nunca duvidei que o milagre vivia ali ao meu alcance.

Os livros ressuscitam a qualquer momento.

Era só parar.

Parar, estender um pouco o braço, espetar o dedo indicador, pressionar o topo de uma qualquer lombada e pronto.

O livro cede. Obedece. Inclina-se.

Fica rendido – disponível.

Então a mão completa o gesto, dá-lhe apoio e recolhe-o. Abri-lo, folheá-lo, lê-lo… é a tentação.

Pronto. Aí está oferecido – de bandeja – uma vida, uma alma, um passado, uma aventura, uma experiência, uma história, um amigo, uma companhia. Tudo um livro pode ser e conter – mas, sempre, sempre o milagre à nossa mão.

Lê-se, relê-se. Pega-se, larga-se.

Ama-se, detesta-se, dá-se, vende-se, compra-se, rasga-se – queima-se – conserva-se! E tudo o livro consente.

Será que sente? – (Às vezes penso que sim)

O livro. Aquele livro noticiado fazia 500 anos.

Foi impresso em “Veneza no ano da Salvação de 1488, 8º Dia das Calendas de Novembro” – o que equivale actualmente ao dia 25 de Outubro.

Escrito em latim, tem o título de “Liber Medicinalis” e foi seu autor Quinti Sereni.

Veio-me ter à mão, por acaso.

Era agradável ao tecto, quase morno, como um corpo vivo.

Fiquei a passá-lo de folha em folha. Dos livros até o cheiro é bom – (era o meu estribilho) quando falava à garotada que procurava contagiar do meu desvelo por eles.

É um livro belo, profusamente ilustrado, cheio de referências à astrologia – um livro cheio de mistério, muito bem conservado ainda.

As páginas amarelecidas tinham manchinhas, como sardas, cor de chá num rosto nobre de pele curtida empregaminhada pelo tempo.

Como se vestisse um casaquinho justo de cabedal castanho, ali estava, nas minhas mãos enternecidas, encadernado em couro macio como seda.

Não é de todos os dias que se tem o condão de conviver e poder tocar em preciosidade como esta.

A biblioteca que o acolhe tinha sido recuperada com esmero. Cativar pequenos para o entre e sai que os familiarizasse com o espaço era o propósito principal de tudo que então, por lá se fazia.

A descoberta daquele “Avô livro” que fazia 500 anos foi um achado.

Logo se acomodou (a recato de tentações) mas em evidência e foi honrado com sua vela de aniversário, seu laço de fita de cetim branco e sua taça de rebuçados para retribuir “docemente” a atenção de quem quer que o cumprimentasse.

Foi a festa.

Ficou entronizado ao meio da sala de leitura e até se conduziram pela mão os mais miúdos.

- Anda, vem vê-lo! – Dizia eu – mesmo que não o entendas não faz mal. Ele é de outros tempos, usa outra linguagem – mas vem. Vem, que ele gosta e tu também vais gostar. Verás que te oferece rebuçados dos que ele usa para a tosse…

E a garotada, emocionada ria. Queriam ver, faziam perguntas. Deslumbravam-se descobrindo que aquele livro já existia no tempo das descobertas. E com seus olhos limpos de crianças, arredondados de pasmo repetiam: do tempo dos descobrimentos?

Os rebuçados iam desaparecendo. Iam-se renovando e velhos e novos, iam sorrindo e reflectindo conforme as idades, a formação, os gostos, as preocupações sobre aquela festa singular.

No centro do acontecimento – o Livro – Um livro!

Era o seu mês de aniversário.

Era a sua honra de ser o anfitrião de honra naquela Biblioteca fabulosa, recheada de maravilhas e ainda com tantos segredos por desvendar.

Ensinam-se as crianças a lavar-se, vestir-se, pentear-se, estar à mesa desde a mais tenra idade.

Dá-se-lhes responsabilidades pelo brinquedo caro, o fato, a prenda de ouro.

Saiba cada qual desde que começa a identificar o seu prato, a sua cama, a sua casa, a sua rua – que é igualmente seu e está à sua guarda o património que testemunha o passado do seu País – e tudo mudará.

Se eu tivesse duvidas – que não tenho – bastaria recordar a unção, a religiosa alegria que transbordava do rosto de qualquer menino ou menina a quem eu desse a mão e conduzisse junto da estante do cancioneiro da Públia Hortênsia para lhe pôr “aos pés” um botão de rosa, ou, um pé de rosmaninho junto aos Anais de Elvas ou qualquer outra simples homenagem a qualquer livro raro.

Se eu tivesse dúvidas…

 

Pensaria na dignidade, na compostura com que me acompanhavam e ficaria com a certeza, que guardo comigo, que o faziam como quem pede a bênção a um velho antepassado – com comoção e respeito e a consciência de que aquele culto os transcendia.

 

 

Maria José Rijo

 

Desvairamento

 

.

Não mereço a vida,

Não sei sublimar

A dor que ela me deu!

 

E melhor não nasci

Depois que morri…

Que morri dentro de mim!

 

Eu, não valho a pena,

Se acaso a pena valesse

Nasceria melhor

De tudo que em mim morresse!

 

Não!

Não mereço a vida!

 

Valha a verdade:

-- Não a pedi,

E, se a estrago,

É com a mesma sem vontade

Com que a recebi!

 

Não me fiz!...

Achei-me assim…

 

Não escolhi esta vida para mim,

E, se em mim há tanta dor,

É que estou vibrando bem

À vontade do Autor!

 

Não será pois um favor

Que ouça palmas no fim!

Maria José Rijo

2- Julho- 1956

 

II Livro de Poemas

Poema nº 12

Pág – 57

Desenhos da Autora

A Nossa Casa

 

Ninguém a sonhou p’ra nós,

Foi construída, alindada,

Ao sabor de sonhos belos

De geração já passada!...

 

Não a comprámos tampouco,

Nem de herança ela nos veio…

Eu alindo-a para ti,

Tu trabalhas para nós

E pagamos para a ter

Um mês que passa, outro após!...

 

Mas esta casa que é nossa,

Porque nós vivemos nela,

Tem um quarto em que dormimos

E o quarto tem uma janela!

 

E o quarto tem uma janela!

 

Por baixo dessa janela

Por onde o meu quarto espreita

Nasce a bela-portuguesa,

Com que ela, toda, se enfeita!

Por ali entra o luar

E o cantar da passarada

Que dorme à sombra das rosas

Ao saudar a alvorada!...

Por ali entra o aroma

Da baunilha lilás

Que incensa o ar que eu bebo

Mais do que a própria glicínea

Com seus cachos é capaz!

 

Há bailados de perfumes!

Há sonhos vagos no ar!

Há sugestões doutros mundos

Desta vida sempre bela,

No encanto do meu quarto

Por ter a sua janela!...

 

 

E não sou eu só que espreito

O que a janela me mostra!...

 

Tu julgas que a glicínia,

Quando à reseira se abraça

E sobe pela parede,

Não quer ver o que se passa?

Tu julgas que esse botão,

Que esta manhã descobriste

Já dentro do nosso quarto

Quando à janela surgiste,

Vivera sob a folhagem

Até florir, despertar,

Se não tivesse o intento

De nos estar a espreitar?

 

E esta bisbilhotice,

Não me aborreço eu com ela!

 

-- Porque também é encanto,

Do quarto,

Mais da janela!

 

-- Ainda hoje…

Estava eu no meu sítio preferido,

Naquele sítio (tu sabes),

Onde uma mancha no chão

É saudade de um relógio

Que na outra geração

Da gente que aqui morava

Marcava as horas da vida

Do tempo que então contava…

 

Pois estava eu mesmo aí…

 

A pensar, como é costume…

Hoje, até pensava mal!...

 

Mal daquela rapariga

De quem não tenho ciúme,

Mas que tu achas bonita!

(A que é filha da mulher

Que os homens trazem na lama)

Quando o botão que tu viste

Na nossa querida janela

Me chamou com seu perfume!...

 

Colhi-o, era tão lindo!

-- E só então reparei

Que a roseira sua mãe

(essa bela-portuguesa)

Tinha nascido no estrume!...

 

E era nele que vivia…

 

No canteiro em que se cria

Para encanto da janela,

E também do paladar

A salva e a mangerona!

 

Isto…

Se eu não falar

Das arálias e dos fetos

Avencas e pelargónios,

Dos vasos de malmequer

E da bela sardinheira

Que são vizinhas contentes

Da verde hera trepadeira!

… E também do paraíso

 

Feito de cetim branquinho,

Com seus estames dourados,

E me traz ao pensamento

As flores que, ajoelhados,

Demos à Virgem Maria

Pelo nosso casamento…

 

(Abençoado esse dia!)

 

-- Pus a rosa numa jarra,

No quarto da nossa casa,

Tu trabalhas para nós,

Eu alindo-a para ti…

E pagamos para a ter

Um mês que passa, outro após!...

 

É pequenina, é verdade,

Mas ainda assim dentro dela

Cabe o nosso grande amor!

 

Que isto do “infinito”

Estar fechado em nossa casa…

É mistério do Senhor!!!

 

Maria José Rijo

24-Abril-1954

     

I Livro de Poemas

Poema nº 18

Pág. 93

Desenhos da Autora

 

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