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O Aniversário do Avô Livro - 1994

Segunda-feira, 14.10.19
Conversas Soltas
Nº 2.244 – 15 de Abril de 1994
Jornal Linhas de Elvas e Jornal O Dia
O Aniversário do Avô Livro

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Com a minha amizade agradecida a todos quantos faziam o favor de ler o meu “À Lá Minute” e também para as delicadas colaboradoras que ainda hoje se empenham na defesa do Património inestimável que a nossa Biblioteca contém.

A notícia correu na cidade.

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Em 30 de Dezembro de 1988 – na nota da semana do Jornal “Linhas de Elvas”

 JOSÉ RIJO escrevera:

“Festejar o lançamento de um livro é normal, é do dia a dia. Festejar 500 anos de vida de um livro é ideia que ultrapassa a simples satisfação e orgulho de um autor pela obra concluída para ser uma demonstração do respeito natural e dignificação pelo “Livro” na generalidade.”.

 

Por entre as altas estantes repletas de livros que vestem as paredes de salas e corredores do velho convento dos Jesuítas adaptado a Biblioteca desde o dia 10 de Junho de 1880 – no reinado do Senhor Dom Luís que Deus tenha em sua Santa Guarda – passava eu naqueles anos 86/89 vezes incontáveis.

Faze-lo era uma preocupação do meu quotidiano que nunca se tornou rotineira.

Fosse das brancas abóbadas, do vermelho da tijoleira encerada, da passadeira de corda que abafava os passos, fosse dos reflexos de luz nas estantes castanhas. Fosse da presença dos cerca de 80.000 livros. Fosse dos nomes gravados de autores, beneméritos, fundadores… fosse do que fosse o ambiente por lá tem qualquer coisa de poético e sagrado que prende.

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Nos dias bonitos, pelas janelas talhadas nas paredes espessas por onde se espreita o jardim, entravam nesgas de sol que no movimento cadenciado do tempo iam como ponteiros luminosos indicando lombadas, avivando oiro de letras acordando da sombra títulos mais gastos como que sugerindo: - olha aqui.

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Os livros novos, com seu cheiro de colas e tintas frescas despertam o apetite, a gula como caramelos. São apetecíveis, alegres, vistosos. São quase “barulhentos” na vivacidade das cores das capas.

Os livros antigos são mais silenciosos e comoventes. São discretos, quietos e sábios como eremitas.

Passar por entre eles, assim – tu cá, tu lá – já era um privilégio.

Então sentia-me como um centurião cheio de fé a quem -  segundo S. Mateus no Evangelho Jesus disse: “Vai e assim como acreditaste assim será”.

Nunca duvidei que o milagre vivia ali ao meu alcance.

Os livros ressuscitam a qualquer momento.

Era só parar.

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Parar, estender um pouco o braço, espetar o dedo indicador, pressionar o topo de uma qualquer lombada e pronto.

O livro cede. Obedece. Inclina-se.

Fica rendido – disponível.

Então a mão completa o gesto, dá-lhe apoio e recolhe-o. Abri-lo, folheá-lo, lê-lo… é a tentação.

Pronto. Aí está oferecido – de bandeja – uma vida, uma alma, um passado, uma aventura, uma experiência, uma história, um amigo, uma companhia. Tudo um livro pode ser e conter – mas, sempre, sempre o milagre à nossa mão.

 

Lê-se, relê-se. Pega-se, larga-se.

Ama-se, detesta-se, dá-se, vende-se, compra-se, rasga-se – queima-se – conserva-se! E tudo o livro consente.

Será que sente? – (Às vezes penso que sim)

O livro. Aquele livro noticiado fazia 500 anos.

Foi impresso em “Veneza no ano da Salvação de 1488, 8º Dia das Calendas de Novembro” – o que equivale actualmente ao dia 25 de Outubro.

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Escrito em latim, tem o título de “Liber Medicinalis” e foi seu autor Quinti Sereni.

Veio-me ter à mão, por acaso.

Era agradável ao tecto, quase morno, como um corpo vivo.

Fiquei a passá-lo de folha em folha. Dos livros até o cheiro é bom – (era o meu estribilho) quando falava à garotada que procurava contagiar do meu desvelo por eles.

É um livro belo, profusamente ilustrado, cheio de referências à astrologia – um livro cheio de mistério, muito bem conservado ainda.

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As páginas amarelecidas tinham manchinhas, como sardas, cor de chá num rosto nobre de pele curtida empregaminhada pelo tempo.

Como se vestisse um casaquinho justo de cabedal castanho, ali estava, nas minhas mãos enternecidas, encadernado em couro macio como seda.

Não é de todos os dias que se tem o condão de conviver e poder tocar em preciosidade como esta.

A biblioteca que o acolhe tinha sido recuperada com esmero. Cativar pequenos para o entre e sai que os familiarizasse com o espaço era o propósito principal de tudo que então, por lá se fazia.

A descoberta daquele “Avô livro” que fazia 500 anos foi um achado.

Logo se acomodou (a recato de tentações) mas em evidência e foi honrado com sua vela de aniversário, seu laço de fita de cetim branco e sua taça de rebuçados para retribuir “docemente” a atenção de quem quer que o cumprimentasse. Foi a festa.

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Ficou entronizado ao meio da sala de leitura e até se conduziram pela mão os mais miúdos.

- Anda, vem vê-lo! – Dizia eu – mesmo que não o entendas não faz mal. Ele é de outros tempos, usa outra linguagem – mas vem. Vem, que ele gosta e tu também vais gostar. Verás que te oferece rebuçados dos que ele usa para a tosse…

E a garotada, emocionada ria. Queriam ver, faziam perguntas. Deslumbravam-se descobrindo que aquele livro já existia no tempo das descobertas. E com seus olhos limpos de crianças, arredondados de pasmo repetiam: do tempo dos descobrimentos?

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Os rebuçados iam desaparecendo. Iam-se renovando e velhos e novos, iam sorrindo e reflectindo conforme as idades, a formação, os gostos, as preocupações sobre aquela festa singular.

No centro do acontecimento – o Livro – Um livro!

Era o seu mês de aniversário.

Era a sua honra de ser o anfitrião de honra naquela Biblioteca fabulosa, recheada de maravilhas e ainda com tantos segredos por desvendar.

Ensinam-se as crianças a lavar-se, vestir-se, pentear-se, estar à mesa desde a mais tenra idade.

Dá-se-lhes responsabilidades pelo brinquedo caro, o fato, a prenda de ouro.

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Saiba cada qual desde que começa a identificar o seu prato, a sua cama, a sua casa, a sua rua – que é igualmente seu e está à sua guarda o património que testemunha o passado do seu País – e tudo mudará.

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Se eu tivesse duvidas – que não tenho – bastaria recordar a unção, a religiosa alegria que transbordava do rosto de qualquer menino ou menina a quem eu desse a mão e conduzisse junto da estante do cancioneiro da Públia Hortênsia para lhe pôr “aos pés” um botão de rosa, ou, um pé de rosmaninho junto aos Anais de Elvas ou qualquer outra simples homenagem a qualquer livro raro.

Se eu tivesse dúvidas…

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Pensaria na dignidade, na compostura com que me acompanhavam e ficaria com a certeza, que guardo comigo, que o faziam como quem pede a bênção a um velho antepassado – com comoção e respeito e a consciência de que aquele culto os transcendia.

Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 12:22

As gavetas da memória

Sexta-feira, 11.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006
Conversas Soltas

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As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

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A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

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Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

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Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

HÁ TAMBÉM AS GAVETAS PRAZEROSAS, SÃO AS DO BRAGAL, COM SEUS BORDADOS E RENDAS DE ENFEITES, SEU CHEIRINHO DE GUARDADOS, COM RESSAIBOS DE ALFAZEMA, TÉNUES, COMO LEMBRANÇAS VAGAS, DAS MÃOS HÁBEIS DE QUEM AS URDIU PACIENTEMENTE E, AGORA NOS APARECE NUMA MISTURA DE ENCANTO E SAUDADE...

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Quantas horas de amor de mães, avós, tias,  amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

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Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas, clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

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E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

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Maria José Travelho Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:50

Quadro de Maria José Rijo...

Quarta-feira, 09.10.19
 
História do Brasil e do Mundo

A origem do mundo



Os pedreiros - Maria José Rijo - 
http://a-la-minute.blogspot.com/


A origem do mundo
A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão.
Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
? Mas papai ? disse Josep, chorando ? se Deus não existe, quem fez o mundo?
? Bobo ? disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando ?. Bobo.
Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

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publicado por Maria José Rijo às 14:51

ÚLTIMA CARTA DO BRASIL - IV - 1996

Sexta-feira, 04.10.19
Jornal Linhas de Elvas
Conversas Soltas
Nº 2.356 – 21 /Junho/ 1996

Conto chegar a Elvas antes que esta carta atinja o mesmo destino.

Porém, uma vez resolvi continuar, mesmo de longe, as nossas “ Conversas Soltas”, cada uma de nós e eu – faremos separadas os nossos percursos comuns.

Pois, aqui estou, sem qualquer outra preocupação além de estar convosco, desfiando as minhas recentes lembranças. Aliás, isto de recordações é mesmo assim: - sem cronologia possível.

Tenho em mãos um monte de fotografias. Revendo-as, mesmo agora se me deparou o “Baiano” de quem já falei.

Ai vo-lo mando com seu balaio e um monte de flores, que varreu, juntas a seus pés.

Outro dia, avistei-o numa azáfama a cortar cana. Fui ver. Era cana-de-açúcar.

-“Seu Aguiar mandou”.

-É p´ra cortá e limpá este negócio”.

Cortou, limpou de folhas, raspou e fez “uns troços aí, n´e?” – que “Seu Aguiar mandou".

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Mais tarde, “Seu Aguiar”, foi surpreendido em estranhas funções (com bata própria para a função) a preparar a bebida “mais gostosa qui você, já viu, n´é?” – suco ou caldo de cana, que geladinho é realmente uma verdadeira delícia.

Também queria não me esquecer de contar que (na sua grande maioria) aqui na cidade vizinha – Resende – as lojas não têm portas e montras. Toda a frontaria abre como um largo portal e, da rua, vê-se tudo quanto têm lá dentro. Aliás, até dá a impressão de que estamos em contacto com pioneiros, colonizadores. Gente que ainda está desbravando e descobrindo rumos.

Já devo ter referido que nascem por aqui os rios Stº. António, Pirapitinga e o Alambari o que proporciona uma imensidade de veios de água a esta região.

Todas as propriedades, mais ou menos fruem essa benção das águas correntes que escorrem da montanha.

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Para chegar a Resende que dista uns escassos 20Km do local onde estou instalada transpõem-se 5 pinguelas (pontes de madeira) – tantos são os braços de rio que refrescam encostas e vales saltando muitas vezes em belas cachoeiras.

Resende, por sua vez, é atravessada pelo rio. “Paraíba do Sul”. Água, é realmente o que por aqui não falta.

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Beleza, pujança de verde e pitoresco – moram por cá também.

O “Bate-chapas” é aqui o “lanterneiro”. A razão é óbvia. O automóvel sucedeu aos trens.

Quem sabia mexer em latão era quem fazia as lanternas. Os transportes evoluíram.

O engenho e a necessidade proporcionaram a adaptação... o nome manteve-se.

Os pneus compram-se no... Borracheiro.

É, por aí fora um sem número de curiosidades.

O mal destas viagens, como esta minha é que se vê muita coisa em pouco tempo. Um mês para ver qualquer coisa do Brasil, é – Nada!

Vou procurando resistir à tentação de falar das cidades grandes. Há milhares de postais que delas contam tudo por imagens.

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Julgo que o único interesse que estas cartas poderão ter é o relato de apontamentos de acaso que faz a experiência pessoal de cada um.

Aqui há dias, no “Nipo” (mercado das frutas japonesas) com olhos húmidos de comoção uma simpática senhora perguntou-me: é portuguesa ?

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Perante o meu assentimento quis saber de que parte do nosso país eu era, se estava para ficar, se não, e mais isto e mais aquilo e lá veio de seguida a sua própria história (de êxito financeiro, por sinal) e muito especialmente da sua pungente saudade.

Tem casa em Coimbra. Deu-me a direcção, telefones e sei lá que mais e insistiram ela e o marido para nos oferecerem de almoçar.

“Sabe? - confidenciava: nós somos mais sentimentais, mais dedicados... – aqui ninguém olha para trás”.

Nós vamos a Portugal todos os anos. Mas... o dinheiro enlouquece as pessoas... já há muitos anos que poderíamos ter regressado! 30 Anos é muito tempo...

De quantas saudades assim estará amassado o progresso do Brasil! – Nem posso calcular.

Estes são donos de uma rede de estações de gasolina e restaurantes – mas ela só sonha com o regresso.

Uma viagem que fiz muito “gostósa” foi a Nossa senhora da Aparecida. (lembram-se da canção da Elis Regina’)

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Aparecida é a Fátima de cá. Rezei por Elvas.

Visitei as termas de S. Lourenço e de Caxambu no Estado de Minas.

Agora ficaria aqui horas a falar de orquídeas, parques, fontes, auditórios entre canas de bambú, lagos, teleféricos e mais nem sei quê...

Mas... nem vos quero maçar mais e tenho que fazer as malas para voltar a casa.

Sei que vou recordar com agrado estes dias diferentes. Sei que a amizade que se recebe e retribui ajuda a viver.

Se ainda que ninguém substitui ninguém e nada substitui o nosso canto.

De qualquer modo é bom aprender a viver com o mundo de perdas e ganhos que cada qual transporta dentro de si.

Só com essa paz interior se consegue olhar cada flor, cada pássaro, cada dia que nasce sentindo que “isso” também acontece para nós e esse deslumbramento está ao alcance de todas as pessoas a quem nos irmana o amor à vida.

Maria Jose Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 14:09

Rescaldo ... O São Mateus já lá vai ...

Segunda-feira, 30.09.19
JORNAL LINHAS DE ELVAS
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.628 – 19-Outubro-2001

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O São Mateus já lá vai. Agora, só para o ano.

Perdeu-se o jeito de referir - a Romaria de Nosso Senhor da Piedade .

Perdeu-se, e – é pena. Porque a feira, nasceu a reboque dela. Da tal romaria que começou a acontecer antes de Maio de 1737 que foi, a data em que se fez a ermida.

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A romaria, essa, surgiu quando “o Beneficiado Manoel Antunes, que ali tinha uma horta (refere-se a Horta dos Passarinhos) mandou fazer uma cruz nova e um pintor lhe pintou um Senhor. Começaram a dizer que fazia milagres, e por ser perto da cidade a ir lá muita gente, e dar esmolas, de que se fez a ermida”( excerto, com ortografia actualizada, do diário de João  de Quental Lobo   ) 

Pena, pesar, como dizem os açorianos, que se perca o fio da meada.

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Porque, se não fora essa circunstância, apesar da evolução própria dos tempos, sempre havia de persistir bem evidente, ressaltando por cima de tudo a feição de nascença das nossas festas. Alem das cerimónias religiosas A romaria com seus bailes e cantares populares, suas manifestações de fé e de alegria em honra de Nosso Senhor Jesus da Piedade. 

Mas, não é assim que caminha a vida...

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Os altifalantes, os carrosséis, o barulho infernal, tomaram conta do espaço.

As bandas, já não dão mais concertos nos coretos, não se ouvem as pandeiretas das camponesas e as filas de cadeiras onde o povo se sentava conversando, escutando a música e esperando o fogo, deram lugar a barracas e mais barracas.

Não se preserva o mínimo espaço para salvar o clima de romaria tão especial, tão repassado de fé que está na origem dos festejos.

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Tudo é absorvido pela feira igual a quantas feiras se fazem de norte a sul do país, igualmente ruidosas, cheias de bagatelas coloridas, algodão doce. Torrão, pechisbeque...

As feiras têm indiscutivelmente o seu fascínio, mas, são o complemento, o acessório profano que vem, como neste caso, no rasto da força motriz, do acontecimento principal que foi, desde o inicio, o milagre e a consequente romaria.

Mas, as minhas mágoas, não ficam por aqui. E para que fiquem escritas, enumero , pelo menos, algumas.

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Todas as terras, têm seus encantos particulares; seus mistérios, seus segredos, Elvas, tinha pequenos tesouros, como flores raras dispersas por aqui e acolá.

Uma gracinha que eu costumava apontar aos visitantes e ,(  sempre fazia sucesso) era um pequeno portão trabalhado em ferro, que rematava uma escadinha que fazia o acesso ao olival que, noutros tempos, povoava o cabeço que delimita o espaço da Igreja de Nosso Senhor Jesus da Piedade.

Era um portãozinho pintado de verde, estilo arte nova, onde as iniciais do dono da propriedade, semi deitadas, faziam parte, como ornamento, do delicado desenho.

Era uma pequena obra de arte.

Também isso se sumiu.

Foi na voragem que delapidou as árvores, frondosas algumas, que ladeavam os pequenos trajectos que ainda existiam das estradas rurais que mantinham o carisma daqueles lugares.

Havia um telurismo latente naquele caminho de peregrinos.

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Talvez, eu morra sem entender qual é a necessidade de se chegar ao Santuário em velocidade de rally...

Talvez eu não entenda jamais porque não se preservaram aqueles escassos metros de caminho antigo que poderiam ter sido embelezados, mas, nunca despojados das suas árvores!

Coitadas, podadas como tinham sido... a muitas delas tinha acontecido o mesmo que, àquelas outras, frondosas, centenários, que se encostavam ao Aqueduto, antecedendo as que guarneciam a estrada fazendo alas para todos os elvenses no seu caminhar para a última morada.

Algumas, já mortas, ainda por lá, permanecem de pé, como espectros, lembrando aos homens a sua ingratidão...

Confesso que não entendo. Confesso.

Mas: - uma coisa entendo eu. É que as opiniões divergem.

Não serão umas, nem melhores, nem piores, do que outras, serão, apenas, diferentes.

E também sei, o tempo mo ensinou, que a idade dá outra perspectiva das coisas, e ensina-nos a valorizar pormenores que quando ainda se tem toda a vida pela frente, nos parecem, por vezes, insignificantes.

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Valha-nos isso. Pelo menos, esse mérito, a velhice tem!

Junta lembranças, guarda memórias, evoca minúcias, e ergue a história das pessoas, das coisas, dos lugares...

De algumas recordações, sempre nos haveremos de orgulhar. Por outras sofreremos sem remédio com um travo amargo de saudade.

E...assim nascem as sagas dos povos...

 

Maria  JoséRijo

 

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O último São Mateus

Domingo, 29.09.19
JORNAL LINHAS DE ELVAS
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.676 - 20 –Setembro - 2002

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Pode parecer estranho este título!

Pode! Mas não é.

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Este é o último São Mateus em que o Parque da Piedade goza dos restos do seu enquadramento tradicional.

Ainda não há muitos anos, as oliveiras vicejavam no cabeço sobranceiro ao muro, que suporta as terras da encosta do pequeno monte, e cria o espaço para a perspectiva mais larga do olhar sobre o templo do Senhor Jesus da Piedade.

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Para um lado e para outro, do largo que acrescenta o adro, seguiam-se lances curtos de caminho rústico ladeado de velhas árvores que davam ao Santuário a envolvência de paz que a Natureza misericordiosa oferecia ao romeiro que chegasse.

Sentia-se uma espécie de abraço à aproximação do recinto, quer vindo da cidade, quer vindo da estrada de Lisboa.

Aquele enquadramento natural delimitava um mundo, dentro de outro mundo.

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Formava-se ali, como que um recatado oásis de fé.

Por um lado, beiravam o percurso- Quintas com história.

Por outro, o começo da própria história da origem do Santuário, com a Quinta dos Passarinhos, que fora pertença do Beneficiado Manuel Antunes que ao colocar por gratidão uma cruz, no local onde caiu da sua montada e invocar a Deus para que lhe valesse, deu origem ao culto do Senhor Jesus da Piedade.

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Sob a protecção das oliveiras, como as de Jesus no Horto, acamparam ao longo de séculos, gerações e gerações de peregrinos no pequeno monte sobranceiro ao local, e em seu redor.

Correram os tempos, passaram os anos, e tudo foi mudando.

Mansamente, foi-se fazendo a adaptação às novas exigências do progresso e dos costumes.

Porém, parece-me, nem sempre o bom senso moderou as decisões que se foram tomando.

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“Quinta do Bispo”- penso que agora já todos estarão de acordo: - foi sacrificada, sem honra nem glória, para dar lugar àquilo que todos podem ver...e, abriu caminho, desaparecendo, ao que já se pode avaliar, e se desenha a passos largos:

Embeber o Santuário na desenfreada urbanização que já ameaça o seu nobre isolamento.

Não sou contra o progresso, (como é obvio) só não posso confundir, e não confundo construção desenfreada, delapidação da memória dum povo, com progresso!

(É meu Mestre o Arquitecto Ribeiro Telles!)

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E sinto e penso com convicção que, assim como numa relação de Amor entre pessoas, também a relação de Amor entre gentes e cidades e locais têm os seus mistérios, os seus fluidos, o seu espírito, como que uma espécie de resplendor de alma criada pela seu próprio historial que é preciso não destruir; a troco de igualizar, o que era distinto, tornar vulgar o que era ímpar, abandalhar o que era nobre e único.

E, não me venham dizer que falo de utopias, sonhos irrealizáveis, e todo o mais que vos aprouver.

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Quando eu contrapus -  á ideia de se fazer do Forte de Santa Luzia uma Pousada - o projecto que depois foi adoptado, - muito comentário parecido foi proferido...

E, porque o Dr. João Carpinteiro, nele acreditou, o Senhor Professor Miguel Baena, que com o Sr. Arquitecto Leite Rio e Sr. Arquitecto Pedroso Lima, propuseram-se fazer o projecto que, por acaso, até foi presente ao senhor Presidente da Republica, na presidência aberta em Elvas, o sonho triunfou.

Estávamos em 6 Março de 1989 quando chegou o primeiro orçamento cuja cópia tenho em mãos ao recordar estes factos.

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Às vezes “acreditando em utopias”, como se vê pelo êxito da obra do Forte, consegue-se preservar o tal fluido que como um milagre segura nos locais os rastos da história... A memória dos tempos...a alma das gentes...

Assim tivesse sido com a Quinta do Bispo e, tantas coisas mais que essa “lástima” precederam e outras, que por môr dela, irão sucedendo, nunca aconteceriam, o que era, sem dúvida, um Bem para todos.

  Maria José Rijo

 

 

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Balanço ... - São Mateus 2011

Sábado, 28.09.19
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.142 -- 29 Setembro de 2011  

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Aqueles a quem o tempo tem permitido vidas extensas, nalgum dia mais carregado de recordações, hão-de dizer, nem que seja no segredo dos seus corações plenos de memórias, aquela quadra popular, tão verdadeira, que retrata sem disfarces as vicissitudes dos caminhos de viver

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Quem eu era, e quem eu sou

Até parece mentira!

O tempo é que tudo dá

O tempo e que tudo tira

Aceita-se como inevitável que as mudanças sejam elas quais forem, são sempre, nas vidas humanas  como as estações do ano.

Mais alegre ou mais chuvosa, há sempre uma Primavera e, na sua sequência um Verão, um Outono e um Inverno numa cadência de dias e noites que invariavelmente se sucedem indiferentes a quem os viva.

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Não pode o homem sequestrar o tempo nem traçar com certeza o seu percurso.

Sonha, luta, cria, mas é-lhe intrínseco o saber que cada passo mais no seu caminho é sempre um passo menos para atingir a meta porque tudo o que começa tem um fim.

Outros que o seguem, levantam, ou não, do pó, os testemunhos e prosseguem que a estrada da vida é sempre em frente e não para.

Estamos em 2.011. “Desde Maio de 1737 ano em que se fez a hirmida de N.Sºr da Piedade”-

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quantas gerações de crentes com a sua fé já sacralizaram estes caminhos que conduzem aqui ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, onde a romaria traz, de longe, todos os anos, milhares de fieis para rezar neste “altar de cada dia” da nossa cidade.

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Percorro pelos caminhos da memória, estes mesmos caminhos onde soavam as guizeiras de cavalos, carroças e trens e agora chiam pneus.

Aviva-se-me na lembrança o cheiro delicioso da fruta nas bancas

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onde os perinhos vermelhos e doces que se seguiam às escadas, paus de varejo e canastras para apanho de azeitona se enfileiravam antes do começo da avenida .

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Ouvia-se falar de searas, moios, de sementes, contratos de trabalho, cabeças de gados…

Passeavam de braços dados os noivos com seus fatos de casamento.

Elas de branco com os véus arrojando encardidos pela poeira do chão.

Eles engravatados, solenes, lenço no bolso de peito do paletó preto, cravo na botoeira.

Os convidados seguiam-nos em cortejo.

Tocavam as bandas nos coretos. Cadeiras articuladas de ferro, arrumadas em frente, do outro lado da avenida convidavam a uma pausa para apreciar o concerto.

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Grupos de camponesas marcavam a alegria das suas presenças, cantando e dançando as saias ao som do toque de castanholas e pandeiretas. Havia circo, poço da morte, barracas de tiro, de sinas, algodão doce, fantoches …

Nunca faltavam as barracas de torrão…

Havia a “caseta”, onde se dançava, ao fundo, junto à “Bétola”que também mudou seu nome.

Os hábitos alteram-se, que os tempos mudam. Tudo evolui e se moderniza. O que ontem era novidade, hoje é obsoleto.

Havia as tendas dos belos cobres reluzentes…

Havia utensílios de madeira. Mesas de cozinha, berços, cadeiras de fundos de bunho…

Havia o artesanato local, com os tarros, as corrediças de por ao ombro para a linha de fazer meia… havia…havia… havia…

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…Recordações
de quase setenta anos de festas de São Mateus que o tempo, soberano, começa a esvair. Como era…Como foi!

Até parece mentira… Os homens mudam – envelhecem.

Mudam os costumes…as circunstâncias e, no entanto a  Fé persiste e resiste – não muda.

E, através dela, todas as gerações têm encontrado e sempre hão-de encontrar a sua própria maneira de ajoelhar dando graças  ao senhor Jesus da Piedade pelo milagre da vida que nos concede.

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Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade!

Ámen!

Maria José Rijo.

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Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

Sexta-feira, 27.09.19
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1877 –  27 de Fevereiro de 1987

Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

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Estão a decorrer as celebrações dos 250 anos da fundação do 
Santuário do Senhor Jesus da Piedade.

Dito assim, parece apenas uma comemoração como tantas mais.

Parece! – Mas é diferente.

O Senhor Jesus da Piedade e Nossa Senhora da Conceição,
são os protectores
celestiais da grande família elvense.
São esperança
e conforto de cada um de nós.

Tudo se lhes pede e confia. Paz, vida, saúde, amor.
E desde a protecção para a carga do “honrado ofício” de
contrabandistas,
até à imunidade dos porcos contra
a peste, tudo se comparticipa com a
sua
divina misericórdia.


Deles porém, tudo se aceita!

“Graças ao Senhor da Piedade – aconteceu…”
“A Senhora da Conceição fez o milagre…”
Ou:
- “O Senhor não quis…” – “A Senhora não poude…”
temos de ter paciência!

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O senhor da Piedade e a Senhora da Conceição são Pai e Mãe –
Esperança e Guias.


As suas igrejas caiadas, sem as pompas das pesadas e nobres
catedrais convidam à intimidade familiar.

São bem a casa onde não nos constrangem os fatos de trabalho,
o sacho debaixo do braço, o xaile velho, a bota enlameada, a
roupa do dia a dia, o sapato cambado.

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E se este amor confiante, este passar à porta e entrar,
esta “obrigação” de ir lá fazer o sinal da cruz ou depois
do passeio domingueiro na tarde de sol, se isto –
não é sinal de fé –

de fé espontânea, verdadeira e irresistível…
então valha-me o Senhor da Piedade – que eu sei o que é.

Maria José Rijo

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Elvas - Setembro de 2012

Quinta-feira, 26.09.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.193 -- 20 Setembro de 2012
CONVERSAS SOLTAS

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Já se engalanou o parque do Senhor Jesus da Piedade. A feira de São Mateus está aí a bater-nos à porta.

Já a Igreja está debruada de pequenas luzes para que nada ofusque a sua silhueta mesmo no fulgor dos arraiais com o resplendor dos fogos-de-artifício...

Já a população espreita, curiosa para avaliar se tudo está ainda mais bonito do que em anos anteriores. 

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Já se respira a festa.

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Já se agitam inquietos os corações antevendo as alegrias dos ansiados reencontros…

Gosto do São Mateus – melhor dizendo: - gosto desta época de dias já mais curtos, mas ainda de tardes luminosas suaves e doces escondendo, como enganosas palavras de amor, as noites já fresquinhas com que nos surpreende...

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Gosto desta “rentrée” da nossa região onde já se preparam as actividades de Inverno, mas ainda cheira a Verão e, todos já regressaram da diáspora de férias por praias e países…

Gosto dos abraços dos reencontros nos acasos dos arraiais onde os olhos procuram famintos rostos de amigos emigrados, espalhados pelo mundo, que não se esquecem, se guardam nos corações, e que, cada São Mateus traz de volta à terra como num segundo Natal…

Gosto da procissão dos Pendões, que dá início às festividades religiosas

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Solene, longa, arrastada como uma dura e pesada penitência.

Gosto! Gosto! Gosto!…

Gosto desta Elvas a que as fortalezas militares deram, desde sempre, um cunho particular, onde sucessivas gerações de crianças brincaram ensaiando a descoberta da coragem a explorar fortes e contraminas à luz tremelicante de velas, mascarando o medo com risos e bravadas…

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Onde as ruas estreitas e tortuosas apertadas no cincho das muralhas do castro antigo obrigaram as casas a subir estreitas e magras como plantas famintas de luz., até que, rompendo o cerco se espraiaram, desorganizadas, por vezes, como um exército, sem comando arrasando as quintas e hortas que  abraçavam a cidade, com seus férteis vergeis.

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Mas…se muito mudou no bom e no menos bom -  Elvas permaneceu  intacta na fé com que celebra o incondicional amor que devota ao seu Patrono o Senhor Jesus da Piedade, onde  cada peregrino que  O visita, nunca vem só.

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Cada peregrino que a seus pés ajoelha traz no coração, em saudade ou em esperança a memória de quantos amou ou ama e, assim se ata passado e futuro de geração em geração nesse culto de fé que a todos põe na boca o voto de confiança que abriga na alma e o faz cantar em seu louvor

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Senhor Jesus da Piedade

Luz da Luz,

Deus Verdadeiro     

Olha aos pés da Tua Cruz

       Agrupado um povo inteiro    

Maria José Rijo    

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O São Mateus e as vozes ...

Quarta-feira, 25.09.19
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.986 ---18 de Setembro de 2008
Conversas Soltas

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A procissão dos Pendões é longa...longa...longa...

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Repete-se na sucessão dos tempos.
Começou há séculos, talvez... e, ainda hoje serpenteia pelas ruas da cidade, em filas de gente, desde a antiga Sé, até ao Senhor Jesus da Piedade.

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Às vezes é tão extensa que se cuida que ainda está a começar na Praça quando já está abraçando - a rezar - o Santuário.
A procissão dos pendões é 'a maior oração colectiva' do povo do Alentejo e redondezas, a Deus Pai, Nosso Senhor.

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Na abertura das festas de São Mateus, fica visível para naturais e forasteiros - na forma de procissão - mas, durante o resto do ano ela está,- como uma reza, que é - recolhida, mas viva, no coração de todos nós, como a fé que a sustenta.

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Depois, quando Setembro chega, quando chega o seu dia, de sair à rua, não há elvense que não solte da sua alma a lembrança de quem amou ou estimou e a deixe assomar aos olhos nem que seja numa lágrima furtiva que um qualquer sorriso sempre pode encobrir e o faz acender uma vela, a vela - a simbólica chama - da sua fé a arder, a aquecer-lhe a alma ao longo da vida.

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Setembro traz mais nítidos os cortejos das lembranças.
Traz as imagens dos Irmãos da Confraria em aprumo de gala nas funções das Festas representados, hoje, pelos que antes o fizeram, em sucessivas gerações, através dos tempos...

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Cada um de nós recorda quem conheceu mais de perto.
O Doutor Pires Antunes - Humanista de fé inquebrantável.
Mestre Laranjo - Homem de honra e brio - artista de alto gabarito, talvez, para mim, os mais emblemáticos com quem convivi.

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Para outros, outros serão, e, assim, lá permanecerão todos onde nunca faltaram e, agora os coloca a nossa lembrança.

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De pé, contornando o altar, suas sombras projectadas pelas luzes, sobre os panejamentos de damasco vermelho, como sempre.

O Hino, no vigor do canto, estremecendo o espaço, saindo porta fora - arraial a dentro - até se perder na confusão das vozes, no estralar do foguetório...

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Mas, hoje venho sentar a esta mesa, de comunhão na saudade, a lembrança se 'uma voz' que não estará ainda perdida da nossa memória colectiva.

Era por ela, escutando-a, que em todas as casas, pela rádio, se seguia o desenrolar dos acontecimentos festivos.
No seu belo timbre, na sua perfeita dicção, pausadamente contava, contava, contava...e comandava, até, as famílias nas tarefas de última hora:
Já não dá tempo!...
O Catela já disse:
- os Pendões estão a sair...
- ... Ainda é tempo – é sempre tempo - para recordarmos ainda mais, neste São Mateus - João António Catela Nunes, o Amigo de todos e cada um de nós, que foi 'a voz' da sua e nossa cidade até, quase, àquele dia 30/6/ 2004 - em que passou a ser, também para todos nós uma saudade.
A procissão dos Pendões é longa... longa... longa...

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Repete-se na sucessão dos tempos e... prolonga-se e alonga--se como doces ou amargas recordações no segredo dos nossos corações.

Maria José Rijo

 

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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