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MEMORIA

Sábado, 07.07.12

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.046 – 8 de Junho de 1990

A La Minute

MEMÓRIA

 

A preocupação de obrigar os estudantes, nos liceus, a aprender sintaxe sobre o poema épico de Camões, dividindo as suas magnificas estrofes em orações, migando-as em complementos e vasculhando-lhes a alma à procura de sujeitos e predicados – como se fosse preciso autopsiar um corpo para confirmar a presença do coração – tornou – a meu ver, os Lusíadas, para os jovens, como um suplício que urge esquecer, logo que possível, como um trauma provocado por desastre.

Daí, talvez, a tendência generalizada para ignorar ou, até, aborrecer, o que era para ser amado
espontaneamente, como se ama o mar, o céu, a Natureza!

Tive em garota o privilégio de ser tratada como neta, entre as duas netas de verdade, por um
homem singular que se chamou: António Aresta Branco.

O Dr. Aresta Branco (Pai) foi, desde novo um Republicano convicto. Foi ele o organizador do Partido Republicano no Distrito de Beja. Foi deputado ainda durante a Monarquia.

Em 1910 escrevia para o jornal ! A Pátria” com Higino de Sousa e Brito Camacho – de quem foi grande amigo. Foi perseguido pelos seus ideais. Foi Governador Civil por Faro e Beja. Foi três vezes eleito Presidente da Câmara de Deputados em
1917, foi Ministro da Marinha, na primeira Presidência de Bernardino Machado.

De nascimento humilde, era ajudante de farmácia, na sua terra natal – a Amareleja – quando aos 22 anos começou a estudar. Aos 32 já era médico, e quando, em 1952, faleceu contava
noventa e foi chorado pelo que em vida fora: - um Homem de bem, um político sério
e coerente, um médico famoso – um português de lei.

Quando rapazinho, de escola, foi companheiro e amigo de meu avô paterno, e foi em memória dele que me deu o seu precioso afecto, quando pelo apelido Travelho, me identificou, por
altura DO EXAME DA QUARTA CLASSE QUE FIZ COM A SUA NETA MAIS VELHA.

Passei assim, muito da minha infância e adolescência na sua residência de Beja, na rua antiga e estreita que tem o seu nome e que antes se chamava – julgo lembrar – das Ferrarias.

Nessa bela casa havia uma sala enorme – a sala grande – como a designavam as empregadas – na qual sobre uma mesa de madeira negra, trabalhada em talha rendilhada em lugar de destaque, parecendo entronizado, estava um belo e raro volume de “Os Lusíadas”, junto do qual se mantinha uma jarra de cristal, como um enorme copo, sempre com flores frescas colhidas nos canteiros do seu jardim.

Para as crianças que nós éramos então, aquele culto, era motivo de reverente e, também, deslumbrada admiração.

Na sala – sempre à média luz, a claridade vinha das frestas das janelas, coava-se pelas cortinas de
renda fina e fazia reflexo no brilho do mobiliário e no veludo pesado dos reposteiros que encobriam as altas portas – aquela mesa votada ao culto de “Os Lusíadas” dava-lhe um quê de santuário e falava de heroicidade e Pátria – como a lâmpada a arder na capela do soldado desconhecido.

Com a sala, pegava o escritório do Avô. Mobilado ao gosto da época. Móveis pretos, de pau santo, com tremidos e torcidos, contador de gavetinhas, cadeiras de couro com alto espaldar, tecidos de “gobelin” e o infalível cofre de ferro, pesado e imponente, com a porta decorada com iniciais de belos e rebuscados arabescos identificando a marca inglesa de origem. Fechadura de segredo e puxador de reluzente metal amarelo, redondo como um pequeno volante… Porém, este gabinete, além do figurino da praxe, tinha a particularidade de ter em volta, nas paredes, em grossas molduras todas iguais, encaixilhados, os retratos dos presidentes da 1ª República, seus companheiros, que foram, de luta, sonhos e ilusões. Lá estavam:

A Avô dizia: o Bernardino – o Teófilo – referindo assim com intimidade, aqueles “senhores” ilustres, de rosto sério, olhar penetrante e arguto, alguns com finas lunetas, barbas de fino recorte, bigodes farfalhudos. Gente de colarinhos engomados, peito encoberto por “plastrons” de lavrados, casacos de austero corte, que – a um tempo – nos seduziam e intimidavam, como se em lugar de retratos fossem misteriosos sarcófagos.

Era com orgulho que repetíamos a frase que o Avô se libertara da política e voltara à vida de
família, aos seus doentes, aos seus amigos.

Contava-se que dera um murro na secretária, lá no ministério, dizendo: “Esta não é a República para
que eu trabalhei…” e, comovia-nos pensar que ele o dissera e chorara, como um enamorado romântico que visse expirar nos braços a sua amada.

Percebe-se assim que aquele doce Avô, que, porque eu vivia no campo, me chamava a brincar ao som do sinal do horário: Maria José, filha! – olha o cuco! – pudesse também ser entendido por nós como “um português de antanho”“um Portugal velho” – como a ele se referiam – usando expressões arcaicas, como que tiradas de romances de cavalaria – os seus amigos e admiradores.

Mas, é evidente também, que tudo isso tem que ver com culto da dignidade e orgulho de ser português – sentimentos que nos aproximam de Camões e nos fazem perceber que, somos nós, os
Lusíadas, descendentes em linha recta – dos velhos Lusíadas que o seu génio imortalizou.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 14:43

Coisas da Minha Memória

Segunda-feira, 13.04.09

Á LÁ MINUTE

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.821 – 24 de Janeiro – 1986

  

De há uns anos para cá – caímos nisto! – Chamo-a, não me responde – se responde é lenta e negligentemente que o faz.

Se a censuro, esconde-se; se insisto desaparece, fico às apalpadelas no vazio, o que me desespera.

Tendo eu que viver com ela, que outra não tenho, e substitui-la me é impossível, o nosso relacionamento só subsiste porque sendo eu a viver dela, e sendo, também eu, o que ela me traz e dá – esforço-me por a ajudar e resigno-me a suportá-la tal e qual está.

Bem que eu a persigo e alicio; - vá, diz lá … diz! … diz!... Mas de nada me vale. Amua, caprichosa na birra, e não lhe tiro uma referência sequer, se for essa a deliberação que tomou.

Faz-me partidas a cada passo, e não se incomoda nada de me deixar suspensa e angustiada, no meio duma frase, e partir para voltar quando dela já não careço. Por vezes traz-me umas que lhe pedira, e mesmo sabendo que percebi a trapaça e não acho graça, - insiste, insiste, insiste!... Depois, aparece sorrateira, como se de nada pudesse ser acusada, trazendo nas mãos ofertas preciosas, que eu julgara perdidas para sempre.

E assim vamos indo!...

Diz-me com frequência que está cansada, velha, regressiva, e para mostrar dedicação, traz-me lembranças

 

enternecedoras, coisas que ela desencanta em recônditos escuros, e exibe-os vitoriosa, justificando-as por íntimos indícios.

As minhas mãos tocam um objecto, e em lugar de me deixar atenta ao que faço – não senhor! –

 

Mostra-me com elas os gestos de minha Mãe; - O relógio dá horas? – Em vez de me deixar ir realizar o que pretendo – não senhor! – Vejo o meu Pai suspender a leitura do Jornal, tirar os óculos – esfregar os olhos – repô-los, despedir-se e ir ao escritório.

           

Oh! – Que Deus me valha! – Pois queria eu hoje falar de coisas que pensara, e aqui fiquei, esperando em vão – quem, à hora certa, me falhou e se sumiu para parte incerta, com a bagagem que eu juntara.

Isto é feio e não se faz!

-- É justo que eu desabafe!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:23

Memórias

Sábado, 28.03.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.282 – 13 de Janeiro de 1995

Conversas Soltas

 

Mandei para este jornal que considero “meu”, mas a que respeito a Liberdade que lhe reconheço de ser “ele” – uma carta que recebi pelo Natal.

Outras cartas, cartões e postais compuseram a minha safra de saudades e lembranças. Confortável, graças a Deus!

Curioso foi que, muitas delas, quase todas, me trouxeram referências sobre a colaboração que presto ao “Linhas” e que, com amizade, encorajam saudando nós dois.

Daquela, porém, era diferente. Evocava uma Elvas que já andará perdida da memória de alguns e que outros, nem sequer conheceram.

                     jornal.jpg

Perdi licença, a quem a escreveu, para que ela pudesse ser publicada e entreguei-a a esse provável destino; ou outro… enviando-a ao jornal.

Depois, fiquei a pensar em tantas, tantas coisas que já posso recordar, que me surgiu na consciência uma palavra muito frequente no vocabulário das pessoas de idade – memórias.

Encostada assim à parede – reconheci: aquele bilhete de comboio que tinha em letras grandes e pretas a palavra idoso – era mesmo meu!

Aquilo de idoso, sem dúvida, diz-me respeito.

Ora veja-se!

Primavera, Verão, Outono ou Inverno – para novos e velhos são estações do ano.

Dão as mesmas flores, têm os mesmos sóis, as mesmas árvores nuas de folhas, os mesmos ventos, as mesmas chuvas, neves e geadas…

À primeira vista, estas coisas parecem não ter ligações com os bilhetes de identidade! – Mas, têm.

Para quem ainda contou poucas “estações” – o comboio chama – criança e convida:

         estacoesdoano.JPG

Vem – anda! – Nem pagas – o caminho é teu.

Quem já se esqueceu de quantos Verões ou Invernos contou – impiedosamente o bilhete acusa: - Idoso!

Reduz-lhe os custos da viagem mas, como se rabujasse comenta a negro: Idoso!

Aquilo deve ser para não escreverem: Chato! Ainda a ocupar um lugar.

Importuno.

Isto dos bilhetes não é assunto claro.

É adolescente? – Meio bilhete.

Meio porquê? – Não é meia gente. Se não é porquê meio bilhete?

É maior de idade? – Bilhete inteiro! Não será so para gerar confusão?

Também há bilhete de soldado e de graduado!

Porque não haverá bilhete de desempregado – (paga quando ganha).

Bilhete de coitado! – Entre lá, não pense nisso, onde é que “o” vai buscar?

Bilhete de piqueniqueiro – desde que limpe as migalhas e coma de boca fechada (quem se vai importar?)

Bilhete de prestativo – vai de pé, dá o lugar.

Bilhete de falador – fala, fala e não se cala.

Bilhete de estremunhado – ressona, acorda, boceja e fareja: onde estamos? – o que se passou?

Bilhete de ilustrado – mete pasta, jornais, livros, em inglês e encadernados.

Sei lá que mais bilhetes poderia ou deveria haver! Bilhetes rosa e azul para românticos, com direitos a olhares e suspiros…

Bilhetes de ir (nunca de ida) – de ir atrás do sonho.

Então de ida e volta?! – Jamais. Quem sabe se volta?

               

E bilhetes com borboletas, flores, gatos ao sol preguiçando, patos no charco, crianças a rir, barcos à distância, a chegar ou a partir…

Tudo pode valer.

Tudo.

Menos a palavra carimbo que retira a qualidade ao que não tem idade ou rótulo possível: A VIDA.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:31

Memorias

Sábado, 20.12.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.998 – 11 de Dezembro de 2008

Conversas Soltas 

Outro dia, nem já sei precisar quando, encontrei na televisão, por mero acaso, um programa de memórias que fiquei a ver durante um bom tempo, com um sorriso enternecido pelo confronto mental que estabelecia entre as imagens das pessoas que – ao tempo o faziam e – a sua imagem actual, eram o Carlos Cruz, o Raul Solnado e o saudoso Fialho Gouveia.

                              

Todos magros desembaraçados de gestos, desenvoltos, enfim, como naturalmente se é aos vinte /trinta anos.

Prestavam homenagem pública a figuras destacadas da música e da canção dessas épocas. Coisas de há perto de cinquenta anos, por certo.

Naquele dia distinguiam Belo Marques.

A certo passo recordaram Júlia Barroso, de quem uma cançonetista

                  

actual evocou, cantando-os, alguns êxitos.

Foi então que me recordei de um episódio acontecido a meu marido e a mim, à conta da semelhança física que me era atribuída em relação a essa cançonetista – coisa a que jamais tínhamos feito reparo.

Estávamos em Lisboa, por uns dias, e, naquela tarde resolvemos passear no Chiado.

A certo passo reparamos que estávamos a ser seguidos por algumas pessoas. Logo, logo, meu marido comentou, na paródia, que as alentejanas até faziam sucesso em Lisboa e mais meia dúzia de graças porque era muito brincalhão e descontraído.

Porém, a certo passo, tanto ele como eu começamos a ficar constrangidos sem perceber o que se passava e, resolvemos entrar numa pastelaria para lanchar e ver se acabávamos com o pequeno cortejo de cinco ou seis jovens que nos seguia.

Foi então, aí, que se desfez o equivoco quando o empregado que nos servia me pediu um autógrafo e me felicitou pelo noivo, tratando-me por Júlia Barroso.

Nesta época em que tão pouco há que nos faça sorrir, sabe bem evocar estas memórias que nada mais pretendem do que isso – fazer sorrir ou dar uma gostosa gargalhada.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 11:13

Rescaldo...

Terça-feira, 18.11.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.628 – 19-Outubro-2001

Conversas Soltas

 

O São Mateus já lá vai.

Agora, só para o ano.

Perdeu-se o jeito de referir - a Romaria de Nosso Senhor da Piedade .

Perdeu-se, e – é pena. Porque a feira, nasceu a reboque dela. Da tal romaria que começou a acontecer antes de Maio de 1737 que foi, a data em que se fez a ermida.

A romaria, essa, surgiu quando “o Beneficiado Manoel Antunes, que ali tinha uma horta (refere-se a Horta dos Passarinhos) mandou fazer uma cruz nova e um pintor lhe pintou um Senhor. Começaram a dizer que fazia milagres, e por ser perto da cidade a ir lá muita gente, e dar esmolas, de que se fez a ermida”( excerto, com ortografia actualizada, do diário de João  de Quental Lobo   ) 

Pena, pesar, como dizem os açorianos, que se perca o fio da meada.

Porque, se não fora essa circunstância, apesar da evolução própria dos tempos, sempre havia de persistir bem evidente, ressaltando por cima de tudo a feição de nascença das nossas festas. Alem das cerimónias religiosas A romaria com seus bailes e cantares populares, suas manifestações de fé e de alegria em honra de Nosso Senhor Jesus da Piedade. 

  

Mas, não é assim que caminha a vida...

Os altifalantes, os carrosséis, o barulho infernal, tomaram conta do espaço.

As bandas, já não dão mais concertos nos coretos, não se ouvem as pandeiretas das camponesas e as filas de cadeiras onde o povo se sentava conversando, escutando a música e esperando o fogo, deram lugar a barracas e mais barracas.

Não se preserva o mínimo espaço para salvar o clima de romaria tão especial, tão repassado de fé que está na origem dos festejos.

Tudo é absorvido pela feira igual a quantas feiras se fazem de norte a sul do país, igualmente ruidosas, cheias de bagatelas coloridas, algodão doce. Torrão, pechisbeque...

As feiras têm indiscutivelmente o seu fascínio, mas, são o complemento, o acessório profano que vem, como neste caso, no rasto da força motriz, do acontecimento principal que foi, desde o inicio, o milagre e a consequente romaria.

Mas, as minhas mágoas, não ficam por aqui. E para que fiquem escritas, enumero , pelo menos, algumas.

Todas as terras, têm seus encantos particulares; seus mistérios, seus segredos, Elvas, tinha pequenos tesouros, como flores raras dispersas por aqui e acolá.

Uma gracinha que eu costumava apontar aos visitantes e ,(  sempre fazia sucesso) era um pequeno portão trabalhado em ferro, que rematava uma escadinha que fazia o acesso ao olival que, noutros tempos, povoava o cabeço que delimita o espaço da Igreja de Nosso Senhor Jesus da Piedade.

Era um portãozinho pintado de verde, estilo arte nova, onde as iniciais do dono da propriedade, semi deitadas, faziam parte, como ornamento, do delicado desenho.

Era uma pequena obra de arte.

Também isso se sumiu.

Foi na voragem que delapidou as árvores, frondosas algumas, que ladeavam os pequenos trajectos que ainda existiam das estradas rurais que mantinham o carisma daqueles lugares.

Havia um telurismo latente naquele caminho de peregrinos.

Talvez, eu morra sem entender qual é a necessidade de se chegar ao Santuário em velocidade de rally...

Talvez eu não entenda jamais porque não se preservaram aqueles escassos metros de caminho antigo que poderiam ter sido embelezados, mas, nunca despojados das suas árvores!

Coitadas, podadas como tinham sido... a muitas delas tinha acontecido o mesmo que, àquelas outras, frondosas, centenários, que se encostavam ao Aqueduto, antecedendo as que guarneciam a estrada fazendo alas para todos os elvenses no seu caminhar para a última morada.

Algumas, já mortas, ainda por lá, permanecem de pé, como espectros, lembrando aos homens a sua ingratidão...

Confesso que não entendo. Confesso.

Mas: - uma coisa entendo eu. É que as opiniões divergem.

Não serão umas, nem melhores, nem piores, do que outras, serão, apenas, diferentes.

          E também sei, o tempo mo ensinou, que a idade dá outra perspectiva das coisas, e ensina-nos a valorizar pormenores que quando ainda se tem toda a vida pela frente, nos parecem, por vezes, insignificantes.

Valha-nos isso. Pelo menos, esse mérito, a velhice tem!

Junta lembranças, guarda memórias, evoca minúcias, e ergue a história das pessoas, das coisas, dos lugares...

De algumas recordações, sempre nos haveremos de orgulhar. Por outras sofreremos sem remédio com um travo amargo de saudade.

 E...assim nascem as sagas dos povos...

 

Maria  JoséRijo                                                                                                        

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:56

Cácia

Sexta-feira, 02.05.08

À memória

de

Maria da Conceição Caldeira Tierno

(Cácia)

 

 

Nela, o que eu mais gostava

Era da alma, que eu não via

Mas que a iluminava!...

 

Ela era bonita, mas se agradava…

Era mais o jeito com que cativava…

 

Nunca mais a vi, Morreu,

E a saudade torturante nasceu.

Porquê? Não sei!

Se aquilo que nela mais queria

Era a alma

Que existe, como existia…

 

Não, não percebo esta vontade louca

De ver falar ou sorrir a sua boca…

Se nela mais gostava,

Se nela mais se queria…

De alma que Deus guardou

Para estar connosco algum dia!

 

Ela era bonita, mas se agradava…

Era mais do jeito com que a cativava!...

 

Maria José Rijo

20 – Novembro– 1953

I Livro de Poemas

... E vim cantar

Poema nº 17

Pág – 89

Desenhos da Autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:21

Primavera

Domingo, 03.06.07

http://olhares-meus.blogspot.com/

Como em muitos outros anos, ontem, fui cumprimentar a Primavera na beleza quase asfixiante das olaias em flor.

Comecei, como sempre, pelo Jardim Municipal, onde um parque de jogos que teria cabido em qualquer outro local, substituiu um encantador e velho bosque onde enamorada daqueles troncos carcomidos que floresciam como galhos frescos sempre me apetecia repetir baixinho um poema de Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

Sou poeta

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

-          não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo

 

Sei que canto. E a canção é tudo,

Tem sangue eterno e asa rimada

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada

 

Desta vez, rezei-o no coração, junto à lembrança do bosque, porque era de Torga: - Cântico da inteligência, o que me ocorria:

Não destruas!

Toda a fúria é maldade

Ouve, que te não minto:

À tua volta a vida é como um cinto

De Castidade.

 

Constrói o mundo!

A sinfonia tem de ser inteira!

Junta o teu canto à melodia!

Não deixes que uma nuvem de poeira

Tolde a luz que

e te guia!

 

Dura!

Existe humanamente, e sê feliz!

Céu que não possas ver com os olhos

Deixa-o a Deus

- A ideia que tiveste e não te quis  

 

Assim pensando segui na minha “via-sacra” para saudar, outras nobres resistentes, que embelezam portões de quintas abandonadas ou se preparam para alcatifar os caminhos, como sempre acontece ali por “Forte de Botas” , ou mesmo aqui na curva da estrada que nos leva à Piedade, onde , por esta altura, se pode contrapor a mancha rosada do chão, ao verde macio que, também, nesta época do ano, veste a paisagem que  se avista até aos limites do   horizonte imenso do nosso Alentejo.

Deixei depois, que meus olhos falassem de tudo isto aos carcomidos troncos das ancestrais oliveiras que venero como deuses campestres que guardam segredos dos mistérios da terra que lhes alimenta a vida, e que os séculos encarquilham mas não emudecem. Porque tudo que a terra dá, ou se nega a dar, faz parte das falas, da mensagem, que os céus escrevem em flor – em cada Primavera - para quem procurar o fruto que cabe em colheita a cada Vida.

 

Eis como voltei a casa ao entardecer, sem receio da noite, apenas guiada pela luz Outono/ Inverno do tempo das minhas memórias.

                                                          Maria José Rijo

                                            Escritora e Poetisa

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

29--Março-07

Nº 2.911

  

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publicado por Maria José Rijo às 19:33

As gavetas da memória

Domingo, 22.04.07

 

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.853 – 16 - Fevereiro-2006

Conversas Soltas

           ConfrontaÁo

As gavetas, são um mundo, uma verdadeira instituição.

Penso até que mereceriam ter uma irmandade, uma confraria.

Por vezes, as gavetas, são um mundo de ordem, outras, um mundo de mistério, de evocações, segredos lembrados ou meio esquecidos, e, também, não raro, verdadeiros caos de balbúrdia e confusão...

Quando se é criança, são um mundo proibido de mexer. E, embora algumas lhes estejam destinadas, só mais tarde, quando as mexidelas, não signifiquem necessariamente desarrumação, só então, o acesso a esse mundo dos adultos, lhes é liberado.

A gaveta é, um mundo privado.

A gaveta é, muitas vezes, também, um retrato de alma, e, pode valer como um cartão de identidade profissional.

As gavetas são tão importantes que, quando são avantajadas, ganham o estatuto de: - gavetões. Por outro lado, se são maneirinhas, têm o mimoso epíteto de gavetinhas.

Quero dizer: têm como que personalidade, características identificadoras.

...A do puxador de madrepérola...a das flores pintadas...

              

Depois, há ainda as gavetas fechadas, aferrolhadas, essas que, são as tais, condizentes com a importância de serem especiais e misteriosas.

E, há as outras do: mete p’rá’í nessa gaveta que depois vejo...de que já se perdeu há anos a chave e, com ela, a consideração.

Há também as gavetas património da família. São as gavetas da cozinha.

Aí, nessas, todo o mundo julga saber de tudo. Todo o mundo mexe e remexe...e, são as causadoras das perguntas e das confusões domésticas.

             

Onde está o rapatachos? - o lugar dele era aqui! - Já o mudaram?! Pois não deviam! - A mania de mudarem as coisas de sítio...

Assim nunca se sabe de nada! E, a colher de pau para os bolos!...

E o saca-rolhas? – Será que anda tudo a banhos...

Outra coisa que fugiu do lugar de sempre!

                

Há também as gavetas prazerosas, são as do bragal, com seus bordados e rendas de enfeites, seu cheirinho de guardados, com ressaibos de alfazema, ténues, como lembranças vagas, das mãos hábeis de quem as urdiu pacientemente e, agora nos aparece numa mistura de encanto e saudade...

 

Quantas horas de amor de mães, avós, tias, amigas, na feitura de enxovais. Toalhas, lençóis, pequenos enfeites...

Então, e o gavetão das trouxas, das casas antigas com passado e longas histórias de vida!...

Quantas pontas para desenrolar lembranças de bailes, casamentos, baptizados, comunhões, idas ao teatro, a recepções... Até de festas de mascarados naqueles Carnavais cheios de requinte em que se abriam os salões e as velas ardiam nos lustres, enquanto as intrigas de amor fervilhavam a coberto das mascarilhas...

Realmente, é inesgotável de sugestões e sedução esse mundo das gavetas...

   

Nas gavetas da minha secretária, arrumei durante anos e anos, os meus lápis e canetas, o papel de cartas, os envelopes, o então indispensável mata-borrão, borrachas,

Clipes, agrafadores e toda essa parafernália que acumula quem gosta ou precisa de escrever.

Um dia, porém, o meu companheiro de cinquenta anos reformou-se e, apareceu-me com umas caixas bizarras onde transportava para casa, todos os pertences que também ele acumulara nas gavetas da sua secretária de serviço. Então, como resposta á pergunta: - onde ponho isto? - Mudaram de dono as minhas gavetas.

   

E, nem mesmo agora que essa cedência já há muitos anos se tornou desnecessária, na convicção do meu coração elas deixaram de ser de quem foram, e, até ao fim serão parte da história da minha vida.

As gavetas, estabelecem a fronteira entre o meu, o teu, o nosso...

As gavetas, são, efectivamente, uma demonstração de posse, de marcação de território no nosso mundo dos afectos.

 

Maria José Rijo

 

 

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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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