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Assumo!

Quarta-feira, 18.02.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.826 – 11 – Agosto - 2005

Conversas Soltas

 

Assumo e não me envergonho de o dizer, que chorei ao ver o resultado das obras na Praça da Republica.

                      Praça da República

Dormi mal e tive pesadelos com aqueles volumes estranhos deslocados naquele contexto como um balde com esfregona estaria à porta da Sé, pretendendo ser decorativo...

 

Juro por Deus que é verdade.

Só me lembro de viver emoção igual, quando em Angra do Heroísmo assisti ao terramoto e vi a Sé desmoronada por terra.

Não ouso, nunca ousaria faze-lo – comentar a obra em si que penso será de grande qualidade, e digna até dos mais rasgados elogios. Creio mesmo que do ponto de vista da engenharia ela é um êxito.

Não falo do que não entendo.

Mas como a maior parte das pessoas desta cidade, continuo a pensar, e, agora, mais do que antes, que não era aquele o local para tal realização.

 

Desta vez, ainda bem que com o parque logo nasceu mais uma placa.

 É bom que fique bem claro o nome de quem destruiu o sóbrio equilíbrio daquele nobre espaço, o inutilizou como sala de visitas que era, desde o Senhor rei D. Manuel o Venturoso,  quem privou a cidade de Elvas da possibilidade que teve durante séculos de fruir com deleite os passeios em noites de Verão pelo tabuleiro da praça, ou de se sentar nos bancos circundantes, em paz e silêncio vendo o luar pratear o casario antigo .

Eu sei, já todos perceberam que em seu lugar, ganharam um escorrega gigante, “uma enorme glissagem” para o ski sem gelo nem patins!...

Não estou a escrever estes comentários porque muita gente mo tivesse pedido, embora telefonemas e algumas cartas que tenho recebido a isso me pudessem induzir.

Uma delas, (que aqui agradeço) particularmente bem escrita e, até com um humor bem justamente sarcástico, envia-me em verso aquilo que designa por:

“Retrato de um urbanicida que tem assassinado o centro da nossa cidade” 

Outros pedem que não lhes cite os nomes, com receio de represálias, etc. etc. etc. o que como é evidente nunca faria, porque a Câmara, confessam, (se bem que com o nosso dinheiro de contribuintes) é que dá os passeios, os almoços, os empregos, as benesses.

No entanto, também quero referir que uma pessoa, houve que me disse ter gostado.

Disse-me que a praça, cito: “ está engraçadinha”!

Se as pessoas que estão de acordo com tais estragos acham a obra “engraçadinha”, também deverão, por força de igual critério, achar que a Sé tem piada, e o Aqueduto parece bordado de ilhós porque tem muitos buraquinhos!

 

Quando aos espaços, ou às obras, não se reconhece, valor histórico, imponência, majestade, nobreza, estilo, beleza ou grandiosidade que nos encantem e comovam!..

Quando o nosso coração, a nossa sensibilidade, a nossa alma não vibram sentindo-as...

 Quando uma praça – única - no coração de uma cidade,- da cidade que mais peso teve na independência do nosso país - é transformada em zona de serviços...

Mal vai o país que assim se deixa governar...

Quando a Sé caiu, em Angra, muita gente, como eu, se abraçou chorando, ao olhá-la.

A gente nasce e vive sabendo que a morte nos levará; e aceita - é a lei da Vida.

Porém, quando se vê destruído, ou irremediavelmente adulterado um testemunho da história – sofre-se – com a dor da perda do futuro que se empobrece, com os nossos erros, as nossas vaidades, as nossas insaciáveis ambições...

    cuidando de nossa casa comum, a terra

Cuidado! – a terra não é nossa...temo-la de empréstimo...é bom não esquecer.

E, que Deus nos possa perdoar tanto ultraje já consumado a um bem - de que somos apenas fieis depositários, mas responsáveis  perante a história - a nossa Cidade.

 

 Maria José Rijo

 

Elvas Praça da Republica  por FelixBenavi.

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:14

Ao sabor do acaso

Sábado, 31.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3005 – 29 de Janeiro de 2009

Conversas Soltas

 

 

Mesmo quem nada percebe de música, como eu, tem a noção do que ela é, do que ela significa, do que ela vale, quando nos deixamos invadir por ela e dentro dela – libertos – nos soltamos.

Penso sempre, que, mesmo quando não sei as palavras que, como uma reza, eu poria dentro dos seus sons, penso sempre, que toda a música é oração, mesmo quando fala de revolta.

         

Por estar bravo, encapelado que seja, o mar não deixa de ser mar.

E, mesmo quando afoga, ainda e sempre, é água.

Não me perguntem o que quero dizer com esta conversa, porque não saberia dizer.

Sei que estou a ouvir música, sei que está a chover, sei que tenho a lareira acesa. Sei que é reconfortante estar em casa com tempo assim e olhar pelas vidraças e ver o “mundo” molhado lá fora.

          

E, sei que a música tem o condão de criar como que um mundo envolvente para nós - um mundo diferente  para cada um de nós - dentro do mundo imenso onde cabem reunidos, os mundos de todos nós juntos.

Em dias de chuva, Chopin, é mais ele.

É , absolutamente, ele.

Sei que é assim porque nestes dias, nestas horas ele pega na nossa sensibilidade, no nosso coração, nas nossas almas e eleva-as até ao infinito de nós mesmos. Até à fusão com a essência da música, até lá onde o que se pensa, o que se sente, o que se julga ser, se desfaz como bolas de sabão deixando apenas um resíduo de água,

Fugaz como uma lágrima.

Um vestígio, uma vaga lembrança da beleza entrevista e impossível de capturar.

A flor atrai porque é bela.

A infância deslumbra porque é inocente e pura

A música cativa e apaixona porque da flor é o perfume e da pureza e inocência – é a voz.

 

A música é a fala da Vida.

É a prova de que para todo o mal há esperança e espaço para redenção.

Porque de tudo a música fala.

“Quasimodo” era horrendo fisicamente.

O amor o sublimou.

Contado em música só poderia ser belo.

Porque a música é o extracto, o mistério, o segredo, a centelha de infinito de cada ser.

Nestes dias, em que a música nos faz mergulhar dentro do mistério incontido da dimensão divina de ser gente, parece que o cinzento do céu acontece para que brilhe melhor a clarividência de o reconhecermos.

O piano emudeceu.

Sem a alma nas mãos de Maria João Pires, ficou apenas, o que é – um instrumento musical. Um móvel.

E, a tarde – sem a música – ficou aquele entreacto – hoje chuvoso, ventoso e triste que nos conduz à noite.

Embuço-me no vazio escuro que o silêncio criou em meu redor e vou fingir que ainda não acordei do meu deleite.

 

  Maria José Rijo

                                 0004rh34

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:06

Considerações avulsas

Quarta-feira, 12.11.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.947 – 13 de Dezembro de 2007

Conversas Soltas

 

Começo por agradecer a prontidão da resposta de Miguel Mota, que confesso me aqueceu o coração.

Muitas vezes penso em mim, quase, como uma sobrevivente, tantos dos que enchiam o “meu mundo” já partiram.

         

Dos amigos comuns, que Miguel Mota recorda, conservo um agradável e enriquecedor convívio com João Pinheiro, a quem, para além  do muito de bom que dele se diga, devo a companhia que fez a meu marido ao longo da sua doença e que estes quase dezasseis anos de “distância” não conseguem apagar do horizonte de cada dia.

Outro amigo é o “tal jovem muito habilidoso” – que o tempo transformou no artista notável de que falei – O Cadete.

                              

(Tela de Bento Coelho da Silveira (1620-1708)

 

Hoje celebra-se Nossa Senhora da Conceição – Mãe do Céu – Mãe de todos nós. Padroeira de Portugal.

É dia de festa na cidade. Nunca pensou voltar a Elvas?

Invoco-A, dando-LHE graças e desejando também para si, todo o bem.

  - ECOLOGIA E MODELOS POLÍTICOS

Muitas vezes, mais do que supostamente seria normal, se fosse evidente a honestidade e clareza de atitudes dos políticos, dou comigo a pensar: - afinal que espécie de democracias governam no mundo?

Faço um balanço, penso, comparo e, não sei se encontro alguma em estado de pureza – sem contaminação de prepotência ou trejeitos de ditadura...

Segundo a minha óptica, cada vez há mais monarcas “ auto - proclamados” e, reconheçamos, monarcas absolutos, ou, dissolutos! Vá-se lá saber...

Se bem calhar – ainda - onde há mais democracia é nos países onde as velhas e tradicionais monarquias subsistem.

 

 Os políticos – todos os políticos, de carreira ou ofício – nem sei como os designe, arvoram-se em campeões dos valores da liberdade e da democracia.

Todos.

Porém, mal chegam ao poder, muito embora eleitos pelo povo, arranjam formas mais ou menos encapotadas de se conservarem no comando e agem como soberanos absolutos cerceando liberdades, coagindo e submetendo à sua vontade quem neles acreditou e os elegeu.

Em quase todos eles, é evidente, a preocupação de tornar vitalício um cargo para o qual foram escolhidos – à experiência...

Perseguem quem os contesta.

Tornam-se fundamentalistas ferozes.

Querem ser seguidos como os cães atrás da caça, pelo rasto.

Arvoram-se em infalíveis. Não admitem diversidade de pareceres.

Só reconhecem uma pista – a que eles traçam e trilham.

Consideram-se intangíveis, insubstituíveis.

Chegam tarde aos encontros, às cerimónias.

Ignoram a obrigação do cumprimento rigoroso de horários em espectáculos e exibem, sem pudor, o seu desrespeito por artistas e público fazendo-se aguardar como se deles dependesse o ciclo dos astros e das marés...

         

Brincam aos donos do mundo porque são “donos” do emprego...

Servem-se dos lugares – não servem o seu verdadeiro Patrão – o Povo – que os elegeu e lhes paga.

Nunca pedem desculpa, porque culpados são os outros, sempre os outros, até da sua falta de cortesia, de pontualidade...

Desmentem e calam pela ameaça quem os contesta.

  Usam palavreado cuja “latitude” está ficando tão abrangente, que vai da grosseria galhofeira – de chamar castrado ao povo a que pertencem – perfilando-se eles, como “sementais” corajosos – só – porque dispõem da força de poder que lhes permite ofender “por graça” - até ao “didáctico” discurso - já célebre - de quem , classificou as eleições do seu país – como qualquer um de nós classificaria a sua desfaçatez e educação, se tivéssemos igual privação de decência ...

 

Penso: - porque cada um de nós sacode os ombros com um desinteressado: - não é comigo! - Que já vai sendo opressora a soma das parcelas cujo total todos teremos que pagar – caro – muito – muito caro...

  

 Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 21:36

Quase um conto...

Quinta-feira, 27.03.08

Porquê eu? – Inquiriu a minha interlocutora.

Porque sempre tive em muito boa conta, a tua lucidez, a tua inteligência, a honestidade dos teus julgamentos e, porque também contabilizo o capital que te advém para o entendimento humano da tua profissão de “Relações Publicas”.

Serve a resposta? - Retorqui.

O seu apreço, se bem que me honre, constrange-me um pouco...mas, está bem, aceito a sua proposta.

Então lê, pondera e diz-me que espécie de pessoa pensas tu que é, – ou, que pode ser - quem escreve isto e passei-lhe para a mão um rectângulo de papel branco com a hermética frase escrita a tinta preta.

amigos

Uma vez que considera como pessoa amiga e convive de perto consigo, não quero menosprezar o seu julgamento, mas, onde lê admiração pela inteligência e apreço pela pessoa cuja formação elogia e cujo caracter respeita, eu só posso, por isto que leio, intuir vaidade, pedantismo e afectação...

Não será extremamente duro esse parecer?

Julgo que não, foi a resposta, e, explico as minhas razões.

Como pode uma pessoa amiga em confidência, pôr em termos tão pretensiosos qualquer dúvida íntima! Eu não entendo.

Só, se, se tratar de alguém com tanto convencimento da sua própria importância, alguém tão convencido da sua superioridade que ao invés de abrir o coração propõe com palavras rebuscadas uma pergunta para a qual, se vê que, já tem a resposta.

E, mais, essa resposta, é-lhe tão favorável em termos de auto-elogio que ela própria, apesar dessa convicção tem uns resquícios de pudor da nudez evidente do seu convencimento.

Pareceu-me a conclusão demasiado dura, demasiado rigorosa, mas, a verdade é que, se no meu íntimo não admitisse a dúvida, ou a suspeita de que algo me escapava no entendimento, na compreensão, daquela maneira de ser algo constrangedora, apesar da correcção de atitudes e da preocupação evidente de se fazer admirar, não me teria ocorrido fazer tal pergunta a Matilde.

Vão anos passados depois que esta conversa aconteceu. Creio bem que ao longo deles nunca mais em tal pensei.

A vida joga um pouco com as nossas posições e, desloca-nos, como os peões num xadrez. Os que hoje estão perto, o acaso que as junta, também as separa, e lhes dá o xeque-mate.

Agora, inesperadamente, nesta onda de expurgo, encontrei, muito dobradinho no bolso dum casaco velho o bocado de papel onde a frase que suscitou esta conversa estava escrita.

Num ápice tudo ficou presente, e, como é natural a estes anos de distância, o meu olhar sobre o assunto já não é o mesmo.

brumas

Penso agora que a opinião que na altura me surpreendeu, seria neste momento, inteiramente subscrita por mim.

Sem dúvida, a amizade e a presença, pesa muito nos conceitos que emitimos sobre as pessoas que nos rodeiam, e, por vezes, a distância, torna-nos mais objectivos e, descortinamos em nós, com absoluta evidência, o que nos recusávamos a aceitar.

São sempre mais independentes, a ajuizar, os olhares de quem está descomprometido, com o complicado mundo dos afectos.

Não sei a frase de cor, e, agora que a queria citar, verifico que inadvertidamente deitei o papel no lixo, mas, estou certa: Matilde, não se deixara iludir, tivera razão.

Reconheço o meu equívoco.

 

                                      Maria José Rijo

 

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.706 – 18/Abril/2003

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:04

Dia Mundial da Mulher

Sábado, 08.03.08

Todos os dias são dias de tudo.

Em todos os dias se nasce, se morre, se sofre, se ri, se canta, se chora, se reza, se exalta ou maldiz a sorte, a Vida...

Penso, por isso, que dedicar um dia à árvore, à paz, aos avós, à criança, ao teatro, ao pai, à mãe, à música, não é nada mais do que privilegiar um assunto em especial, de cada vez, para faze-lo realçar da amalgama e interesses que em cada momento se confundem neste mundo de todos nós, onde a tudo cabe a sua importância relativa.

                        

Em dia 8 de Março, coube, ou cabe, como em cada ano nesta data, pôr em evidência a intervenção da Mulher no mundo actual.

Porquê a mulher e não o homem, parece ficar por demais evidente se reconhecermos que foi a mulher ao longo dos tempos considerada como ser inferior, subjugado ao poder dos homens, e, por eles comandada e a eles submetida como qualquer outro animal doméstico.

Da luta pela sua emancipação, toda a gente sabe e fala.

Foi de séculos a caminhada.

               

E, a falar de tudo isso teríamos “pano para mangas”, como soi dizer-se, até porque, na ânsia de conquistar o seu devido lugar, a mulher de hoje extrapola da sua medida (certa?) exigindo, não já a justa igualdade de direitos como ser humano, mas uma equiparação por decalque do modo de estar na vida como se mulheres e homens fossem uma e mesma coisa, o que como é evidente nunca poderá acontecer.

Será sempre no ventre da mulher que o ser humano será gerado, ainda que se entre no mundo tão maravilhoso como assustador das experimentações de clonagens e outras intervenções nos mistérios melindrosos da genética .

S_Mulheres.jpg (14092 bytes)

Mas, não é a esse assunto que venho, que, esse, pela vastidão da minha ignorância, só me pode emudecer...

Já que a escolha é minha, prefiro abordar o tema – Mulher - olhando a mulher como gente, como pessoa, ser humano, sujeito às mesmas vicissitudes que todo e qualquer ser humano .

                            

Prefiro fixar a minha atenção no drama da marginalização social que, muito principalmente na velhice atinge o ser humano, homem e mulher, indiscriminadamente.

Ouvi há pouco tempo na televisão, um actor brasileiro dizer, com bom humor, e muita inteligência, que só conhece um caminho para quem vive: - envelhecer!

               Picasso:  Woman with Book

            Estando a infância e a juventude no começo da existência, só serão velhos os que, ultrapassarem esses estádios e, para tanto, viverem.

Já que a idade é a consequência natural da vivência. E se toda a gente defende a sua própria vida, vale a pena olhar de frente estas realidades: - velhice, marginalização social e solidão!

   

Em “ Elogio da Velhice”Hermann Hess, escritor alemão e prémio Nobel, deixou escrito: - “ Envelhecer de modo digno e manter a atitude e a sabedoria condizentes com a idade que se tem é uma arte que não é de todo fácil; a maioria das vezes a nossa alma está adiantada ou atrasada em relação ao corpo

              

Este é um problema crucial do homem e da mulher, um problema de gente – um problema da “gente” – quero dizer, um problema de todos nós – o equilíbrio entre o corpo e o espírito que não envelhecem necessariamente ao mesmo ritmo.

Solidão é condição intrínseca do ser humano, mas não é apanágio da velhice, ou de qualquer idade específica.

Só que na juventude, pelo bulício, pela inquietude, pelas solicitações do mundo exterior, pela própria aventura de viver e experimentar emoções, quase nem fica espaço para pensar nesses assuntos. É o tempo de acção, da embriagues de tudo querer e tudo provar...embora, nada satisfaça em absoluto a ânsia que leva à desenfreada procura.

Então a velhice, porque estando no extremo oposto se afigura longe, aparece aos olhos dos jovens como uma coisa estranha, doentia, de uma fragilidade quase obscena, onde tudo de mau acontece.

                       

No entanto, nas emoções, nos sentimentos, na dor, no sofrimento, e na afectividade não há velhice, nem juventude.

Há apenas gente, que a nada do que é humano se pode eximir...Nem ao desencontro do ritmo do envelhecimento do corpo e do espírito!

É que a Vida é uma só.

Nela se entra nascendo e dela se sai, por uma porta única – a morte.

Não importa se somos bonitos ou feios, perfeitos ou disformes.

Não importa a nossa forma ou aparência, importa, sim, de que maneira se faz a travessia...

A todos o Criador permite aquele trajecto mais ou menos curto que nos permite dizer: - a minha Vida, a nossa Vida... Que é a mesma, igual para tudo e todos.

Nela respira a árvore e pulsa o infinito,

Deus não dá vidas usadas, vidas de saldo ou vidas em segunda mão.

Dá Vida. Concede-nos o direito de sermos – individualmente responsáveis – isto é: de sermos sós, cada um -  único - embora integrado activamente, no Universo - responsável pelo tempo que usa na sua trajectória desde o nascer ao morrer.

               

        Ainda que à nossa vaidade e pseudo importância pese, continua a haver dia e noite, Primavera e Verão, pássaros a cantar logo nas madrugadas e cigarras fazendo vibrar o ar quente quando o sol está a pino, e grilos cantadores matizando os sons dos campos com a estridência do seu cri-cri! E os morcegos continuarão a esvoaçar no escuro e as corujas e os mochos hão-de causar arrepios a quem ouvir o seu lúgubre piar nas noites de breu. E no céu hão-de brilhar estrelas e as nuvens hão-de esvoaçar com o sopro do vento, ainda que nós tenhamos partido para sempre...

Talvez a consciência desta nossa insignificância possa fazer brotar em nós o desejo de conquistar a única importância relativa que podemos adquirir, sendo solidários com o nosso semelhante.

Afinal : - amando o próximo como a nós próprios...

Ninguém repudia viver o Inverno ou a Primavera...

Todos aceitamos os ciclos do tempo.

Porquê descriminar a velhice, se, como o Inverno, ela é inevitável no seguimento natural das estações para quem já tenha ultrapassado as antecedentes...

Todos trazemos em nós o sinal, a marca da criação.

Uns chamam-lhe alma, outra consciência, outro espírito, não importa o nome que se lhe dê.

Importa que todos por esse sinal íntimo sabemos o que é o Bem e o Mal! –

Embalando os filhos as mulheres embalam o mundo!

Que seja o Amor, a Justiça, a Solidariedade, a Fraternidade o tempero do «alimento» que das suas mãos receba esse «mundo» onde – elas - já ganharam a visibilidade necessária para mostrar do que são capazes, ganhando  mais essa batalha.

            

Não olhemos os velhos como gente em saldo.

Não há saldo de Vida.

Sobre os novos têm eles, uma vantagem – têm a memória do passado, a riqueza das experiências vividas – o que lhes dá uma cumplicidade com a “solidão de ser” e um olhar de paz em relação à morte, a que  os  jovens ainda não têm acesso...   

 

Maria José Rijo 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.700 – 7/3/03

Conversas Soltas

 

                       

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publicado por Maria José Rijo às 00:30

Momentos

Quinta-feira, 05.07.07

http://olhares-meus.blogspot.com/

A televisão olha o mundo e com a imagem e com a palavra vai contando...

De todo o mundo...

Daqui e dali...

De ao pé da porta...

 

De Saddam: - foi lida a sentença – vai ser enforcado.

A gente lê, escuta, olha e não acredita!

Enforcado!!!

Mas que Mundo é o nosso? - Que pessoas somos nós que chamamos de justiça a sentença de enforcar um homem?

Muita gente, como eu, sentirá repulsa por semelhante sentença e sentirá vergonha de em 2006 AINDA ser possível uma sentença de morte consumada com opróbrio.

Se já é lamentável e ignominioso que se considere legítimo executar, como justo, um assassínio, para castigar outro, faze-lo por enforcamento envergonha o Homem como –Ser- criado à imagem de um Deus em nome dO qual se ousa fazer o que, em seu próprio nome, o homem não assume fazer...

A televisão olha, com a imagem e com a palavra vai contando e a gente: - envergonha-se...

 

Uma mulher – emigrante - ainda jovem, confessa frente a um país, que a observa pela televisão, que  entregou por falta de meios e medo de não ser entendida pelo companheiro com quem vive –  a uma estranha - a sua criança recém nascida - que não era dessa união e chora desesperadamente...

Chora e relata a sua desgraça e o seu arrependimento.

Chora, porque quer reaver a pequena Raquel. Chora - porque - reconheceu - que a dor do medo, da solidão e da miséria, afinal é menor do que -  a dor de  perder  a filha.

E nunca diz: tive uma criança!

Diz e repete: - “quando chegou a hora de Ganhar o Bébé” – diz e repete sempre – “Ganhar!”- quando refere o seu nascimento

De colo agora vazio, sem se dar conta, enaltece a mais valia de ser Mãe, e chora inconsolável...

A televisão olha, com a palavra e com a imagem vai contando e a gente pensa - sente, compreende e enternece-se...

Solidariza-se...

 

Um padre foi sequestrado ao celebrar missa na capela de uma prisão.

O padre, tudo conta, sem rancores, sem ódio, sem paixão, sem sanhas de vingança.

O Padre, é homem, é gente, não desejava morrer, mas... mais do que os seus medos, as suas angustias, sentiu, viveu, o drama de outros homens que, como “os poderosos deste mundo”, também pensam que é matando que se pode fazer o caminho para a liberdade.

O Padre conta. Não omite os seus medos, não esconde as suas angustias, as suas fragilidades, mas olha também as angustias dos seus opressores e sofre por elas, com eles, como que esquecido de si...

O Padre fala de Fé, fala de sua Mãe, fala de Deus.

Condoe-se pensando no sofrimento dos que o amam.

O Padre, não se queixa, nem lamuria – o Padre está vivo e quer aprender com a Vida – e, mesmo quando o risco é da sua própria vida - olha o “outro”- e olha-se, e conta e a gente aprende e orgulha-se da dimensão de ser Homem – orgulha-se dele.

O Padre repudia os actos criminosos pelos quais os autores do drama que com eles viveu estão prisioneiros. – Mas não repudia - os Homens – aqueles Homens – nenhum Homem...

E - a Esperança -  fica em nós ...

...e sentimos o orgulho de ser gente.

Deus seja louvado!

                                 Maria José Rijo

                              Escritora e poetisa

@@

           Jornal Linhas de Elvas

           Nº 2.892 – 16-Novembro-2006

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 14:06





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O Natal

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Exposição PERCURSO-2008

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JOSÉ RIJO

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Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

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