Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
"Palavras - palavras - palavras "
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.346 – de 12 de Abril de 1996
Conversas Soltas

Chamava-se Fausta.
Era pálida, loura, franzina.
Não lhe recordo as feições.
Se feia ou bonita, nem saberia agora dizer.
Teria apenas, tão-somente a inocente beleza de ser criança.
Nem parecia diferente das demais por estar descalça.
Olhando por essa perspectiva, diferentes, seríamos as cinco ou seis garotas vestidas com conforto e calçadas, de entre as mais de trinta que frequentavam a escola lá da aldeia, onde ela e eu entramos pela primeira vez, naquele dia.

Corriam os anos trinta.
Mais de meio século já resistiu esta ponte de tempo que liga esse passado a este presente que ora vivo. É por ela que o vai - vem da memória me traz lembranças que, inesperadamente, se apresentam tão frescas que as fixo com o espanto de quem julga sonhar.
Estamos na Páscoa.
Um cântico da procissão que á luz das velas serpenteia subindo a avenida, perto de mim, traz-me ao espírito palavras já antigas no meu conhecimento.
Escutadas desde a infância, repetidas saboreando-lhes a sonoridade mas, das quais só muito mais tarde se intuiu a profundidade do sentido que carregam.
Paixão! Paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Paixão, é uma delas.
E, umas palavras acordam outras que vão surgindo, trazendo recordações.
Então, de repente, a Fausta apareceu-me tal e qual como naquele dia distante em que a conheci vestida de preto.
Preto de luto.
Preto já ruço, feio, esverdeado, pobre.
Preto de mágoa.
Preto de paixão – morrera-lhe o Pai. Mãe, também já não tinha.
“A mocinha anda morta de paixão” – comentavam as comadres.
Crianças que éramos, unidas pelo desamparo de ir pela primeira vez à escola, aproximou-nos.
Foi de mãos dadas que entrámos na aula, nos sentámos juntas e ficamos companheiras.
“Não queira ficar ai” – segredou a empregada “que essas moças ás vezes, têm piolhos!”
Não me mexi. Fiquei.
Os pés dela, espalmados, com a pele grossa e gretada, perturbavam-me, mas faziam parte da imagem pungente da menina.
Numa lamúria aciganada, as mulheres da aldeia apontavam-na a dedo: - Coitadinha!
Mas, esse dó convencional, impudicamente exposto, não a vestia, não a alimentava, não lhe aquecia o coração.
Apenas, talvez, mais a humilhasse ou ofendesse.
Andar descalça, pedir de porta em porta, eram coisas comuns nas pequenas aldeias do Alentejo, naquela época.
Não ter pai, não ter mãe eram circunstâncias referidas com frequência sobre outras crianças quando o paludismo campeava e outras pragas sociais que devastavam vidas à compita com a tuberculose que a miséria, a falta de higiene e de esclarecimentos tornavam comuns e já nem alarmavam...
E, – coitadinha! – Dizia-se a muita gente. Quase a toda a gente – por tudo e por nada.
Foi então que se rotulou a diferença.
A Fausta era orfã.
Orfã, significava ainda e também que mesmo que tudo tivesse, nada lhe viria, jamais, daquelas mãos que seguravam a sua enquanto diziam:
- Anda! – Vem com o Pai ou, com a Mãe!
Os anos passam. A gente vai vivendo.
Aprende coisas novas.
Julga esquecer coisas velhas...
Experimenta novas emoções, novos medos, novas esperanças.
Zanga-se, alegra-se. Triunfa, ganha e perde.
Chora, canta, ri. Sofre e é feliz.
Deslumbra-se. Habitua-se. Deixa correr.

Tudo o que foi novo se vai tornando natural, comum. Tão natural como o rio que corre, a nuvem que esvoaça no céu azul, cinzento, negro...
Mas, um dia, algo muda e redescobre-se de quantos pequenos milagres se faz a maravilha dum quotidiano a que – às vezes – depreciativamente se chama de ronceiro.
Reminiscências do passado afloram ao espírito. Primeiro quase com timidez. Depois vivas e despertas .
São lembranças.
“Com três letrinhas apenas se escreve a palavra Mãe...”
Orfã – tem quatro só, e conta a falta dela.
E, para designar os Pais que perdem os filhos, os Avós que choram os netos – porque não haverá palavra?! – Ou palavras?!
Orfã , também deveria ser considerado um estado civil com direito a bilhete de identidade. Como solteiro, casado...
Como viúvo.
Palavras... Palavras... Palavras...
Ás vezes de mais – às vezes de menos...
Ás vezes para quê? – se todas nem chegariam.
Maria José Rijo
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Acabei de regressar...
Olhem as coisas que ela descobre! E com que cuidado tem coleccionado papelada, retratos, tudo...
É justo que as minhas primeiras palavras de agradecimento sejam para ela e que as estenda a todos com um beijo de Boas Festas e de afecto pelo encanto que o vosso convivio tem emprestado à minha vida.
Bem à moda alentejana - aqui vos digo que "nã tenho boca avondo qu'encareça!- o mimo que me dão.
Bom Ano para todos

