Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
“ A Semana do Pão “
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O Pão é místico.
O Pão não é um alimento qualquer.
A semana do borrego, a semana do porco, a semana do bacalhau – são o que são.
Semanas de culto à habilidade gastronómica, à pançada, ao petisco, às tradições locais – mas, assentam sempre na imolação de um animal.
Com o pão... bem! – Com o pão – nem de perto, nem de longe se pode assemelhar ou ser a mesma coisa.
Quando eu alvitrei e ofereci a ideia – se tivesse imaginado possível, ver tal sugestão reduzida a tamanha banalidade – teria ficado calada.
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O Pão é Místico.
Na Comunhão diz-se “ O Corpo de Deus” – é Pão.
No Pai-Nosso, reza-se de mãos abertas pedindo: “o Pão-nosso de cada Dia “.
Na miséria implora-se por amor de Deus: - um bocadinho de pão.
Na desclassificação do ser humano diz-se: - não mereces o pão que comes.
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Na alegria e na saúde bendiz-se – o Pão da vida.
Na penitência sustenta-se o corpo a pão e a água.
Na pobreza refere-se amorosamente – “o panito”.
No dia de todos os Santos dá-se – “o pão por Deus”
Na quinta-feira de Ascensão – colhem-se espigas para que não falte o pão.
E, ninguém do povo, põe o pão na mesa virado com o “solo” para cima – “porque” o pão não se ganha de barriga para o ar - o pão ganha-se com o suor do rosto” – o pão respeita-se. Ninguém se senta à mesa de chapéu.
Quando, frente a uma mesa posta, alguém se distrai e solta linguagem desbragada, apressa-se a exclamar: - “com perdão do pão “!
Nos lares, mesmo nos mais modestos há – a bolsa de pão – e, é só do pão.
O saco do pão faz parte – até – da parafernália dos mendigos.
O pão sempre se pousa sobre um pano branco ou pelo menos limpo.
Branco é o panal que forra o tabuleiro onde o pão, ainda em massa, se aninha para ir até ao forno.
Branco é o Sudário de Cristo.
Branca é a farinha que o trigo esconde no seu bago de oiro.
Não mereces o pão que comes – é a ofensa mais humilhante que alguém pode escutar.
Parece que não come pão de gente! É o piedoso lamento para quem definha sem saúde.
Por estas e outras, muitas mais, razões alvitrei a semana do pão, para ser lançada de forma inovadora nesta querida Elvas.
Pensava nas escolas interessadas a investigar e juntar dados para uma bela exposição didáctica.
Recolha de provérbios.
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Número de moinhos e azenhas do Guadiana.
Houve? – Não houve? – O que resta?
Com o apoio da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas fazer uma mostra das espécies de trigo que há – diferenciação das espigas.
Solos, adubos, sementeiras.
Variedades de pão que o nosso país consome nas diferentes regiões. Que cereais são utilizados.
Pensava em pinturas e fotografias fazendo a história de ceifas, mondas, etc, etc,
Pensava numa mostra de medidas antigas...
Da evolução das alfaias através dos tempos...
Talvez um cortejo – talvez apenas exposição...
Do arado até hoje – que distância!
Na transformação dos usos na feitura do pão. Da artesania até à era industrial...
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Pensava numa região completamente envolvida a falar de si, do seu passado, dos seus costumes como quem folheia um álbum de família desde as mais remotas origens – historiando tudo quanto lhe diz respeito para se fazer conhecer, amar e respeitar como merece e precisa.
E, só depois, como fecho a tal semana gastronómica.
Porém, também aí, seria diferente.
Entrariam as iguarias propostas – é certo! Mas... e os doces de pão?
A enxovalhada? – As migas doces? – A sopa dourada? – As tibornas? etc, etc, etc, ...
Uma coisa eu garanto:
Não posso imaginar que uma só pessoa ficasse indiferente a uma fornada de “marrucates” perfumando o ambiente na “vernissage” da inauguração – para mais – tendo ( e teriam ) à sua disposição a possibilidade de provar a tiborna de lagareiro e a tiborna de lambareiro – ou simplesmente azeitonas que tão bem se casam com o pão.
Como música de fundo recuperava aquele disco de Maria Clara em que ela canta Guerra Junqueiro:
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“Toque,toque, toque – vai para o moinho “ ou o Luís Piçarra com a sua “Ceifeira que andas à calma ... “
Que mundo de coisas encheu o meu espírito para a semana do Pão... – E o que realmente aconteceu.
Vai ser como com a “Quinta do Bispo”!
Quem viver – verá!
Vá, lá! – Vá, lá! - Que quando ofereci a ideia do cortejo histórico, que já deixei bem alinhavado – em 1990 – apenas substituíram os “arautos” a cavalo por guardas-republicanos de motorizadas mas, não foi mal! – A julgar pelo que disse a rádio desse tempo – desconhecendo quem dera a ideia, claro!
Ainda um dia escrevo as minhas memórias.
De tristezas estamos todos fartos.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.375 – 8 - Novembro - 1996
Conversas Soltas
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“Pão e amor”
“Pão e amor” é o título de uma obra da autoria de Knut Hamsun, escritor norueguês a quem foi atribuído o prémio Nobel de Literatura em 1920.
Trata-se de um livro apaixonante, cujo enredo se desenvolve em torno da história de uma família de colonos que se instalam nas terras desoladas e frias do norte da Noruega; onde vivem os seus dramas e as suas alegrias com o espírito heróico dos desbravadores.

Fala-se nele, do amor à terra “origem de tudo, fonte primacial da vida”, – como no próprio romance se lê, e dos homens amando segundo a lei de Deus, e vivendo entre os animais que os ajudam no trabalho e no sustento.
Lembrei-me desta obra que, na adolescência, muito marcou a minha sensibilidade quando, recentemente, a nossa cidade foi invadida pela notícia brutal da morte de uma recém nascida em condições pouco claras.
E, lembrei-me porquê? – Lembrei-me porque a heroina dessa história, do referido livro, nascera com o lábio rachado o que, desfeando-a, lhe reservou uma vida de exclusão em relação a todos os prazeres e alegrias da juventude e, a fazia esconder-se com vergonha daquela fealdade que a expunha à curiosidade e repugnância de toda a gente que, por esse facto, a descriminava cruelmente.

Só aquele colono, pobre e feio a aceitou porque ninguém mais o queria, a ele também, e tinha necessidade da companhia de uma mulher, para a sua aventura em procura da posse de um pedaço de terra, nos difíceis tempos da colonização.
Assim que, ao sentir-se, meses depois, grávida, a mulher, disfarça o seu estado, e ao perceber perto, a hora de lhe nascer a criança, afasta o homem e, mata a filha porque vem ao mundo com o mesmo defeito que fizera dela um ser revoltado e infeliz toda a vida.
Arrepia! - Espanta! Revolta! – Mas faz pensar...
Como era de esperar a certa altura o crime é descoberto, a mulher é presa e, é julgada e condenada.
Na penitenciária, tem comportamento exemplar, recebe instrução, acaba sendo operada para correcção do lábio que fica escorreito. Durante o resto da sua existência ela carrega a mágoa e o remorso do infanticídio a que por ignorância, a força do amor pela filha a conduziu, na ânsia de lhe poupar o sofrimento de uma vida de tragédia igual aquela a que o terrível defeito a condenara.
Curiosas, são as considerações da advogada de defesa que, então, argumentava assim:
- “ Nós as mulheres constituímos a metade infeliz e oprimida da Humanidade. Quem faz as leis são os homens; as mulheres nem podem dar o seu parecer.”
“- E há ainda outro lado da questão a encarar. Porque é que o homem não é incomodado? A mãe que cometeu um infanticídio sofre a prisão e os rigores da lei; mas ao pai da criança, ao sedutor, nada se lhe faz”.

Curioso é que este e outros argumentos usados há mais de oitenta anos ainda tenham actualidade. Pois que, se é verdade que as leis hoje não são feitas apenas pelos homens, não é menos certo que em muitos extractos sociais os homens tiranizam as mulheres, violentam as suas consciências, levam-nas à loucura causada pelo peso dos infortúnios que lhe infligem, batem-lhes, fecham-nas em casa, deixam-nas sobrecarregadas de trabalho e miséria, até nas pesadas horas de solidão e sofrimento físico que um parto causa.
Depois, depois...a sociedade que isto permite. A sociedade que esquece a educação, a assistência social, que discute tostões em reformas de miséria e faz estádios de exibicionismos milionários, etc, etc, espeta o dedo e acusa.
Dispor de leis justas e progressistas, não é solução para todos os males da humanidade.
Mais importante, ou tão importante é dar ao povo a preparação para as conhecer e cumprir.
É dar-lhe a consciência cívica dos seus deveres e direitos.
É garantir-lhe condições de dignidade de Vida.

É acordar, ou, criar a consciência de uma sociedade egoísta, alienada por falsos valores, que cultiva as aparências, mesmo à custa da fraude, que, quase sempre, julga e acusa sem meter a mão na consciência procurando e aprofundando as causas, as origens de certos crimes e delitos de que os réus são, muitas vezes, as principais vitimas...
E, ainda há quem defenda o aborto! – Espero, um dia, vir a entender qual é a diferença entre matar um filho às escondidas no segredo de um ventre ou, após o nascimento!...
A falha, é minha, por certo.
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Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.653 – 12/Abril/2002
Conversas Soltas
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CASPACHO, GASPACHO OU VINAGRADA

Azeite, alho pisado com sal; água fresca do cantarinho (infusa ou quarta, conforme a região); Vinagre, pão migado à mão, oregãos para perfumar (o uso dos orégãos não é obrigatório).
Esta é a base da sopa fria que se come como alimento e refresco, durante o duro Verão alentejano.
Foi depois enriquecendo com a adição de pepino, tomate e pimentos verdes picados em bocados pequenos.
É prato turístico em hotéis, batido com um puré frio a que se adiciona, por vezes, ovo cozido e a que subtrai quase por completo – ou completamente – o pão.
O seu acompanhento mais próprio são as azeitonas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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ENSOPADO DA BODA

Numa mistura de banha de porco e azeite, deixa-se papinhar cebola picada, alho e louro. Antes que a cebola frite, leva a carne de borrego partida em bocados e colorau.
Tempera-se, então, com sal, pimenta em grão e cravo (pode ou não levar salsa).
Cozinhar tapada em lume brando.
Deita-se-lhe água em golinhos, para cozer devagar sem afogar. Depois de cozida, junta-se-lhe as batatas cortadas às rodelas que também se deixam cozer com pouco caldo.
Acrescenta-se então uma golada de vinagre ou de vinho branco e volta a abrir fervura antes de se acrescentar o caldo à conta desejada. Serve-se sobre sopa de pão.
(O vinagre ou o vinho não são essenciais.)

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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SOPA DE ESPARGOS E SOPA DE ESPINAFRES

Fritam-se em azeite coentros pisados com alho e sal.
Não se deixam fritar muito.
Sobre eles, deitam-se ou os espargos ou os espinafres que se deixam cozer em lume brando.
Escalfam-se ovos no caldo que se verte sobre o pão cortado em finas sopas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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SOPA DE BATATA

Azeite; Cebola e um dentinho de alho; Pimentão flor (umas pitadinhas para dar cor); Um bom ramo de hortelã; Um nadinha de salsa; Batatas às rodas grossas.
Tape para estufar em lume brando. Junte água a pouco e pouco até a batata cozer.
Faça-o lentamente para o caldo engrossar. Acrescente o caldo à conta que precisar. Escalfe ovos (se as galinhas andam a pôr).
Deite tudo a ferver sobre a sopa de pão acamada na “tigela” em que há-de ir á mesa.
Veja se a louça é curtida (isto é uma velha recomendação popular, daí o senão), caso contrário sabe a barro.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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MIGAS

Alhos fritos em azeite ou banha; Água e sal; Pão em fatias finas.
Não deixam queimar os alhos, que se retiram logo que aloiram e se põem de lado. Sobre a gordura quente, acama-se o pão, e sobre ele vai-se deitando água que para o intento se tem a ferver.
Abafa-se para cozer um pouco.
Depois que o pão começa a estar mole, vai-se mexendo, até que, já bem desfeito, se começa a enrolar como uma tortilha, sacudindo o tacho bem seguro pelas asas.
Assim se vão fazendo rodar as migas até que o pão se junte perfeitamente como um bola.
Na casa do rural, comiam-se as migas com os alhos fritos como acompanhamento.
Nas casas abastadas, as migas fazem-se com a gordura proveniente da fritura de carnes de porco que, depois, constituem o seu acompanhamento. Também era uso do pobre comer as migas bebendo ao mesmo tempo café.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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Fatias Douradas

Vai-se mergulhando o pão, já fatiado, em leite quente e
depois em ovos batidos temperados com uma pitada de sal.
Fritam-se depois as fatias em óleo fervente e polvilham-se
com uma mistura de açúcar e canela.
Podem também regar-se com calda de açúcar perfumada de
baunilha, calda de frutas ou mel.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Doces

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SOPA DE TOMATE

Tomate, cebola, dentes de alho, azeite, pimento verde – tudo no tacho a estufar em lume brando.
Deite orégãos (se gosta do paladar).
Quando estiver cozido passa-se pelo passador.
Acrescenta-se o caldo obtido com um pouco de água.
Deve ficar bem espesso. Batem-se os ovos com um garfo e deitam-se-lhe para dentro enquanto ferve.
Verte-se o caldo sobre o pão.
Acompanha-se com figos frescos ou uvas e azeitonas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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SOPA DE CACHOLA

Fressura de porco, molejas, bocadinhos de baço.
Em banha de porco, frita-se, sem alourar, cebola e alho.
Logo que a cebola esteja passada, deita-se a carne o pimentão-flor, o cravinho, pimenta, louro e um molho de salsa.
Depois de refogado, leva água para cozer.
Logo que esteja cozido, acrescenta-se o caldo que chegue para as sopas e um pouco de sangue de porco batido com vinagre.
Sobre as sopas de pão cortadas fininhas, colocam-se rodelas de laranja e, por cima, verte-se o caldo com as carnes.
Acompanha-se com mais rodelas de laranja.




