Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O diálogo
Dou, em cada dia, graças a Deus pela qualidade da minha vida.
Tenho – terei mesmo? – (duvido que a dimensão do Bem da Vida, seja humanamente mensurável, mas isso já é outro assunto) consciência do que a Sua misericórdia me concede por, na casa dos oitenta, ainda me bastar a mim própria, olhar com interesse o mundo à minha volta, pensar, tentar entender e, até intervir.
Que, isto de falar, sem esconder o rosto, não é mais nem menos do que assumir o dever de cidadania que a todos cabe e quer dizer – também sou responsável.
Daí que ouça, com atenção, as intervenções públicas dos Senhores Ministros e Senhores Deputados e, também dos Senhores Políticos presidentes de partidos, etc... etc,,,
Daí que dos debates, das propostas, das decisões, das sugestões, críticas recíprocas, das alfinetadas, das catilinárias, (como diria meu Pai), me tenha ficado a nítida sensação de que em lugar de estarem equacionando problemas nacionais, (que querem resolver) na maior parte dos casos estão usando em despique floreados de oratória para ver quem enrola, (este termo parece-me fora de propósito, será?!) melhor o opositor, e ganha mais aplausos das galerias. (traduzo: votos)

Então, neste ano de comemorações do IV centenário do Padre António Vieira, é ver como cada qual se esforça por brilhar na oratória!...
Não admira, na circunstância, que me lembrasse de trazer a lume uma estórinha dos meus tempos de criança, aprendida na escola da aldeia, que servia para se falar muito, sem dizer nada, mas, pelo menos, não dá vontade de chorar ao ouvi-la.
Parece-me um excelente exercício dialéctico para uso dos Senhores Políticos...
È verdade que ninguém o entenderá, mas, pelo menos, a gente ri-se...
Imaginemo-los com os seus ares de donos irrefutáveis da verdade, dedo acusador em riste apostrofando o opositor em tom declamatório:
“ Que te importa a ti?
A conversa é teu?
Quando eu falar com tu,
Logo tu falas com eu!”
Nada mais perfeito para a “sintonia” dos projectos em curso: -
Ponte, aeroporto, TGV, incineração...decisões de justiça... tudo, tudo, tem cabimento neste – esclarecedor – solilóquio, seja ele repetido por quem for!
– À direita, à esquerda ou, até ao centro...
Porque assim todos – como eles – ficaremos sem saber qual é o rumo.
Ou se, ainda, há rumo possível...
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.956 – 14 de Fevereiro - 2008
Conversas Soltas
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Os Padres das nossas vidas
A morte inesperada do senhor padre Acácio Marques que a todos nós

surpreendeu e a alguns de nós, como a mim própria, provocou sofrimento e um doloroso sentimento de perda, fez-me pensar profundamente na presença, por vezes tão mal avaliada dos Padres nas nossas vidas.
Talvez, também a isso me levasse um dolorido desabafo, de um amigo que muito preso: - “a morte de um padre é também uma desgraça”, e acrescentou; há tão poucos!
Muita gente pensa e diz escarnecendo que os padres fazem isto, aquilo, aqueloutro. E, por tal os julgam e condenam, como se julgar fosse obrigação sua.
Mas, quando nos baptizam, nos dão a comunhão, nos confirmam na fé, nos casam ou dão a extrema unção, para além dos seres humanos falíveis como todos os demais, eles são nesses momentos muito especialmente a voz e a mão de Deus.
E, não é tão difícil assim de entender. Quando os nossos próprios pais, por mais defeitos que tenham como gente que são, nos abraçam e aconselham – não procedas assim por estas mais aquelas razões, embora continuem a ser os frágeis humanos que erram, são mais, muito mais, do que isso são, na divina medida do humano – “os Pais” são então, a mais sincera voz do amor pelos filhos.
E, quer queiramos quer não, o Padre, enquanto Portugal “ainda” tiver liberdade para, pelo menos, nas igrejas conservar os seus Santos e viver sem perseguições a sua Fé Cristã, os padres continuarão a ser figuras de referência nas nossas vidas.
São ainda os padres que nos encaminham nas aflições e nos abrem caminhos de redenção. Quer dizer, em todos os actos solenes das nossas existências, lá está o “Padre” connosco levando a palavra de Deus às nossas vidas.
Mas, o padre Acácio, que dele vinha falar, era, e foi, um padre especial. Tirava da sua fé a coragem de não agradar, se ela a isso o intuísse.
Lutava pelo Amor de Deus, não para que a amassem a ele.
Quando há cerca dezasseis anos passou uma tarde em nossa casa a falar comigo fiquei a dever-lhe não a piedade, nem a palmadinha nas costas. Fiquei a dever-lhe a coragem de ir em frente.
Depois, pouco mais falamos, a não ser quando baptizou dois dos meus sobrinhos netos e foi almoçar connosco a Juromenha, mas uma ou outra vez, no Comercio do Porto, onde colaborava fazia-me um aceno por escrito.
Guardo-o no meu coração pelo afecto e pela admiração e respeito que lhe devo.
E, hoje pensando nele, pareceu-me justo trazer à lembrança de todos nós “os Padres das nossas Vidas” – que nos amparam, nos aconselham, nos abençoam e que, tantas vezes andam longe demais da nossa gratidão e dos nossos corações.
Rezemos por ele e por todos nós.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.952 – 17 – Janeiro – 2008
Conversas Soltas
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“Promessa é dívida – daqui não há que fugir”
Frente à profusão de papelada que me vou esforçando por compulsar…
Frente a tantas pequenas empreitadas que se adiam, nos pesam, por essa razão, na consciência e nos acrescem a desconfortável sensação de que o tempo nos falta para o que sonhamos empreender…
Lembrei-me hoje, mais uma vez, de uma frase de Eurico Gama.
Aliás, já na nota de abertura que escrevi para a sua “Monografia Resumida” – Elvas Rainha da Fronteira – publicada aquando da inauguração da Sala da Biblioteca a que foi dado o seu nome em 1986 – tive a ocasião de a referir:
“A Vida é tão curta e eu tenho ainda tanto que fazer…”
Confidenciou-me então, sua mulher a saudosa Senhora Dona Maria Amélia Pires Antunes Gama, que este desabafo que lhe escutara em Portalegre – para onde fora tratar-se e de onde – depois, já foi trazido para esta sua muito amada terra – abrangia, também um desejo em que ele se empenhava havia anos; - Fazer entrar na Biblioteca Municipal os manuscritos (9 grossos volumes) que narram a história genealógica dos Vasconcelos de Elvas…
Foi assim, pelos custos da amizade e confiança em mim depositadas, que herdei o sonho de Eurico Gama para que eu continuasse o que prometi.
-Promessa é dívida. Daqui não há que fugir.
Eis porque, de 86 para cá, tenho vindo a esforçar-me para honrar o meu compromisso.
Cessação de responsabilidades políticas, não invalida a responsabilidade que advém da palavra empenhada.
Assim, que, consegui que me fosse reafirmada a oferta, já antes, prometida a Eurico Gama, pela possuidora dos documentos.
Foi-me também afiançado ter sido o Senhor Doutor Silvestre incumbido da sua entrega logo que localizados.
Até que um dia, tive conhecimento pelo meu muito respeitado amigo – Senhor Semedo – do achamento da dita documentação entre o enorme espólio da benemérita Senhora, que, entretanto falecera.
Averiguei do atraso no cumprimento do estabelecido e acatei, não muito a gosto, a demora da sua entrega à Biblioteca, sua legítima herdeira, pois que, sendo tão altamente interessantes eles haviam despertado a curiosidade de os ler ao ilustre interveniente no processo.
Por capricho do acaso, esta mesma informação me foi confirmada pelo próprio Dr. Silvestre à porta da Igreja do Senhor Jesus da Piedade, onde tive o gosto de o cumprimentar.
Ora, não é que hoje, pensando naquele conhecidíssimo: poema: “O passeio de Santo António” dei comigo a sorrir pensando que eu fora o Santo, se calhar, a minha queixa a Nossa Senhora não seria pela curiosidade do Menino Jesus…
Só que, não tendo eu, assim acesso ao céu, não admirará – julgo – que se nalguma das minhas voltas encontrar por aí, o Senhor Dr. Silvestre, como, até, já aconteceu – para além da alegria de o rever, eu comente:
-- Valha-nos Deus, Padre!
Que devagar que o Senhor lê!
Maria José Rijo
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Jornal linhas de Elvas
Nº 2.257 – 15 de Julho de 1994
Conversas Soltas
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Por decalque – “ Os meus votos”
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Nº 2.332 – de 5 de Janeiro de 1996 Conversas SoltasJornal Linhas de Elvas
Na madrugada silenciosa, o rádio baixinho, encostado ao meu ouvido, parecia segredar, apenas para mim, a música e palavras num programa que – sabia-o bem – muita gente, como eu, escutaria naquelas horas baças do fim da noite.
Embora goste de televisão e lhe reconheça os fartos méritos – continuo a apreciar a rádio.
Talvez porque – não impondo imagens – deixe a quem a escuta completamente liberta a capacidade de imaginar acrescentando o sonho.
Na minha opinião, o som, abre horizontes mais vastos.
A imagem aprisiona a nossa atenção de forma diferente. Obriga-nos a aceitar sem pudor e sem mistério o que a objectiva fixa para nós.
É muito importante que o faça, mas, não para todas as circunstâncias.
Jamais esquecerei a Sé da Guarda envolta
Os limites excessivamente explícitos – são limites explícitos – como é lógico.
Já em criança achava muito mais encanto na mancha misteriosa da grafia que, emocionada, gostava de decifrar, do que na história contada por “bonecos” que se abrangia com uma rápida olhadela.
Bastava-me uma bela ilustração na capa e mais uma outra sobre qualquer situação mais importante – o resto era comigo.
Veio esta conversa a propósito de um programa de rádio que, numa destas manhãzinhas, inesperadamente cativou por inteiro a minha atenção.
Num patamar entre o sono e a vigília identifiquei uma voz – que – por bem conhecida – despertou os meus sentidos.
Falava – como ele muito bem sabe – o senhor Padre Feytor Pinto.
Falava, com a serenidade de quem pensa alto, conduzindo-nos para uma reflexão sobre a dinâmica da relação humana.
Enumerava os valores verdadeiros que se escamoteiam aos falsos valores que aparentemente os substituem.
Falava do fácil, do ilusório, do que esvazia de sentido as nossas vidas e lhes rouba o encanto...
Falava da luta desenfreada pelo sucesso, que faz esquecer a humana solidariedade... Falava da ganância pelo dinheiro que ofusca a ternura da partilha... Falava da corrida despudorada pelo prazer que faz esquecer a virtude... Falava do mau uso do poder, que, tantas vezes, não deixa lembrar sequer o nobre significado de: serviço... Escutei tudo com a maior atenção. O dia ia lentamente vencendo com a luz clara o cinzento da escura madrugada. Amanhecia. E, o que fora insónia tornou-se uma feliz oportunidade de acordar de forma diferente. A oportunidade de ouvir, aprender e pensar. Isto passou-se há semanas. Hoje, neste primeiro número, deste “nosso Linhas” sentindo a necessidade de a todos fazer um presente de boas-festas e, nada tendo de meu para repartir – ousei este atrevimento; Com os desejos de um feliz 1996 deixo convosco as palavras certas que me acordaram plenamente, aí, numa manhã, cedinho, proferidas pelo senhor Padre Feytor Pinto Dinheiro – partilha Prazer – virtude Poder – Serviço Que a solidariedade – a partilha – a virtude – o serviço – nos conservem acordados e atentos para que, para os outros e para nós próprios, possa ser “Um Bom Ano” – o novo Ano. Maria José Rijo Sucesso – solidariedade
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EU HEI-DE IR AO PRESÉPIO
Há sensivelmente cinco anos, um frágil rapazinho, muito aprumado e impante de satisfacção,veio bater à nossa porta para anunciar a chegada do irmão.
Fê-lo de forma tão linda que a frase que proferiu, fez circuito entre a nossa família e amigos: - “Venho dizer que já tive um menino”.
Agora, esse que então chegara à vida e assim fora anunciado de forma tão luminosa como se fora a estrelinha de Belém…
Esse, veio até mim, com a graça própria dos seus escassos anos e, o também próprio, encanto de qualquer criança fazer-me um convite:
== Venha ver-me na festa de Natal da minha escola! – Escola que identificou como sendo a da Fafita, da Celeste e da Isabel.
Fiquei também a saber que os meninos todos faziam “coisas” e as famílias e amigos eram convidados para assistir e para o convívio no final.
Deliciada aceitei e fiquei a aguardar o acontecimento com o coração flutuando em ternura.
Da forma mais inesperada, mas, talvez, mais doce possível – o Natal – tão arredio da minha vida, agora, viera bater-me à porta pela mão de uma figura do Presépio.
Quem me lembrara era justamente alguém, que me disse ser – na dramatização do Nascimento de Jesus – uma ovelhinha.
Perante tanto encanto e inocência senti que o Presépio por inteiro voltava a encher os meus dias tão cheios de lembranças e saudades.
E, tive consciência de que no mais fundo da minha alma me nascia um sorriso tão bom como se eu fosse terra e me nascesse uma flor.
É verdade que continuam os mesmos noticiários…
Guerras, guerras, guerras e mais guerras, flagelam a humanidade e não se lhes vislumbra o fim.
Problemas de secas e chuvas e águas de rios indevidamente represadas, tornam vizinhos em potenciais inimigos…
Injustiças, geram greves…
Ganâncias, geram falcratuas…
Falcatruas geram revoltas…
Revoltas, geram violência...

E, como o cão, que com a boca, morde a ponta da própria cauda, presa de si própria, roda a vida, e roda, e roda, roda…
Numa Europa onde os governantes, coroados de tantos louros que lhes ofuscam a visão, passeiam as suas ambições pessoais, na procura de sucessos de carreira, olimpicamente indiferentes a tudo que não seja o próprio êxito… quando já não se vislumbra, sequer a solução para os humaníssimos anseios de quantos, pelas suas mãos, dia a dia construindo o bem estar de todos, sustentam o sistema e calam o sonho…
Quando até nas aldeias mais remotas do nosso País – o Natal – vai sendo gradualmente transformado num arraial folclórico, esvaziado de sentido…
Quando as televisões oferecem ao domicílio – por atacado – a fúria de comprar, o luxo e a ostentação, que encobre a ternura sublime – da maior Festa de Amor do Mundo – que tentem reduzir à dimensão e valor de prendas…
Quando um quotidiano rotineiro e difícil, empobrecido de valores verdadeiros quase nos rouba o gosto de pensar e nos vai privando do encanto de viver…
Na luz deslumbrada de uns olhos de criança, ávidos de descobertas, surge a alegria de se anunciar – cordeirinho, ou pastor, ou rei, ou s. José, ou Nossa Senhora – não importa o quê!...
Importa apenas – e, daí, as estrelas nos seus olhos – fazer parte – entrar na representação.
Encaixar no todo.
Como pedra ou estrela completar o quadro.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Renasce com a força do Natal.
Lá fui.
Fomos – a família e eu também.
Agora, no rescaldo, não resisto ao gosto de contar.
Foi uma maravilha.
Ajeitamos os nossos “tamanhões” às cadeiras feitas à medida das crianças.
Assim começamos a descer do nosso poleiro de “adultos”, de “grandes”, para a dimensão sem medida da infância que nos lembra como é bom ser feliz com simplicidade.
Comecei a observar em redor.
Eram todos lindos.
Ás vezes, um qualquer pormenor prendia-me a atenção. Dei comigo a “recordar” agora vestida de saias e com laços uma figurinha loira que eu vira (ontem?) parecia-me que sim – mas vão 3 dezenas de anos – igual, mas vestindo de menino, golinha branca, calção azul e a cabeça assim, tal e qual cheínha de caracóis.
Procurei com o olhar resposta para a “confusão” e o Pai que eu reencontrara na filha – estava lá.
Na espontaneidade de outros, nos olhos, nos risos, na alegria – surpreendi-me a reencontrar, esta, aquela, a outra… que lá estava também.
Não admira.
Era a festa do futuro da nossa terra.
E, as Lauras, os Eduardos, os Ricardos, as Andreias, as Rutes, as Margaridas, as Anãs e os Pedros – nascidos das raízes desta cidade são parte do Natal do futuro deste País.
Era uma festa do futuro cantada pelo Presente.
Não era espectáculo pago.
Não exigia fatiotas arrebicadas.
Era “apenas” – o que era…
E, se é verdade que ninguém precisa equipar-se especialmente para ver o mar, o céu, o nascer do sol ou o pôr-do-sol, um rio a correr, uma árvore em flor ou derreada ao peso dos frutos, pássaros a voar – e, tudo o que mais que não é pago porque não tem preço…
Se para estas “pequeninas” grandes coisas, é apenas necessário sentir a vida de que fazemos parte…
Apetecia-me ter voz para fazer chegar aos “grandes” do mundo aquela modesta quadrinha de Natal que o Sr. Padre Ramiro incluiu no repertório do Coral da nossa cidade:
Eu hei-de ir ao Presépio
Assentar-me num cantinho
Para ver como Jesus
Nasceu lá – tão pobrezinho
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.330 – 22-Dezembro – 1995
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Momentos
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A televisão olha o mundo e com a imagem e com a palavra vai contando...
De todo o mundo...
Daqui e dali...
De ao pé da porta...
De Saddam: - foi lida a sentença – vai ser enforcado.
A gente lê, escuta, olha e não acredita!
Enforcado!!!
Mas que Mundo é o nosso? - Que pessoas somos nós que chamamos de justiça a sentença de enforcar um homem?
Muita gente, como eu, sentirá repulsa por semelhante sentença e sentirá vergonha de em 2006 AINDA ser possível uma sentença de morte consumada com opróbrio.
Se já é lamentável e ignominioso que se considere legítimo executar, como justo, um assassínio, para castigar outro, faze-lo por enforcamento envergonha o Homem como –Ser- criado à imagem de um Deus em nome dO qual se ousa fazer o que, em seu próprio nome, o homem não assume fazer...
A televisão olha, com a imagem e com a palavra vai contando e a gente: - envergonha-se...
Uma mulher – emigrante - ainda jovem, confessa frente a um país, que a observa pela televisão, que entregou por falta de meios e medo de não ser entendida pelo companheiro com quem vive – a uma estranha - a sua criança recém nascida - que não era dessa união e chora desesperadamente...
Chora e relata a sua desgraça e o seu arrependimento.
Chora, porque quer reaver a pequena Raquel. Chora - porque - reconheceu - que a dor do medo, da solidão e da miséria, afinal é menor do que - a dor de perder a filha.
E nunca diz: tive uma criança!
Diz e repete: - “quando chegou a hora de Ganhar o Bébé” – diz e repete sempre – “Ganhar!”- quando refere o seu nascimento
De colo agora vazio, sem se dar conta, enaltece a mais valia de ser Mãe, e chora inconsolável...
A televisão olha, com a palavra e com a imagem vai contando e a gente pensa - sente, compreende e enternece-se...
Solidariza-se...
Um padre foi sequestrado ao celebrar missa na capela de uma prisão.
O padre, tudo conta, sem rancores, sem ódio, sem paixão, sem sanhas de vingança.
O Padre, é homem, é gente, não desejava morrer, mas... mais do que os seus medos, as suas angustias, sentiu, viveu, o drama de outros homens que, como “os poderosos deste mundo”, também pensam que é matando que se pode fazer o caminho para a liberdade.
O Padre conta. Não omite os seus medos, não esconde as suas angustias, as suas fragilidades, mas olha também as angustias dos seus opressores e sofre por elas, com eles, como que esquecido de si...
O Padre fala de Fé, fala de sua Mãe, fala de Deus.
Condoe-se pensando no sofrimento dos que o amam.
O Padre, não se queixa, nem lamuria – o Padre está vivo e quer aprender com a Vida – e, mesmo quando o risco é da sua própria vida - olha o “outro”- e olha-se, e conta e a gente aprende e orgulha-se da dimensão de ser Homem – orgulha-se dele.
O Padre repudia os actos criminosos pelos quais os autores do drama que com eles viveu estão prisioneiros. – Mas não repudia - os Homens – aqueles Homens – nenhum Homem...
E - a Esperança - fica em nós ...
...e sentimos o orgulho de ser gente.
Deus seja louvado!
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.892 – 16-Novembro-2006
Conversas Soltas



