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Pagina de Diário

Sexta-feira, 01.06.12

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.979 – 24 de Fevereiro de 1989

A La Minute

PÁGINA DE DIÁRIO

 

Finalmente abrirá amanhã, 20 de Fevereiro, a Escola de Música da cidade de Elvas.

Escrevo – finalmente – e quase me assusto. A palavra tem um peso de sentença.

Para trás ficam – já vencidas que foram – algumas etapas de um percurso esforçado.

Para trás ficam as horas de sonho e desejo – será possível?

Para trás ficam horas de medo e esperança: - “está tudo tratado” – será? – Não será? – Vamos confiar.

Para trás ficam horas boas, de alegria nascidas da notícia, dada em Faro, publicamente ao Dr. João Carpinteiro – Presidente da Câmara de Elvas – de que a Cidade iria ter a Escola que desejava.

Para trás fica o momento em que chegou o despacho que legaliza a boa nova.

Depois! – Depois! – A luta para a arrancada.

Como? – Onde? – Com quem?

Lentamente foram-se encontrando soluções entre alguns espaços, ainda agora mal definidos.

Dados que pareciam adquiridos, caminhos seguros, de súbito aparecem, baralhados como cartas prontas para um jogo diferente com regras sempre em mutação.

Já não é Lisboa, agora é no Porto o centro de decisão. Mais longe. Mais penoso. Mais difícil.

Confirmada só a promessa de que tudo vai mudar. Para melhor? – mais fácil? – Deus queira!...

Entretanto, finalmente, abre amanhã, dia 20 de Fevereiro a Escola de Música da nossa cidade.

Dentro de mim uma ressaca de noites de preocupação entre o querer e o temer…

Uma escola não é negócio. É um corpo vivo. Cria-se. Nasce, cresce, vive e morre! – depende do amor e dos cuidados que receber – da dignidade de comportamento que conquistar.

Évora, Beja, Portalegre, Castelo Branco têm as suas Escolas, as suas Academias.

Outros foram capazes.

E nós? – Sim?! – Não?! – Veremos!

As dificuldades maiores não são as que estão vencidas; são as que hão-de surgir até que a Escola se afirme.

A luta contra a rotina – o suporte financeiro, a procura de qualidade – a manutenção…

A população aderiu às inscrições, interessou-se.

Gerou-se o clima que permitiu contactar professores e monitores. Quantos desistirão agora na hora da verdade? Começa amanhã a prova real.

A cidade dará a resposta.

A Câmara fez a aposta. Criou o GADICE para que a Cidade, por suas mãos, possa colaborar nos seus projectos de futuro.

“Tenho inveja de Elvas” – confidenciavam-me há pouco. “Aqui, é o poder político que puxa por estas iniciativas”.

Eu, acredito em Elvas.

Acredito e confio.

 

Maria José Rijo

 

 

 

..

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:30

Pagina de diário - 5

Terça-feira, 24.01.12

Pagina de diário – 5

Janeiro de 2012

 

Ao longo destes últimos meses, e, não foram tão poucos como teria sido desejável, para fingir que não estava desocupada e que não eram de todo inúteis os meus dias inventei uma série de tarefas daquelas que, quer se executem, quer não, ninguém dá por elas, salvo quem as promove.

Foi assim que inventariei livros, li, reli, e fui destruindo, ou não, correspondência arquivada ou meio esquecida. Cataloguei postais, fotografias, enfim, exerci uma actividade que eu bem sabia ser de fachada, mas que, confesso honestamente resultou eficaz sobre uma certa desordem que, havia muito, me incomodava, pois sempre que olhava para o meu baú da papelada, que até é bonitinho, pensava para mim - por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento… 

Como era previsível este compulsar de recordações foi uma espécie de viagem de funâmbulo sempre a balouçar na corda bamba do sentimentalismo mais ou menos piegas mas, lá fui prosseguindo e, valeu a pena porque fui encontrando pequenas pistas de histórias que o coração foi guardando nas sombras do tempo e a memória há muito que não as iluminava.

 

Assim que, ao guardar algumas cartas ainda dispersas me detive a olhar enternecida as rosas que a Matilde quase sempre desenhava como se fossem parte da sua assinatura – Matilde -Rosa-Araújo…vai daí surgiu-me a lembrança de Sebastião da Gama cujos pais conheci por seu intermédio naqueles anos em que meu marido e eu por deita cá aquela palha nos refugiávamos na Estalagem do Portinho da Arrábida.

Os pais de Sebastião (donos da estalagem) vinham por norma tomar café após o almoço na nossa companhia. Sua Mãe confortava-se revivendo episódios da infância do filho que eu escutava deliciada, e, um certo dia, levou para me mostrar um pequeno caderno escrito com letra de criança.

Contou-me então que Sebastião desde muito pequeno cultivava um grande amor à pátria, a tal ponto que aí pelos seus oito, nove anos, desejou escrever uma história de Portugal em verso.

Ouvi, atenta e comovida aqueles “lusíadas” nascidos da alma do

menino que havia de vir a ser um dos grandes Poetas da língua portuguesa e ainda hoje me faz sorrir deliciada a ingenuidade de alguns versos que, então, fixei               

“ D. Manuel, o cagarola, fugiu para a Ericeira aos primeiros tiros de pistola”

Sebastião havia partido em 7 de Fevereiro de 1952 – estes encontros foram poucos anos depois.

 

                          Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:33

Página de diário – 4

Sábado, 04.06.11

.

 

Muitas vezes dou comigo a falar para mim como se na verdade aquela outra para quem falo e, com quem até discuto, caminhasse a meu lado.

Sei, por saber de experiência de vida, que já não sou capaz de me empoleirar em bancos, mudar as lâmpadas dos candeeiros do tecto e muitas outras tarefas tão rotineiras e insignificantes que só identifico, agora, porque me estão interditas. São aquelas coisas que não se contam porque não têm história, não enobrecem, não distinguem, são tão, tão, vulgares, tão apagadas quanto necessárias, que passam sem que se vejam, e só a incapacidade de as executar, as faz identificar.

Só por emergência voltarei a conduzir. O trânsito nas ruas antigas é às vezes uma aventura e a consciência das limitações que, noutras áreas se me impõem leva-me a fazer escolhas por prudente antecipação.

Quando me é necessário “subir ao povoado” uso um táxi e, no  regresso, a descer, gozo o caminho pedra a pedra, árvore, por árvore, com passos miúdos, lembrando os meus tempos de namoro a caminho do jardim e as olaias de cuja ausência, o chão guarda as cicatrizes. Faltam tantas! Paro e fecho os olhos procurando reviver emoções a cuja lembrança me acolho como a um porto solitário mas, são o lastro da minha estrutura como gente. Rezo de saudade pela bela pimenteira que durante mais de cinquenta anos roçava as folhas pelas nossas cabeças quando ao passar naquele caminho…

Venho sempre na esteira da alegria que sentia ao meter a chave na porta chamando por quem me esperava.

 

 

 

Às vezes, nesse gozo íntimo de lembrar coisas felizes, choro. Então insulto-me: - tonta! Nunca mais hás-de ter juízo. Para quê lágrimas!

Chorar faz mal aos olhos…e, ninguém volta ao passado ainda que o carregue consigo.

Então, suspiro fundo, e deixo que a cor e os cheiros me invadam os sentidos. O trajecto é breve, a estrada com o seu imparável movimento traz-me para a realidade

Carrego no botão, o trânsito pára e eu ganho a “outra margem”num passo acelerado como se o tempo me perseguisse.

Sinto-me cansada.

Admoesto-me! – Quem te manda andar a mexer “nos guardados”! – Quem?!

Resolvo atravessar o jardim para serenar.

A floração das olaias está no auge.

Ergo os olhos agradecendo a bebedeira de beleza e cor que me oferecem.

Cada dia é um dia e há momentos gloriosos.

Se os que mandam tivessem tempo para escutar o próprio coração as cidades cresceriam sem ofender o passado como os troncos das árvores que engrossam sobre si próprios. Mas as árvores não conhecem dinheiro, não fazem negócios, nem lutam por poder...

Apenas apontam para o céu.

O meu passo é seguro, mas dentro de mim a minha alma cambaleia entre o amor e a dor de viver…

É bom ter o nosso canto.

                                      

MariaJosé Rijo

Fevereiro de 2011

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publicado por Maria José Rijo às 10:00

Pagina de diário 3

Segunda-feira, 21.03.11

 

Kika, a minha gatinha, na brincadeira, fez-me um pequeno arranhão na mão direita. Nada que tenha importância - no entanto, achei conveniente desinfectar – acabo de escrever desinfectar, paro e penso: - desde que me lembro nunca hesitei como agora para escrever uma palavra! - ponho c, antes do t ,ou não? -isto do novo acordo ortográfico deixa-me com vontade de mandar passear quem o decidiu e fazer como meus Pais fizeram no seu tempo – continuaram a escrever como tinham aprendido indiferentes às mudanças de farmácia com ou sem ph, etc. etc…

Mas, não foi a nova moda da escrita que me prendeu a atenção, o que me fez confrontar com a minha realidade foram as minhas mãos. De repente tive a sensação que estava a cuidar das mãos da minha Avó quando me pedia ajuda por se ter arranhado ao cuidar das suas flores.

Por esse tempo, lembro-me de ficar comovida e triste quando ela com um ar nostálgico dizia: chamam-se a estas manchas “ rosas do túmulo” e, com uma das mãos afagava as costas da outra alisando a pele, enrugada e murcha cheia de pequenas manchas castanhas como sardas.

Ocorreu-me isso, agora, fixando as minhas próprias mãos, e logo me lembrei da Querida Matilde Araújo passando a sua mão macia pelas minhas, calejadas e ásperas dos canivetes, limas e formões na época em que eu fazia figurinhas em pau de buxo, dizendo-me, com apreço, naquele seu jeito de falar quase entoado – as suas mãos são as suas obreiras, Maria José!

As mãos, são o ponto que fixo, observo e mais me encanta em qualquer pessoa. Nas fotografias, é para onde olho em primeiro lugar. A linguagem das mãos seduz-me e apaixona-me. As mãos casam-se com os olhos para falar da alma. Completam-se.

Também num dos meus primeiros livros de escola, havia uma lição que começava assim: “ fora daquelas mãos estilizadas que os pintores debuxam nos seus quadros, não há mãos bonitas na sociedade propriamente dita”.

E, depois, vinha a frase de que eu mais gostava” as mãos de minha mãe tinham um calo de abrir e fechar a porta da despensa”

Eu via essa mãe, o molho das chaves e, sentia-me mimalha pedindo como se de minha própria Mãe se tratasse: - deixe-me ver, eu não mexo em nada, e olhava em volta corando como se alguém ouvisse a voz do meu desejo. 

Por estas e outras lembranças, muitas vezes penso na responsabilidade de quem educa crianças.

O mundo delas não cabe no nosso…abrange-o, mas ultrapassa-o.

Quase oitenta anos depois, ainda vejo as imagens que o meu coração desenhava lendo ou ouvindo estas pequenas coisas.

Beijou-lhe as mãos…Apertou-lhe a mão…

Mordeu a mão que o amparou…

Afinal, as mãos, são, mais do que as extremidades dos membros superiores. Sem deixar de o ser, são ainda, também, e muito principalmente: - as “extremidades frágeis de nossos gestos imperfeitos, onde às vezes nascem flores” – ou não…

 

                    Maria José Rijo

 

 

 

 

@@@@@

 

POST - Nº 1000

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publicado por Maria José Rijo às 17:38

Pagina de diário - 2

Sexta-feira, 11.03.11

.

Hoje tenho a percepção nítida de como desde criança me encantavam as palavras. Vejo que as sentia como qualquer coisa de mágico ou misterioso que aliava na minha imaginação aos contos de fadas, porque, tal como eles, elas eram usadas para contar coisas.

As histórias tinham dentro uma mensagem que pouco a pouco se ia abrindo aos nossos olhos com a narrativa dos acontecimentos que se iam sucedendo.

Mas, as palavras arrumadinhas umas às outras é que contavam a história. Era como se cada uma delas já fosse, em si, ela própria, um pequeno conto.

Então ficava calada escutando tudo quanto se dizia, muito principalmente quando alguma das pessoas da família, chamando a atenção, lia em voz alta uma passagem mais interessante de algum livro que tivesse em mãos, ou, até, alguma notícia de jornal mais surpreendente para confrontar opiniões.

Foi assim que tive pesadelos atrás de pesadelos com o rapto do filho de Lindberg, o aviador americano que fez, solitário, a primeira travessia aérea do Atlântico Norte e com o assassinato de Frederico Garcia Lorca, que me comovia e punha em lágrimas só porque era poeta, devia eu ter, talvez, aí uns oito ou nove anos.

Lembro-me perfeitamente de fixar palavras que achava lindas e de lhes atribuir significados que elas não tinham, mas que eu imaginava que lhe ficavam bem.

O dia está de chuva, ouvi agora na rádio que é provável que suspendam o cortejo de Carnaval. Foi isso, que me trouxe estas lembranças. Carnaval queria dizer férias escolares.

Férias significavam liberdade, ausência de obrigações, enfim: uma beleza de vida, daí que, quando naquela história li: em Belas “pelo Natal” a palavra “belas” tenha ganho o sentido de férias e, eu, com os meu delirante amor pelas palavras tenha começado a substituir férias por “belas” e tenha arranjado uma bela confusão para mim afirmando ir para “belas…”

E, quando por essa altura, li um poema em que se dizia: Joana Vaz, passa –

    

é latinista e loura – fala a Luísa Sigea – A Mestra - eu tenha deduzido que – sigea - quereria dizer : cumprimenta, faz vénia e, tenha achado oportuno fazer, para meu uso, a substituição de um termo pelo outro.

Meu Pai ria-se, discretamente para não me envergonhar e corrigia-me, mas incitava-me sempre a que continuasse lendo embora não se cansasse de recomendar: - não uses palavras que não conheças.

Quando recentemente, ouvi o Senhor Professor Hernâni Saraiva a falar sobre a Infanta Dona Maria filha de D. Manuel Iº e de Dona Leonor, sua terceira esposa, a dizer que ela fora educada por Luísa Sigea, e que reunia no Paço um brilhante cenáculo literário que também era frequentado por Paula Vicente, filha de Gil Vicente, dei comigo a sorrir enternecida, como se estivesse a ver um filme em que a personagem principal era uma criança que ainda hoje, muitas vezes, me empresta o seu olhar de esperança…e, muitas vezes, também, me faz rir com estas recordações…

 

 

 Maria José Rijo

 

8-Março de 2011

 

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publicado por Maria José Rijo às 15:51

Pagina de diário - 1

Quarta-feira, 16.02.11

Este mês de Fevereiro com os dias já sensivelmente maiores e, com a Primavera muito sorrateiramente a esgueirar-se da data de obrigação que o calendário lhe marca e a anunciar-se na claridade de tardes e manhãs e no bafo perfumado da terra, da erva fresca e tenra e das flores do campo…este mês de Fevereiro, já foi dos meus preferidos.

Então, naquela época em que tínhamos uma mimosa no quintal, era uma delícia espreitar o festival de amarelo que nos inundava de encanto com o seu intenso aroma quando em Fevereiro florescia.

Era como que um enorme ramo de flores para cantar parabéns às amigas que faziam anos.

A nove era a Olguinha Violante, a dez a Laura Silvano, a onze a Isabel Roque, a catorze as gémeas Baenas, Cármen e Pilar, a dezasseis a Dinorah Costa, a dezanove a prima Constantina…

Agora, a começar logo em dia um, que marca a perda sem remédio da minha queridíssima sobrinha Beca, em quase todos os dias de Fevereiro, podia citar um nome de outros amigos por quem já só posso rezar.

Também já não tenho a mimosa senão na minha memória…mas, tal como a Primavera as suas flores voltarão em cada ano e, como em cada ano, anunciarão também que logo, logo, as olaias se hão-de vestir de cores vivas como gritos de festa e os lilases, discretos na cor, mas intensos no perfume marcarão presença à beirinha de Abril.

Dei por mim a reviver lembranças ao olhar um retratinho da Maria Amélia Lemos, a Mélia, que junto em saudade à Carolina Varela – as queridas companheiras da Manta Rota com quem pelas noites de “ardentia” íamos passear descalças pela orla do mar a ver as ondas como que incandescentes, do plâncton, a espraiarem-se na areia.

 Recordo as nossas pegadas deixando um rasto fosforescente e a Lili Binger, que vinha da Bélgica todos os anos no Verão, comovida e deslumbrada, a dizer : - Deve ser assim o rasto de Nossa Senhora.

Tudo tão presente e já tão distante.

 Bem disse Santo Agostinho:

“Como podem dizer que morreu quem permanece tão vivo no nosso coração” 

 

  Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 18:28

UMA HISTÓRIA DE AMOR - Páginas de um diário íntimo)

Terça-feira, 05.06.07

Estivemos juntos durante toda a noite.

            A velada fora de silêncio meditado e mágoa.

            Juntos assistimos ao raiar do dia.

            Um dia, como outros, em que a luz se começa a insinuar mansamente.

            Os pássaros pressentindo a madrugada se agitam nas árvores; se alvoroçam e chilreiam.

            A pouco e pouco, despindo-se das trevas que se vão esbatendo, começam a aperceber-se formas e volumes.

            Depois, quase sem transição a claridade surge, primeiro baça, nua, branca, ainda sem o conforto do sol, mas, tudo invadindo.

            As flores, as árvores, as casas, definem-se, brilham as cores.

            A vida desperta plena, por inteiro; um novo dia nasceu.

            Nem se sabe de onde, os varredores surgem nas ruas da cidade.

            Num trabalho ensonado, vão passo a passo imprimindo movimentos arrastados e laços às vassouras e pás que soam a raspar na calçada.

            Abre a padaria, o lugar, a lojeca da esquina, o cafézito do canto. Passam carros. Guincham pneus. Um cachorro foge. Uma criança grita por ele e segue-o

            Batem portas; mulheres saem das casas.

            Transportes passam apinhados.

            Lufa-lufa de corridas para obrigações, lazer, empregos.

            As ruas enchem-se de ruídos, pressas, confusão, risos, vozes.

            Tudo. Tudo igual.

            Tudo igual num dia, que nasceu igual a qualquer  outro dia.

            Tudo igual – e tão diferente.

            No rosto bonito e pálido; com a expressão fixa de resignação atenta de quem tivera que consentir no sim irrecusável; a sombra ténue das longas pestanas escuras.

            Sobre um trono alto, de flores, quieto de norte – vestido com as roupas de ir ás aulas, e esse ar de dignidade de quem pensa, se interroga e não consegue entender o porquê das  coisas, a cabeça repousada na brancura da almofada, liberto, enfim de anos de sofrimento que não merecera – “o menino de sua mãe” – adormecido para sempre.

            Ao lado, o anelinho de ouro que servira para noivar de  faz–de-conta e um dia dera à namoradinha que vinha já da infância

            Sobre o peito um botão de rosa que ela lhe deixara com o adeus de lágrimas indevidas a tanta juventude.

            Tudo belo.

            Tudo poético e triste

            Tudo perfeito.

            Perfeito e gélido como só a morte sabe fazer.

            Triste e doce como uma tarde  de chuvinha miúda numa Primavera a que o sol fora prometido como certo – mas não apareceu.

            Era domingo.

           Era cedo, mas os jovens companheiros do Colégio Inglês e do Liceu – não faltaram.

            Perfilados, tristes, perplexos, cumpriram uma prova para que não há preparação possível

            Carregaram-no com a unção de quem empunha a bandeira duma pátria.

            Depois...

            Depois, um fuminho branco subiu  nos céus.

            Um pequeno cofre com cinzas e o retorno a casa.

            A mesma casa tão igual e agora tão diferente.

            Noites e dias que se vão seguindo a outros dias e a outras noites.

            E um vazio sem fim que se instala e paradoxalmente – tudo enche.

Assim terminara um bela história de amor. Começa com o nascimento de uma criança que fora sonhada, desejada, recebida pelo amor deslumbrado duma família.

            História de ramos, viçosos que tinham origem em velhas raízes.

            História renovada em esperança quando naquele 10 de Fevereiro às sete da manhã, vinte anos atrás, o dia fora de festa.

            História de amor- que – como as mais belas histórias de amor – tarde ou cedo terminam como as flores – por mais belas que sejam – morrendo.

História de amor ...

História que se passam de coração para coração ainda vivas e vão pouco a pouco sendo esquecidas como  o aroma das flores – por quem as escuta – mas só terminam para sempre quando pára  de bater o coração de quem  as viveu.

                                                       Maria José Rijo

                                                  Escritora e Poetisa

in:

Jornal Linhas de Elvas

           Nº 2.337  -- 9 de 2 de 1996

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:34





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LIVROS PUBLICADOS:

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