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Este País e o nosso País

Terça-feira, 28.04.09

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.722 – 17 de Fevereiro de 1984

 

 

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De alguns anos a esta parte, por tudo quanto é meio de comunicação, ouve-se e lê-se com tal frequência – que apetecia dizer sempre – os que comandam e tripulam “esta barca” onde todos vamos de longada, falar invariavelmente assim:

      

-- Este país isto… - Este país aquilo…

Vai daí, cogitava eu – este país? Que país?

Mas, já percebi!

- É “este país”, porque sendo este país, nele se podem permitir coisas que seriam impraticáveis no “nosso país”.

              

- E “este país”, porque neste país, a electricidade custa tanto aqui, menos acolá e, menos tanto ainda o outros tais…

- É “este país” porque assim sendo, a gasolina custa a uns, menos tanto a outros e menos tanto ainda a outros que tais…

                    

- E “ este país” porque assim sendo, uns pagam impostos, outros não pagam e outros ainda fazem coisas que tais…

              Fila de desempregados

- E “ este país” porque assim sendo, muitos não têm emprego, outros ganham pouco e mal e outros tantos que tais põem a render em Bancos estrangeiros – o que sangraram a “este país”…

           torture04.JPG

- E “este país” por estas e outras tantas que tais razões de injustiça!...

Porque se fosse a “nossa Pátria”, “o nosso País”

          

Na verdade… é apenas um país – “este país” – e só quando:

 

Como quem diz: “Minha mãe”

Se sentir “Nosso País”

Nos saberemos irmãos

Seiva da mesma raiz.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:36

Coisas da Minha Memória

Segunda-feira, 13.04.09

Á LÁ MINUTE

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.821 – 24 de Janeiro – 1986

  

De há uns anos para cá – caímos nisto! – Chamo-a, não me responde – se responde é lenta e negligentemente que o faz.

Se a censuro, esconde-se; se insisto desaparece, fico às apalpadelas no vazio, o que me desespera.

Tendo eu que viver com ela, que outra não tenho, e substitui-la me é impossível, o nosso relacionamento só subsiste porque sendo eu a viver dela, e sendo, também eu, o que ela me traz e dá – esforço-me por a ajudar e resigno-me a suportá-la tal e qual está.

Bem que eu a persigo e alicio; - vá, diz lá … diz! … diz!... Mas de nada me vale. Amua, caprichosa na birra, e não lhe tiro uma referência sequer, se for essa a deliberação que tomou.

Faz-me partidas a cada passo, e não se incomoda nada de me deixar suspensa e angustiada, no meio duma frase, e partir para voltar quando dela já não careço. Por vezes traz-me umas que lhe pedira, e mesmo sabendo que percebi a trapaça e não acho graça, - insiste, insiste, insiste!... Depois, aparece sorrateira, como se de nada pudesse ser acusada, trazendo nas mãos ofertas preciosas, que eu julgara perdidas para sempre.

E assim vamos indo!...

Diz-me com frequência que está cansada, velha, regressiva, e para mostrar dedicação, traz-me lembranças

 

enternecedoras, coisas que ela desencanta em recônditos escuros, e exibe-os vitoriosa, justificando-as por íntimos indícios.

As minhas mãos tocam um objecto, e em lugar de me deixar atenta ao que faço – não senhor! –

 

Mostra-me com elas os gestos de minha Mãe; - O relógio dá horas? – Em vez de me deixar ir realizar o que pretendo – não senhor! – Vejo o meu Pai suspender a leitura do Jornal, tirar os óculos – esfregar os olhos – repô-los, despedir-se e ir ao escritório.

           

Oh! – Que Deus me valha! – Pois queria eu hoje falar de coisas que pensara, e aqui fiquei, esperando em vão – quem, à hora certa, me falhou e se sumiu para parte incerta, com a bagagem que eu juntara.

Isto é feio e não se faz!

-- É justo que eu desabafe!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:23

Poema

Sexta-feira, 20.03.09

.

Habito dentro de mim
Que dentro de mim - vou estando
Fora de mim vai o mundo
Eu, quieta - ele girando
É dentro de mim que guardo
O que vejo
O que sinto
O que faço
O que pressinto
O que me doe - ou me encanta
O que entendo e me acalenta
E, o que não sei entender...
Tudo sorvo e absorvo
nesta ansiedade de ser...
E, às vezes sobro de mim
mas me recolho e contenho
e me aconchego no sonho...
Porque de mim o que sei
É que um dia partirei
incapaz de me habitar...
E, será já fora de mim
que então descobrirei
se fui quem devera ser
ou se jamais o serei...
….


Neste dia do Pai – as minhas duvidas existenciais – numa meditação mais ou menos rimada a que me permito chamar - poema - que venho dividir com todos vós pedindo ao Pai de Misericórdia luz para o caminho das nossas vidas.
Beijinhos

 

Maria José

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:33

O Diálogo

Quarta-feira, 07.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.956 – 14 de Fevereiro - 2008

Conversas Soltas

           

Dou, em cada dia, graças a Deus pela qualidade da minha vida.

Tenho – terei mesmo? – (duvido que a dimensão do Bem da Vida, seja humanamente mensurável, mas isso já é outro assunto) consciência do que a Sua misericórdia me concede por, na casa dos oitenta, ainda me bastar a mim própria, olhar com interesse o mundo à minha volta, pensar, tentar entender e, até intervir.

Que, isto de falar, sem esconder o rosto, não é mais nem menos do que assumir o dever de cidadania que a todos cabe e quer dizer – também sou responsável.

Daí que ouça, com atenção, as intervenções públicas dos Senhores Ministros e Senhores Deputados e, também dos Senhores Políticos presidentes de partidos, etc... etc,,,

Daí que dos debates, das propostas, das decisões, das sugestões, críticas recíprocas, das alfinetadas, das catilinárias, (como diria meu Pai), me tenha ficado a nítida sensação de que em lugar de estarem equacionando problemas nacionais, (que querem resolver) na maior parte dos casos estão usando em despique floreados de oratória para ver quem enrola, (este termo parece-me fora de propósito, será?!) melhor o opositor, e ganha mais aplausos das galerias. (traduzo: votos)

                     avieir.jpg

Então, neste ano de comemorações do IV centenário do Padre António Vieira, é ver como cada qual se esforça por brilhar na oratória!...

Não admira, na circunstância, que me lembrasse de trazer a lume uma estórinha dos meus tempos de criança, aprendida na escola da aldeia, que servia para se falar muito, sem dizer nada, mas, pelo menos, não dá vontade de chorar ao ouvi-la.

Parece-me um excelente exercício dialéctico para uso dos Senhores Políticos...

È verdade que ninguém o entenderá, mas, pelo menos, a gente ri-se...

Imaginemo-los com os seus ares de donos irrefutáveis da verdade, dedo acusador em riste apostrofando o opositor em tom declamatório:

“ Que te importa a ti?

A conversa é teu?

Quando eu falar com tu,

Logo tu falas com eu!”

 

Nada mais perfeito para a “sintonia” dos projectos em curso: -

Ponte, aeroporto, TGV, incineração...decisões de justiça... tudo, tudo, tem cabimento neste – esclarecedor – solilóquio, seja ele repetido por quem for!

     

– À direita, à esquerda ou, até ao centro...

Porque assim todos – como eles – ficaremos sem saber qual é o rumo.

Ou se, ainda, há rumo possível...

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:27

Pergunto-me...

Domingo, 22.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.887 – 12/10/06

Conversas Soltas

Não vou apodar, simplesmente, nem de isto, nem de aquilo, a telenovela que a SIC serve ao domicílio três vezes por dia, com a regularidade de quem ministra um medicamento imprescindível para a salvação da humanidade.

Não vou! – Mas vou pensar alto, porque, talvez assim encontre o fio da meada que em vão procuro para entender o fenómeno que, afinal, nos atinge a todos.

             Luciana Abreu - Floribella

Atinge a todos porque é particularmente pensando nos jovens que toda aquela trama está sendo concebida.

É, pois, por essa razão que me pergunto:

Que formação se pretende dar à juventude de um país quando para ela se congeminam novelas daquele nível?

É proibido dar trabalho a jovens com menos de X anos de idade; depois, aparecem crianças quase na primeira infância, representando, enredadas em tramas onde a mentira, a dissimulação, a vigarice, e toda e qualquer porcaria moral tem lugar de relevo, como hábitos normais...

E, como se isso não chegasse, os seus diálogos desenrolam-se em torno de paixões e amores precoces, como se as crianças, só isso pudessem copiar das atitudes adultas e não pudessem aprender a falar sobre outros temas, cultivar outros valores e, conviver entre si em alegria, de alma limpa, sem o peso de preocupações tão fora do âmbito das suas idades, compreensão, e justos sonhos...

Como se, porém, isso não bastasse, a heroína da saga, em lugar de conversar, argumentar com inteligência, berra num desvario se algo a contraria, e, quando quer ser doce e amável, quase sempre parece parva. Quando quer ser desembaraçada a maior parte das vezes é arrogante e mal-educada.

Resumindo e concluindo, não sei de mostra maior, de pretensioso pirosismo e falta de gosto, a qualquer nível.

É, por demais sabido, no entanto, que quando uma estação de televisão quer impor um produto usa da insistência como arma primordial.

Ela impinge - de acordo com as seus lucros e vantagens - o que lhe convém, sem um mínimo de reflexão, sobre as consequências do que impõe, por atacado, às famílias que cansadas de fatigantes dias de trabalho – sem possibilidade de escolha – se vêem na contingência  de ter que aceitar qualquer  entretenimento para os filhos, enquanto cozinham, lavam, passam a ferro etc...etc...   

Assim que, quer por saturação e cansaço, quer por falta de preparação ou de hábito de contestar, aceitam por princípio que o que chega até suas casas por estes meios em horário nobre, é bom de qualidade, como deveria ser, com certeza.

         No entanto, penso que será difícil, criar algo mais deseducativo, mais fuleiro e, mais perigoso para a formação da juventude, do que programas deste tipo.

É que, sob a aparência de ser uma “coisinha de nada”, só para distrair, se serve ao domicílio, várias vezes por dia, um veneno que assim ingerido em doses diárias, não mata. Não mata, mas causa habituação, e que actua como qualquer droga – corrosiva e devastadora.

             

Não mata, de imediato, – é verdade - mas pode estragar para sempre a saúde mental, o que resulta pior do que tomar uma dose poderosa de uma só vez.

É que nesse caso, as pessoas alarmam-se e procuram a cura – o que com esta forma dissimulada de perniciosa infiltração, às vezes, nos distrai e nos escapa, e vai atingindo os seus fins... com a eficácia dos venenos doces.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:12

País, País...

Sexta-feira, 09.05.08

Leio e releio os jornais, na ânsia de encontrar algum conforto de esperança com as notícias que mostram a vida do nosso País.

                  Carregue na imagem para aproximar

Ouço os noticiários, observo os políticos, e vou de desencanto em desencanto.

Verdade seja dita que o que afirmo em relação ao nosso “rectângulozinho” se pode afirmar multiplicando pela extensão do mundo inteiro.

Como se tanto não bastasse, as entrevistas de acaso, feitas aos jovens deste nosso País, foram uma espécie de machadada final na minha confiança de que talvez, quem sabe... as coisas pudessem melhorar...

      :-)

Mas o que se pode fazer com gente adulta que não sabe quantos metros tem um quilómetro, quantas unidades tem um quarteirão e outras demais coisa tão banais que assusta descobrir que são enigmas para gente que sabe de cor os nomes das marcas estrangeiras de quantas calças, blusões ou quaisquer peças de vestuário que apareçam no mercado.

Depois, aquele estendal de incapacidade de acertar uma reles pergunta de tabuada... meu Deus, que desgraça.

Reflectindo, ainda que por cima da rama, nesta mostra de ignorância crassa, duma juventude por completo alheada de tudo que não seja “curtição! como poderemos deixar de nos interrogar se poderemos, ou, deveremos esperar mais ou melhor do País que temos, do País que somos!

Que espécie de discurso atingiria as mentalidades destas pessoas para que pudessem tomar atitudes responsáveis e, colaborar na reorganização de serviços, aceitar sacrifícios, reconhecer que todos somos peças desta mesma engrenagem!

Road to heaven

Que todos temos, até, responsabilidades nos males de que nos queixamos.

Quando um conceituado político sai dum governo onde pactuou com mandos e desmandos e procura limpar a sua imagem acusando, – isto é: traindo – quem nele confiou...

Como poderemos esperar, por exemplo, lealdade e firmeza de carácter naqueles outros a quem tudo se promete quando é estrategicamente necessário, e a quem, como é óbvio, nada se lhes dá quando os objectivos são alcançados?

Quando se denominam por palermas os que divergem das nossas opiniões, que critérios nos regem?...

Que formação moral é a nossa?...

Que convicções defende quem insulta em lugar de argumentar?

 

Que gente é esta?

Claro que se interrogados sabem quantos quilos tem uma arroba, e quanto é três ao cubo, ou ao quadrado.

Mas saberão o respeito que devem ao Povo que deveriam servir, o exemplo que devem a quem confiadamente os elegeu?

DuvidoVejo-os de bocarras abertas jorrando verborreia, de sanhas de ódios nos olhares de inveja que lançam aos que ocupam os lugares que cobiçam para si próprios, vejo-os sem o mais leve resquício de humildade frente à assustadora responsabilidade de governar.

E, assim vão, implantes de vaidade e de impunidade desbaratando oportunidades vitais para inverter o declive onde nos encontramos... porque, cada um deles é mais importante do que o outro e, só eles valem a pena...

Também, quando universitários nem contando pelos dedos sabem dizer – sem máquina – o resultado de três vezes quatro que resposta se pode esperar deste País a problemas a que só a massa cinzenta pode dar solução, e, nunca a máquina...

 

 

 

                  Maria José Rijo

 

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.683 – 8 / Novembro/2002

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:19

“Reminiscências” – Penso e sinto...

Quarta-feira, 23.04.08

Meu pai, como já algumas vezes tenho contado, tinha o culto da língua portuguesa, e usava muito máximas em latim.

Ora, como nos meus tempos de criança não havia televisão para dar “cultura” por atacado, e bem normativa a todo o mundo, cada qual herdava de pais e parentes conhecimentos, hábitos e costumes como hoje, - já só - se herdam os bens económicos.

Um dos entretenimentos para as crianças, era, nessa época conversar com os pais, os avós, os tios, padrinhos, empregados escutando, e aprendendo com eles pormenores e particularidades de família, costumes, trabalho, bem como episódios das suas vidas, ou contos e lendas.

Como parece evidente deduzir, essas circunstâncias propiciavam momentos ideais para, na brincadeira, ajudar as crianças descobrir o gosto pelo saber.

“Cogito, ergo sum”, repetia meu pai; e traduzia – penso, logo existo.

Depois convidava-nos a descobrir palavras da família de cogitar ou de pensar, ou quaisquer outras, conforma a ocasião pois, ensinava ele: - tal como as pessoas também as palavras têm origem, família, ascendentes e descendentes. E, lá vinha o pensador, o pensamento, o pensante, o pensativo, etc. etc. e cantava vitória quem mais “ parentes” descobrisse.

Claro, que por essa altura, nem de perto, nem de longe, eu sabia- o que ainda mal sei , nem saberei alguma vez, perfeitamente - que foi sobre este aforismo que Descartes, no Discurso do Método, reconstituiu toda a sua filosofia .

Como também só há pouco descobri que o erro que António Damásio – o nosso grande sábio – atribui a Descartes, e demonstra, é de ele não ter afirmado: - penso, sinto, logo, existo.

Claro que, esta conclusão, posta assim, é apenas uma simplificação, de quem, como eu, pega as coisas pela rama.

Mas, com este preâmbulo, chegamos ao título da minha conversa de hoje.

Penso, sinto, logo existo.

Mas existo porquê, e para quê?

Para traçar mais um caminho neste intrincado labirinto onde todos os destinos se cruzam e se entrelaçam, talvez...

E...se eu sei, sabemos todos, que cada qual à sua maneira procura um jeito de ser feliz...

Então, os nós cegos, nas relações entre gentes e povos serão apenas consequências fortuitas desta procura sem fim que será viver.

Desde intrínseco propósito de procurar ser feliz?

Penso, sinto, – logo, existo – está certo!

Porém, nada sei, – está – no meu caso, muito mais certo ainda!

“Hoc opus, hic labor est!”

Traduzindo: - aí é que a porca torce o rabo – comentaria meu saudoso pai nesta circunstância!

 

                                Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

28/Julho/2005 – Nº 2.824

Reminiscência nº 22

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publicado por Maria José Rijo às 22:34

“ A Semana do Pão “

Segunda-feira, 07.04.08

                                              

O Pão é místico.

            O Pão não é um alimento qualquer.

            A semana do borrego, a semana do porco, a semana do bacalhau – são o que são.

            Semanas de culto à habilidade gastronómica, à pançada, ao petisco, às tradições locais – mas, assentam sempre na imolação de um animal.

            Com o pão... bem! – Com o pão – nem de perto, nem de longe se pode assemelhar ou ser a mesma coisa.

            Quando eu alvitrei e ofereci a ideia – se tivesse imaginado possível, ver tal sugestão reduzida a tamanha banalidade – teria ficado calada.

                          

            O Pão é Místico.

            Na Comunhão diz-se “ O Corpo de Deus” – é Pão.

            No Pai-Nosso, reza-se de mãos abertas pedindo: “o Pão-nosso de cada Dia “.

Na miséria implora-se por amor de Deus: - um bocadinho de pão.

            Na desclassificação do ser humano diz-se: - não mereces o pão que comes.

                                  

            Na alegria e na saúde bendiz-se – o Pão da vida.

            Na penitência sustenta-se o corpo a pão e a água.

            Na pobreza refere-se amorosamente – “o panito”.

            No dia de todos os Santos dá-se – “o pão por Deus”

            Na quinta-feira de Ascensão – colhem-se espigas para que não falte o pão.

            E, ninguém do povo, põe o pão na mesa virado com o “solo” para cima – “porque” o pão não se ganha de barriga para o ar - o pão ganha-se com o suor do rosto” – o pão respeita-se. Ninguém se senta à mesa de chapéu.

            Quando, frente a uma mesa posta, alguém se distrai e solta linguagem desbragada, apressa-se a exclamar: - “com perdão do pão “!

            Nos lares, mesmo nos mais modestos há – a bolsa de pão – e, é só do pão.

            O saco do pão faz parte – até – da parafernália dos mendigos.

            O pão sempre se pousa sobre um pano branco ou pelo menos limpo.

            Branco é o panal que forra o tabuleiro onde o pão, ainda em massa, se aninha para ir até ao forno.

            Branco é o Sudário de Cristo.

            Branca é a farinha que o trigo esconde no seu bago de oiro.

            Não mereces o pão que comes – é a ofensa mais humilhante que alguém pode escutar.

            Parece que não come pão de gente! É o piedoso lamento para quem definha sem saúde.

            Por estas e outras, muitas mais, razões alvitrei a semana do pão, para ser lançada de forma inovadora nesta querida Elvas.

            Pensava nas escolas interessadas a investigar e juntar dados para uma bela exposição didáctica.

            Recolha de provérbios.

                            

            Número de moinhos e azenhas do Guadiana.

            Houve? – Não houve? – O que resta?

            Com o apoio da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas fazer uma mostra das espécies de trigo que há – diferenciação das espigas.

            Solos, adubos, sementeiras.

            Variedades de pão que o nosso país consome nas diferentes regiões. Que cereais são utilizados.

            Pensava em pinturas e fotografias fazendo a história de ceifas, mondas, etc, etc,

            Pensava numa mostra de medidas antigas...

            Da evolução das alfaias através dos tempos...

            Talvez um cortejo – talvez apenas exposição...

            Do arado até hoje – que distância!

            Na transformação dos usos na feitura do pão. Da artesania até à era industrial...

                                       

                        Pensava numa região completamente envolvida a falar de si, do seu passado, dos seus costumes como quem folheia um álbum de família desde as mais remotas origens – historiando tudo quanto lhe diz respeito para se fazer conhecer, amar e respeitar como merece e precisa.

            E, só depois, como fecho a tal semana gastronómica.

            Porém, também aí, seria diferente.

            Entrariam as iguarias propostas – é certo! Mas... e os doces de pão?

            A enxovalhada? – As migas doces? – A sopa dourada? – As tibornas? etc, etc, etc, ...

            Uma coisa eu garanto:

            Não posso imaginar que uma só pessoa ficasse indiferente a uma fornada de “marrucates” perfumando o ambiente na “vernissage” da inauguração – para mais – tendo ( e teriam ) à sua disposição a possibilidade de provar a tiborna de lagareiro e a tiborna de lambareiro – ou simplesmente azeitonas que tão bem se casam com o pão.

            Como música de fundo recuperava aquele disco de Maria Clara em que ela canta Guerra Junqueiro:

                                

            “Toque,toque, toque – vai para o moinho “ ou o Luís  Piçarra com a sua “Ceifeira que andas à  calma ... “

            Que mundo de coisas encheu o meu espírito para a semana do Pão... – E o que realmente aconteceu.

            Vai ser como com a “Quinta do Bispo”!

            Quem viver – verá!

            Vá, lá! – Vá, lá! - Que quando ofereci a ideia do cortejo histórico, que já deixei bem alinhavado – em 1990 – apenas substituíram os “arautos” a cavalo por guardas-republicanos de motorizadas mas, não foi mal! – A julgar pelo que disse a rádio desse tempo – desconhecendo quem dera a ideia, claro!

            Ainda um dia escrevo as minhas memórias.

            De tristezas estamos todos fartos.

 

 

                                            Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.375 – 8 - Novembro - 1996

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 23:36

Falando de Centenários

Quarta-feira, 19.03.08

Ele já era um homem quando entrei na sua vida. Ele foi meu Pai e eu a sua terceira filha.

As conversas sobre ele pareciam padre-nossos rezados de enfiada, tão semelhantes se afiguravam aos meus ouvidos de criança.

O Pai dá. O Pai ensina. O Pai disse. O Pai leva. O Pai trouxe. O Pai ganha o pão. O Pai contou à Mãe. O jornal do Pai. Os livros do Pai. Não se faz barulho que o Pai está a descansar – a ler. O Pai saiu. O Pai voltou. Dá a mão ao Pai. O Pai gosta – não gosta – fez – aconteceu…

Havia o Pai do Céu, que é Deus distante e havia o Pai dentro da nossa casa, que era o deus próximo, que tudo resolvia – directamente – e era o centro do nosso universo doméstico.

Se, porém era o Pai a falar, o eixo do mundo deslocava-se para a Mãe – que ficava então no centro de tudo.

Havia a família envolvente – Avós, tias – e a minha irmã, em cuja sombra eu me deslocava. Havia também “a filha que Deus tem” e estava connosco – principalmente – num quadro pendurado na parede à cabeceira da cama de meus Pais.

Era pequenina, vestida de rendas. Tinha um sorriso de estampa e, embora parecesse, na sua quietude, uma boneca, não era. Todos se comoviam só de olha-la. Estava no céu. Longe, portanto, embora exposta, noite e dia, na parede.

Mas, os adultos são tão grandes que, mesmo perto, estão sempre distantes e acima das crianças.

São precisos anos para os filhos descobrirem (e os pais consentirem em confessar) que os adultos também foram crianças. E isso é tão surpreendente que, na altura têm que ver fotografias e pedir a comprovação dos Avós para crerem na descoberta. A partir daí os Pais ficam menos distantes e quando vamos à escola já não são deuses, é ainda com a figura deles que se esgrime. São então os nossos heróis.

O meu Pai disse. Já lá esteve. Já viu. Hei-de contar ao meu Pai o que o disse o professor, porque o meu Pai sabe melhor…

Pai e Mãe são ainda as rodas dentadas que, encaixando-se, fazem girar o Mundo. São o relógio onde os filhos são os segundos, dos minutos, das horas, dos dias, dos anos da vida dessas figuras bíblicas de – Pai e Mãe.

Corre veloz o tempo. Um dia, formados, casados, solteiros, fardados, empregados, certinhos, desvairados – cada qual, parte à procura dum caminho à medida do seu pé – pé de filho – difere, de pé de Pai. “A procura do futuro” – é a frase usada na circunstância.

Como se o futuro fosse flor de corte ou, simplesmente, estivesse, ali, sentado à esquina, à nossa espera, para ser colhido. Só, se colhido de surpresa por ver gente, a passar, à procura “do amanhã” sem reparar que a existência é a soma de “hojes”.

Meu Pai teria feito 100 anos neste mês de Julho.

Há vinte que não o encontro senão em mim, onde permanece. Em mim o canto, o louvo, o conto, o choro, porque em mim vive consubstancialmente e em mim o preservo de ser esquecido.

Pensei, por isso, que era justo falar daqueles que, abaixo de Deus, estão no começo das nossas existências, estão lá com as mais nobre humildade porque nos aceitam antes de nos conhecer, e se propuseram receber-nos, amar-nos e proteger-nos até para além da esperança que porventura possam ter tido, de que lhes enchêssemos a vida de alegrias.

Mesmo desencantados, não se demitem da esforçada afeição que nos devotam até ao fim das suas, ou das nossas, vidas.

Comemoram-se centenários de Poetas, Artistas, Sábios e Santos.

Comemoram-se os centenários de todos quantos marcaram, pela poesia, pela arte, pela sabedoria, pela santidade os caminhos das nossas vidas.

Lembre-se também, cada um de nós, daqueles que nos receberam quando nascemos, nos embalaram, cuidaram e deram a mão enquanto crescíamos com o sonho de que descobríssemos, pela força do seu amor, que o Bem é um limite, tão possível quanto outro, e desejaram que fossemos capazes de dar testemunho honrado das vidas que nos transmitiram.

 

                                    Maria José Rijo

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Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.054 – 3 - Agosto – 1990

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:05

VIVER é BONITO!

Sábado, 23.02.08

-- UM DIA – uma mulher já velha, muito pobre e que a cegueira ameaçava, numa noite morna de Primavera, deliciada com o perfume das rosas e glicínias do quintal da casa onde servia – disse-me embevecida:

“” Memo prós pobres coma mim viver é bonito!””

                  Maria

-- UM DIA – um homem bom, que tudo tentava compreender e perdoar, foi na minha frente apelidado de: - parvo!

Humildemente respondeu:

“” Sabe-se lá onde termina a fronteira da parvoíce e começa a santidade!””

               Como o compreendo...

--UM DIA – alguém que fora publicamente vexado e insultado com a mais flagrante injustiça, serenamente comentou:

“” Eu só responderei a Deus pelo mal que eu fizer – nunca pelo mal que me fizeram!””

               Fado

-- UM DIA - alguém sabiamente me ensinou:

“” A vida é uma encosta para subir, subir sempre… quem disser que está no cume – já começou a descer.””

                          God Bless...

-- UM DIA – quando eu era garota – Meu Pai – deu-me para lema de vida um pensamento de Santo Agostinho que eu traduzo assim:

“” Sou humano – nada do que é humano considero impossível em mim.””

-- UM DIA – uma criança de cinco anos, hoje casada e mãe de família, abraçada ao meu pescoço como se fosse um colar, disse-me com a boca a roçar o meu ouvido:

“” Quando eu for grande, quero ser como tu!””

 

HOJE aqui no meu canto, dei comigo a pensar que quer queiramos, quer não todos nós abrimos horizontes uns aos outros e – talvez seja por isso que viver é bonito!

 

             Maria José Rijo

 

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Jornal linhas de Elvas

Nº 1.876 – 20 de Fevereiro de 1987

Á Lá Minute

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:05





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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