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ANO NOVO

Sábado, 03.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1922 – 8 Janeiro de 1988

Á Lá Minute

 

 

 

O que se passa não volta mais. Ninguém regressa do passado. Ontem, a semana passada, há um século, visto por este prisma são datas igualmente irrecuperáveis, e, por essa razão, igualmente distantes.

O futuro é uma esperança – nem sequer é uma promessa feita a ninguém.

No entanto, são a memória do passado e a perspectiva do futuro que dão sentido à vida – daí que a lembrança faça parte da consciência de ser, de cada um de nós, tanto como a esperança de um novo amanhã, que se receia em cada dia que finda ou em cada ano que se acaba.

                     Feliz Ano Novo

Com o tempo repartido em dias, horas, meses e anos, as referências alinham-se, as memórias constroem-se e as vidas singram por caminhos de tempo, comuns ao conhecimento de todos.

O dia que foi bom para uns, pode ser menos bom para outros, ou mau, ou péssimo, ou até maravilhoso.

Paralelamente vão acontecendo vida e morte, sorte e desventura no mesmo instante para gentes distintas, e de tudo quanto passa, se tira espaço para semear novos assomos de coragem.

-- Talvez amanhã…

-- Talvez para o ano…

-- Talvez… Talvez… e a incerteza retocada de fé e de esperança, acalenta, afasta o desânimo e empurra para a luta do dia a dia como se o futuro fosse herança certa.

Um ano findou outro se inicia.

-- Talvez… é o sinal da esperança que se guarda em cada um de nós.

-- Talvez… quem dera!

   

Lutemos pelo sonho que enfuna a vela e talha o caminho.

Ao passado não se regressa.

Guardamos dele a lição que a memória nos dá e deixemos que a vontade nos empurre para a sementeira certa que a esperança pede.

Sempre haverá quem recolha os frutos.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:25

'Sinto a saudade mais perto'

Sexta-feira, 04.07.08

CONVERSAS SOLTAS

 3 de Julho de 2008

Nº 2.976

Jornal Linhas de Elvas

Fernando Pessoa,

 

'também' escreveu sobre os sinos. Aliás na nossa literatura, muitos poetas e prosadores dissertaram sobre esse tema.
Alguns, limitaram-se a fazer-lhe referências, quando retratavam costumes das nossas gentes e, sempre que de temas campestres se falava, lá vinha a referência ao toque das Avé-Marias por ser das tradições mais arreigadas na alma do nosso povo.
Assim ao correr da conversa, ocorre-me por ser alentejano, o Conde de Monsaraz, no célebre poema ;- Tragédia Rústica .


'Quando o sino batia
As doze badaladas do meio-dia,
O trabalho parava.
E todo o bom católico rezava,
De cabeça inclinada e olhos no chão,
Um Padre-Nosso e uma
Avé – Maria,
Com o chapéu na mão. ‘
[Este escritor viveu entre 1852 e 1913]


O sino, é uma referência sempre presente na nossa cultura de católicos.

O sino, quase pode dizer-se, que, se não comandava, pelo menos pontuava a vida de aldeias, cidades e lugares.

sino1.gif
Até nas lendas com que se entretinham as crianças, quando a cultura era mais oralizada lá vinham as referências aos sinos:
'Tocam os sinos da torre!
Ai, meu Deus - quem morreria!?
- responde o filho de colo que inda falar nem sabia:
- morreu Dona Silvana pelo mal que fazia
- descasar os bem casados, coisa que Deus não queria'


Os sinos tocavam a rebate nas desgraças.
Os sinos repicavam nas festas.
Os sinos 'dobravam ' nos funerais...
Os sinos, sempre foram e são os anunciantes dos actos religioso que regem as nossas vidas de católicos.
'Foi a enterrar, como um cão, nem o sino tocou', dizia-se também nas histórias para execrar o comportamento dos bandidos e proscritos.
E, estas referências, passam de geração em geração, agarram-se

à nossa alma, fazem parte dela e entram nos nossos costumes

mais queridos.
- Vê se ouves o sino para irmos ver a noiva a sair da Igreja...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos à Missa ou à novena...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos ao funeral...
Mas o sino do cemitério de Elvas, não tem espalhado pelos ares a notícia da dor que até aqui sempre anunciava...
- Vêm perguntar-me porquê? - que não entendem - queixam-se...
- Não sei. É o que posso responder.
Mas, posso relembrar a todos, como Fernando Pessoa falou dos sinos. Para que se entenda que o assunto não é de brincadeira...

 

 

 

 

Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida

Por mais que tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho
Soas-me na alma distante

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto
Sinto mais longe o passado
Sinto a saudade mais perto

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publicado por Maria José Rijo às 12:17

“Sê bem-vindo – Ano Novo “

Terça-feira, 25.12.07

            O que poderá fazer um ano velho quando está preso apenas por alguns dias na folha do calendário!

                           

            Certamente o que faz qualquer velho que se sente e sabe a dobrar a inevitável esquina do seu tempo.

            Imagina o novo. 

Imagina e sonha.

Sonha e reza. Reza, porque o novo – por ser novo – é limpo.

E, ser limpo, é ser puro.

É estar em branco como o papel onde ainda escreveu, a tela por pintar, a pauta sem notas, o sonho por viver, o caminho por percorrer.

Pode, é verdade, olhar para trás.

A tentação é grande e é legítima.

O passado é a referência. Ao passado não se volta.

Futuro não se conhece quem o terá.

Nessa fronteira entre “nunca mais” e “ninguém sabe” cresce a esperança que a todos permite dizer: - amanhã!

Adeus ano velho.

Bom e mau! Feio e lindo! Amargo e doce! Generoso e cruel.

Ano – tempo – onde tudo da vida cabe, até a morte.

Passaste – como sempre tudo passa e passará.

Só te peço uma coisa: - dize ao ano que te sucede – que vai surgir a seguir a ti... – diz a esse ano ainda imaculado e limpo – a esse esperado ano novo – que procure ser sincero, verdadeiro, franco.

Dize-lhe quando lhe abrires a porta para o seu dia “Primeiro” – feliz como um rei jovem a quem oferecem um trono – diz-lhe que não se deixe iludir – e não nos iluda também.

Dize-lhe.

É que, muitas vezes – repara – acontecem coisas tais como esta que ponho à tua consciência: - Defendem-se com boas e parangonas os direitos da criança.

Depois – olha, olha bem – repara: exibem-se, apalhaçam-se, explora-se a sua candura, põem-se-lhe na boca palavras porcas, expressões acanalhadas – que nos devem envergonhar – em lugar de fazer rir e bater palmas – só para encher os bolsos dos adultos.

Olha que a prostituição não é só e apenas, do corpo. Olha que a prostituição é coisa de alma – principalmente: coisas de alma!

Qualquer criança tem direito à pureza como a água que brota no cume das montanhas!

Mas... abre a televisão e pensa se o que te aponto não é violência grave e trabalho.

Trabalho ignavo.

Porcaria e nojo.

Repara como coisas destas se deixam passar encorajadas com palmas e gargalhadas alarves.

As piores mentiras – Ano Velho -  são estas verdades – dize ao ano Novo !

Mesmo entre nós – à nossa vista... tantos luzeiros... tantos luzeiros... tanta confusão entre “um rico Natal” que deveria ser e... “Natal rico”, de aparência, que é.

De uma vez por todas – não te deixes trapacear – ajuda o “Novo”.

Sê corajoso e adeus Ano velho!

Sê bem-vindo Ano Novo!

                              Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.382 – 27- Dez. 1996

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:49

Não se volta ao passado

Sábado, 16.06.07

Classes inteiras vivem suas infâncias e adolescências par a par.

Criam-se vínculos, raízes, quase dependências afectivas entre companheiros de escolas.

Escolhem-se os íntimos, de acordo com afinidades, simpatias...

Fazem-se confidências, projectos futuros, sonha-se vida e acredita-se que tudo  virá a acontecer de acordo com os nossos desejos.

A pouco e pouco, o tempo vai impondo suas normas. Acontecem mudanças imprevistas e imprevisíveis.

Como as raízes de uma árvore procuram seu sustento ramificando-se de acordo com as possibilidades que o solo lhe oferece, assim, cada qual, se encaminha, e se enreda na vida na procura da porta de saída que o leve ao sonho imaginado.

Divergem as rotas que se haviam julgado comuns.

Acenam-se de longe os que quereriam caminhar lado a lado.

Somam-se os anos.

Somam-se as distâncias.

Alargam-se os intervalos das lembranças.

Algumas perdem-se. Outras persistem, e insistem em povoar-nos de recordações.

Chamamos-lhes saudades!

A elas nos agarramos. São as nossas ancoras. Estamos fundeadas nelas. Presos ali, como que defendidos de todos os males.

Sabemos de onde somos.

Somos dali! Do que retivemos na memória.

São como a nossa casa no tempo. São o nosso passado.

Levamo-las connosco como uma feição, um tique, herdado de família.

Pode a sorte, ou o azar serem a nossa companhia. Não interessa.

Conhecemos cada canto, cada minúcia do que nos enche a alma.

Temos tudo de cor.

Aquele mundo de lembranças é o nosso mundo interior.

Então, um dia, não resistimos. Vamos afoitos em demanda do que julgamos pertencer-nos.

Pula-nos no peito o coração à medida que os nossos passos nos aproximam do almejado intento.

Paramos para ganhar fôlego. Controlamos a emoção.

Seja ao anoitecer, seja a que hora for, a luz não nos desilude. Conhecemos-lhe todos os cambiantes seja em que instante for.

O cheiros também o nosso olfacto os identifica.

Seja o da cal das paredes molhadas pela chuva, seja o da calçada que o calor do sol parece rachar, seja o ar húmido da madrugada, ou a doçura morna das tardes outonais , seja lá que momento for tudo está conforme, nesse aspecto com o que trazemos no coração.

Tudo parece certo. Volta-nos o sorriso, a ousadia, e avançamos.

Na catadupa de abraços com que nos recebem, nos aconchegamos, nas lágrimas de alegria dos reencontros a alma se nos refresca.

As notícias saem em atropelos. As perguntas e respostas também.

Então passada a euforia, olhamo-nos pela primeira vez, de verdade, após tanto tempo decorrido.

O coração, então, balança.

Não são as rugas, os cabelos brancos que fazem a diferença.

Foram os anos, que cavaram o fosso.

Bem se pode chamar à presença tudo que do passado nos lembramos.

Esgotado o impacto do primeiro momento, o passado é um fato fora de uso que não serve mais a quem quer que seja.

Reconhecemos-lhe a beleza, mas está fora de questão usá-lo a não ser como máscara de fingimento.

Há entre ele e o momento actual uma distância intransponível.

Podem os locais persistir iguais, as pessoas não!

Reatar, significa tornar a atar. Significa o reconhecimento de que algo estava partido, separado. Significa que a continuidade estava interrompida...

Significa que entre um dia e outro dia se viveu uma noite.

Significa que se podem revisitar os locais, e, ainda que sejam as mesmas pessoas a tentar recuperar o tempo passado, jamais o poderão conseguir.

Cada instante que passa não volta jamais, e ao passado ninguém volta por muito vivo que ele permaneça no nosso coração.

 

 

                            Maria José Horta Travelho Rijo

                                 Escritora e Poetisa

 

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.727 – 19/Set./03

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:07





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