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Retrato de Grupo (do negativo)

Terça-feira, 11.11.08

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1747 – 10 de Agosto de 1984

        

 

Aqui estamos: - uma geração inteira, frente à objectiva da história.

Olhemo-nos! – Que figuras!...

Aqui estamos, estáticas, como múmias, vendo desmoronar tanta coisa à nossa volta e permanecendo inertes, como se mortos estivéssemos.

                 

-- Onde estão os filhos, os netos, os bisnetos dos Homens que engrandeceram esta nossa cidade?

-- Onde estão os descendentes de quantos plantaram as árvores, abriram as ruas, fizeram as casas e jardins?

-- Onde estão os descendentes das mulheres resolutas que faziam da sua rua brasão de nobreza, caiando as ombreiras das portas e levando desde os poiais até ao meio da calçada, ainda que já vergadas pelo cansaço de um dia de duro trabalho, a soldo de outrem!

               

-- Mesmo pelo “negativo” vê-se bem – somos nós – é a nossa geração!

-- Somos nós que deixamos perder benefícios e privilégios que herdamos:

-- Comando Militar, Hospital Militar, Regimento de Cavalaria, Banco de Portugal…

- Elvas, que até já teve o seu Bispado Arrisca-se hoje a perder o próprio HOSPITAL DA MISERICORDIA!!...

                          

- Somos nós que consentimos que estropeiem árvores, que se usem em praças e avenidas, espingardas de pressão de ar para atirar aos passarinhos…

- Nós que deixamos deitar lixo nas ruas, cuspir no chão, apedrejar candeeiros de iluminação pública, escrever obscenidades nas paredes, arrancar placas de trânsito e bancos de jardins…

- Somos nós que – em lugar de nos organizarmos como uma poderosa colmeia em torno do amor e cuidado que devemos a Elvas, criando núcleos de cultura e recreio (teatro, música, manifestações desportivas, excursões de estudo, de investigação, convívios, etc, etc.) deixamos que andem por aí à toa a tomar uns copos ou a “gastar-se” gastando nas “máquinas”, o potencial humano que motivado com inteligência, faria por suas mãos melhorar a própria sorte e repor o cariz da cidade.

- Somos nós que recusando o gesto largo do semeador que transforma o chão em seara, nos fechamos na avareza do desinteresse…

- Somos nós que até já deixamos de ter o recurso de discar o 115 em caso de aflição! (Contou a rádio local). Agora só Estremoz nos acode se o fizermos…

 

Eis-nos, como somos; frente a frente; olhos nos olhos – fixados neste “negativo de retrato de grupo”, parado, preto e baço, feito “a lá minute” neste ano de 1984…

Que a história nos esqueça – se perdoar não puder…

 

Estamos mais feios – que bonitos

Sem má fé e – sem favor –

Vamos lá reagrupar-nos

P’ra um retrato melhor!

 

 

Maria José Rijo

                      

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publicado por Maria José Rijo às 09:59

À beirinha do Natal

Terça-feira, 04.12.07

É sempre com um espírito diferente, daquele do dia a dia comum, que se faz esta caminhada do advento.

                         

Quer queiramos quer não, assim como o sol e a chuva, o frio ou o calor influenciam os nossos comportamentos, assim também as festas religiosas como que “contaminam” até o ar que se respira e, crentes e não crentes, se deixam empolgar por lembranças, evocações que conduzem a memórias guardadas no segredo de todas as almas, pelo mistério das nossas sensibilidades.

E, assim como se prepara a nossa aparência usando o melhor fato e, a nossa mesa, procurando paladares e aromas de petiscos tradicionais, para receber familiares e amigos, assim também nos corações deixamos que a ternura e o perdão amolecem as resmungos e impaciências do dia a dia e os afectos como que floresçam nos sorrisos e nos abraços de cada reencontro.

                 

E, se é certo que a dor das grandes perdas permanece como um lastro pesado no fundo de cada um de nós, não é menos certo que o triunfo da Vida, consiste em saber que o sol, ainda que não o vejamos, nasce todos os dias, e com ele a esperança se renova.

 Assim que os desejos bons que não concretizamos, as palavras que calamos e quereríamos ter dito na hora certa a quem talvez as tivesse esperado em vão, e sofresse porque as silenciamos; a companhia que não fizemos a quem triste e só, se possa ter pensado esquecido de todos; a mão que não estendemos a quem já sem forças se rendeu ao desalento porque lhe faltou esse apoio...

                               

Tudo o que achamos que não valia a pena termos feito porque outros o fariam melhor, ou porque a preguiça nos enredou...tudo, nos apareça em consciência, como brasas, ainda vivas, sob as cinzas dos tempos que não soubemos viver plenamente e nos sacuda e nos acorde para uma fome implacável de redenção.

Porém, logo a seguir, perdoamo-nos a nós mesmos porque não somos os salvadores do mundo, não temos tempo para tudo, que é muita coisa, que fizemos o melhor que sabíamos, e mais isto, e mais aquilo, que ninguém é perfeito, e, quase logo, logo, estamos com pena de nós...

                                

Então, como quem ingere um tranquilizante, que muito embora nada cure, tudo esbate e adormece por momentos, aqui estamos nós, ano após ano a despachar quilos de postais e cartas pelo correio com as saudações (de preferência já impressas, para maior facilidade!) a que justapomos apressadamente a nossa assinatura.

E, assim embalamos os nossos sonhos mais altruístas na vulgaridade dos nossos gestos...

                                    

Reconheço!

Reconheço, e deploro os remedeios que quase sempre substituem as mais nobres intenções, porém, aqui me rendo publicamente, fazendo para meu uso, a escolha que – também – mais à mão me calha por me parecer a mais lógica para chegar a todos os meus possíveis Leitores, ao Director e a todos os Trabalhadores do “Linhas” bem com a suas famílias os melhores desejos de Boas-Festas, e de um Santo Natal.

                    

Votos que expresso, também – com muita esperança – para a nossa Cidade, tão à mercê das marés...

 

                                                        Maria José Rijo

 

  P.S.                                                      

Aproveito, ainda, para agradecer, cartas e referências que me têm dirigido, através do jornal, de forma tão amiga, que, muitas vezes, têm sido “a mão” em que me apoio para ir em frente.

Bem hajam!

                                                     Maria José

 

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.845 – 22-Dez. -2005

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:50





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