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O último São Mateus

Domingo, 29.09.19
JORNAL LINHAS DE ELVAS
CONVERSAS SOLTAS
Nº 2.676 - 20 –Setembro - 2002

2002.jpg

Pode parecer estranho este título!

Pode! Mas não é.

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Este é o último São Mateus em que o Parque da Piedade goza dos restos do seu enquadramento tradicional.

Ainda não há muitos anos, as oliveiras vicejavam no cabeço sobranceiro ao muro, que suporta as terras da encosta do pequeno monte, e cria o espaço para a perspectiva mais larga do olhar sobre o templo do Senhor Jesus da Piedade.

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Para um lado e para outro, do largo que acrescenta o adro, seguiam-se lances curtos de caminho rústico ladeado de velhas árvores que davam ao Santuário a envolvência de paz que a Natureza misericordiosa oferecia ao romeiro que chegasse.

Sentia-se uma espécie de abraço à aproximação do recinto, quer vindo da cidade, quer vindo da estrada de Lisboa.

Aquele enquadramento natural delimitava um mundo, dentro de outro mundo.

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Formava-se ali, como que um recatado oásis de fé.

Por um lado, beiravam o percurso- Quintas com história.

Por outro, o começo da própria história da origem do Santuário, com a Quinta dos Passarinhos, que fora pertença do Beneficiado Manuel Antunes que ao colocar por gratidão uma cruz, no local onde caiu da sua montada e invocar a Deus para que lhe valesse, deu origem ao culto do Senhor Jesus da Piedade.

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Sob a protecção das oliveiras, como as de Jesus no Horto, acamparam ao longo de séculos, gerações e gerações de peregrinos no pequeno monte sobranceiro ao local, e em seu redor.

Correram os tempos, passaram os anos, e tudo foi mudando.

Mansamente, foi-se fazendo a adaptação às novas exigências do progresso e dos costumes.

Porém, parece-me, nem sempre o bom senso moderou as decisões que se foram tomando.

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“Quinta do Bispo”- penso que agora já todos estarão de acordo: - foi sacrificada, sem honra nem glória, para dar lugar àquilo que todos podem ver...e, abriu caminho, desaparecendo, ao que já se pode avaliar, e se desenha a passos largos:

Embeber o Santuário na desenfreada urbanização que já ameaça o seu nobre isolamento.

Não sou contra o progresso, (como é obvio) só não posso confundir, e não confundo construção desenfreada, delapidação da memória dum povo, com progresso!

(É meu Mestre o Arquitecto Ribeiro Telles!)

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E sinto e penso com convicção que, assim como numa relação de Amor entre pessoas, também a relação de Amor entre gentes e cidades e locais têm os seus mistérios, os seus fluidos, o seu espírito, como que uma espécie de resplendor de alma criada pela seu próprio historial que é preciso não destruir; a troco de igualizar, o que era distinto, tornar vulgar o que era ímpar, abandalhar o que era nobre e único.

E, não me venham dizer que falo de utopias, sonhos irrealizáveis, e todo o mais que vos aprouver.

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Quando eu contrapus -  á ideia de se fazer do Forte de Santa Luzia uma Pousada - o projecto que depois foi adoptado, - muito comentário parecido foi proferido...

E, porque o Dr. João Carpinteiro, nele acreditou, o Senhor Professor Miguel Baena, que com o Sr. Arquitecto Leite Rio e Sr. Arquitecto Pedroso Lima, propuseram-se fazer o projecto que, por acaso, até foi presente ao senhor Presidente da Republica, na presidência aberta em Elvas, o sonho triunfou.

Estávamos em 6 Março de 1989 quando chegou o primeiro orçamento cuja cópia tenho em mãos ao recordar estes factos.

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Às vezes “acreditando em utopias”, como se vê pelo êxito da obra do Forte, consegue-se preservar o tal fluido que como um milagre segura nos locais os rastos da história... A memória dos tempos...a alma das gentes...

Assim tivesse sido com a Quinta do Bispo e, tantas coisas mais que essa “lástima” precederam e outras, que por môr dela, irão sucedendo, nunca aconteceriam, o que era, sem dúvida, um Bem para todos.

  Maria José Rijo

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:00

Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

Sexta-feira, 27.09.19
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1877 –  27 de Fevereiro de 1987

Valha-me o Sr. Jesus da Piedade…

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Estão a decorrer as celebrações dos 250 anos da fundação do 
Santuário do Senhor Jesus da Piedade.

Dito assim, parece apenas uma comemoração como tantas mais.

Parece! – Mas é diferente.

O Senhor Jesus da Piedade e Nossa Senhora da Conceição,
são os protectores
celestiais da grande família elvense.
São esperança
e conforto de cada um de nós.

Tudo se lhes pede e confia. Paz, vida, saúde, amor.
E desde a protecção para a carga do “honrado ofício” de
contrabandistas,
até à imunidade dos porcos contra
a peste, tudo se comparticipa com a
sua
divina misericórdia.


Deles porém, tudo se aceita!

“Graças ao Senhor da Piedade – aconteceu…”
“A Senhora da Conceição fez o milagre…”
Ou:
- “O Senhor não quis…” – “A Senhora não poude…”
temos de ter paciência!

IMG_3801.JPG


O senhor da Piedade e a Senhora da Conceição são Pai e Mãe –
Esperança e Guias.


As suas igrejas caiadas, sem as pompas das pesadas e nobres
catedrais convidam à intimidade familiar.

São bem a casa onde não nos constrangem os fatos de trabalho,
o sacho debaixo do braço, o xaile velho, a bota enlameada, a
roupa do dia a dia, o sapato cambado.

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E se este amor confiante, este passar à porta e entrar,
esta “obrigação” de ir lá fazer o sinal da cruz ou depois
do passeio domingueiro na tarde de sol, se isto –
não é sinal de fé –

de fé espontânea, verdadeira e irresistível…
então valha-me o Senhor da Piedade – que eu sei o que é.

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 00:00

As Margens Sacralizadas do Douro Através de Vários Cultos

Quarta-feira, 02.06.10

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3074  - 2 de Junho de 2010

.

As Margens Sacralizadas do Douro Através de Vários Cultos

 

Quando terminei a leitura deste belo livro – da autoria de Dalila Pereira da Costa – que me deixou a sensação de encanto de quem tivesse feito uma viagem de descoberta a um mundo tão maravilhoso que quase se afigura de fantasia - impôs-se-me uma certa necessidade de meditar nos caminhos que a humanidade, através dos tempos, tem percorrido na procura do Absoluto.

Na procura de uma explicação para os fenómenos da vida que nos cerca, na procura de pistas que nos conduzam a essa decifração e consequente entendimento. As várias formas de culto com que sempre se incensaram os “deuses”imaginados, as atitudes e os artifícios usados consistiam na estratégia usada para lhes conquistar tolerância, protecção, cumplicidade ou benesses.

Desde as épocas mais remotas, sempre a humanidade admitiu ou necessitou adorar as divindades a que atribuía o poder de reger ventos, tempestades, céus, marés e luas e, sempre a imaginação humana se rodeou de símbolos que criava, evocava, desenhava e gravava como marcas nos caminhos que percorria intentando a compreensão desses desígnios.

Sempre admitiu que caçadas frutuosas, investidas contra inimigos, êxitos ou reveses, conquistas e vitórias necessitavam da protecção desses seres que admitia serem donos de todos os destinos.

Sendo a água um bem imprescindível para a vida, as margens de muitos rios foram, desde as épocas mais remotas como que “estradas” percorridas por gerações e gerações que nelas imprimiram sucessivamente as marcas da sua passagem e vivências.

Nelas se encontram os vestígios representativas do percurso evolutivo do ser humano, dos seus mitos e anseios, das lutas pela sobrevivência que, assim foram “sacralizando” esses lugares, deixando neles os testemunhos da história  que convidam à sua defesa e conservação como culto da memória desse passado que por mais remoto que seja é como que um ADN identificador do percurso da humanidade.

E, porque uma coisas, chamam outras e, nenhum de nós, se pode abstrair por completo do meio em que vive, saltou-me ao espírito a evidência, de como, também, são “sacralizados” pela fé os caminhos que, na nossa terra, evocam, envolvem ou conduzem ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade.

Eles são bem as margens de uma corrente de vida, de um rio de esperança, que as gerações e gerações de peregrinos e penitentes que por eles, não em procura de deuses pagãos ou ídolos como desde o Paleolítico até à Idade do Ferro, e de outras épocas posteriores as margens do Douro registaram, mas, desde 1837 da nossa era cristã as percorreram e percorrem para louvar a Deus.

Só o amor e o conhecimento sacralizam os lugares se o coração dos homens tiver dimensão para o entender e alma para agradecer o dom da Vida respeitando as memórias do passado que serão inevitavelmente os suportes do conhecimento do futuro - se o soubermos merecer.

Destruir ou vandalizar, de qualquer forma, o que a história reconhece como memória viva e herança para o futuro, é deixar vazio, sem alma, o caminho sacralizado que recebemos por herança.

“ O essencial é invisível aos olhos “ disse Sant – Exupéry

E, como o Princepezinho, jamais me cansarei de o repetir e procurar entender…

 

                  Maria José Rijo

 

 

P.S.

Prometi voltar quando pudesse. Calhou agora.

E, se Deus quiser, pode calhar de vez em quando.

Obrigada ao “Linhas”e, aos Amigos que me “ cobravam”o silêncio

                                 Maria José

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publicado por Maria José Rijo às 21:40

Mote sem Glosa

Sexta-feira, 11.09.09

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.906 – 18 de Setembro de 1987

 Mote sem Glosa

 

“O Senhor da Piedade

Tem 24 janelas”

Fosse eu pomba, tivesse asas,

Que pousaria na Cruz

Porque fica acima delas.

 

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor

do segredo de ser

da paz de quem se dá

e se reencontra limpo e renovado

que o Amor purifica e recria

com a força duma aurora

que da noite rasga o dia…

 

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor

como o pressinto e sei

procura de perfeição

que se suspeita e sente

no dia a dia imperfeito

da condição de ser gente…

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

amor que de si nos solta

e permite dizer; - “eu”

encarar o mundo em volta

chamar: “vida” – “minha vida”

à viagem de regresso

a esse Amor do começo

que foi ponto de partida…

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

olhando a crista da onda

alta, bela, transparente,

imponente, tenebrosa

e dizer-lhe intimamente

com a inocência da rosa

ou a força da semente

sem palavras

( na cósmica cumplicidade

de me saber – nada –

e saber-me – eternidade )

olá, água! – olá, apenas água!

Vês?

Só na praia, como espuma,

Descansam vidas e marés

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

sendo diferente

mas ajoelho, rezo o Teu nome bendito

-- Senhor Jesus da Piedade!

-- Senhor Jesus da Piedade!

Rezo e repito:

-- Senhor Jesus da Piedade!

e só assim – tudo está dito.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 17:54

Encarecidamente

Quarta-feira, 17.09.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.724 – 29 – Agosto - 2003

Conversas Soltas

 O único acesso que resta, ainda com alguma arborização, para fazer a pé visitas ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, é um velho troço de estrada, onde as olaias aí pelos fins de Fevereiro, começos de Março, cantam hosanas em flor.

Fatalmente as recordações, as lembranças de como era e como é, impõem-se como presenças vivas a quem a percorre.

Desde a memória daquela velha e querida Amiga, Senhora Dona Maria José Ferreira que me contava que seu pai, sendo Irmão da Confraria, fizera parte da Mesa que mandara construir, (como rezam as lápides), aqueles 810 metros de estrada, entre os anos de 1860 e 1863, aquele caminho, – ao longo, já de muitas gerações, – tenho a certeza, tem assento no coração de todos os elvenses, com fundas raízes de afecto.

Como é óbvio, eu, não sou a excepção!

Assim que, já por mais do que uma vez, tenho reparado no envelhecimento das árvores que fazem alas sabe Deus, se desde essa “tal” data, à passagem dos devotos, ou simplesmente, de quem gostando de caminhar, aproveite da beleza e da paz, que por aqueles lados ainda se pode usufruir.

E, recentemente, dei comigo pensado, e dizendo em voz alta para quem me dava companhia: - é urgente pedir encarecidamente a quem de direito, que cuide de repovoar com árvores novas, tapando as falhas – pelo menos – esta estradinha ensombrada e bela que faz parte do imaginário de todos nós.

E, porque, como diz o poeta: “não há machado que corte a raiz ao pensamento” que é capaz de encadear, lembranças soltas e perdidas da nossa consciência, a palavra “encarecidamente” levou-me para um Alentejo rural, hoje inexistente, talvez, a não ser na memória de pessoas de idade, como eu.

Então, achei curioso, recordar aqui, outras palavras e expressões que fixei ao entrar para a escola, quando tinha seis, sete anos, e tomei contacto com uma realidade tão diferente do meio em que eu vivia, que, talvez por isso, não mais as esqueci.

Que mais não seja como curiosidade lexical, parece-me certo, dar nota de vocábulos arcaicos, que o homem do campo, naquele tempo, ainda usava no seu dia a dia.

Termos medievais, alguns dos quais se podem encontrar em escritores dessa época, por exemplo.

Pranta-te quedo! - Era a advertência para mandar aquietar alguém.

Não coles por aí! – Não passes por aí.

Ter avondo! – Ter suficiente.

Estar empalagosa! – Estar adoentada.

Estar doente era sofrer de moléstias.

Morrinha ou morraça era chuva miúda.

Esquilas, eram guisos.

Rir, era galhofar, ser curiosa ou bisbilhoteira, era ser calhandreira e penisca.

Brincar, era retoiçar;

Para além destes, e outros termos arcaicos, usavam expressões de uma beleza tão simples que mais pareciam pinturas feitas de palavras.

Para referir o anoitecer, toda a gente dizia – ao acender das candeias.

            À estrela d’alva  ou ao romper da aurora, se dizia - amanhecer.

Não saber como mostrar gratidão pela satisfação dum desejo que nos tornava felizes era:

        Não ter boca avondo que encareça!

E, com esta frase, bela e genuinamente alentejana, termino este apontamento, onde, a quem de direito, encarecidamente peço mais árvores, para a velha e poética estradinha por onde se pode passear devagarinho, a caminho do altar da nossa terra – O Senhor Jesus da Piedade.

 

 

     Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:49

Num entardecer de Setembro à beirinha do São Mateus...

Sexta-feira, 12.09.08

Maria José RIJO  

Nº 2.985-- 11 de Setembro de 2008

Jornal Linhas de Elvas

Nocturno

Choro todos os meus prantos
Ao piano - com Chopin
Minha alma brada seus males
Ao piano com Chopin
Segredo os sonhos que tenho
Ao piano com Chopin
Solto as esperanças que embalo
Ao piano com Chopin
Liberto frustrações que calo
Ao piano com Chopin
É nos 'nocturnos' que entendo
Ao piano com Chopin
Que é no silêncio de Deus
Que a noite se faz manhã
 

 

 

 

Maria José Rijo

 

 

http://pmqp.blogspot.com/2007/10/chopin-por-maria-joo-pires.html

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publicado por Maria José Rijo às 11:12

SE UMA COISA MERECE SER FEITA...

Quarta-feira, 26.03.08

Vinha serenamente.

Regressava lá das bandas onde o Guadiana fingindo-se parado espelha melhor o céu, e fica mais azul.

Perto das “Casas Novas”, detive-me porque um homem que assara sardinhas na berma da estrada e acocorado as aconchegava numa travessa de esmalte tinha a seu lado um companheiro que zurzindo o resto das brasas com um ramo de ervas molhadas espalhava cinza e fumo de tal modo que parecia rescaldar um incêndio.

Identificada a situação segui o meu rumo, lentamente, porque aquela nesga de caminho, à direita, até apanhar a estrada de “Forte de Botas” conserva

ainda aquele cunho de paisagem castiça do fundo dos tempos, que é a raiz do Alentejo e, muito me encanta. Deveria, penso, ser considerada paisagem protegida pela presença da autentica vegetação indígena da nossa zona que ainda evidencia - mato de sobro, azinho, oliveira, zambujeiro...

Seguem-se uma ou outra Quinta beirando a estrada. Logo depois, as habitações pululam pela beira do caminho até há bem pouco desnudo. Penso de imediato se haverá população para o surto desenfreado de construção que nos rodeia. As pequenas quintas naquela zona nada descaracterizam. Antes embelezam. Já o mesmo não sucede com os prédios altos, engaiolados, que cortam o horizonte desta cidade, atalaia, traçada com requintes de sábia engenharia de onde um “forte” avistava outro “forte” e onde a nobre traça mandava que nada empanasse a vigilância cortando o alcance do olhar sempre atento aos horizontes.

Nesses outros tempos, havia vagar para sentir melhor que uma cidade não é apenas o conjunto volumétrico das suas construções.

Uma cidade tem, também, a sua feição histórica, religiosa, romântica, laboriosa, gastronómica, tradicional, típica que lhe confere alma própria e cunho particular e que sendo indizível se capta com a sensibilidade do coração e se interioriza.

Uma cidade tem cor – tem cheiro – tem alma.

Elvas é ocre. Ganhou esse tom, quase dourado, do reflexo do céu nas suas velhas muralhas.

Elvas tem cheiro de terra seca e de restolho no Verão. Guarda em cada parede, com o travo da cal, o perfume das eiras desde tempos imemoriais, e de olivais em flor, e da terra húmida e fértil onde o suor dos ganhões, e o sangue dos soldados que deram em definitivo a independência a Portugal se mistura com a promessa das sementes novas que em misterioso silêncio germinam no mesmo chão.

Elvas resplandece em cada pedra das suas fortalezas num halo luminoso e mítico de perfume de história como flores de saudade.

 

Elvas em Setembro Resende a incenso, foguetes, rastos da festa das almas que louvam ao Senhor da Piedade; e aos petiscos gulosos que satisfazem o paladar, e deixam a flutuar no aconchego dos lares um persistente cheirinho de tradição que se renova cumprindo-se...

Assim pensando, passei com a saudação do costume: - Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade! - Pela igreja que para as festas já se começa a engalanar, e dei com as obras de alargamento da estrada que corre entre a Tapada da

Saúde e, a saudosa Quinta do Bispo, de cujo desbarato o futuro ainda há-de falar. (a nova lei de classificação dos solos para Elvas já vem tarde. Guterres acordou só agora! E, é pena...)

Das olaias, amoreiras, conteiras, etc. etc... que durante quase um século, seguramente, fizeram alas para quem passava - nem o rasto. Vim então pensando se, também ali, em seu lugar, iriam surgir palmeiras...como agora parece ser moda em Elvas.

Deus queira que não! Senhor, tende piedade!...

Na nossa zona dão-se bem as sebes de giesta que, quando em flor, fazem a festa do amarelo, as sebes de romãzeira, de loendros, de piricanta, espinheiro,...Dão-se bem olaias, jacarandás, conteiras, e tantas mais, para quê, e porquê a palmeira guarda sol, de imagem tão exótica, como separador de estradas?

Porque não amoreiras, que, como nenhumas mais, fazem parte do historial de Elvas?

É que:  “datam  dos fins do século 15º, (estou a citar Vitorino de Almada) as notícias que aparecem no Arquivo municipal de Elvas sobre a cultura obrigatória da Amoreira, para o desenvolvimento da industria da sêda,...

Mandou el Rei D. Manuel por carta sua, escrita ao concelho em 1498,que cada pessôa que possuísse quintas e heranças puzesse em cada uma d´ellas, nos primeiros quatro anos seguintes, 50 árvores novas entre pereiras, maceiras, e cerejeiras, e só fixava o número d´amoreiras, que seriam 10”

Mais tarde, segundo a mesma fonte, o Príncipe D. Pedro em 1678, por carta, à vereação, volta a insistir no cultivo da amoreira.

O tempo passa, a história prossegue, a obrigação do cultivo é destinada por derrama a cada fazenda segundo a sua extensão e importância.

E, assim “Ao todo sommam as amoreiras que n´este termo se devem plantar, segundo enumeração acima, (refere os nomes de todas as quintas e hortas) na quantia de 1598 amoreiras.

 

Concluindo: a árvore histórica de Elvas é a amoreira.

Ela baptiza não só o Aqueduto, como muitas quintas, hortas, e lugares.

Não se trata, aqui de criticar por criticar, trata-se de apresentar alternativas, justificadas pela história e pelas obrigações que ela nos impõe.

Trata-se de história. História de Elvas.

Sejamos, então, coerentes e reconheçamos que a presença de palmeiras na rotunda do aqueduto, além de despropositada e feia é quase ofensiva...

Deixemos a profusão de palmeiras para onde elas são naturais e são tão cartão de visita como a azinheira é entre nós... deixemos os passeios sem calçada à portuguesa para as ruas da vizinha Espanha...

Sejamos portugueses de brio.

Respeitemos no possível o que é genuinamente nosso, que fala da nossa história e tradição, o que tem a ver com a nossa cultura ancestral.

É o mínimo que podemos fazer por respeito ao passado e ao futuro.

Até porque: - se uma coisa merece ser feita, merece ainda mais ser bem feita.

                             Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.622 – 7 /Setembro/ 2001

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:30

Fonte da Fé - Senhor Jesus da Piedade de Elvas

Sexta-feira, 21.03.08

Com desejos de uma Santa Páscoa

para todas as pessoas

que passarem por este blog.

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publicado por Maria José Rijo às 15:58

PAI NOSSO

Sexta-feira, 21.09.07

Em Mayo de 1737 – assim se conta:
- Neste anno se fez a hirmida de N. Sºr da Piedade onde estava antigamente hua cruz, que por estar velha mandou o Beneficiado Manoel Antunes, q alli tem hua horta fazer hua cruz nova...
E, em Setembro de 2007 assim se contará : ...
Onde era um lugar de paz e de retiro, avizinhado de olivais , como o horto do Senhor, prolifera agora o casario polícromo , que desvirtua o local que foi, de silêncio, de paz, de oração e preces.
Na vida tudo muda e evolui.
Só não é necessário e imperioso que mude para pior.
Rezemos com fé e esperança, a oração que o Senhor nos ensinou para que o bom senso e o respeito pelo ambiente, não soçobrem mais, sob o peso da ganância e que jamais esqueçamos que palácios ou choupanas tudo, tudo, cá fica.
Connosco, ficam apenas, as nossas intenções...

Senhor Jesus da Piedade
Pai nosso que estais no céu
Nossa estrela e nosso guia
Santificado seja o Vosso Nome
Senhor, a teus pés estamos
Venha a nós o Vosso Reino
Que o céu é a nossa esperança
Seja feita a Vossa Vontade
E que a nossa , a Vossa seja
Assim na terra como no céu
Teu amor é nosso porto
O pão nosso de cada dia nos daí hoje
Nossas obras , o que vedes...
Perdoai as nossas ofensas,
Ainda que o não mereçamos
Assim como nós perdoamos
Nosso esforço te oferecemos
A quem nos tem ofendido
Nossos erros e enganos...
Não nos deixeis cair
em tentação
Senhor
, Tua mão pedimos, doce Pai de piedade
Bendito Sejais!
Livrai-nos do mal
Amen.

Maria José Rijo

 

 

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Jornal Linhas de Elvas

Conversas Soltas

Nº- 2.935 – 20-Setembro-2007

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publicado por Maria José Rijo às 02:31

Entretanto...

Terça-feira, 18.09.07

            Entretanto fui e voltei, no calendário novo S. Mateus se apresenta.

            Posso, deste meio tempo testemunhar como estava espantosamente fria a água do mar, no Algarve, este ano.

        E, posso reafirmar que sinto Fátima como uma lição viva de fé e, também, ou, talvez por isso, como um lugar privilegiado para se exercitar a tolerância entre as pessoas e o reencontro connosco próprios.

            Não sei se alguém consegue – mesmo lá – estar a cem por cento rezando o tempo inteiro. Digo rezar, sentindo em aguda consciência a mensagem do que interiormente a sós ou em conjunto se repete.

            Não refiro recitar orações de cor. Eu, não consigo.

            Quando dou por mim estou a olhar em redor observando e pensando em coisas já afastadas do ponto de partida.

            Corto a oração para aceitar agradecer o lugar que me dão. Volto a cortar de seguida para dar o que tinha recebido.

            Acomodo-me mal nalguma nesga de degrau entre gente que não conheço – nem conhecerei nunca.

            Encontro-me sem saber como ao lado de uma mulher de xale e lenço, farta “barba” negra nas pernas tostadas ao léu.

            Chinelo no pé, rosto corado e franco que transpira mais alegria de ali estar – do que suor, – e conta... Conta ou reza?! – Tem os três filhos já formados. Um médico, casado com médica, exercendo ambos em Coimbra. Outro e mais outro aqui e ali.

            Ao lado o seu homem, cúmplice feliz dum percurso já longo de vida – aquiesce, com a cabeça grisalha descoberta. Roupas asseadas de pobreza digna. Ambos, reparo, se benzem com suas mãos calejadas, unhas grossas encardidas, bem debruadas de peles gretadas e escuras.

            Ele permanece de pé.

            Eu observo... Ela exausta de cansaço e emoções vergada pelo calor do sol, abre o xale no chão e senta-se em cima.

        No meio da multidão aquela pequena clareira no chão de Fátima, é como que um altar de mãe, em honra da outra Mãe a que, naquele dia representações de catorze países estavam a render graças.

            Isto também é Fátima. Isto e tudo de Bom e puro que às vezes ainda conseguimos descobrirem dentro de nós.

            Estava eu a pensar no “nosso” S. Mateus e comecei a falar de Fátima.

            Umas coisas não andam tão longe de outras quanto, por vezes, nos possa parecer.

            Dizia que enquanto fui e voltei, entretanto – outro S. Mateus surgiu no calendário.

            Bendito seja pois o Senhor Jesus da Piedade – agora e sempre!

            Amém!

                              Maria José Rijo

 

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.368 – 20 Setembro 1996

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:11





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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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