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Ponto de Partida - X e última Emissão

Sexta-feira, 13.04.12

 

 

Termino hoje esta - quase – dúzia de conversas que até aqui tive com aqueles de vós que tiveram ou terão tido paciência para estar comigo. Não admira pois que tenha preocupação de o fazer com o máximo de beleza que me seja possível

Não admira pois que tenha escolhido para ler um texto exemplar de António Sardinha sobre Elvas e um soneto.

 

ESTA ELVAS

 

Com os seus baluartes, as suas torres, os seus eirados e o seu aqueduto. Elvas é para caminheiro que passa um apelo súbito às energias mais fundas da nossa sensibilidade. Qualquer dos grandes peregrinos literários de quem herdámos o veneno romântico do amor ao que se foi para nunca mais – Chateaubriand ou Barres, bem poderiam ter-se sentado à sombra das suas muralhas e ouvir, de coração encostado a eles, a marcha compassada do tempo, marcando o ritmo da eternidade. Em cada pedra borbulha aqui uma nascente heróica – uma estrofe solta de epopeia, a que a bênção serena das igrejas comunica doce tranquilidade da tristeza cristã. Verdadeiro sanatório para almas isoladas e insatisfeitas, Elvas tanto nos fala e prende á hora pérfida do crepúsculo, como levantada em glória entre halalis raivosas de cigarras, por um céu inclemente de Julho.

Frequento-lhe ás tardes a desesperança melancólica dos muros desertos, e é num círculo avoejante de fantasmas que, sonâmbulo, divago, sempre que me abandono ás vozes secretas que crescem dos fossos, que ascendem da terra, que se exalam, como ais de moribundos, dos fortins ao desmantelo.

Tem o seu ar de mesa de sacrifício a boa sentinela fronteiriça, erguendo-se, denteada, dum chão argiloso e enrugado, -- chão de cem batalhas, campo largo de holocaustos, ainda agora inapagados e gritantes. Mas, como um convento brando de freirinhas, para que em tudo Elvas repouse na dignidade das antigas necrópoles, as oliveiras cercam-na prateadas e reverentes, enchendo-lhe a paisagem adusta – paisagem só para profetas e soldados! – Dum inesperado perfume feminino.

Eu não contarei desta Elvas exilada dentro de si própria – dentro do colar cerrado dos seus baluartes, os longos diálogos  em que nós ambos – Elvas, a das torres  cismadoras e aguerridas, e eu, pobre pequeno Barbey de província, entretemos as demoradas ansiedades do nosso interminável desterro ! Nunca os meus lábios carnais se abrirão para que sejam dos outros as revelações que Elvas me confia, ou amortalhada na nupcialidade enregelante do luar de Inverno, ou reverberando as alucinações de fogo canicular.

Mas não me furtarei a denunciar o encontro de certo jardinzinho esquecido, que Elvas traz ao regaço com um carinho cioso, jardinzinho

de buxos agonizantes e marmóreas urnas versalhescas, onde Beckford conversou com o abade Correia da Serra, que parece ter conhecido a presença de Lord Byron á sua passagem para Espanha. No sussurro da fonte lastimosa, no trato cortesão das laranjeiras, com montanhas azulinas na distância, na rusticidade dos branquinhos de idílio confidencial, que admirável fundo de leque, em que os meus olhos se deliciam, sonhando com açafatas, leves como asas – sonhando com uma «cabra-cega» dourada, fútil, palaciana! Depressa, porém, a fantasia se esvai – depressa se esvai esse rebanho fluidíssimo de Watteau! E na noite que desce – na penumbra que improvisa caprichosos motivos de indecisão e de assombro, Elvas, com a Cruz e a Espada, proclama bem alto a sua genealogia de cidadela infranquiável, que venceu o combate dos séculos e, por sobre a seara ceifada das gerações, desafia ainda agora a face vítrea da morte.

Abismo-me com a fortaleza na treva que avança. O aqueduto, exausto duma galopada que dura há centenas de anos, aquieta-se no escuro como a carcaça inconcebível dum monstro das primeiras idades. Só os sinos, riscando a passagem das horas, acordam nos ecos suspensos a ressonância dos grandes momentos extintos – rebates de assédio, embaixadas entrando, o senhor bispo de «Hissope» chorando convulso, a Câmara que se ostenta, de vara na mão, atrás de S. Jorge emplumado e encouraçado. Esta Elvas! … Esta Elvas! … Como um cemitério que se agita, cobrindo-se duma população repentina e variada, que infindável maré ondulante de espectros, que estranha poeira de sortilégio, animando-se dum vigor comunicativo!

Há vultos familiares – vultos que se assinalam á minha pupila estática por um traço de humana afinidade – de espiritual parentesco. Eis João de Laboeira, o rico mercador, alinhando a história enternecida de Amadis cavaleiro perfeito, que, se não fraquejava em frente de gigantes e dragões, desmaiava de amor ao avistar Oriana, sua senhora. Aquela de murça e lento gesto canónico é o bom Aires Varela, que nos pôs Homero deambulando pelos arvoredos de Elvas e aqui colocou os fabulosos Campos-Elisios das beatitudes da Antiguidade. Depois, buscando hervas e estampando flores, surge Garcia da Orta, amigo de Camões e douto como os que o eram.

Esta Elvas! … Esta Elvas! …

A noite morre, o dia rompe, outra vez vem, outro dia morre – e Elvas, igual á essência eterna da Vida, com os seus baluartes, o seu aqueduto, as suas igrejas e os seus eirados, continua sendo um apelo súbito ás forças que dormitavam dentro da nossa sensibilidade. Só os homens não entendem a calada linguagem da fortaleza, saída da mesma forja de que saiu, veemente e nobre, a raça de que nós hoje somos os vis bastardos. Perpétuo exílio – incompreendido destêrro! Sinto-lhe eu toda a dor sem nome, todo o peso enigmático e fatídico.

Esta Elvas!... Esta Elvas!...  E refugio-me no tal jardinzinho versalhesco e discreto, com serranias azulinas a distância. Aflui-me então do coração á boca, como uma bebida amarga, uma velha canção francesa. E como um responso rezado a mim próprio, as urnas de mármore e os banquinhos de idílio confidencial soluçam mansamente comigo:

Nous n’irons plus au bois,

Les lauriers sont coupés!

Setembro, 1924

(De  de  Vitae et Moribus)

………………………………………….

Agora o Soneto


Elvas ao crepúsculo

 

Sobe da terra a confusão antiga,

Sobe da terra e avança p’ra muralha.

Suspenso, quieto, o coração que diga

Toda a tragédia que ela acorda e espalha!

 

Das coisas mortas, com mortal fadiga

A sombra fez destroços de batalha …

Sobe da terra a confusão antiga

E aperta nos seus braços a muralha.

 

E a noite cai! Sinistro e resoluto,

Caminha a passos firmes o Aqueduto,

Como quem vai marchando p’ra a escalada

 

Rendeu-se a Fortaleza! … Inda um momento

Pairou desfeito o seu perfil cinzento,

E só ficou a treva sobre o nada

 

……………………………………….

 

Apetecia-me terminar aqui, mas sinto que vos devo ainda umas palavras, porém como as minhas ficam sempre aquem de quanto queria dizer vou ler um belo poema de Almada Negreiros, este poema começa com um poema de Henri Matisse que vou traduzir livremente:

 

Trabalho o mais e o melhor

Que posso em cada dia,

Faço o meu melhor, depois

Se o que resultou não é bom

Eu não sou responsável,

É só porque eu não sei fazer melhor.

 

A Flor    

    

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Uma numa direcção outras noutras; umas mais carregadas outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas ás pessoas: Uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz Uma flor!

………………………………………

 

Queria que acreditassem, que tivessem podido sentir, que estive sempre aqui como Matisse pintava. Que persegui a poesia como a criança perseguiu a flor.

Até porque procurei seguir a lição de Rilke, um dos poetas que mais me apaixonam, vou citar:

 

           

Experimente dizer como se fosse o primeiro homem o que vê, o que vive, o que ama, o que perde.

Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o aflorou, a sua fé na beleza, diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize para se exprimir as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações.

Se o quotidiano lhe parecer pobre não o acuse, acuse-se a si próprio, de não ser bastante poeta para conseguir aproximar-se das suas riquezas.

………………………………………………….

 HPIM1064

Se não vos conquistei é da minha pobreza que me desculpo, porque tal como a Criança,

eu sei, ter perseguido as linhas com que Deus faz uma Flor.

 

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:06

Ponto de Partida - IX Emissão

Sábado, 31.03.12

 

Estas conversas à roda do Alentejo, poetas e poesia e quanto mais me tem calhado … estão quase a terminar – por agora. Razão bastante, a meu ver, para voltar a insistir na importância que tem como documento, como testemunho duma época (para além da beleza implícita na sua forma) qualquer expressão de arte em geral; seja ela poema ou prosa, pintura, música, cinema, cante, teatro, etc, etc,.

Quem sabe se com o rodar dos anos o tempo e as necessidades dos homens tiverem alterado muito da fisionomia de Elvas não serão também alguns quadros do Chico Pereira, do Cadete ou do Jesus e de outros…

Quem sabe se não serão fotografias de João Carpinteiro e de outros… que hão-de servir de suporte para ilustrar no futuro, como o são hoje os belos cantos e recantos de ruas e muralhas, os costumes, os gostos das nossas gerações? … Até ás vezes uma simples cantiguinha, uma quadrinha, uma quadrinha de mal dizer como essa que se cantou:

 

Já Elvas não é cidade

Nem vila lhe chamarão

Já os Arcos da Amoreira

Deram consigo no chão.

 

Fazem um apontamento na história, levanta uma pista!

 ……………………………………….

Quando a técnica e o progresso afastarem por inúteis muitos dos nossos hábitos, como já os super – mercados e os centros comerciais asfixiarem as velhas mercearias e quando as lojas dos senhores fulanos e senhores beltranos que conheciam os nossos gostos, e precisões como se família nossa fossem.               

………………………………………….

Então, será o quadro – a fotografia – o filme – o poema, a crónica de jornal, a reportagem, a canção que hão-de mostrar, contar coisas tais que, se ditas agora, fariam rir …

………………………………….

Tudo se há-de saber até à minúcia da ternura com que se dobra uma saca no chão para que nela se deite o cão ou o gato”coitadinhos” (porque o chão é duro e frio).

Tudo se há-de saber até à minúcia o que o povo usa para lavar, limpar, engomar, remendar, caiar e fazer por suas mãos a rendinha com que apura o esmerado asseio da sua casa (só porque gosta de ver!)

Enfim, será pelo testemunho dos intelectuais e artistas que toda a pequena história da nossa vida – e do nosso amor por ela há-de ser colectada na história desta cidade e, por aí adiante até somar a história do povo que somos

…………………………………

Sempre assim foi, aliás.

A história ergue-se sobre os documentos que de cada época vão ficando. Por isso, é tão importante a conservação, o respeito por tudo que tem significado na memória dum povo.

Por tudo quanto documenta a passagem de outras gerações e dos seus costumes e tendências – o azulejo – a pedra – o livro – o jornal – a cerâmica – a árvore – o cereal – a casa – o traçado da rua – a calçada – o instrumento de trabalho – o vestuário – com tudo isso se escreve a História dos povos.

………………………………….....

É altura de fazer uma funda incursão no tempo e ler hoje poesia de Alentejanos dos fins do séc. XV e princípios do séc. XVI.

Vou recordar extractos da écloga de Jano e Franco – escrita por Bernardim Ribeiro que nasceu na vila alentejana do Torrão em 1482 e morreu em 1552.

Bernardim Ribeiro foi escrivão da Câmara de D. João III.

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Sempre vou lembrar que as éclogas eram poesias pastoris quase sempre em diálogo e narravam edílios românticos.

 

Écloga de Jano e Franco

 

Dizem que havia um pastor

antre Tejo e Odiana,

que era perdido de amor

per  ua moça Joana.

Joana patas guardava

pela ribeira do Tejo,

seu pai acerca morava,

e o pastor, do Alentejo

era, e Jano se chamava.

 

Quando as fomes grandes foram,

que Alentejo foi perdido,

da aldeia que chamam o Torrão

foi este pastor fugido.

Levava um pouco de gado,

que lhe ficou doutro muito

que lhe morreu  de cansado;

que Alentejo era enxuito

d’água e mui seco de prado.

           

Toda a terra foi perdida,

no campo do Tejo só

achava o gado guarida:

ver Alentejo era um dó!

E Jano, para salvar

o gado que lhe ficou,

foi a esta terra buscar;

e um cuidado levou,

outro foi ele lá achar.

 

O dia que ali chegou

com o seu gado e com o seu fato,

com tudo se agasalhou

em ua bicada de um mato.

E levando-o a pascer,

o outro dia, a ribeira,

Joana acertou de ir ver,

que  andava pela beira

do Tejo a flores colher.

 

Vestido branco trazia,

um pouco afrontada andava;

fermosa bem parecia

aos olhos de quem a olhava.

Jano, em vendo-a, foi pasmado;

mas, por ver que ela fazia,

escondeu-se antre um prado;

Joana flores colhia

Jano colhia cuidado.

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Não é interessante que através dum poema de época tão remota se saiba como já era angustiante o problema da falta de água no Alentejo.

…………………………………….

Mas já que estamos com a mão na massa adiantemos um pouco mais sobre este poema do autor da tão célebre novela “ Menina e Moça “.

 ……………………………………….

É que nesse tempo eram líricos e românticos os poetas. Todo o pendor das suas obras era para o devaneio saudoso, para as paixões infelizes, impossíveis – para a melancolia.

Estados de alma de que os poemas de então falam com deleite.

Gostosamente se saboreava a dor de amor e a nostalgia como benditas ofertas dos deuses, com doce manjar.

Cantava-se com enlevo a natureza e contrapunha-se à sua pujante vida as mágoas de ser gente. Que, ser gente, parecia apenas ser dono da oportunidade de sofrer de amor. Antes de amar as pessoas podiam ser alegres, felizes como a natureza que as rodeava. Os males vinham depois que o amor aparecia …

Da écloga de Jano e Franco vou ler extractos para exemplo de como eram contados martírios de amor:

  

Não cuides que minha dor

Me dá repouso em dizê-la

Que tanto mais cuido dela

Tanto ela é maior

E eu, mais contente dela.

…………………………………………

Um fragmento para exemplo de fatalismo:

           

Dentro do meu pensamento

Há tanta contrariedade

Que sendo contra o que sento

Vontade e contra vontade

Estou em tamanho desvario

Que não me entendo comigo

Ou ainda:

Na grande desventura

Não há mais que aventurar

Que deixar tudo à ventura

 

Ou; mais um pouco:

Mesquinho pastor perdido

Quanto melhor já te fora

Não ser no mundo nascido

 

Ou a afectação palaciana o trocadilho:

Maria bem olhava

Com que cuidou que valia

Não valia o que cuidava

 

Ou mais claro ainda:

Joana flores colhia

Jano colhia cuidados

 

E … já que recuámos tanto no tempo aproveitemos para falar de outro escritor alentejano dessa época –

Cristóvão Falcão natural de Portalegre. Viveu entre o séc. XV e XVI,1515 a 1557.

Foi moço fidalgo do Rei Piedoso D. João III e é célebre a sua écloga “Crisfal” 

Cris de: Cristóvão e Fal de: Falcão (como parece poder deduzir-se)

Nela conta como passado entre pastores a triste história dos amores da sua vida.

Parece que muito novo teria casado secretamente com Maria Brandão de 12 anos de idade e viu o seu casamento anulado a pedido da família da menina que ao ter conhecimento do facto a encerrou num convento donde mais tarde a tiraram para então a casar a seu contento

Cristóvão Falcão esteve também encerrado 5 anos no Castelo de Lisboa – Talvez por causa  do dito casamento. Não sei! Foi lá que escreveu a famosa écloga da qual vou ler também apenas alguns fragmentos mais significativos para a história que contei.

 

Antre Sintra, a mui prezada

e serra de Riba-Tejo

Que Arrábida é chamada,

perto donde o rio-Tejo

se mete na água salgada,

houve um pastor e uma pastora

que com tanto amor se amaram

como males lhes causaram

este bem, que nunca fora,

pois foi o que não cuidaram

 

Ela chamavam Maria,

e ao pastor Crisfal

ao qual, de dia em dia,

o bem se tornou em mal,

que ele tão mal merecia.

Sendo de pouca idade,

não se ver tanto sentiam,

que, o dia que não se viam,

se via na saudade

o que ambos se queriam

E, com quanto era Maria

piquena, tinha cuidado

de guardar melhor o gado

o que lhe Crisfal  dizia

mas, em fim, foi mal guardado

 

E mais adiante:

A qual logo aquele dia

que soube de seus amores

aos parentes de Maria

fez certos e sabedores

de tudo quanto sabia

Crisfal não era então

dos bens do mundo abastado

 

Ou ainda um pouco mais:

Então descontentes disto

levaram-na a longes terras

esconderam-na  antre serras

onde o sol não era visto

e a Crisfal deixaram guerras

Além da dor principal

para mor pena lhe dar

puseram-no em lugar

mau para dizer sem mal,

mas bom pêra o chorar …

 

 ………………………………………….

 

E por aí fora ao longo de dezenas de estrofes a história dos seus amores infelizes vai sendo narrada sob a forma de diálogos entre pastores e pastoras, cheia de belas imagens de afectação palaciana, fatalismos e trocadilhos graciosas até terminar deste modo:

 

O que se fez de Crisfal

não sabe ao certo ninguém

muitos por morto o tem

mas quem vive em tanto mal

nunca vê tamanho bem.

 

……………………………………………

Fins do século XV …

Princípios do séc. XVI.

Por essa mesma era Garcia de Resende natural de Évora que viveu entre 1470 e 1536 – que  foi o compilador do cancioneiro geral e secretário  particular de D. João II – assim falava ou cantava talvez ( pois diz-se que cantava muito bem )  sobre a festa de acolhimento que em  Elvas  se fez em 1525 á irmã do imperador Carlos V, D. Catarina, que por esta cidade entrou como noiva do rei D. João III – de  quem Garcia de Resende também gozou os favores:

Vimos o seu casamento com a irmã do imperador.

Vimos tan gran ajuntamento em Elvas

Tanto Senhor que falar em mais evento

5.000 em cavalgados grandemente ataviados  muito ricos, muy galantes com os senhores infantes na Maia foram juntados.

O ouro, a pedraria, carrotilhos e bordados, as perlas, a chaparia, os forros, os esmaltados não tem conto nem valia. Em Estremoz, nunca tal pau se juntou, Deus assim os conformou que em tudo se conformaram.

………………………………………

Séc. XVI –  que fundo nos tempos !...

Que era distante ! …

……………………………………….

Por essa mesma era – 1502 Elvas crescia …ganhando a sua misericórdia…

Por essa mesma era – 1513 Elvas ganhava foros de cidade.

Por essa mesma era, surge o ano de 1537 o 1º dos quase 100 que o Aqueduto levaria a construir …

Poderia então ter-se contado:

Já Elvas não será vila

Cidade lhe chamarão

Já os arcos da Amoreira

Se vão erguendo do chão …

 

……………………………………….

 

Por essa mesma era 1524 a1580 viveu Camões – o primeiro entre os primeiros – o príncipe dos poetas de Portugal.

Camões que teve para contar, cito:

 “ A história daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”.

A História do povo que deixou a rabiça do arado e segurou o leme das Caravelas

“ por mares nunca dantes navegados” e espantou o mundo com os descobrimentos …

a história do povo que fomos …

E, agora … que povo somos?

Possa cada um de nós, ser tão-somente: justo, bem, honrado e trabalhador:

E a história falará sem vergonha dos Lusíadas que continuamos a ser …

 

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 23:48

Ponto de Partida - VIII Emissão

Sábado, 24.03.12

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Talvez porque a minha consciência de ser se confunde com a consciência de ser alentejana,

gosto de vir hoje lembrar Francisco Bugalho de quem Régio disse:

 

“ O rodar dos anos, a dança das estações a sucessão dos dias,

a volubilidade dos instantes – coisas são, que os sentidos

do poeta apreendem  e fixam, sobretudo nos seus mais subtis

cambiantes, direi um pouco à maneira de um impressionista

poeta”.

 

Querem ouvir poemas de Francisco Bugalho?

Eu leio alguns:

 

GANHÃO

 

Minha junta vai puxando

Morosa, lenta, cansada;

Que a leiva que vai virando,

Vai ficando bem virada.

 

Passam dois corvos grasnando

E à minha volta mas nada

 

A relha que rasga a terra,

Rasga e beija docemente,

- Breve se acaba esta guerra,

Só de semear a semente.

 

Nos vales de terra molhada

Piam os abibes em bando

 

E a leiva sobe na aiveca

E vai ficando tombada,

Ao seu feitio moldada

Sobre outra leiva já seca

 

 

Minha junta vai puxando

Pesada, lenta, cansada…

 

Ao fundo, no horizonte,

Só um sobreiro pasmado;

Nem um ruído de fonte,

Nem um chocalho de gado…

 

Nem algum cantar perdido

De certas horas felizes,

Só conta no meu ouvido

Este estalar de raízes.

 

A leiva que vou virando

Vai ficando bem virada…

 

QUEIMADA 

Lenta, ondulante, latente,

Fulgurante ou decadente,

A longa queimada vem,

Na faixa do horizonte.

 

Avança desde o poente

Enche a noite e cala a fonte.

 

Tudo se cala, se encerra,

Em volta, na escuridão,

Toda a paisagem se aterra,

Não há estrela na amplidão:

-- Que o lume, raso da terra,

Matou-lhe a cintilação.

 

Há cheiro a palha queimada,

A matos secos ardendo,

Gritos soando, na noite,

Á caça, louca, correndo,

Sem saber onde se acoite,

À espera da madrugada.

 

E a minha noite é toldada

Deste trágico fulgor.

Não sei que vago amargor

Surge de nada pra nada;

-- Parece trazer-me dor,

Ardendo, em mim, a queimada.

 

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TOSQUIA

 

Rente, rente, rente

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Vem do campo, em volta,

Mágico fulgor

De aroma, que solta

O feno, inda em flor.

Aperna-se o gado,

Pra tirar-lhe a lã.

Ficou encerrado

Desde esta manhã.

 

Rente, rente, rente;

Que a tesoura corta

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Um halo de neve,

Espuma ou algodão,

Envolve de leve

As reses no chão.

 

Na luz forte, em roda,

Zumbem as abelhas.

E há balidos soltos

E tristes, de ovelhas.

 

E ao soltar aquelas,

Livres, já, dos velos,

Parecem gazelas,

Em saltos singelos.

 

Rente, rente, rente,

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta.

 

Não é verdade que alguns  destes poemas sugerem música ou até pintura?

……………….

Francisco Bugalho

que teve lavoura em Castelo de Vide onde se radicou,

foi conservador de registo predial e morreu em 1949 com 44 anos – nascera no Porto em 1905.

Tornou-se um poeta do Alentejo porque amou e entendeu as nossas paisagens e costumes.

……………………

 

Que o Alentejo – como já li algures é como que uma Pátria dentro de outra Pátria.

 

E, eu que venho lá de outra parte do Alentejo imenso quente e nu – da terra da cor do barro, cor de

.....................

carne viva; que cresci ao som de palavras que entendi,

quentes e gostosas como chaparro --  tarro – seara – almeara – restolho –

palavras que o alentejano arrasta, como se arrasta a ansiedade

da sua alma de homem solitário que tem pudor de rir,

recordo os seus cantos esses mágicos prantos –

única brecha por onde se vislumbra a sua vida interior…

Assim, por lá, havia cantigas quase sobre tudo quanto acontecia. 


..........................

Desavença de namoro (por exemplo) originavam algumas como esta:

Ó José ou Manuel ou … se acaso queres

a tua roupa lavada

paga a uma lavadeira

que eu não sou tua criada …

 

Eu não sou tua criada

Eu não sou criada tua

Ó José se acaso queres

Pega a roupa e vai p’ra rua.

 ...............................

Isto – porque era de bom-tom as noivas cuidarem dos noivos para provar

a sua aptidão para o casamento.

…………………….

Sobre a possível separação de apaixonados pela morte e a esperada felicidade para além túmulo.

Esta :

Fui-te ver estavas lavando

Na ribeira sem sabão

Lavas-te em água de rosas

Fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão,

Fica-te o cheiro no fato.

Se eu morrer e tu ficares

Adora-me o meu retrato.

Adora-me o meu retrato

Vai-me ver a sepultura.

Se eu morrer e tu ficares

Adora a minha figura.”

………………….

 

Outro exemplo – mas desta vez á cerca da curiosidade que, sempre suscitava em meio

 tão pequeno a mudança de hábitos de qualquer rapariga nova:

 

Estando eu muito bem sentada

A gozar do fresco sem ser adorada,

Olha as calhandreiras a quererem saber

Dos amores novos

Que estão para haver

 

( Calhandreiras à é o que aqui na região se designa como vateiras).

……………………

Era uma aldeia pobre de gente simples, onde a fora o ferreiro, o dono da moagem, os sapateiros, os donos das vendas (pequenas mercearias onde mais se vendia vinho do que géneros), o barbeiro, o abegão, toda a gente trabalhava nos campos em redor, que eram propriedade de 2 ou 3 lavradores de quem todos dependiam economicamente.

Como excepções contavam-se as professoras primárias.

Não havia padre, nem médico.

Os velhos tornavam-se mendigos e as velhas lavadeiras -

enquanto era possível depois, faziam mezinhas, benzeduras, “aparavam”, como lá se diziam

as crianças que nasciam e eram respeitadas e temidas como bruxas, mas como é lógico acabavam a mendigar.

Um dia caí, magoei-me num braço e, uma delas (protegida de minha Mãe)

socorreu-me e benzeu-me mais ou menos assim:

 ..........................

Eu te coso por carne quebrada e nervo torto

Melhor cose a Virgem – que eu coso

A Virgem cose por vão, eu coso o osso.

Em louvor de Deus e da Virgem Maria

Padre-nosso e Ave-maria! “

 

Talvez pelo medo que dela tinha – fiquei curada!         

………………………

Fala-se à boca pequena de maldições sobre caminhos e encruzilhadas onde havia quem jurasse dançavam lobisomens ao bater da meia-noite com almas do outro mundo.

…………………….

E, se é verdade que a ignorância permitia o pulular de histórias fantásticas, de desconfianças e pavores tais, que, por vezes, terminavam em cenas de facadas ( de mortes até) nas tardes de festas e domingos em que o  jogo da malha era pago em copos de vidro – que exaltavam os ânimos e libertavam os instintos – também é certo que cada um em seu oficio e arte era perito e disso se gabava com ingénuo orgulho!

Eram as mulheres que mondavam, não sei quantos regos da seara ao mesmo tempo …

Eram os homens que atavam molhos de trigo, não sei de que jeito …

Eram os que charruava o alqueive como ninguém.

Eram peritos no varejo da azeitona.

Eram os cortadores de lenha que a empilhavam em medas de forma geométricas exactas empiramente encontradas …

Eram os tosquiadores que deixavam borlinhas, marcas e desenhos no dorso dos animais.

Eram os tiradores de cortiça, os homens da limpeza do arvoredo, os das matanças, os das rouparias, os hortelões.

 

Era toda uma cultura rural, virada para o prático, o necessário, de utilidade incontestada que faziam daquela aldeia – daquelas pequenas aldeias de há 50 anos – colmeias vivas onde cada um era obreiro, fazia o que sabia porque cada um sabia o que era preciso fazer e onde até a crueldade aparecia como uma natural luta de sobrevivência e nunca como indicio de falta de carácter. Os homens batiam nas mulheres e esfaqueavam os rivais porque eram homens – as mulheres obedeciam porque as fêmeas deviam ser pacientes, resignados e humildes …

…………………….

 

Era o Alentejo tragédia da terra fecunda como um ventre macio.

……………………….

 

Era o Alentejo que Armindo Rodrigues, que é natural de Lisboa, onde nasceu em 1904 mas que é de ascendência alentejana e tem uma obra poética reunida em 14 volumes publicados entre 1970 e 1978, referiu assim em:

Motivos Alentejanos

Os sobreiros sonham

sonhos desvairados,

que só os pastores

e as pedras suspeitam

 

Sonham que são livres

e vão pelo mundo,

com raízes de água

e cabelos soltos

 

No céu por lavrar,

as nuvens são cardos

e o sol milhafre

que esvazia os olhos.

 

Dos sonhos só resta

a angustia que os ousa

A angústia é concreta

Os sonhos são sombras.

 

Seguros á terra

com garras de bronze

os sobreiros sonham

impossíveis rumos.

 

Arde o Sol

A terra cheira

a pão mole,

a vinho, a poeira.

 

Na vastidão contrita,

com moinhos erectos

cada pedra medita

e os próprios sonhos são objectos.

 

Encharca-me a pele

um suor paciente

Um gafanhoto cor de mel

salta mecanicamente

 

O ar sufoca.

É uma fornalha, o dia.

Até a boca

me sabe a melancolia.

 

Lento, canta um pastor,

Guardando gado.

Do tronco de um sobreiro degolado              

corre um sangue que empapa o chão em flor.

Lento, canta o pastor,

guardando o gado.

 

Desabrocham-lhe cravos do cajado,

cheira-lhe o corpo a cio e a urina,

soltam-lhe aves do olhar estagnado

O sol é um bolo encarnado,

com inocências de menina.

 

De amor,

estão as pedras ofegando,

adormecem borboletas no ar brando,

um fio de água geme num valado.

Lento canta um pastor,

Guardando gado.

 

……………………

 Era – é o Alentejo dos dias de calma sufocante onde nem pássaros cantem e só a cigarra cante

É o Alentejo de Inverno, frio, arrepiante onde só um ventinho cante

É o Alentejo de sempre onde o silêncio mais a solidão geram o Pão em bebedeiras de luz.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:18

Ponto de Partida - VII Emissão

Sexta-feira, 16.03.12

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O Poema que vou ler é, talvez demasiado triste.

Talvez!... Porque também a vida às vezes parece poder ser apenas triste… mas, se pensarmos que o seu autor – José Duro – que como se sabe era natural de Portalegre – não chegou a viver 30 anos – pois nasceu em 1873 e morreu em 1899 – se o pensarmos… então talvez o possamos entender e, aceitemos até – que o seu único livro se tenha intitulado “Fel”.

Tanto mais que sabemos que antes de ser de Fel o gosto que lhe deixava a vida, ele se estreara como escritor com um folhetozinho intitulado “Flores”.

           

Lugar então para José Duro em:   

   “Doente”

 

Escrevo e choro, dói-me a alma, tenho febre.

Não sei a quantos graus - Calor insuportável;

- Moderno Lázaro! - oh! Que vida miserável!

Eu vivo aqui doente e só no meu casebre

 

Agora compreendo a dor de não ter Lar

E a dor de viver só, desventura tamanha!

É ser mais triste do que os cardos da montanha,

As urzes do caminho e as noites sem luar…

 

Meus tempos de criança! e fui fadado assim!

A minha mocidade é como que um deserto;

Não creio que haja alguém que possa amar-me,enfim

E Deus, se Deus existe, odeia-me decerto…

 

Confesso que estou pronto, e, se me vejo ao espelho…

-- Desceram-se-me á boca em risos de desdém…

Imagem do que fui, -eu nunca fui ninguém –

E, ò má fatalidade encontro-me hoje um velho,

 

Cravou-me a Dor na face, as rugas do desgosto,

Meus olhos de chorar vão-se tornando cegos,

E quando os chamo a ver aquilo que dá gosto

Escondem-se na treva, assim como os morcegos…

 

Dilui-se-me  o pulmão e sai-me pela goela

Á força de tossir bastante enrouquecida,

E se ainda vivo assim é porque a minha vida,

Amarga como é, não posso dispor dela.

 

Porque a verdade é esta: a vida que se arrasta

Do nada até à flor, do verme até a pedra,

É sempre a mesma vida incómoda, nefasta…

Que a Dor do Universo em toda a parte medra.

 

Assim talvez um dia eu que prefiro a Lua

A tudo quanto é bom, a tudo quanto é são,

Me torne por destino em pedra duma rua,

Que a multidão acalque, a doida multidão.

 

Talvez eu venha a ser a flor de um cemitério;

A estrela do Azul, a areia do Oceano;

A vida não tem fim como o Destino humano,

E se o Não-ser é tudo, o Nada é um mistério…

 

E eu que era, noutro tempo, enérgico, robusto,

Quando no meu jardim floriam as roseiras,

Padeço horrivelmente, já respiro a custo,

E a minha tosse lembra a reza das caveiras…

 

Quem sabe lá !talvez nas grutas do meu Ser

A Morte, agora esteja abrindo algum jazigo…

E os vermes por desgraça escutem o que digo,

Vivendo dentro de mim sem eu os perceber.

 

Que negro mal o meu! Estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco, virgens de olhar cálido…

E os velhos quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si:- -- Coitado, está por pouco !...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço…

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente.

Adoro como Põe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror ás multidões.

 

E amando doidamente as formas incompletas

Que ás vezes não consigo, enfim, realizar.

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e de uma dor qualquer,

Meus sonhos de nervrose horrivelmente histéricos…

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Boudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas…

E aos lábios da Mulher, a desfazerem-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ansiar de mórbidos desejos.

 

E é em vão que medito. E é em vão que sonho!

Meu coração morreu, minha alma é quase morta…

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra á minha porta…

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança! -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as tímidas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao doutor: - Então?... – Hei-de curá-lo…

Porém já não me importo, é bom morrer e deixá-lo!

Que morrer – é dormir´...dormir… sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste,

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O Poeta nunca morre embora seja agreste

A sua inspiração e tristes os teus versos.

 

Li todo o poema – porque ele é em si como que uma amarga biografia e o meu intento é fazer que os poetas, especialmente os do Alentejo – sejam menos estranhos para nós.

Ouvindo esta confissão estivemos ao lado do pesadelo de quem sofreu ou de quem sofre aguilhoado a uma doença incurável e talvez possamos perceber melhor como ás vezes o desespero ou a angustia nos parecem as posições mais legítimas – as únicas possíveis!

 

 Porém, se a dor é legítima, temos que saber e acreditar que também é bem legítima a esperança.

 

Temos que sentir que:

 

Todos os dias amanhecem

 crianças,

 pássaros,

 e flores!

 - e por sobre a noite

 das crianças,

 pássaros,

 e flores,

que já não amanhecem

 Amanhecerá !

 

Vamos pois deixar  entre em nós toda a beleza da poesia de  José Régio --  a quem para ser considerado poeta do Alentejo  -- bastaria  a sua “Toada de Portalegre” .

Vamos abrir as janelas – olhar os longes – deixar que a Primavera que se avizinha – nos acene no amarelo perfumado das mimosas em flor!

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 CÓPIA DO ORIGINAL ESCRITO PELA MÂO DE RÉGIO

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Que importa que Régio tenha nascido lá longe perto do mar, em Vila do Conde no ano de 1901?

Que importa que tenha sido desde 1929 o professor Reis Pereira do Liceu de Portalegre?

Que importa que tenha morrido na sua terra em 1969? - Que importa?

Quando alguém consegue contar desta maneira o que lhe vai na alma
– deixa de ser de aqui ou de acolá – passa a ser apenas – Poeta – e, neste caso, por graça de Deus –

e ventura nossa: -- Poeta Português. 

 

 

   Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:37

Ponto de Partida - VI Emissão

Sexta-feira, 09.03.12

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Ora acontece que ao querer hoje trazer aqui à conversa poemas do Conde de Monsaráz

 que como se sabe era filho duma ilustre família alentejana me recordei que há mais de 30 anos

quando morava na rua de Olivença presenciei uma história engraçada.

 

Durante algum tempo todas as tardes, mais ou menos à mesma hora um rapagão fardado de
soldado entrava na “Travessa das Pardelhas” a assobiar a mesma cantiga.
Caminhava devagarinho e, depois começava a trautear:

 

A flor do carapeto

Tenho eu na minha horta

Pede à tua mãe com “jêto”

Para falares comigo á porta

 

Invariavelmente a rapariga visada assomava à janela com um sorriso aberto de orelha a orelha mas,
não o olhava – antes fingia não o ver, recolhia-se e, já de dentro de casa
respondia cantando na mesma música:

 

Minha vida são castanhas

Cozidas num alguidar

Já conheço as tuas manhas

Não me venhas enganar.

 

Não sei se deste
ingénuo esboço de namorico ensaiado a cantar com quadras populares onde a
poesia sempre, mais ou menos mora, saiu alguma coisa mais do que a prova
evidente da anedota que se contava naqueles tempos de namoros à antiga.

-- O que faz um “magalinha” debaixo da janela?

-- Namora a sopeira!...

 

Não sei, nem é preciso saber!

 

Sei que quase todos os rapazes que então faziam a tropa como soldados eram trabalhadores rurais.
Eram homens como esses outros que naqueles anos de 1852 a 1913 – que foi quando viveu o

Conde de Monsaraz -- o inspiraram.

Assim nos deixou recortadas na sua poesia parnasiana figuras, situações e paisagens que são de
todos os tempos aqui no Alentejo. Senão vejamos títulos de poemas seus:

. “As mondadeiras”

.. “o semeador”

.. “o cavador”

..”no monte”

.”os bois”   , etc etc.

 

Vou ler por exemplo o cavador:

 

Sol-posto. Enxada ao ombro, para aldeia

Volta da cava, taciturno e lento,

O velho cavador. No espaço anseia.

Uma angústia febril, na ânsia do vento...

Vem morto de fadiga e sofrimento;

Cai na vasta paisagem que o rodeia

Frio e noite; Vão dar-lhe paz e alento

A mulher andrajosa e a magra ceia:

           

Comem ambos agora ao pé do lume...

Toda a sua ventura se resume

Na comunhão dessa hora benfazeja.

          

A mulher, finda a ceia, num conforto,

“ Louvado seja Deus”, murmura, e absorto,

Responde o cavador: “ Louvado seja!”       

           

Claro que não vou aqui prender-me com explicações sobre Parnaso – que era afinal

um monte da Antiga Grécia consagrado a Apolo e ás musas.

Todos mais ou menos têm ideia de que as musas eram deusas que sob o mando de

Apolo presidiam às ciências e às artes inspirando os poetas.

De Parnaso deriva a designação de parnasiana dada à poesia que acima de tudo

procurava a perfeição da forma, a descrição correcta. Depois disto, que mais poderia

eu dizer? - Que este movimento surgiu como reacção ao lirismo romântico – que como se deduz o
antecedeu? – Mas, eu sou apenas uma dona de casa – falando para pessoas com
interesses prementes do dia a dia iguais aos meus e portanto só poderia tratar
estes assuntos pela rama – como desde logo preveni.

E, se é verdade que estou aqui para falar de livros isso deve-se apenas –

a ser esse um vício que tenho e frontalmente confesso.

Se para alguém isto parecer doença... melhor fora que se deixe contagiar –

que esta doença não mata...

Um livro lê-se e relê-se todas as vezes que se quiser... um cigarro só se fuma uma vez e
fica a fazer mal todo o tempo que um livro dura – uma vida.

Já li que alguém dissera:

Ler é o mais belo vício do mundo!”

 

Para quê então perdermos a oportunidade de ser um “mais qualquer coisa” – nesta era de
competições?”

 Vou então ler:

 

Tragédia Rústica do Conde de Monsaraz:

 

Quando o sino batia

As doze badaladas do meio-dia,

O trabalho parava.

E todo o bom católico rezava,

De cabeça inclinada e olhos no chão,

Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria,

Com o chapéu na mão.

Logo a seguir comia.

Avidamente, esvaziando o tarro,

O seu magro jantar;

E  estendendo-se ao pé duma azinheira

Petiscava o fuzil na pederneira,

Acendia um cigarro

E punha-se a fumar.

Naquele dia um dos ganhões – o Grenha,

Ao largar o trabalho,

Sem rezar nem comer,

Toma por um atalho,

Que atravessa o montado e que vai ter

À ribeira da Azenha,

Onde lava a Rosária, essa magana,

Que ele ama e que o engana.

 

O dia está soalheiro

E as árvores parece

Que a natureza, que as despiu primeiro,

Agora tem dó e as aquece.

 

Pelas terras lavradas,

À cata das minhocas indolentes,

Saltam subtis, contentes,

Debicando, as arvéolas delicadas.

 

Do azul sereno sobre os olivais

Caprichosas revoadas

De tordos zorzais.

Baixam, de quando em quando,

Famintos, à procura

Da azeitona madura.

 

O Grenha vai nervosamente andando,

Sem saber ao que vai:

Vai, porque se não for

Falta-lhe o ar, e o coração no peito

Rebenta-lhe de dor.

 

--- “O mal que esta maluca me tem feito

Para me desgraçar!

Como um cachorro andei-lhe sempre ao jeito.

Que eu não via outra luz,

Nem tinha outro pensar...

Engana-me e despreza-me e – Jesus! –

Talvez que eu vá morrer numa cadeia,

Mas há-de-mo pagar!”

 

A ribeira vai cheia,

Nos penhascos do açude,

Choram as quedas d’água

Alguma oculta mágoa

Num choro aflito e rude.

Enche os campos de paz e de saúde

O sol, que alegra os choupos e as sobreiras,

E aquece os braços hirtos

Das faias altaneiras

Que, entre moitas de loendros

E grandes tufos de juncais e mirtos,

À margem se perfilam das ribeiras.

 

Em parte alguma vejo

Dias lindos como estes do Alentejo!

Que frescura, que graça, que abundância!

Enche a gente os pulmões de ar puro e leve,

Contemplando a distância,

Nos largos horizontes,

A crista azul das rochas e dos montes.

 

Mas todo o sol que em jorros

A natureza inunda,

Entre nuvens se apaga

Na alma do ganhão

Onde erra, vagabunda,

Ao vento e à chuva duma noite aziaga,

Como um pássaro bêbado, a razão!

 

Junto ao pego da Enguia,

Braços
nus, chapinhando

À flor da água corrente,

Numa clara alegria.

Que a voz confirma e o rosto não desmente,

Lava
a roupa cantando

A Rosária, e ao vê-la,

Ninguém parece mais feliz do que ela.

 

É uma forte e guapa mocetona:

Morena, tranças pretas,

Olhos cor de azeitona,

Travessos, sobre a boca apetitosa,

Negro par de cativas borboletas

Quase a poisar nas folhas duma rosa,

Amplos quadris e os peitos,

Fartos
de andar sujeitos

Num comprimido arfar,

Lembram, sob as roupinhas entreabertas,

Duas lebres elásticas, espertas

E prestes a saltar!

 

E canta:

“Não há pecado

Que não tenha absolvição;

As
nódoas na roupa branca

Vão-se com água e sabão…

 

Quando me abraças de noite,

Os teus braços, meu amor,

Se os abres eu sinto frio,

Se os fechas tenho calor!”.

 

-- “E o diabo ainda o confessa!”

Ruge a tremer o Grenha.

Ela volta a cabeça

E ao vê-lo descomposto, a voz rouquenha,

O olhar ferindo lume

De raiva e de ciúme,

Pálido, atrás das silvas, indignada.

Batendo a roupa donde a espuma salta,

Murmura: --“ Inda outra vez este marmanjo!

Não me larga… É demais! Eu já te arranjo!”

E canta em voz mais alta:

 

Eu tenho-te ódio de morte;

Mas rezo-te um Padre-Nosso

Se te atirares ao pego

Com uma pedra ao pescoço.

 

“O meu rapaz é valente,

Olha lá se o descompões…

Nossa Senhora me livre

De malteses e ganhões.”

 

O Grenha cerra os punhos, range os dentes,

É um homem perdido,

Corre doido. Entrementes,

Rosaria  põe -se em pé e ameaçadora

Diz-lhe: --“ Toma sentido,

Deixa-me, vai-te embora…

Olha que eu grito!”-

-Grita alma danada! –

 

Ruge o feroz Grenha. --- Não há nada

Que nos possa salvar. Agora és minha,

De mais ninguém!” E agarrando-a com força,

Como um lobo a cevar-se numa corça,

Aperta-a, morde-a bestialmente, e ela

Luta, procura desprender-se, brame

Num desespero horrível, braço a braço,

Peito a peito, espumante… Mas o infame,

Sentindo-lhe o cansaço,

Num derradeiro impulso hercúleo, cego,

Ergue-a e atira-se com ela ao pego.

………………………………………….

 

É sol-posto. Os montados

Carregam-se de sombra. A tarde esfria.

Vão, lentamente, recolhendo os gados.

No religioso declinar do dia

Tomam as coisas lúgubres aspectos,,

E à vaga meia-luz

Contorcem-se no ar os esqueletos

Dos arvoredos nus.

Soam pelos atalhos

Cães a ladrar, balidos e chocalhos

Num concerto monótono de ruídos,

Que entre as formas, as cores, os aromas

E a paz da natureza,

Enchem de unção lânguida tristeza

A alma e os sentidos.

…........................................................

 

Na Ribeira da Azenha,

À flor do pego, unidos e pasmados,

Bóiam dois corpos hirtos, agarrados:

É a Rosária e o Grenha.

 

…..................................

 

Como se vê um poema pode tratar de um qualquer assunto. Pode contar uma triste
história de amor como este. Pode falar de coisas completamente diversas.

Um poema, um artigo de jornal, um livro são um desafio à nossa curiosidade
saudável. Ao nosso interesse pela vida, pelo mundo.

Porquê então tanta cerimónia para tocar um livro, lê-lo, entendê-lo, quase me apetece
dizer: - prová-lo ?

Porquê?

Quando o Michel aparece na televisão com uma receita nova – está apenas propondo que
se tratem de maneira diferente materiais que conhecemos – que são o pão-nosso
de cada dia. No entanto as pessoas tentam-se, experimentam, imaginam,
interessam-se: -- a que saberá?

--
Que gosto terá? – E querem provar!

Afinal o pensamento da gente também precisa ser confortado com ideias novas, emoções
diferentes. – Isto é verdade!

Um livro propõe sempre – tenta sempre também uma maneira nova de tratar, de olhar
a vida de cada dia.

Escolhê-lo também pode divertir, emocionar, fazer pensar: -- Como será? – Gostarei? Com
que se poderá comparar?

É como provar um tempero novo, doce? Amargo? Picante? Estranho?

Nos Açores a minha “empregada e amiga” dizia sempre referindo a pimenta em grão:
Pimenta do Reino.

E, ou fosse pela novidade da designação ou pelo mar que nos cingia,
agora encontro naquelas bolinhas pretas e feias que deixam na comida um vago

perfume e um sabor picante uma sugestão de caravelas, descobrimentos, mistérios da
Índia, naufrágios, piratas e aventuras. Até acho que perfumam mais e picam menos…

Bem!
Em poesia isto não seria parnasiano.

Fantasiar tudo isto sobre a realidade prosaica que é ter numa cozinha um punhado de grãos
de pimenta – é muita imaginação? Romantismo?

Admitindo que sim! – o que será então ter uma posta de bacalhau que não chega para uma
pessoa e transforma-la num farto almoço para seis, fazendo-a aparecer na mesa
como fofas pataniscas a rodear a travessa de feijão frade cozido que até parece
um salão de festas em dia de Carnaval – tão salpicadinho vai com o último ovo
que havia em casa, mais a salsinha verde e a cebola branca e transparente ?

Ah!
Isso é saber cuidar da família? É ser dona de casa?

Confessemos nesse caso que não há, hoje, nada para que seja preciso ter mais romântica
imaginação?

 

 

 

 Maria José Rijo

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:42

Ponto de Partida - V Emissão

Domingo, 04.03.12

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Se por feliz acaso tive a sorte de ter algum ouvinte que me escutasse e, se por mais
feliz acaso ainda, esse ouvinte estivesse interessado em entender-me penso que
poderia perguntar: - mas, afinal o que é a Poesia? - Onde está? -tem morada
certa? – o que é ser Poeta ? – o que teria eu para lhe responder ? –

 Umas quadras?

 

Poesia não é gramática,

não requer explicação.

Poesia é sonho da alma,

só a sente o coração.

 

Olhar as aves nos céus

e vê-las  notas de
música

da magistral sinfonia

que foi composta por Deus.

 

Achar que o oiro é palha

que nada vale na vida

e ver a palha como oiro

na campina ressequida,

 

é coisa que não se ensina,

se vive, sente-se somente.

Poeta é como ser mágico

dos sentimentos da gente

 

Ser poeta – como nascer

É tanto obra de Deus

Como é a noite e o dia

Como as estrelas nos céus!

 

Mas, – o que teria adiantado com a resposta? Sei lá!

 -- então de recorrer a Sebastião da Gama,
vá de citar dos seus “apontamentos
sobre poesia social no Séc. XIX as páginas 145, 146, 147.

“Bem se sabe da
poesia que é indefinível que é inapreensível, que é feita da mesma incógnita
matéria dos deuses. Lê-se um poema ou colhe-se um lírio ou sorri-nos uma
criança – e nós sentimos Poesia. Mas colher um lírio, é colher um lírio - é ter
mãos e ter lírios, coisas banalíssimas. Sorrir-nos uma criança, é sorrir-nos
uma criança e podia chorar que não seria isso menos natural.

No entanto… Lemos um poema, bem rimado, bem ritmado, com uma imagística fulgurante e

mais uma porção de predicados poéticos e logo o condenamos ou o exaltamos pela

falta ou pela presença de Poesia. Se nos perguntarem onde ela está, ou por que sinal

vemos que não está, não saberíamos explicar. Então que presença misteriosa é essa,
como se revela, como existe? Por mim furto-me à resposta.

Não venham também perguntar-me com que sentido me é dado apreender a Poesia -

só lhes digo que não é com nenhum dos cinco…

Creio que está decadente o critério que dava como Poesia tudo quanto fosse escrito em verso.

Para aplaudir ou desejar essa decadência não é preciso mais do que fazer o sacrifício de ler as
mil e uma festejadas habilidades métricas que ao longo dos séculos se foram
escrevendo – e que deram, por conta do dito critério, o nome de Poetas a quem
as traçou. Falta aí o tal misterioso quide sem o qual nada feito…

 Isto não quer dizer de modo nenhum que se não
tente exprimir ou captar pelo verso a Poesia. Acho que o verso não é um vaso,
um molde, uma carne em que a Poesia tome forma como geralmente se pensa: é uma
espécie de laço, armado pela manha do Poeta, a ver se a Poesia, incauta, vem ao
chamamento: ou um rito, uma invocação que a faça descer. Esta manha ou este
canto de sereia, ou pela invocação é que tomam formas, não a Poesia. O poeta
não tem à mão senão as palavras; joga com elas de modo a lisonjear a Poesia
naquelas qualidades divinas que lhe pressente.

E como pressente que a poesia é bela e é musical, tenta imprimir beleza e

musicalidade ao barro humano das palavras.

Temos portanto e resumindo que o verso não é ele próprio a Poesia, nem o vaso que a
contem, mas a maneira de captá-la.

 

Se, como diz Sebastião da Gama, o verso é uma
maneira de captar a poesia – o que poderemos nós concluir senão que a poesia
nasce e canta livre?

 

Assim sendo já estou em boa companhia para repetir o que outro dia aqui disse:

Poesia é também uma maneira de estar na vida. A sua talvez, quando aí na rua das
Parreiras, num beco ou na rua das Beatas cria beleza com o asseio e o apuro do
seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo.

A sua, que chega a casa com os pés inchados, desfeita por um dia de trabalho que a sua
saúde mal suporta, e, antes de descalçar os sapatos que a crucificam, antes de
se atirar para a sua cadeirinha do costume, ou para cima da cama que, como ela
já sabe de cor o peso do seu cansaço – vai – antes de tudo – antes de si dar
uma sede de água à sempre-flor mais à malva rosa ou ao carrasquinho que pendem
de folhinha murcha (Que o nosso verão é lume!) da parede onde se incrusta a sua
porta!

 

Olhe que ser poeta
– também pode ser isso!

Nunca o pensou?

 

Alguém me alertou outro dia que esta emissão seria, talvez, mais escutada pelas

pessoas de fora da cidade.

Se assim for, serei eu capaz de falar de poesia a quem a vive, a traz dentro de si e,

acha isso tão simples, tão natural que nem de tal se apercebe?

 

No entanto sinto que é isso que terei que fazer!

 

Terei que bater à sua porta.

Terei que me sentar à roda do seu lume na grande chaminé da cozinha.

Terei que a ver lidar na casa, com gestos seguros, como quem cumpre ritos

duma milenária religião!...

Terei que comer castanhas ou bolotas assadas na cinza quente incrustada de brazinhas miúdas...

Terei que beber do seu café gostoso que está sempre pronto ao rés do lume na cafeteira de barro
coroado pelo testo...

Seu marido se entrar puxará da navalha luzidia para fazer piogas com meias bolotas e paus de
fósforo para as crianças que houver (como já a seu pai e seu Avô vira fazer) e
ficarão rindo a faze-las dançar sobre a mesa da cozinha... Mas ficará ouvindo o
que se diz embora finja desinteresse...

Se lhe perguntassem como é – diria apenas: “conversas de mulheres!”

Eu provarei se for altura disso – das suas tenras broinhas, ou biscoitos

perfumados de erva-doce... Sentir dentro de
mim que você faz tudo isso naturalmente com simplicidade e amor – poeticamente
e, no entanto se eu lho dissesse – você riria... E, eu não digo. Penso e calo.

 

Perguntarei apenas fixando-me nas coisas práticas: como é a receita das broinhas?

ou dos biscoitos e ... Ouvirei da sua segurança sábia a resposta:

Tanto de açúcar

Tanto de ovos

Tanto de banha

Tanto de farinha, de leite, de fermento.

A erva-doce é a gosto!

Rematará sentenciosa.

 

Perfume a gosto pensarei eu – mas calo!

Que achei no pormenor uma certa poesia!

 

Você disse tudo de cor – porque até – se calhar – nem sabe ler! Mas.

Irá falar-me do caderno antigo que vai buscar para eu ver – e era de sua mãe ou mais antigo
ainda... – o caderno de papel grosso e áspero onde alguém apontou todas as
receitas que você sabe de cor... Desde a massa das azevias ao recheio – aos
nógados... enxovalhadas... biscoitos... queijadas...

 

Irá buscar o caderno que dormiu anos a fio por inútil na cimalha da chaminé bem ao
cantinho onde uma goteira à traição o ensopou e fez dele o borrão ilegível –
duplamente inútil – porque você não o leu e ninguém mais o lerá – e ambas o
olharemos consternadas...

 

Então uma confusa sensação a comandará sem que nada a contenha e você dirá: guardo-o na
mesma! – Sim cum’assim nunca o li – mas tenho-o desde mocinha!... Era da minha
mãe!... – E guardará o caderno soltando o fundo suspiro que entretanto lhe
sufocará o peito!

E, repetirá evocando:

Desde mocinha!

E ficará a recordar...

 

Se entretanto eu a interrompesse dizendo:-“Que Poesia! Na sua saudade!”

O seu rosto iria animar-se com um arzinho de troça e você responderia sincera e veemente:

Poesia?! – nã Senhora !

Mas... Eu não a acordo – não! – Embarco no seu suspiro e digo baixinho:

 

 

 

(Balada da infância)

           

Ai, mundo da infância,

como cabes neste mundo?

Ai promessas,

desejos que é bom não cumprir!

Ai anseios vagos de raro sabor...

Como a vida a cumprir-vos

Vos rouba o valor!...

 

…Eu lembro-me ainda!

E como esquecer o mundo das gavetas,

Proibido mexer!

As malas da Avozinha e das Tias,

Que só elas abriam …e em certos dias!...

 

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos…

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de pranto!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

De vestidos e arrebiques

De bodas e baptizados!...

Ai, tremuras dessas mãos

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

Onde dormiam as chaves ,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “Vês isto aqui minha filha?

“Este caracol tão loirinho?

Era de teu tio-avô, meu irmão,

O que está neste retrato…

Morreu muito pequenino,..

Coitadinho!..

Coitadinho!...

 

(Dizia a avó bondosa
repor o medalhão,

entre as dobras de algum fato)

Grande mundo das caixinhas,

Sempre fechadas!...

 

Algumas que se abriam a meu pedido

Tinham missangas, continhas,

Flores secas e plumas,

Restos de sonhos vividos

Que tinham sempre uma história,

Que eu escutava toda ouvidos!

 

- “Isto aqui...  

 

(Quanta saudade

Havia em seu recordar!...)

“ – É um pouco de cambraia

“ Que sobrou das camisinhas

“Do enxoval do teu Pai,

“E foram feitas da saia

“Do vestido que eu levei

“Na primeira Comunhão!

“ Recordo tanto esse dia!...

“Quando voltamos para casa,

“ Vinha eu entre os meus pais

“ E a ambos dava a mão!

 

-- E esta fita tão linda?

 

-- Não lhe toques, deixa estar!

 

(E uma nova emoção assomava ao seu
olhar!...)

 

–“ Foi a última que usou

“Antes de ir para noviça

“A minha amiga de infância,

“Minha prima, a Clarinha,

“Que chegou a ser superiora

“ No convento onde morreu

“E do qual era padroeira

“ A Virgem nossa Senhora!

 

-- E isto aqui, o que tem?

 

(Logo a avó com carinho,

Desmanchava para eu ver

Um embrulho feito em linho

não fosse a traça comê-lo.)

 

--“ É a trança do seu cabelo!...

-- Vês querida, como era belo?!...

…………………………………….

E enquanto febril extasiada,

Eu me quedava a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E ás vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

Foi essa mala tesoiro,

Foram caixas e retalhos,

Foram pontinhas de rendas,

Foram retratos e prendas

Dos noivos das minhas Tias,

(De minhas Tias solteiras,)

Foram leques, pedrarias,

Restos de sonhos sonhados,

Que a morte fez em bocados,

Que geraram, bem o sei,

Os primeiros sonhos que tive,

Os mais lindos que sonhei.!...

 …………………………….

 

Minha avozinha morreu…

Não mais mexe em suas malas,

Agora… mexo-lhes eu!...

                

                    Maria José Rijo                                             

 [MªJosé-19anos.jpg]

 

 

Penso que você, assim, saberá que os
seus suspiros de saudade, como as flores da sua porta podem ser sentidos como
versos dum poema como mensagem de beleza de um coração para outros corações.

 

 

    Maria José Rijo

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:12

Ponto de Partida - IV Emissão

Terça-feira, 28.02.12

.IV EMISSÃO PONTO DE PARTIDA

 

Quando outro dia falei sobre a rua de S. Francisco fiquei com pena de não referir

que aprendi com Eurico Gama

(através dos livros que por gentileza me ofereceu) e que são parte da importante

obra que escreveu sobre Elvas) que a rua de S. Francisco desde 1413 em que

ainda era Rua de Arrabalde até aos nossos dias teve os seguintes nomes:

( que passo  a citar : - do Cano, do Bom Sangue , de João
Fangueiro, de André Lopes Garro, de Porta de S. Francisco, de Porta do Bispo,
de Valadares ou de António Valadares, de Francisco Zagalo, de S. Francisco, dos
Fangueiros, a Corredoura, de Vitorino de Almada e só em 1952 voltou a ser de S.
Francisco. )

 

Histórias que Eurico, desenterrou do pó de séculos, investigando tenazmente em

anos e anos de trabalho esforçado (todos quantos os da sua vida adulta) embora,

quantas vezes remando contra marés de indiferença e mesquinhez – guiado apenas

pelos ventos favoráveis do sonho expresso no seu Ex-libris – Morra o homem fique a fama!

 

E porque falei de S. Francisco parece-me certo, voltar a citar Florbela
Espanca
a quem me tenho referido com frequência pois que, também ela no

soneto “ In Memoriam” esse canto ou pranto ( ou tudo junto )  do amor fraternal

que a ligava  a seu irmão o aviador Apeles Espanca que
morreu novo num acidente de aviação ( ou nele se suicidou como se suspeita )
!!! Também Florbela havia de voluntariamente chamar a morte, para si,
desesperada, na madrugada do seu 36 aniversário, em Matosinhos.

Parece-me certo voltar a citar Florbela, dizia eu com o seu

 

“In Memoriam”:

 

Na cidade de Assis, “ il Polvorello

Santo, três vezes Santo, andou pregando

Que sol, a terra, a flor o rocio brando,

Da pobreza, o tristíssimo flagelo,

 

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,

Tudo era nosso irmão! -- E assim sonhando,

Pelas estradas da Umbria foi forjando

Da cadeia do amor o maior elo!

 

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água… “

 Ah! Povorello! Em
mim, essa lição

Perdeu-se como vela em mar de mágoa

 

Batida por furiosos vendavais!

-- Eu fui na vida a irmã de um só Irmão,

 E já não sou irmã
de ninguém mais!

 

Assim falou ela a S. Francisco o Santo três vezes Santo que nos deixou dessa transparente
Santidade a sua bela oração de Paz.

 

Oração de São Francisco

 

Senhor

Fazei de mim o instrumento da vossa Paz

onde há ódio deixai-me semear o amor

onde há injúria o perdão

onde há duvida a fé

onde há desespero a esperança

onde há escuridão a luz

onde há tristeza a alegria.

Divino Mestre

permiti que eu procure nos outros

não a consolação mas sim consolá-los

não a compreensão mas sim compreendê-los

não o seu amor mas sim amá-los

porque é dando que recebemos

perdoando que somos
perdoados

morrendo que nascemos para o eterno amor.

 

S. Francisco de Assis

 

Como se vê uma oração pode também ser um poema e um poema pode ser uma oração.

Como também uma cantiga pode ser um poema ou uma lenda quase sempre o é também.

Se pensarmos que ainda hoje se cantam lenga-lengas, melopeias ritmadas para retirar barcos

do mar para a praia ou para os pôr a navegar – (em locais onde o primitivismo ainda impera)

se o lembrarmos podemos imaginar como esses costumes serão herança de outras
heranças que se perdem pelos séculos passados dentro, até aos primeiros homens
que fizeram os primeiros barcos e ensaiaram os primeiros dos primeiros, os
primitivos movimentos de danças de regozijo por o terem conseguido ou os cantos
e os lamentos por recear não alcançar os seus intentos:
ainda hoje é vulgar

para uma tarefa pesada – feita em conjunto -- como por exemplo descarregar
sacos pesados de cereais, ou cimento... Ver as pessoas que os seguram e os
suportam balanceá-los até encontrar o impulso certo que facilite a sua carga ou
descarga ensaiando o esforço a compasso duma exclamação que se arrasta ou
apressa conforme o trabalho a executar ...

É o “ala arriba” dos pescadores da Nazaré, é o “1,2,... 1,2”
do marcar passo dos soldados, é a cantilena com que as crianças se embalam para
aprender a tabuada: “2x1=2, 2x2=4” – Sei lá...

Desta necessidade de acompanhar, de acentuar os anseios, a alegria e a dor com
movimentos do corpo – (Pensemos num exemplo actual (os jogadores de futebol aos
pulos, aos saltos na alegria, se meterem um golo ou! atirados para o chão,
arrepelando os cabelos e esmurrando a relva em desespero – se o sofrerem).

-- Pois de necessidades mais intensas de expressão terá nascido a dança, o canto e com
eles a poesia (isto grosso modo – claro!)

 

Todas as coisas tiveram um princípio por remoto que seja – é lógico!

 

Os farrapos de lendas que chegaram aos nossos dias – foram talvez histórias

verdadeiras passadas de boca em boca – nos tempos em que ler e escrever era

prenda e privilégio de raros e quase só se cultivava no recolhimento dos conventos e mosteiros.

(Nesse tempo) as notícias e as críticas eram contadas por jograis, menestréis e chocarreiros

em melopeias e baladas e pagavam-lhes para o fazerem. Narravam talvez as histórias

que estão na origem de lengalengas e lendas que chegaram aos nossos dias – intactas umas,
esfarrapadas, fragmentadas, outras.

Dos meus tempos de menina quando andava à escola numa pequena aldeia do Baixo
Alentejo – tenho lembrança de algumas que me faziam sonhos e arrepios. Delas
sei muito pouco, mas vou dizer (a propósito quero aqui fazer um parêntesis) –
se alguém que me escuta souber estas lendas ou souber outras, ou orações
antigas, que diga por favor para a rádio Elvas porque a suas casas as iremos
recolher – ou, que para cá as mandem por escrito.

Era bom fazer programas sobre esse assunto, e até, trazer as pessoas que por
ventura as saibam para que as contem elas próprias.

Vamos
tentar? Obrigado.

 

Recordo pois A lenda da Idalina que estava presa na torre à míngua de pão
e água, lembram-se?

Era qualquer coisa
assim:

Assomou-se a Idalina

À Janela que a torre tinha

Assomou-se a sua irmã

Á janela da cozinha

Oh, irmã que Deus me deu

dá-me uma gotinha de água

que esta sede já me aperta

este corpo e esta alma

 

E a outra era a de D. Silvana, em que se pedia a cabeça de alguém, já nem sei de quem...

numa doirada bacia:  … E a certo passo contava assim:

 

Tocam os sinos da torre

 Ai, meu Deus, quem
morreria

Responde o filho de colo

Que inda falar nem sabia

Morreu D. Silvana pelo mal que fazia

Descasar os bem casados coisa

Que Deus não queria...

 

Eram contos tristes á cerca de mulheres sacrificadas, fechadas em torres
e conventos por recusarem noivos que os pais escolhiam ou histórias de reis e

fidalgos
poderosos que mandavam cortar cabeças de súbditos para satisfazerem caprichos
de amores novos... coisas doutras eras...

Vestígios destes costumes chegaram aos nossos dias com cantilenas de cegos e

mendigos que depois de entoarem (quase sempre desafinadas
canções com versos de pé quebrado em que desfiavam histórias de crimes,
monstros, vinganças cruéis ou desgraças que tais... pediam dinheiro estendendo
o chapéu á assistência mais ou menos interessada.

Vem daí a expressão (penso eu) “ Mete a viola no saco” que se usa quando se

quer mandar calar alguém que nos aborrece –
ou virá de lá mais longe – da era dos bobos e jograis? – Não sei!

Sei que receio ouvi-la eu, se pensam que estou a fugir do meu ponto de partida – a Poesia!

Mas não! Estou falando dela a meu jeito que de outra forma não posso.
Convencida que estou de que não são precisas rimas para dar guarida à poesia.

E, ao contrário cito:  ás vezes a poesia escapa-se do verso rimado
como o pescoço rebenta o botão do colarinho que sufoca para respirar fundo e a
gosto
.
A poesia ás vezes mora, fica presa a quase nada.

            Estou a pensar numa pequena lápide
incrustada na rocha á beira dum rio nascente na Serra da Estrela.

            Recordo que a primeira vez que a li
tive uma comoção como se tem ao ver alguém que se julga perdido ou morto e de
repente, como uma aparição, nos surge são e a salvo.

            Uma daquelas alegrias inesperadas
que nos põe a rir e a chorar ao mesmo tempo, porque nos põe em paz, porque,

 nos renova a fé nos homens

 

Lá alto na Serra da Estrela á beira
duma fonte – donde jorra um fiozinho de água muito fria e transparente – alguém
gravou Mondeguinhonascente do rio Mondego.

Só isto! – Só isto e basta para se pensar:

Oh, meu Deus! – São os mesmos homens que matam, odeiam e fazem guerras –

que se enternecem assim à vista dum veiozinho de água que brota da terra e o mimam

 desta maneira!  (o Mondego é sabido é o nosso maior rio
nascido em Portugal – dos poucos que é só nosso – mas, lá na Estrela ao vê-lo
pequenino foi olhado com a alma de joelhos como se olha num presépio e, como se
lhe pegasse ao colo porque o via nascer – carinhosamente o Homem – baptizou-o:

Mondeguinho.   Mora aqui a Poesia.

 

Ainda que outros por lá passem e deixem garrafas vazias, latas, plásticos sujos – lixos—

poluição. Ainda assim esta história é verdadeira. Aconteceu lá na Serra onde mora a Poesia.

 

Quando o meu vizinho Chico Rasquilha há um ano me pediu estes programas, 

estas conversas informais e me apontou como tema principal poetas do Alentejo –  

eu logo lhe disse que poderia partir daí mas não garantia aonde iria parar... 

ele achou bem deixar-me livre e assim hoje... até já fomos parar á Serra!

     Mas... vamos regressar para pararmos um
pouco quase ao pé da nossa porta, para chamar aqui à lembrança um grande poeta
que não era Alentejano, é verdade, mas era professor em Estremoz quando morreu,
em 1952, no dia 7 de Fevereiro sem ter sequer trinta anos.

Chamava-se Sebastião da Gama. Da sua curta existência (marcada desde
menino pela ameaça que infelizmente se cumpriu duma morte prematura) ameaça que
ele conhecia, ficou-nos um rasto de bondade franciscana, de amor pela natureza
aprendido na sua Arrábida – a sua “Serra Mãe”, um rasto de beleza e de talento
sem par. É de Sebastião da Gama o poema que vou ler:

O Segredo é amar:

                                  

Fosse mais bela a vida e mais sincera…

Como eu lhe quero, mesmo assim!

Tanto lhe dei de mim

que já é menos acre do que fora.

 

Ah! bem me parece que o Amor melhora

quanto a graça de Deus não fez bonito.

Há lá coisa mais linda que um grito

quando foi o Amor que o pôs cá fora!...

 

Deixa ser o meu gesto uma grinalda

Nos teus cabelos, Vida!

Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

 

Adeus, adeus teus dedos ásperos!

Adeus teu rictus doloroso!                               

- Vida, quem é a minha namorada?

 

Também é de Sebastião da Gama esta página datada de
21 de Janeiro de 1952, escrita portanto, menos de um mês, antes da sua morte!

Encarcerar a asa

 

Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há
muita asa que não pensa; Asas que não sintam, é que não.

Mas eu não preciso de símbolo para me negar a ver os
pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno.

Para que vivemos no Mundo há tanto
tempo se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma até os das
fábulas, quando calha…Ora pensem lá um bocadinho no “Leão Moribundo”É um leão
mesmo ou é principalmente um leão.        

Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!

Asa encarcerada, não. Nem asa de pássaro, nem asa de
grilo Uma fê-lo o Senhor e disse-lhe – “Voa!”        

 Á outra: “Canta!”A nenhuma (nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse
numa gaiola. No entanto é a gaiola domicílio muito habitual do pássaro e do
grilo. Ao grilo prenderam-no as crianças sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os
pais sob o sorriso dos filhos.

Má escola esta. Principalmente porque se diz depois:”Que
bem canta! que bem que canta!”Nem se chega a aprender a diferença que vai do
canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado ou um grilo, canta lá!?...Os
pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, na beira dos telhados…Os
grilos é na toca, ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros.

Mas os que abriram a grade não entendem! Se eles abriram
a grade!...

E vá de não perceber que o fato preto do grilo já é
outro, já não é o seu fato de trazer: o grilo agora está de preto, porque está
de luto. De luto por si mesmo.

Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um
pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de
tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá, e me dá!) era
por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens
- Se eu andasse de mal com os homens…Era ao lusco-fusco. Frio como só cá no meu
Estremozinho. Batem á porta, vou ver. Uma velhinha.

“Ó Senhor o pintassilgo é seu? É para o recolher que o
animal apanha muito frio.”

Ó! Velhinha Santa, velhinha dos livros! Naturalmente, se
tivesses á mão a gaiola soltavas o pintassilgo. Mas o que pudeste fazer é tão
grande!

Não sabes duas letras, provavelmente. E ainda se persiste
no erro que a grande desgraça é não saber ler. Qual coisa!A grande desgraça é
não saber que os pássaros têm frio.

 

Estremoz, 25 de Janeiro de 1952

 

Sei que não
preciso de dizer que da primeira á última linha deste texto, cantou viva a
poesia de que era feita a alma de Sebastião da Gama.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:23

Ponto de Partida - III Emissão

Sábado, 25.02.12

III Emissão Ponto de Partida

 

Aqui estou de novo e, desta vez, para vos fazer um convite.

Venham!

Venham comigo à rua de S. Francisco mas... através da sensibilidade, da palavra – da poesia de Casimiro da Piedade Abreu.

 

RUA DE SÃO FRANCISCO

 

Eu nasci numa rua, como todas as outras ruas

com casas, com os decantados vizinhos e com

alguma poesia.

A rua de S. Francisco tem qualquer coisa

de mágico para quem lhe desce a calçada.

Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma

mancha muito branca no sopé.

Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora,

é residência de um sapateiro.

À porta escalavrada lembra as invernias que

lhe lamberam o novo. Um cenário deveras

interessante !

Os “A la Minute” escolhem-na para fundo das

suas poses. Soldados do quartel vizinho,

encostam-se nele e deixam-se fotografar.

A rapaziada refugia-se no fundo da rua.

Ali seus divertimentos são mais extensos...

Passado um pequeno arco, à direita do

sapateiro, entra-se num pateozinho com

um urinol fedorento a um canto e uma

poterna na muralha a deitar para um jardim.

Ali, joga-se a bola.

Nos dias de grande movimento, quando há

feira lá fora, ou domingo no jardim, o

jogo é rasteiro e sem força.

Pela rua vai, então, o clamor da ciganada.

Entram e saem. As padarias vendem o trigo

amassado. Os dinheiros trocam-se e o olhar

come o pão que os dentes só, mais logo,

mastigam.

Ainda muito antes que o sol desponte, na

minha velha rua de S. Francisco acotovelam-se

os pensamentos mal despertos. Sonham-se os

ditos. Há luta no pátio situado para além do

arco que está no fim da rua, à esquerda.

A bola cai no urinol: há que a pôr a secar!

O sapateiro abre a porta escalavrada da sua

loja.  Olha a freguesia do pé descalço.

Vai à banca. Sai um cigano com pão da

primeira fornada. Tem fome nos olhos.

Miúdos começam a ensaiar o “estender

lamentos” ; são ciganos espanhóis e nacionais;

misérias vizinhas e de longes terras ...

Em São Francisco...

Ciganos sobem a rua,

Trazem jornadas nos olhos...

Entoam canções fantasmas

Que entram, por nós, aos baldões...

E ouve-se: -- São portugueses?

Malandros! Gente Perdida!...

Nossos irmãos espanhóis?

Canalhas!... A mesma cantiga

 

Sobem a rua a correr

Ou saem das padarias

Onde o pão esteve a nascer.

É tanta a fome nos olhos

Dessas misérias vizinhas!...

 

... Na rua de São Francisco

Calam-se as alegrias;

Bulem, antes, agonias,

Rezas a aparecerem sinais.

 

E a legião das feiras

Cruza a calçada ardente

 

(O mundo está pendente

duma tenda e dum suspiro,

Em cenário de lenda, caiado,

No sopé duma muralha

Dum burgo abandonado...

... Onde ciganos e lendas

armaram as suas tendas!

           

... Onde morre, em cada beco,

um eco estrangulado

E um sabor a pecado

Fica, nos lábios, colado.

 

Riem-se as velhas calçadas

dos queixumes das mulheres.

Ladeiras correm encostas

sem ninguém o perceber ...

Muralhas fazem cinturas

E o ar fica de fora...

--- Uma lenda em cada pedra;

Um sonho em cada enxerga

Um romance; uma saudade;

Uma canção; uma reza!)

 

Eu sei que essa legião

Luta à conquista do pão.

Oiço pragas e adivinho

Casas a venderem vinho.

Canções correm telhados

Até que os ecos, cansados,

Perdem a voz e recolhem

A alma que os sonhou...

 

Bamboleiam-se ciganas;

Corpos tisnados ao léu,

Lá nessa tenda do céu!

 

Ciganos trazem jornadas

Nos seus corpos escorridos,

Cajados firmes nas mãos

Superstições nos sentidos

 

E o Sol que parte a calçada

Não tem quem lhe diga nada!

 

Casimiro vivia na rua de S. Francisco numa casa, quase fronteira a essa outra onde viveu Domingos Lavadinho – a quem este poema foi dedicado.

Casimiro fixaria a poesia da vida da nossa cidade com os costumes de então, apreendendo-a e particularizando-a no olhar de amor feito do conhecimento profundo que tinha da sua rua. A rua da casa de seus Pais, a rua onde brincou, onde cresceu com seus irmãos e, onde sonhou os seus caminhos de Homem.

Domingos Lavadinho – a meu ver – foi também poeta d’Elvas porque fez da sua vida um poema de amor a esta sua terra que serviu devotamente.

Nunca é demais que Elvas o recorde...

Para Casimiro Abreu há 27 ou 28 anos era assim a rua de S. Francisco. Hoje lá longe em África assim o recordará.

 

E... para si?... Para si que nem sequer tem 20 anos; ou tem 30 ou pouco mais? Como é a Cidade? Como é a sua rua? Como é a rua de S. Francisco?

 

É só o atropelo das pessoas apressadas? São os encontros frutuitos? Os passeios ao acaso; os namorados pelos cantos, a algazarra dos garotos da escola, os estudantes de blue geans? – Os enxames de espanhóis? – Não de meninos (dos que fala o poeta maltrapilhos, pedinchões, que os tempos cruciantes da guerra civil forjaram...)

Não! – Antes pelo contrário pois agora são os espanhóis prósperos que nos visitam (e que quase como na cantiga do Sebastião barrigudo de há trinta anos) compram tudo... tudo... Tudo!...

 

Já pensou que é isto e mais as camionetas que atravancam as ruas e nos espalmam contra as paredes quase como nos desenhos animados... e mais os automóveis que passam loucos e os que passam prudentes e as motoretas

 

despudoradas como varejeiras incomodas de guinadas imprevisíveis e mais os mini – mercados e os super (qualquer coisa) e os maxi (não sei quê) e a policromia da bonecada de barro sarapintada e as flores artificiais de papeis e de plásticos que espreitam por tudo quanto é loja, de travessa ou esquina, ou praceta, por escura que seja! Enfim! Tudo que constrói o nosso dia a dia de agora – que dá – ou dará – ao poeta de hoje – as pontas do fio com que tece a poesia da cidade de hoje – ao falar de qualquer rua do centro, ou seja ela a de Alcamim – Olivença – Chilões – ou São Francisco.

Ruas tão diferenciadas das ruas castas, retiradas, recolhidas como “Espirito Santo” – Parreiras – Beatas – esses postais vivos – brasonados pelo povo com os símbolos heráldicos do amor eterno – as flores.

 

Porém – para quem possa olhar para mais longe no passado – a lembrança avivará com saudade – o que os novos já só ou ainda poderão saber se lerem por exemplo Eurico Gama (esse outro poeta do Amor a Elvas) esse ferrenho estudioso que quase perguntava a cada pedra da calçada – o que sabes da minha terra? Quem viste passar aqui? – E desenterrava a verdade e ressuscitava a história... Com a ternura de elvense atento que foi – e que ilustre e afamado se tornou – por amor – amor a esta sua terra – a esta nossa – Elvas.

 

Aos que recordam mais longe no passado, dizia eu, ouviremos então falar no caramelo branquinho, feito de açúcar que se comprava no Bolacheiro – ali na rua de S. Lourenço e se ia saborear derretendo-o na boca com a água fresquinha da cisterna ao fundo da rua de São Francisco.

 Ouviremos falar dos passeios de trem e chars-a-bancs das famílias abastadas.

 Dos almocreves regressando à cidade à noitinha – das cocheiras hoje “ promovidas” a lojas e a garagem – de onde nesses tempos no silêncio das ruas mal iluminadas (do mundo encerrado por detrás das portas fechadas, como diz o Poeta) – se escapavam os ruídos inconfundíveis das patas dos cavalos acompanhados do resfolgar de conforto que fruíam presos frente à manjedoira farta.

Evocaremos também os cordões de povo endomingado saindo e entrando pela poterna do Jardim em dias e noites de arraiais de S. Mateus...

E recordaremos as saias cantadas – ao som das pandeiretas que as camponesas manejam com tanta alegria.

 

Não chores não vale a pena

Também vais ao S. Mateus

As meias são emprestadas

Os sapatos não são teus

 

 

O Senhor da Piedade

Tem 24 janelas

Quem me dera ser pombinha

Para poisar numa delas

 

Que sábio Poeta é o Povo!

 

Com que graça, discreta e fina ironia refere a mingua do seu quotidiano, e, como encontra a solução jocosa para a superar e, sabiamente, rir de si próprio ao mesmo tempo que mostra que sabe perfeitamente que a festa é de todos sem excepção.

É assim como quem diz:

 

se nada mais tens, tens-te a ti mesmo e continuas a ser filha de Deus e filha desta terra, tudo te pode faltar – tudo menos – a oportunidade que te é reconhecida de ir à festa – que só será festa porque de todos e para todos – como é a festa da vida! – Pela graça de Deus!

 

Julgo que não é possível dizer mais e melhor apenas em quatro versos.

 

E a outra quadra? Alguém que a ouça não sabe de que cor é a pombinha?

Alguém terá dúvidas de que a pombinha é branca? É branca! E não podia nunca ser de outra cor.

É sempre branca da cor da pureza, o anseio de mais alto – o anseio de Paz que pulsa na alma da gente.

Quanta candura nesta avidez de mais além que um simples suspiro às vezes encerra – Quem me dera!!!

Talvez fosse essa também a sede de Mário de Sá Carneiro– (um Poeta que não é alentejano, nasceu em Lisboa em 1890 e suicidou-se em Paris, em 1916) quando escrevia em:

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

Para atingir faltou-me um golpe de asa

Se ao menos eu permanecesse aquém

 

Talvez fosse esta a forma poética elaborada, a maneira genial pode dizer-se que o poeta encontrou na sua elegante linguagem para o grito ancestral – que como um atavismo – todo o ser humano herda ao nascer – o sonho de mais alto, de maior pureza, este:

 

Quem me dera ser pombinha

Para poisar mais além

 

 Talvez! – Quem sabe! Tenha o mesmo peso de frustração deste maravilhoso lamento de fatalidade

 

Um pouco mais de sol – eu era brasa

Um pouco mais de azul – eu era além

 

Quem sabe!?...

Mas voltemos à Rua de São Francisco – que foi nosso ponto de partida de hoje.

Voltemos para lembrar que a verdade passada e a presente – fazem juntas a verdade de sempre – a história – a vida da cidade com seus costumes, suas casas, suas praças, seus becos e suas ruas... neste caso a rua de São Francisco que termina na muralha – frente ao sítio onde muitos anos morou um sapateiro que ocupou o lugar que foi da casa de S. Francisco.

 

É um remate feliz para uma rua cheia de história e isso e mais ainda – é como que um aceno de Beleza – criada por Rui Nogueira e Maria do Rosário de Melo e Sousa.

Maria do Rosário foi uma verdadeira apaixonada por ElvasMaria do Rosário lutava, defendia, pugnava por tudo quanto embelezasse, engrandecesse esta sua terra – esta nossa terra. Daí – que de mão dada com Rui Nogueira à sua maneira elegante a tenham marcado com toda a poesia das suas almas fazendo colocar e emoldurar com viçosa hera os belos nichos que acrescentam tanta beleza a dois pedaços de velha muralha.

É como quem assina uma carta inteira dirigida a Elvas confidenciando-lhe: Amo-te!

É de Maria do Rosário que a meu ver foi mais poeta ainda na maneira de ser e estar na vida do que em obra escrita realizada, este soneto que obteve o 1º prémio nos Jogos Florais Luso Espanhóis (S. Mateus 1945)

                          

 Deus é mais Forte

Demora o teu olhar preso no meu

quando o meu corpo, inerte, sobre o leito,

for farrapo inútil e desfeito

que a morte há-de arrastar, como um troféu!

 

Beleza…graça… tudo se perdeu!

Convulsamente …a arfar… o meu pobre peito

regressará ao nada de que é feito,

Pois que “NADA”-  repara! - és tu...sou eu!

 

Aperta a minha mão húmida e fria

nesse supremo instante de agonia…

…e não conseguirás roubar-me à morte!

 

…Não te revoltes! Ajoelha… e reza!

…Aceita o teu destino com firmeza…

...porque Deus, meu amor, é o Mais Forte!!!...

 

Este soneto que agora – á distância – se nos afigura quase profético... deixo-o como uma saudade em sua memória.

E... já vai longa a conversa. Hoje ficamos só quase pela nossa terra! – Gostava que me tivessem escutado. Gostava!

Gostava de vos convencer que poesia não é pieguice, fraqueza de ninguém, doença ou loucura mansa...

Poesia é também uma maneira de estar na vida, a sua maneira – talvez – quando aí na rua das Parreiras, num beco, ou na rua das Beatas enfeita a sua porta criando beleza com o asseio e o apuro do seu poial e das ombreiras caiadas com desvelo mas... disso falaremos doutra vez se Deus quiser...

 

Maria José Rijo

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Ponto de Partida - II Emissão

Quinta-feira, 23.02.12

II Emissão

 

 

            Se bem me lembro (como diria Nemésio) eu começara a falar da sua

“ ODE AO MAR “ quando o tempo de que disponho para vender o meu peixe se extinguiu.

                       ODE AO MAR

 

Vejo-me só, de pelo e pele, numa ilha negra.

Meus irmãos homens desertaram

Com os documentos em regra

Nos barcos que me roubaram.

 

Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...

 

Aí nascera.

Lá, uma vaga dera

Uma pancada rara

(A vaga minha madrinha),

Não sei com que força ou vara:

Sei que a pancada vinha

Direita ao meu coração,

Que ainda hoje a reproduz.

 

Minha Mãe deu-me de mamar.

Santo nome de Jesus!

Eu vinha sujo da viagem;

Vinha na ponta da vara

(Que a vaga lá brandiu

Com sua ampla coragem

Em minha Mãe, cara a cara)

Como um bichinho do mar,

Uma coisinha de nada

Que a vaga arrancou, cobriu

E trouxe, a vaga do mar.

 

Nas praias me criei

Dos peixes e das lotas,

Comendo o podre e o fresco,

Ensinado das gaivotas,

Que são o meu parentesco.

 

Aí me criei e recriei;

Aí – conchas, tons, nudezes e mergulhos.

Metiam na pele do Rei

                       

Pedrinhas de sal e porcarias

Para ele levar os meus orgulhos:

E eu – sujo, sujo, todos os dias.

 

Nítido, azul até à exactidão de uns olhos,

Ou verde como uma boca desgostosa,

O mar enchia-me de amor;

Eu descia, directo, a ele que em mim subia,

E tomava-me até aos olhos

E dava-me a sua rosa –

A sua grande rosa de sal e de amor...

 

Amplo, cheio, sufocado,

Vestido de um azul viril que me bebia,

Dentro do mar fui proclamado

Rei, e ali logo embalsamado

Por causa da dúvida que havia.

Ah! Súbditos fiéis que viestes!

Peixes de cor tremendo em círculo e coroando-me!

Sereias levando-me as veias para cabelos!

E o baobá de coral, lá do reino de Orestes,

Puxado pelos Seis Tritões do Cabedelo!

 

Movimento do mar que te coaste por mim!

Sabor do mar que estalaste a tua língua em mim!

Salgadas extensões imperiais que eu herdo!

Gota que atravessaste o Atlântico Norte

Só para luzir no meu mamilo esquerdo!

Aresta e rolo sem impulso

Que tudo isso me atiraste

E que, menino, em mim cresceste e em mim pegaste

Levantando-me a pulso,

Oh mar!

Água súbita, rente e transparente nexo

Urdido por aqueles peixinhos por criar,

Que, vendo-me de papo ao ar, sóbrio em minhas colunas,

Vinham picar-me o sexo!

 

(Oferendas leais, meu mar, delicadas como estas,

Mestre, tinham de ser tuas filhas e alunas).

E assim os madeiros rolados,

Cheios de furos e de festas –

Brutalidades flutuantes,

                       

Utilidades manifestas –

Cobertos de lágrimas e bicos duros

De tetas antigas e funestas

De certas sereias honestas...

E nós impuros! E nós impuros!

 

Mar, amplo como o Aro de ti mesmo,

Estirado como aquele que dá com a nuca no chão,

Alto como o respingo inviolável,

Profundo, doce e arável

Como terra de pão!

 

Mestre de angústia, mar! Como uma pedra no peito

(E só água!);

Mestre de coragem – diante a terra, ali direito!

(E tudo isto, com água!);

Mestre de limpeza – o sujo de todos os vestígios

Que vai, com o peito exposto e de cristal cortado,

Desafiando os prestígios,

Provocando os prodígios

E atirando às vezes por desprezo à terra um afogado!

 

E depois – mar parado... neutro... fosco...

Uma tenaz qualquer, de pedra – e eis a bacia;

Aí está íntimo connosco.

 

Ali é pobre: até se via

O seu espumante andrajo

Na triste pedra em que o batia.

 

Ali o conheço e o viajo,

Eu, Rei da Ilha Negra, o das águas tocadas

O coroado de peixes

Que vêem sobre ele à uma,

E que te pede a ti, Pai Mar, que o deixes

Viver na imitação da tua espuma.

 

 Mas... e o que tem o mar a ver com o Alentejo?

Bem pouco é verdade, visto que só ali para os lados de Sines, Zambujeira, Almograve ou S. Teotónio o espreita...

Mas... este poema – esta força maravilhosa, este conhecimento profundo – doloroso até se bem que extasiado tem muito a ver com o que procuro mostrar. Cada poeta é um interprete da realidade que o cerca, que o constrange e o liberta, que lhe gera como que uma nova dimensão de ser.

 

 Depois de escutar um poema como este, quem tem duvidas de que a voz de Vitorino Nemésio tem a marca das gerações e gerações que já viveram e das que hão-de viver a deslumbrada angustia de ser ilhéu – ser ilhéu açoreano dizia após o terramoto João Bosco Mota Amaral

 

“é saber dormir com a cabeça em cima de vulcões”. É com esta força de atavismo que Vitorino Nemésio – o mestre – o escritor universalista – canta o seu horizonte de berço – o mar

 

Profundo doce e arável

Como terra de pão

Ou em contraste atirando

As vezes, por desespero

Á terra um afogado.

 

É com a mesma força ancestral que Florbela Espanca – no seu jeito sensual e telúrico canta o Alentejo.

Recordamo-la um pouco em Esfinge:

                                  

Sou filha da charneca erma e selvagem:

Os giestais, por entre os rosmaninhos,

Abrindo os olhos de oiro, plos caminhos,

Desta minh’alma ardente são a imagem.

 

E... retorno a Vitorino Nemésio em o “ Bicho Armonioso“ quando diz:

 

Esta vontade de cantar que pulsa no pessegueiro

E cria no poeta o indício de alguns versos

Que antes de serem voz hão-de doer primeiro!

 “ Que antes de serem voz

    Hão-de doer primeiro! “

 

           É essa a chave – é esse o segredo!

 

         Veio-me agora à lembrança um poeta da nossa Elvas – um poeta dos nossos dias, que muitos conhecemos – senão como poeta, pelo menos, como pessoa – Casimiro da Piedade Abreu.

Meio sonhador, meio boémio, meio louco ás vezes – mas com talento, talento que ele talvez tenha malbaratado mas, que estava latente em poemas como este que dedicou a Domingos Lavadinho – e de que citaremos hoje apenas a introdução:

A Rua de São Francisco(do Livro O quarto dos Santinhos:

                            

Eu nasci numa como todas as outras ruas:

com casas, com os decantados vizinhos e

com alguma Poesia.

                             

A Rua de S. Francisco tem qualquer coisa de mágico para quem lhe desce a calçada. Acaba, de súbito, na muralha negra, com uma mancha muito branca nos sopés. Essa “branca” foi casa de São Francisco. Agora, é residência de um sapateiro.

 

            Prometo que para a semana voltaremos à Rua de S. Francisco do Poeta Casimiro Abreu. - Está bem?

            Que eu saiba, ninguém olhou com amor mais amassado em conhecimento para esta rua onde todos paramos – tantas vezes – (no semáforo, quando vermelho) pelo menos...

       Mais ninguém!... Talvez não...

            Quando nos Açores visitei S. Miguel “ Santo nome de Jesus “ (como por lá se diz tanto ao nosso jeito!) – que alegria tive em rever a Mãe deste poeta e de a escutar na lucidez dos seus quase noventa anos falar-me dos seus filhos. Ausências que mareavam de saudade os seus ainda bonitos olhos verdes.

“ Estou sempre a responsar os meus filhos! (confidenciou-me) e, a meu pedido ditou devagarinho para que eu pudesse apontar esta poética e bela oração popular:

 

Eu te responso!

Com as armas de Cristo andes armado!

Com o leite da Virgem andes borrifado!

O sangue de Cristo tragas no teu corpo.

 Não hás-de ser ferido – nem morto!

Nem mal tratado!

Nem mordido de bicho, nem cão danado!

Por caminhos e estradas andarás

Os maus nunca verás

e os bons encontrarás.

Responso-te a Santo António e S. Francisco

e ás cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo

Amém.

 

            Quando nos despedimos eu trazia de cor o seu lindo e belo rosto de pele branca e expressão doce (quase sem rugas) e o sabor a pó de arroz (moda do seu tempo) que também me deixam os beijos de minha mãe e... dentro de mim rodopiavam dois versinhos simples dum poema que Álvaro Abreu (também seu filho) escreveu quando rapaz louvando a cidade de Elvas.

 

 Minha dama doutros tempos

 Minha linda dama antiga!

 

E... as imagens confundiam-se...

 A Senhora D. Joaquina já não mais responsará seus filhos – mas quem ler os livros de Casimiro Abreu aí a reencontra – por exemplo:

                       

Minha Mãe e a sua fé

A fé mais pura que eu vi

Rezavam coisas tão belas

Que lá fora, essas procelas

Se apagam para mim!

 

Que, poesia é sem duvida também, uma dimensão de vida.

Quando regressei de S. Miguel à Terceira li para o poeta “Padre Coelho de Sousa” este responso à porta da sua igreja em dia de “ benção de bodos” – se puder, um dia, hei-de contar o que isto é – Ele pediu-me:

 Dê-me uma cópia. Gostava de falar sobre isto aos meus paroquianos. 

É uma mistura tocante de fé e superstição. (comentou) 

 

Entretanto o tempo passou. Veio o terramoto que poupou a sua igreja de S. Sebastião – de estrutura gótica – mas lhe fez chão raso da casa e lixo dos milhares de livros da sua biblioteca. Não lhe cheguei a dar o responso.

(Talvez lho mande ainda...)

            Responso-o agora daqui para que continue a escrever novos e bons poemas como este:

Primavera

           

 Vi-te correr.

 Passaste.

E nem olhaste quem te olhava

 

Espumas de noivar velavam o teu rosto.

Trazias em promessa um laranjal em flor

Na tua fronte.

 

Rasgavas o horizonte em nuvens cor-de-rosa,

E as tuas mãos

Sonhavam ramalhetes de alecrim

Que me dão deste mundo, nunca, a mim.

                                  

Ah! Primavera! Primavera!

Manhã de Abril …passaste.

Vi-te correr…Abelha num jardim.

E nem olhaste quem te olhava.

Adeus! Adeus até jamais ter fim.

 

E assim se entrelaçam recordações que se encadeiam e são PONTOS DE PARTIDA de umas para outras.

 

Maria José Rijo

 

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Ponto de Partida - I Emissão

Segunda-feira, 20.02.12

I Emissão

                   

            Qualquer coisa – um quase nada - é - tantas vezes ponto de partida para um sonho novo, um trabalho diferente, um projecto, uma esperança, um remorso até!

        Qualquer coisa, ou quase nada, é - ás vezes, quantas vezes, ponto de partida para evocar uma paisagem, uma frase, um amigo, um momento vivido - um poema...

         ... Que fale de poesia me pediram.

         Que sei eu de poesia que todos não saibam.

         Não tenho trunfos na manga – não sou mágico - não posso fazer milagres, nem me posso escudar em diplomas que me autorizem a saber seja o que for.

         Mesmo assim, não me escuso.

         Aceito o “Ponto de partida”.

.

             Nada – nadinha mesmo - sabia de Poesia, a velha Carolina e, quando numa noite quente de fins de Abril o perfume das glicínias inundava o meu quarto - ela - que descansava o corpo moído de pobrezas e fadigas duma vida inteira - sentada no tapete como bicho fiel - ela, que só podia recordar abandonos, canseiras de apanhos de azeitonas, de mondas  e de ceifas, tarefas humildes e penosas, raivas e desesperos - ela que de alegrias - a que mais lembrava era nunca lhe ter faltado trabalho para matar o corpo, (como confessava). Com os seus pequenos e espertos olhos azuis semicerrados de gozo murmurou na sua voz cantada - sorvendo o ar com avidez beata:

    “ Há-de ser por isso que chamam-lhe ” delicinia” nã é Senhora?”

    E, perante o meu silêncio comovido e atento – concluiu:

    “ mêmo p’rós  pobres cum`a  mim viver é bonito!”

         Sem rima – sem métrica – sem preocupações de correcções morfológicas ou sintácticas. Só por um nada – uma coisa vulgar – sem importância.

        Será que não tem importância?!

        Só pelo aroma duma glicínia em flor - da boca desdentada duma velha, curtida pelo trabalho - como da boca duma criança que nada se sabe e tudo pode esperar - um poema de amor à vida.

        Chamava-se Carolina Malheiros, era analfabeta, nascera em Alter e repousa no cemitério de Elvas.

       É pois com um instintivo amor à vida – como o dela, com a mesma coragem de quem não sabe – mas sente - que faço desta bela  recordação que evoco em  sua memória o meu Ponto de Partida para falar de poesia.

       De resto – versos são como música - ficam-nos no ouvido aqueles que nos deleitam!

Não sei a quem atribuir a paternidade deste pensamento – nem sequer sei, também, quem foi o autor da bela quadra popular que retenho na memória:

 

Uma quadra é conseguir

Em quatro versos somente

Dizer o nosso sentir

No sentir de toda a gente

 

          Ficou-me no ouvido – como a outros fica a nota alegre dum assobio, o refrão da cantiga que alguém trauteou à sua beira, o choro da criança que se escutou por detrás  da porta fechada, um olhar de namorado... Um sorriso.

            Coisas pequenas – pequenos nadas que tocam a nossa sensibilidade e a afagam, a ferem, a despertam e se agarram a nós como versos soltos dum poema. Tudo quanto nos cerca, aliás, mais ou menos faz parte de nós. Fica em nós.

            Comigo até é engraçado. Sobressalto-me de dia e acordo de noite se o relógio pára, de tal modo o seu pulsar faz parte do meu ambiente. E, todos - elvenses pelo nascimento ou pelo coração, quantos pequenos nadas do dia a dia da nossa cidade temos  amalgamados em nós? Senão vejamos:

         Quantos não sentimos ainda um arrepio de mal-estar ao olhar a Igreja do Senhor Jesus da Piedade privada da companhia dos plátanos que roçavam os sinos e certamente molhavam raízes na pia de água benta. (não me canso de o pensar!)

 

 É tudo como a saúde – sabe-se quanto vale quando se perde!

 

      ... E, se de repente nos faltassem as glicínias debruadas em lilás, na alvorada da Primavera - por tudo quanto resta ainda de muro de horta, portais de quintal ou varanda antiga.

      E... se se apagasse o florir quase incandescente das velhas olaias do jardim por esse tempo?

      No entanto quantos de nós olhamos de verdade, defendemos de verdade as nossas árvores de cada dia - as árvores da nossa terra? E, elas aí estão - florindo para nós, respirando para nós - dando sombra para nós- inteiramente confiadas à nossa responsabilidade, ao nosso amor.

      Ao desrespeito - aos maus tratos tantas vezes - quando os românticos de pacotilha ou os inconscientes, de canivete em punho lhes esfaqueiam os troncos para gravar datas inúteis, corações, atentando contra as suas vidas como os fadistas de viela no Bairro Alto faziam às amantes dementados pelo vinho no tempo da Severa. Irracionalmente!

 

      E, não me perguntem o que tem isto a ver com poesia.

      Por muito pouca importância que se ligue à Poesia, ninguém desconhece o muito que a Poesia se liga à vida.

       Chamo aqui à lembrança de todos a presença de Florbela Espanca que nos diz em soneto:

 

 

          São mortos os que nunca acreditaram

          Que esta vida é somente uma passagem,

          Um atalho sombrio, uma paisagem

          Onde os nossos sentidos se poisaram.

 

          São mortos os que nunca alevantaram

          De entre escombros a Torre de Menagem

          Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,

         E os que não riram, e os que não choraram.

         Que Deus faça de mim, quando eu morrer,

         Quando eu partir para o País da Luz,

         A sombra calma de um entardecer,

 

         Tombando em doces pregas de mortalha,

         Sobre o teu corpo heróico posto em cruz,

         Na solidão dum campo de batalha!

        

        Penso que só uma Alentejana – um poeta do Alentejo podia captar esta força e ao mesmo tempo encontrar esta suavidade que a faz escrever: a sombra calma dum entardecer tombando em doces pregas de mortalha...

 

         Da mesma matriz é filha a inspiração que a fez fixar em árvores do Alentejo.

 

                  A planície é um brasido… e, torturadas,

                      As árvores sangrentas, revoltadas,

                      Gritam a Deus a benção duma fonte!

                   

             Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso Verão ao ponto de sentir terra abrasada se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso a sombra calma do entardecer tombando em doces pregas de mortalha.

Só quem soube viver com toda a força da sua alma a impiedade do nosso verão, ao ponto de se sentir terra abrasada - se assume depois como tarde que entorna sobre a paisagem este olhar de misericórdia que concede a paz e o descanso:

E a sombra calma do entardecer quando António Sardinha o poeta Alentejano de Monforte

              Escreveu na sua:

 

      

Vesperal

 Se eu te pintasse, posta na tardinha,

 Pintava-te num fundo cor de olaia,

 -Na mão suspensa, nessa mão que é minha,

 O lenço fino acompanhando a saia!

                       

 Vejo-te assim, ó asa de andorinha,

 Em ar de infanta que perdeu a aia,

 Envolta numa luz que te acarinha,

 -Na luz que desfalece e que desmaia!

                       

 Com teu encanto os dias me adamasques,

 Linda menina ingénua de Velasquez

 A flutuar num mar de seda e renda.

                       

 Deixa cair dos lábios de medronho

 A perfumada voz do nosso sonho,

 Mas tão baixinho que só eu entenda!

 

           Não se vê, não se palpa que foi através do Amor que dedicava a Elvas, sua terra de eleição – que foi através da vivência íntima do homem sensível, do escritor atento que era com tudo quanto o cercava, e nos cerca que esse poema pode acontecer?

            Julgo poder afirmar que foi respirando o perfume das glicínias e dos lilases da sua Quinta do Bispo “ que foi a refrescar-se à sombra da Nora alta ou do majestoso plátano, que toda Elvas conhece...

          Que foi sentindo como é gostosa a cor das olaias em flor...

            Que foi tendo o próprio sangue carregado de tudo isto que é parte da nossa vida e é Elvas de parte inteira e – só assim – que lhe aconteceu falar do enlevo que sentira por sua mulher – como sendo ela parte deste todo – a cidade – a paisagem ambiente – a sua luz e, nela enquadrar o delicado encanto que a sua mulher o prendia como se de tudo ela própria fosse encarnação e fruto.

            Afinal – como Florbela (do nosso Alentejo) – também ele falou do sentir de toda a gente da nossa Elvas através do seu sentir.

            E, não me venham dizer que são coisas minhas...

Lá dos Açores de onde há pouco regressei os poetas falam de mar, de gaivotas, de búzios de praias...

            É essa a realidade que os perpassa.

 

             Almeida Firmino – açoriano de raiz já em 76 (in Tailandia) na sua “ilha sem voz” escrevia a certo passo:

                                   Vamos levantar os muros

                                          Que os sismos derrubaram

                                          E silenciar o desespero

                                          Dos camponeses que ficaram.

 

Luísa Mesquita(in Mar Incerto) – 1977, dizia assim:

 

Tudo em mim são espumas, ilha e areias negras,

sargaços e redes estendidas secando ao sol…                            

Tudo em mim são conchas e marés vivas,

salgueiros chorando vergados à beira do mar…

                       

Tudo em mim são ressacas e vagas altas,

canaviais na costa e barcos no porto…

                       

Tudo em mim são reflexos de luz nas águas,

vento largo levantando marolas na rocha…

 

tudo em mim são ancoras, cordas e velas,

mastros, navios saindo  e barqueiros remando...

 

Tudo em mim são flores do mar, peixes e ondas,

corais, grutas, recifes, naufrágios e mar...

 

Tudo em mim são sereias cavalos marinhos e búzios,

brisas frescas, atirando sal nas tuas vidraças...

 

nascida do fundo do mar, ao mar voltarei…

E lá nos longes do da eternidade

tudo em mim será, como agora, mar e mar…

           

Não me venham agora negar esta evidência...

Pois que até Nemésio – já longe dos Açores e enfronhado de todo na vida do Continente mergulhava

nas suas raízes ao escrever poesia e a água do mar escorria-lhe pela mão espargindo os seus versos...

veja-se:

 ODE  AO MAR --- que começa assim:

 

 Vejo-me só, de pêlo e pele, numa ilha negra.

 Meus irmãos homens desertaram

 Com os documentos em regra

 Narcos que me roubaram.

                       

 Sim, porque eu era o Rei da ilha em questão...

 

 Aí nascera.

 Lá, uma vaga dera

 Uma pancada rara

 (A vaga minha madrinha),

  Não sei com que força ou vara:

 Sei que a pancada vinha

 Direita ao meu coração,

 Que ainda hoje a reproduz.

 

  Outro dia que calhe havemos de voltar aos Açores, havemos de ler este poema todo e será daí

o nosso Ponto de Partida...

                       

     Maria José Rijo

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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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