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Reminiscências – 27

Quarta-feira, 13.05.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.890 – 2- Novembro-2006

Conversas Soltas

Reminiscências – 27

A Dona Mariquinhas

          

A Dona Mariquinhas era modista de senhoras. Tinha aprendido a ler com a mesma professora que minha Mãe, e assim ficaram amigas desde a escola.

Cada qual seguiu seu rumo, mas a amizade manteve-se. Minha Mãe com aquela força de carácter que conservou até ao fim da sua longa Vida, atropelando um pouco os costumes de então, foi estudar para Faro, onde conheceu meu Pai, desistiu da Escola Normal e, aceitou o destino tradicional de casar e fazer vida de casa, (do que sempre manifestou algum arrependimento embora moderado, dizendo que nunca uma coisa deveria excluir a outra...)

Mariquinhas, fez-se mulher e “dona” com os anos, mas permaneceu solteira.

Aprendeu corte e costura, investiu na profissão a sua veia artística e, era célebre no seu “métier” até nas povoações vizinhas.

Vestir da sua casa era, como agora se diz: - o máximo!

Vivendo ela na terra de meus avós e tios certo e sabido que a visitávamos, também, com frequência e, isso era um dos maiores encantos das nossas estadas no Algarve.

com sandy aa.jpg

Ela era uma figura especial. Não era muito bonita, era baixota, mas o seu rosto agradável, de expressão sempre risonha, era um sorriso aberto e doce quando nos avistava, o que punha a brilhar os seus pequenos molares forrados a ouro, pormenor que nos parecia deslumbrante.

Prestava-nos imensa atenção, fazia perguntas levava a sério as nossas confidências e, com a sua voz, um tanto velada, quase rouca, contava-nos histórias.

Naquele tempo a indigência era a “reforma” dos pobres. Havia até figuras queridas, nos povoados, de entre eles. Eram os loucos mansos, que declamavam rezas e ladainhas, às vezes até sem nexo, que provocavam sorrisos, mas que as pessoas acolhiam com piedade, e, até alguma estima.

Dona Mariquinhas atendia-os a todos, tratava-os pelos nomes, falava com eles, e isso deslumbrava-nos.

Fazia-lhes perguntas anedóticas com aparente seriedade. – Mesmo assim, inquiria:- quantas castanhas seriam precisas para calcetar a estrada aqui de Messines até à Cumeada. O visado pensava, pensava, e respondia um número qualquer. Então ela, retorquia: - enganou-se só por quatro! - Felicitava-o, e dava-lhe uma boa esmola.

Nos dias bonitos de Primavera e Outono levava as “pequenas” a costurar para o pátio. Elas, sentavam-se em cadeirinhas baixas, de fundos de bunho, à sombra do enorme caramanchão de roseiras e buganvílias, e, Dona Mariquinhas, Suggia2 casaco pele.jpgtomava assento num cadeirão de verga e lia para elas, em voz alta, trechos de:- A Rosa do Adro, A Morgadinha, os Fidalgos da Casa Mourisca, e, por aí fora. Porém, o melhor para mim é que ela interpretava teatralizando o que lia; e, conforme fosse o personagem, assim fazia voz fina ou grossa sem se enganar sequer na musicalidade das gargalhadas com que figurava cada qual.

       

À meia tarde chamava os gatos que retouçavam pelo

 

quintal – Serenata! Viola! Bandolim!

 

Que apareciam para lambaricar os pires de leite enquanto a empregada da casa a todos servia a merenda, que invariavelmente oferecia.

Marmelada, biscoitos caseiros e gostosas fatias de pão com manteiga. Para bebida, chá de ervinhas. (príncipe, cidreira...)

Terminado assim o “recreio”. Tudo recolhia para dentro de casa e na sala de trabalho voltava a tesoura a fazer a música do terr, terr, cortando tecidos sobre as tábuas da mesa enorme, feita de castanho maciço e as agulhas a cantar baixinho ao roçar nos fundos metálicos dos dedais.

Então, na companhia da “mais velha” das aprendizas, Dona Mariquinhas afastava-se e, só depois de tratarem da tia Julinha (que sofrera uma congestão) e permanecia havia anos, imóvel e muda como uma santa de cera entre a alvura dos lençoes cujos bordados e rendas se confundiam com as camisas de dormir preciosas como peças do museu, que era o seu quarto -  reaparecia, risonha, como sempre, pontuando : vamos ao terço e, assim acontecia, no final do dia, com a sua récita em coro.

Como prémio – pela nossa presença, que ela muito apreciava - na despedida, vinha o convite: - podem escolher daqui, e apontava uma resma – os trapinhos que quiserem para fazer vestidos às bonecas. Eram tantas as cores e tão variadas, que era como meter a mão no arco-íris.

E, assim nascia o começo de um novo sonho para o dia seguinte...

E se fundamentava, sem disso nos darmos conta, o arquivo das reminiscências, que de vez em quando me apraz, deixar, aflorar.

 

 Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:08

Reminiscencia - 24

Quinta-feira, 07.05.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.838 – 3 – Novembro - 2005

Conversas Soltas

Reminiscência Evocação

Reminiscência - 24

.

Uma das coisas que a Vida me ensinou, é que, de certo modo, nunca se está só.

Há sempre dentro de nós, qualquer lembrança, qualquer recordação que inesperadamente nos aflora ao espírito e que nos assegura que somos ou já fomos parte de um núcleo que mesmo depois de extinto, e permanecendo apenas como memória, nos identifica como indivíduos.

Nenhum de nós, é apenas e simplesmente isto ou aquilo. Cada um de nós, é, em cada dia um ser em evolução ao qual cada hora, cada minuto, cada instante torna diferentes, mas que conserva latente dentro de si, como um fermento, memórias da sua infância que sempre serão condicionantes e motor, dessa evolução.

           

Aqui há dois ou três dias atravessando o jardim, parei a observar a passarada nas gaiolas e dei comigo a pensar como desde muito criança sou pela liberdade.

Meu pai, adorava música e canto, aliás cantava muito bem, de tal forma que era solista no Seminário Patriarcal onde, em menino, estudou.

Nesse culto incluía também o seu apreço pelo canto das aves.

Cuidava com zelo das suas gaiolas de canários e, muitas vezes parava de ler qualquer jornal ou livro que tivesse em mãos, para, desvanecido ficar a escutar os seus trinados

Ora, em certa altura decidiu adquirir, também pintassilgos.

Vivíamos no campo, a tarefa afigurou-se-lhe fácil.

E, vá de comprar gaiolas e povoa-las. Acontece que o desconforto de estarem presos era tal, que os pintassilgos passavam o tempo a tentar alargar os arames, com as cabecitas, tentando a fuga.

Eu, olhava sofria e ia crescendo tanto a minha aflição, que à socapa ajudava-os e, eles fugiam.

As crianças são matreiras, mas os adultos não são tontos...

Meu Pai, calou-se, mas desconfiado da “fartura” porque o fenómeno se repetiu várias vezes – averiguou – e foi-lhe fácil apanhar-me em flagrante.

Estática, mais envergonhada e humilhada por ser descoberta a traí-lo, do que receosa, comecei a chorar.

E, quando eu pensava que meu Pai, ao erguer a mão para mim me iria puxar uma orelha (único castigo, e raro, que mais fingia do que exercia) ele segurou na minha, pegou-me ao colo, limpou-me as lágrimas e disse comovido: - tens razão filha! Até um pobre passarinho luta pelo direito à liberdade.

Vamos respeitar isso!

E, acabaram os pintassilgos engaiolados.

Revivi a cena e pensei: - meu Pai morreu já velhote!

Foi em 71, há 34 anos, tinha ele então 81!

Foi neste exacto momento que me lembrei da minha própria idade.

E, confesso que dei comigo a rir, a rir com gosto.

Velhote! Velhote!

E, velhota, porque não?!

~     

Fantástico como o tempo altera alguns dos nossos conceitos mais “definitivos”...

E, esta hein? – Diria, sem hesitações, Fernando Pessa.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:17

Reminiscencia - 23

Terça-feira, 05.05.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.825 – 8-Agosto-2005

Conversas Soltas

Reminiscência – 23

 

Sabedoria popular

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Antes do evento da libertação feminina que permite a orgulhosa produção independente de filhos.

Quando ainda se acreditava que a melhor coisa para uma criança, era nascer tendo pai e mãe, e crescer, fruindo do amor e protecção de ambos...

Quando era impensável, meter, até no rol dos pesadelos, quanto mais no real! – Que se possa dar por destino a uma criança não lhes chamarei, um lar, mas a hipótese de crescer no reduto onde habitem parelhas quer, de homens, quer de mulheres, unidos por ligações sexuais...

                      

Quando estavam estabelecidos alguns valores, que embora, pudesse acontecer serem levados a um exagero quase acéfalo, serviam de referências morais que balizavam as condutas, tidas, então por correctas aconteciam situações, por vezes, engraçadas.

Ora é desses tempos a histórinha, picaresca, que hoje conto.

Todas as donzelas se queriam apresentar como virtuosas, porém, como já vem de longe no tempo a confusão entre virgindade e dignidade, era obrigatório esconder qualquer procedimento mais ousado, qualquer intimidade que se tivesse avançado.

Alguma, que por mais fogosa, chegasse ao casamento já grávida; escondia como se fora um crime, sem perdão, o resultado das suas aventuras proibidas.

E, se umas eram sinceras e corajosamente assumiam que se “haviam apressado”, outras, julgando-se mais espertas, mentiam, simulavam estratagemas vários para fazer crer que a pressa não fora delas e dos parceiros, mas sim dos nascituros que apareciam antes dos nove meses da praxe!

                

Nesses tempos, ninguém nascia em hospitais e eram as “comadres”, mulheres já velhas e cheias de experiência, nesses rotineiros tramites que exerciam as funções de parteiras.

Acontece, que certa dama, uma vez, precisando dos serviços de uma dessas comadres, pretendeu com arrogância fazer crer que com ela eram impossíveis, leves suspeitas, sequer, de que pudesse ter chegado ao casamento, já no seu estado interessante.

            

Então a velhota, do alto da sua sabedoria popular disse-lhe com complacência: - não se amofine a senhora.

 Não vale a pena!

A senhora tem toda a razão.

Quer ver? Casou em Março, não foi?

Conte lá comigo! – Março, mamarço e o mês de Março vão tres!

Abril, mabril, com o mês de Abril, dá seis...

Maio, mamaio, mais o mês de Maio, aqui tem a senhora os nove meses.

Vê, que não há engano! - as crianças, nascem sempre de tempo! A gente é que às vezes é que se distrai e conta mal.

 

Meu conto acabado, meu feito jurado.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:17

Reminiscências 12

Sábado, 14.03.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.697 – 14 – Fevereiro – 2003

Conversas Soltas

Reminiscências 12

                 

 

Gosto do número treze.

Gosto de bruxas.

Melhor, penso que gostaria, pois, ao que julgo, ainda não conheço nenhuma.

Gosto das sextas-feiras, e de tudo o que gera arrepios de medo a quem cultivar superstições.

Assim sendo, ao reparar que a evocação das minhas reminiscências já passara o número doze, logo me apeteceu para o décimo terceiro lugar, procurar no meu arquivo das lembranças alguma história, tanto quanto possível divertida, para espantar o agoiro.

O que vou contar com seu quê de anedótico, também serve para provar a força das aparências.

Morávamos nas Caldas da Rainha.

A cidade então, aí pelos anos sessenta, mantinha, (oxalá os conserve) costumes de um pitoresco irresistível.

Eram os mercados diários na Praça principal com as vendedeiras e vendedores transportando em burros e carroças as mercadorias que descarregavam espalhando-as no chão, sobre a calçada.

Eram os burros ajoujados com enormes cestos de grossa verga, onde vinham patos, frangos, frutas, hortaliças, e, até as crianças, os filhitos mais pequenos, anichados dentro deles, indiferentes ao balançar cadenciado da passada dos animais, sob a sombra protectora dos grandes chapéus de sol, dormindo como se estivessem nos seus próprios berços, ou, tudo espreitando, com olhos curiosos, como se estivessem à janela, quando “viajavam” acordados.

S/N - Portugal-Caldas da Rainha: Praça da Republica À hora do Mercado - Editor Fernando Daniel de Sousa - Editado em 1944 - Dimensões: 15,0x10,5 cm . - Col. Miguel Chaby

Era todo o colorido de frutas, flores, vegetais, loiças, e ainda o movimento dos fregueses e, dos compradores, a algazarra das conversas entrecruzadas, e de alguns pregões; a competição dos preços, regateados até ao meio tostão...

Talvez motivado por essa vivência de coração aberto duma cidade que se dá, sem reservas, a quem a visita e a quem nela vive; o convívio era franco e saudável entre toda a gente.

N.º 22 - Portugal Caldas da Rainha Tipos de Mercado. Vendedeiras de Fruta - Editor Passaporte Loty (Editado em 1951) - Dimensões: 9x14 cm. - Col. Miguel Chaby

Talvez também a proximidade do mar, as termas e todo o enquadramento próprio que torna as terras do litoral, com as idas e vindas dos banhistas mais garridas e livres do que as vilas e aldeias do interior das Beiras e dos Alentejos, tivessem também seu forte contributo no trato liberal com que todos nos saudávamos e convivíamos.

mercado.jpg

Então, aconteceu, que um bom amigo que era funcionário da mesma instituição em que meu marido trabalhava, era, simultaneamente dono de uma funerária.

Não sendo ele rico, esforçava-se por arranjar oportunidades para abichar negócios rendosos. Assim que, quando se estavam a terminar as obras da ponte, 25 de Abril, que na altura se havia de chamar Salazar teve conhecimento que os engenheiros americanos, antes de regressar às suas terras iam por em venda, assucatada, dos seus soberbos carrões.

Correu a Lisboa, e logo se afreguesou do maior que viu e, lhe pareceu ser possível de ser transformado em carrinha funerária.

Era uma bisarma desconforme!

Parecia coisa do tio Patinhas, na mais perfeita fantasia dos desenhos animados, com bandeirinhas, emblemas, e bem espelhado de cromados.

O nosso homem fez a aquisição e regressou às Caldas mais contente do que um frade beberrão, a quem dessem de presente o melhor vinho das missas e começou a convidar conhecidos e amigos para usufruírem da maravilha antes que a nova serventia lhe desvirtuasse a espampanante aparência.

Sendo nós também contemplados, calhou-nos numa tardinha de sol, partir ao acaso pelas estradas das redondezas, deambulando por entre verdes pomares, casais e pequenos vinhedos.

A certa altura, por um acaso, abrandamos ainda mais a velocidade de passeio em que seguíamos, porque à nossa frente iam, roncando desenvoltas, algumas luzidias motorizadas.

Foi então que, ao abeirarmo-nos, dum pequeno povoado começaram a estralejar foguetes, a filarmónica toda perfilada, rente à estrada, a tocar, o chefe da banda a gesticular, as crianças das escolas a dar vivas e a agitar bandeirinhas, as autoridades a empertigar-se e, nós, divertidos e admirados, soubemos que nos haviam confundido com um ministro que era esperado para a inauguração, se calhar, de alguma fonte de bica, ou quejanda insignificância, como é nosso uso!...

E, foi assim que um carro salvo da sucata, que era por fora de cordas de viola e por dentro de pão bolorento teve no seu passeio de despedida com ocupantes vivos, as honras que neste nosso mundo mais se prestam às belas aparências do que a modestas e, apagadas, excelências...

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 22:25

Reminiscencias - 11

Terça-feira, 10.03.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.685 – 22- Novembro-2002

Conversas Soltas

Reminiscências - 11

 

Chove que Deus a manda!

O vento desassossega a alma de qualquer cristão.

A casa arrefeceu de um dia para o outro como se tivéssemos mudado para países de neve.

As portas e janelas estremecem, sacodem-se como que em arrepios de morte incontroláveis. E o vento, insistente, experimenta a cada passo a resistência de tudo o que se opõe à sua fúria desenfreada e zurze enlouquecido o que encontra e se lhe atravessa no caminho.

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Sempre, com estas primeiras tempestades do avizinhar do Inverno me reporto aos meus Natais no Algarve em casa de meus tios e meus avós.

Éramos sete primos irmãos tão unidos que costumávamos brincar dizendo que éramos mais do que primos, já que, também, éramos irmãos.

Vivíamos em cidades distantes mas, pais e avós enredaram-nos de tal modo no arreigado sentimento de família que os unia que festas e aniversários só se consideravam se fossem vividas com o rancho dos sete completo reunido na velha casa de família frente ao adro da igreja onde os nossos pais se tinham casado e todos nós fomos baptizados.

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São recordações antigas.

Coisas de há quase, setenta anos...

Mas foi o vento, agora, que mas trouxe...

Foi o vento que me tornou presente os nomes dos livros que me induziram no vício de ler.

É que nas férias de Inverno, pelo Natal, quando os serões se alongam noite dentro; deitávamo-nos cedo.

Jogava-se um pouco ao “loto”, ao “bom dia senhorita”, “à glória”, entretengas inocentes que reunindo velhos e novos davam para aprender a perder “sem prender o burro” e a ganhar sem arrogância.

As braseiras, não eram então, usuais entre os algarvios e, deitar cedo era um costume bem aceito por todos, até porque a leitura, era mais do que um costume: era um vício!

Lia-se à luz dos candeeiros de petróleo.

Depois de já bem abafadas no aconchego das camas, até que o sono chegasse, a distracção era a leitura.

Eu dormia no quarto de minha prima mais velha, por ser das mais novas, vivia sob a sua protecção.

Era costume ela e as suas amigas lerem ao mesmo tempo as obras que escolhiam em conjunto e que depois nos nossos passeios e encontros comentavam, para meu deleite, comparando opiniões e pareceres, discutindo enredos e personagens.

Havia tanto entusiasmo nessas conversas que, às tantas, parecia que se estava a falar de amigos comuns ou conhecidos

Elas, já eram moças casadoiras, eu, apenas uma garota de doze ou treze anos que pelo gosto de ler tinha ganho acesso ao grupo das grandes.

Nesses tempos que hoje recordo, não havia ainda electricidade nas casas, nem nas ruas.

Ao anoitecer, vinha um homem, (então, ”lá” era o senhor Queitano) de escada às costas acender pelas esquinas os lampiões de petróleo.

Frente à janela do nosso quarto, estava um, mesmo na esquina da casa onde vivera João de Deus, o poeta de Messines, cuja memória também lá está assinalada numa lápide, nessa mesma parede.

Queitano, chegava e cumprimentava: - boa noite meninas! E, nós muito espevitadas respondiam: - boa noite “Quaitano!”

Porque era assim que ele queria ser chamado por achar “menos visto”

E, estava dado o sinal do começo da noite...

O Queitano, não era o sol no ocaso. Nem era a lua nos céus!

Pois não, mas era quem marcava o começo dos serões, porque sem luz nas ruas, ninguém se atreveria a ir a casa de ninguém.

Ás vezes, e o que nós delirávamos com isso, nessa hora do lusco-fusco íamos com minha tia a casa do senhor Prior levar um mimo para a ceia. (minha tia era eximia a fazer doces!)

Depois voltávamos felizes e abençoadas para o recomeço das nossas vidas cheias de paz.

E, tudo recomeçava...

Foi assim, revezando com minha prima mais velha, a ler em voz alta, à luz da chama do candeeiro de petróleo, que conheci “o drama de João Barois” de Roger Martin, as obras de Pearl S. Buck, e “entrei na família” das irmãs Bronté...

Foi assim que me arrepiei de encanto e medo com o Senhor Heathcliff e não esqueci mais “O monte dos Vendavais” que este “xaroco” de hoje me trouxe em saudosa memória...

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:57

Reminiscência - A Ladainha

Quinta-feira, 26.02.09

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.815 -- 26-Maio – 2005

Conversas Soltas

Reminiscência – Nº 20

A Ladainha

 

Rezar o terço era nas famílias portuguesas um costume ancestral.

Não sei, se sempre se rezaria por fé, por necessidade espiritual ou se nalguns casos seria apenas uma tradição, um ritual bonito que por essa razão se mantinha e cumpria como quem faz filhós ou queijadas nas épocas próprias.

Ainda me lembro de ver, em casas grandes que visitava, à boca da noite, patroa e criadas, naquelas horas mortas entre o jantar e o deitar, nesses longos serões, rezarem em conjunto.

Em voz alta, desfiando o terço, a senhora da casa anunciava os mistérios enquanto as acompanhantes em lugar de correr também os dedos pelas contas, puxavam as lãs “enchendo” em ponto de Arraiolos tapetes para os herdeiros da família, ao mesmo tempo, que recitavam as orações.

Noutras casas era diferente.

Havia famílias que iam à igreja cumprir as suas devoções, ou cumpriam-nas em suas casas, mas não impunham nem sugeriam quaisquer obrigações a quem as servisse, embora desde que o solicitassem fosse aceita de bom grado a sua companhia.

O mais comum, era em cada família, serem os elementos de mais idade a gerir os preceitos do comportamento geral e ninguém se eximir a esse desiderato.

Assim, de geração em geração, passavam as orações que já chegavam ao conhecimento dos mais novos com as legendas explicativas de: - já minha mãe ou minha avó rezavam assim...ou, foi com fulana ou beltrana que aprendi...o que fazia que nunca se perdessem de vista os “direitos de autor” quando se divulgassem.

Curioso, era que, na maior parte dos casos os homens embora ficando por perto não tomassem parte no acontecimento. No entanto, se fosse caso disso, com a maior naturalidade diziam: - a essa hora não porque é a hora das orações.

Era pois facto assente que o ritual fazia parte do quotidiano estabelecido e aprovado.

Na casa de meus pais, a mentora das devoções era minha Avó que na hora certa convocava minhas tias, e as netas, anunciava alto e bom som o evento para quem mais quisesse aderir e iniciava as suas jaculatórias a que se seguia o terço e a ladainha.

Até aqui tudo bem!

O pior é que minha Avó persistia em ler a ladainha em latim.

Meu Pai, com o seu sentido de humor não perdia pitada, escondia a cara por detrás do jornal que parecia ler e assistia sorrindo deliciado ás silabadas que sua Mãe dava e nós em coro repetíamos

Eram cenas de Verão, lembranças de quando já não havendo aulas estávamos de férias em casa.

Memórias daqueles dias imensos em que o calor do Alentejo convidava à quietude e à contemplação.

Entretanto faziam-se horas para jantar. Corríamos então ao quintal para ver quem chegava primeiro para tirar a cesta pendurada por uma corda para dentro do poço onde a garrafa do vinho para a refeição e a melancia, ou outra fruta, tinham estado toda a tarde a refrescar, que a água que se bebia era comprada à porta, ao aguadeiro, e guardada em cântaros de barro, nas infusas, como por lá se dizia, e, essas ficavam à noite ao “sereno” para haver água fresca o dia inteiro.

olhares_exposicao_alentejo.jpg

E, tudo isto, foi apenas outro dia, aí para trás...quando não havia televisão, nem rádio, nem frigoríficos, nem máquinas de lavar...

Há mais de cinquenta anos; é certo!

Mas, foi já, na minha geração.

 

Maria José Rijo.

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:51

Carnaval - Reminiscencia V

Sábado, 21.02.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.489 – 5 – Fevereiro - 1999

Conversas Soltas

Reminiscências 5

 Carnaval

Ora ainda bem que o Carnaval chegou!

Só assim, com máscara, serei capaz de contar algumas reminiscências especiais, o que, se calhar, noutra altura, não me atreveria a fazer.

Começo por uma história que sempre ouvi referir como aprendida em Barrancos.

Até calha bem! - Barrancos, agora está na berlinda.

Creio, que em boa verdade, o contador, senão, o inventor, desta brincadeira situava em Barrancos todas as anedotas que contava. Ele tinha um bom motivo. Era a mistura de espanhol e português que compõe o dialecto que por lá se usa. Usando-o tornava a linguagem mais colorida e conseguia da assistência reacções mais efusivas

Então a garotada delirava de riso. Mas vamos à história!

Parece que um santeiro quis comprar a uma mulher o tronco de uma velha laranjeira para com ele esculpir um S. Cristóvão. A proprietária do cobiçado material, não estava muito disposta ao negócio porque era lá que atava o burro sempre que o arreava para ir à vila tratar da sua vida ou, no regresso, para descarregar os seus avios.

Porém ao perceber a finalidade a que se destinava o tronco, cedeu prontamente. A partir de então tornou-se devota do santo e quase o considerava como membro da sua família.

Ia vezes sem conta à capela onde a imagem era venerada e com ela mantinha em pensamento conversas sem fim. Ora acontece que uma das suas filhas ficou para casar e a nossa heroina lá foi mais uma vez desabafar com o seu santo. Contou-lhe das suas dúvidas e receios por tal casamento e concluiu as suas preces, de pé, em frente da imagem enaltecendo e valorizando assim a sua intimidade:

                  

                   S. Cristóvão poderoso

Milagreiro

Obra prima do santeiro

Pureza de criatura

Maravilha de escultura

Varão santo

Cara de anjo

Olhar doce

Divinal

Milagre da natureza

Da estaquita do meu burro

Sois irmãozito carnal

 

Mas... há sempre um mas; e, o dito casamento foi uma verdadeira catástrofe e a nossa heroína ofendida com a negligência do santo, que não cuidou de servi-la a contento, como ela pensava, ser de sua obrigação, dada a sua origem que lhe era tão familiar - não fez mais nada -  cruzou o xaile no peito, avançou furibunda para o santo e em altas vozes deu largas ao seu ressentimento dizendo:

 

S.Cristóvão

Cristobaça

Pataça

Manaça

Cara de cuerno

Patifon

Assim como tendes las fuças

Assim me deste el genro

 

E, assim, numa brincadeira, se põe a nu a mudança que se opera nas pessoas quando os seus interesses são beliscados.

Passam, os ídolos invocados, de santos a demónios e, no auge da ira, por não puderem por o mundo a rolar a seu gosto, esquecem as blandícias com que pretendem levar os outros a servi-los e mostram, até na linguagem, a verdade dos seus corações.

Sábio é o povo. Tolo, será, quem não o entender.

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:41

“A palavra exacta”

Sexta-feira, 20.02.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.904 – 8 Fevereiro – 2007

Reminiscência -- 29

Conversas Soltas

 

 

Tinha estado a prestar atenção a um programa na televisão onde se falava de correntes literárias, e referia com particular ênfase o Romantismo.

Fiquei a pensar na influência que as vivências de cada época têm na arte e, talvez de forma mais evidente no romance e na pintura.

Detive-me a “revisitar” interiormente o pouco que sei do assunto e a “digerir” com o máximo de benevolência possível o confronto com a minha ignorância, saboreando algumas lembranças e referências que persistem em coabitar comigo.    

Recordei a descoberta de alguns autores, um, em particular, porque o li “cedo” e, portanto às escondidas – Emile Zola com a sua Nana e a sua Therese Raquin, livros, retirados à socapa da biblioteca do “Avô” como também eu, entre suas netas, assim tratava o Dr. Aresta Branco – pai– figura quase lendária dos tempos da implantação da Republica, que, tendo sido companheiro de escola e amigo de meu avô paterno, me mimava como neta .

A verdade é que nem os olhares daquelas figuras austeras, de colarinhos engomados , “plastrons” sob as casacas negras, monóculos, bigodes retorcidos , barbas de fino recorte, quietas nos retratos enormes, de tamanhos e molduras iguais que revestiam as paredes da seu  escritório, e que o Avõ referia familiarmente como:  o Manuel de Arriaga, o Teófilo, o Bernardino, o António  José de Almeida  o  Teixeira Gomes  - e pareciam fixar-nos acusadoramente, nem eles, nem a média luz, imposta pelos espessos cortinados, que tornava os moveis escuros de tremidos e torcidos um tanto fantasmagóricos nos detinham a mão atrevida que  surripiava das estantes, os exemplares, que, às escondidas, íamos devorando

(From left, seated at table) Joseph Schildkraut, Paul Muni, and Gale Sondergaard in The Life of &[Credits : Courtesy of Warner Brothers, Inc.]

Mas, isto de Zola, que ouvíramos dizer ao Avô, ser amigo de Paul Cézanne, e estar ligado à defesa do caso Dreyfus,( que não sabíamos o que era) mas, de que o Avô, falava com admiração,  era o máximo!

Podíamos até nem perceber grande coisa do que liamos, nem ter a mínima noção do que era o naturalismo, ou, alguma vez olhado um quadro de Cézanne, quanto mais distinguir – aos doze , treze anos, se era clássico ou  impressionista! - Mas, a emoção de lhes pronunciarmos os nomes dava-nos o conforto íntimo de nos “sentirmos entendidas”, gente adulta, que sabia “das coisas” , o que nos fazia presumir de “importantes.”

Decorávamos poemas, títulos de romances, nomes de autores, e, claro está, das suas heroinas.

Chorávamos, agonizávamos e quase morríamos de emoção com o drama da Dama das Camélias, como nem ao próprio Dumas, teria acontecido. Porque, então, com tal torrente de lágrimas ter-se-ia afogado sem conseguir escrever o romance...

Pasmo do mundo de lembranças que acabo debulhando a propósito de quase nada. E, desta vez, afinal, porquê!

Uma nesga de sol entrando pela vidraça iluminou de forma repentina um bocado de tecido sobre a minha mesa de trabalho. Fiquei a olha-lo seduzida pelo tons vibrantes das cores sob o efeito da luz.

Então, alguns versos que retenho, de um poema que o tempo foi varrendo da minha memória, levaram-me a pensar, em como, até nos desenhos das tapeçarias, as correntes literárias e poéticas das diferentes épocas marcavam a sua presença. O tecido imita as tapeçarias francesas “Gobelin” que primavam pelas delicadas figuras românticas desse universo paradisíaco feito de beleza e felicidade, verdadeiros delírios de elegância em cenas de Watteau próprias dos sec. XVII/XVIII

Julgo lembrar, que o poema se intitulava, “Passo de Minuete”e referia, um raio de luz (com agora) que acendia as cores de uma bela gravura representando uma dança de salão, em cujo verso final se dizia -: “graciosa mesura – e acaba o minuete.”

E, foi essa pequena frase que me fez sentir como às vezes, só uma palavra pode fazer a diferença. E. Na circunstância, evocando o ambiente, o meio e a época, para estar perfeito, tinham que ser aquelas e não outras: -“ graciosa mesura e acaba o minuete”. É que não é preciso dizer qualquer coisa mais para se “ver” que a dança terminara, o cravo emudecera e os pares de cabeleiras empoadas e gestos peralvilhos e artificiais e as damas decotadas e cheias de frufrus a esconder o rubor do falso cansaço por detrás dos preciosos leques, se dispersavam pelos salões...

“Graciosa mesura” – nem demais, nem de menos – a forma exacta – apenas.

Preciosa como uma jóia, nostálgica, como uma reminiscência...

                                                 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:19

Reminiscencias - 6

Terça-feira, 17.02.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.491 – 12 - Fevereiro -1999

Conversas Soltas

 Reminiscencias - 6

      Illumination_morgan_estill

Convivi e estimei profundamente, com respeitosa admiração, um homem bom que discretamente ajudava e protegia todos quantos à sua porta batessem. Viúvo, muito novo ainda, criou sem madrasta uma ninhada de seis crianças, das oito, que do seu casamento lhe nasceram.

Pois esse Homem que foi meu sogro, com coragem se dirigia a qualquer individualidade quando estava em causa a justiça.

                       File:Braga Banco Portugal.jpg

Assim o fez ao Administrador do Banco de Portugal ao perceber que por razões políticas obstruía a carreira de um filho seu dizendo-lhe frontalmente que chegara à velhice com a consolação de nunca ter prejudicado qualquer soldado que sob as suas ordens tivesse servido, e que lhe oferecia esse exemplo, que considerava o maior orgulho da sua vida, atitude que a sua provecta idade lhe permitia. Como resposta recebeu do Senhor Administrador com um cortês pedido de desculpas a promessa de que a justiça seria reposta, o que veio a acontecer de imediato e que ele comentou, dizendo apenas: - quando as pessoas têm carácter, não há grandes nem pequenos, – há pessoas de bem.

Pois esse homem por ter uma alma pura, tinha um humor de criança e divertia-se com historietas brejeiras que muitas vezes encontrava impressas, me mostrava e fui guardando.

Assim, hoje, aproveitando a maré destes carnavais tão modernistas cá vai uma graça de outros tempos.

           

Acordão da relação do Porto de 11 de Novembro de1793 sobre o conflito de uma das Freiras d’Amarante com os frades da mesma Vila

Acordão em relação, vistos estes autos, etc. etc.

As autoras, D Abadessa, Discretas e mais religiozas do real convento de Santa Clara de Amarante, mostram ter um cano seu próprio por onde despejam as suas imundices e enchurradas, o qual atravessa de meio a meio a Fasenda dos Frades dominicos da mesma vila.

Provam elas autoras a posse em que estão de o limpar quando precisam.Os reus Prior e mais religiozos do Convento de S. Gonçalo, assim o confessam e se defendem disendo : que lhes parece muito mal que lhes bulam e mecham na sua fazenda sem sêr à sua satisfação: que conhecendo a sua necessidade da limpeza do cano das Madres tinham feito unir o seu cano ao delas para mais facilmente se providenciarem as couzas, por cujo modo vinham a receber proveito.

         

Portanto e o mais dos autos; vendo-se claramente que aquela posse só podia nascer do abuzo: vendo-se a mais boa vontade com que os reus se prestam e obrigam a limpar o cano das Madres autoras e que outrosim da união resulta conhecido benefício , conclue-se visivelmente que tais duvidas e questões da pare das autoras só podem nascer de capricho sublime e temperamento ardente que precisa mitigar-se para bem d’ambas as partes.

Pelo que mandam que o cano das Freiras autoras seja sempre conservado corrente e desembaraçado, unido ou não unido ao cano dos réus, segundo o gosto destes e inteiramente à sua disposição, sem que as freiras, autoras possam intrometer-se no dia e na hora nem nos modos ou maneiras da limpeza a qual desde já fica entregue à vontade dos réus que a hão de fazer com prudência e bem por terem bons instrumentos seus próprios o que é bem conhecido das outras que o não negam nem contestam.

              

E quando aconteça, o que não é presumível, que os réus, de propósito ou omissão, deixem entupir o cano das autoras, em tal caso lhes deixam o direito salvo contra os réus, podendo desde logo governar na limpeza do dito seu cano, mesmo por meios indirectos e usando de suspiros, ainda usando do cano dos réus, precedendo primeiro uma vistoria feita pelo Juiz de Fora com assistência de pritos louvados sobre os canos das autoras e réus e pagar as custas de premeio etc. etc

                         

É esta a cópia fiel do Acordam da Relação do Porto de 11 de Novembro de 1793, não deixando dúvidas a ninguém que houve freiras em Amarante e que os doces regionais d’Amarante, da Confeitaria Amarantina de Alcino dos Reis são provenientes de receitas do Antigo Real Convento das Freiras de Santa Clara de Amarante.

 

Era assim, aproveitando circunstâncias por vezes pícaras ou pitorescas, que se fazia noutros tempos a propaganda das particularidades de cada terra. Neste caso focavam-se os doces conventuais de Amarante.

Confessemos que não calha mal juntar à doçura o riso mesmo sendo à custa do desnaturado “pretuguês” com que foi redigido o hilariante acordão...

 

 

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:14

Ocupei outra vez!

Sexta-feira, 13.02.09

Jornal Linhas de Elvas

3 – Março – 2005 – Nº 2.803

Conversas Soltas

Reminiscência – 15

 

 

Lá na aldeia, naqueles anos trinta, as mulheres trabalhadoras do campo, carregadas de filhos, de cuidados e de miséria, por vezes, confessavam em lágrimas qualquer nova gravidez dizendo num lamento:”- ocupei outra vez!”

E, choravam.

Choravam frente ao peso dum destino cruel e injusto que as fazia sentir como maldição aquilo que mais amavam: - “ ter os seus filhos, os mocinhos, as criencinhas, os injinhos os enocentes” – que a designação bebé, como a de papá ou de mamã ainda não tinha entrado no seu vocabulário genuíno, onde as palavras pai e mãe eram pronunciadas com a unção de quem dissesse – santo. Era um tempo em que se lhes pedia a benção ao começar e ao findar do dia, não se tratavam os pais por tu, mas sim por senhora ou senhor.

           

Reminiscências...

Não havia retórica na comunicação, as conversas eram autênticas, directas, nascidas dos sentimentos impressos a sangue, a sofrimento nas suas almas como os calos do peso das enxadas nas suas mãos. As palavras não eram pronunciadas com exactidão académica, a sua pronúncia era modelada pela emoção e facilidade de expressão.

Mas uma coisa é a pronúncia certa e a fonética, outra são os sentimentos subjacentes ao que se deseja expressar, e, aí, não havia, nem poderia haver, nem jamais houve, erro.

Aí falava um povo analfabeto mas sábio de vida, formado em raiva (como de si próprio dizia o professor Agostinho) e em privações.

Aprendi a ler – lá – entre crianças com fome de conforto nos olhos – lá – onde esses olhares me marcaram o coração e a consciência com as mesmas cicatrizes que as pedras do chão marcavam os seus pés descalços, chagados de frieiras na dureza dos Invernos que me faziam ter pudor de andar calçada.

Por estas e outras razões, ao ver políticos bem enfarpelados em roupas de marca, neste rescaldo eleitoral a propor à pressa (como com medo que alguém se lhe antecipe e ganhe a maratona)–o aborto -  como panaceia para a negligência social, impõe-se-me o direito e a obrigação da revolta, da raiva que me impele a perguntar:

Como é que uma esquerda que se diz avançada, progressista, pode ter como solução para um problema de ordem social, (já não direi moral, porque isso sendo uma das objecções de consciência dos católicos parece não a tocar) apenas e tão só a solução simplista da pura eliminação do efeito, sem atender às causas?

 Não será esta uma forma, direi terrorista, de tentar resolver um problema tão premente, tão grave que o próprio Papa acaba de mais uma vez o estigmatizar?

Será que a urgência não é lutar para que se cumpram os direitos das crianças?

Será que aqueles que detêm o poder não têm – antes de tudo como obrigação maior - garantir o direito à vida, à saúde, ao trabalho, à educação, ao apoio social, condições de dignidade sem o facilitismo  da eliminação com leis perversas e desumanizantes?

Não será essa, entre outras, uma das funções dum estado de direito?

             

Difícil? – Certamente! - Mas esse é que é o desafio.

Isso é que se pode considerar vanguardismo revolucionário

E, os que sabem “quanto vale um sorriso de criança”, também devem ponderar quanto vale a dor de uma qualquer mulher, quando, mesmo que a coberto da impunidade de uma lei cobarde, tenha tido como única opção eliminar uma Vida dentro de si, transformando o seu ventre fértil num sarcófago.

Antecipar, prever, evitar, são os verdadeiros caminhos do progresso.

Ninguém nasce porque quer, nem é verdade que alguém seja dono do seu corpo, é só pensar:

Vida, beleza, saúde, juventude, quem as retém?

Não há democracia onde nascer não seja um direito de quem foi gerado. Porque a essência da democracia – ao que julgo – é dar voz e protecção aos mais fracos e desprotegidos.      

 

Maria José Rijo

                                                                                                              

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publicado por Maria José Rijo às 20:19





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