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Digitalização do Livro de Maria José Rijo - Rezas e Benzeduras (1ªparte)

Quinta-feira, 16.04.15

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Para quem estiver interessado no livro Rezas e Benzeduras

(que já não se vende)

Poderá, daqui, tirar uma cópia.

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:28

Digitalização do Livro de Maria José Rijo - Rezas e Benzeduras (2ªparte)

Quarta-feira, 15.04.15

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publicado por Maria José Rijo às 19:08

Livro Rezeas e Benzeduras

Domingo, 20.10.13

.

 

Boa tarde.

O meu nome é Carla Leal Ferreira e sou jornalista no programa apresentado por Fátima Lopes, na TVI. Peço imensa desculpa por estar a incomodar mas o interesse pelo livro Rezas e Benzeduras, levou-me a entrar em contacto.

Já percebi que o livro está esgotado e tal como sugeriu a outra pessoa, tentei aceder à informação no blogue. Porém, o acesso é demasiado lento e demoraria uma eternidade até conseguir todas as páginas. Será que não existe outra forma de chegar a esta valiosa informação? Fico a aguardar uma resposta. Obrigada mais uma vez pela atenção.

 

....

 

Carla

Obrigada pelo seu interesse.

Como sabe não tenho livros mas é com muito gosto que lhe posso oferecer fotocopias de todas as paginas se me der um contacto.
Um abraço

Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 11:23

“Sê bem-vindo – Ano Novo “

Terça-feira, 25.12.07

            O que poderá fazer um ano velho quando está preso apenas por alguns dias na folha do calendário!

                           

            Certamente o que faz qualquer velho que se sente e sabe a dobrar a inevitável esquina do seu tempo.

            Imagina o novo. 

Imagina e sonha.

Sonha e reza. Reza, porque o novo – por ser novo – é limpo.

E, ser limpo, é ser puro.

É estar em branco como o papel onde ainda escreveu, a tela por pintar, a pauta sem notas, o sonho por viver, o caminho por percorrer.

Pode, é verdade, olhar para trás.

A tentação é grande e é legítima.

O passado é a referência. Ao passado não se volta.

Futuro não se conhece quem o terá.

Nessa fronteira entre “nunca mais” e “ninguém sabe” cresce a esperança que a todos permite dizer: - amanhã!

Adeus ano velho.

Bom e mau! Feio e lindo! Amargo e doce! Generoso e cruel.

Ano – tempo – onde tudo da vida cabe, até a morte.

Passaste – como sempre tudo passa e passará.

Só te peço uma coisa: - dize ao ano que te sucede – que vai surgir a seguir a ti... – diz a esse ano ainda imaculado e limpo – a esse esperado ano novo – que procure ser sincero, verdadeiro, franco.

Dize-lhe quando lhe abrires a porta para o seu dia “Primeiro” – feliz como um rei jovem a quem oferecem um trono – diz-lhe que não se deixe iludir – e não nos iluda também.

Dize-lhe.

É que, muitas vezes – repara – acontecem coisas tais como esta que ponho à tua consciência: - Defendem-se com boas e parangonas os direitos da criança.

Depois – olha, olha bem – repara: exibem-se, apalhaçam-se, explora-se a sua candura, põem-se-lhe na boca palavras porcas, expressões acanalhadas – que nos devem envergonhar – em lugar de fazer rir e bater palmas – só para encher os bolsos dos adultos.

Olha que a prostituição não é só e apenas, do corpo. Olha que a prostituição é coisa de alma – principalmente: coisas de alma!

Qualquer criança tem direito à pureza como a água que brota no cume das montanhas!

Mas... abre a televisão e pensa se o que te aponto não é violência grave e trabalho.

Trabalho ignavo.

Porcaria e nojo.

Repara como coisas destas se deixam passar encorajadas com palmas e gargalhadas alarves.

As piores mentiras – Ano Velho -  são estas verdades – dize ao ano Novo !

Mesmo entre nós – à nossa vista... tantos luzeiros... tantos luzeiros... tanta confusão entre “um rico Natal” que deveria ser e... “Natal rico”, de aparência, que é.

De uma vez por todas – não te deixes trapacear – ajuda o “Novo”.

Sê corajoso e adeus Ano velho!

Sê bem-vindo Ano Novo!

                              Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.382 – 27- Dez. 1996

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:49

Livro Rezas e Benzeduras

Quarta-feira, 14.11.07

Publicado em 25 de Novembro de 2000

pelo Jornal Linhas de Elvas

Apresentado

na Pousada de Santa Luzia de Elvas

 

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Depois de vários anos de publicação das crónicas

"Conversas Soltas" no semanário

"Linhas de Elvas",

MARIA JOSÉ RIJO

juntou agora todas essas preciosidades num livro

a que chamou

"Rezas e Benzeduras".

A apresentação da obra foi na Pousada de Santa Luzia,

em Elvas, onde as várias dezenas de convidados

foram presenteados com um cocktail.

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A cronista e o autor das ilustrações

deste livro,

Manuel Jesus

 não tiveram mãos a medir

com a quantidade de autografos solicitados.

 

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Jornais em que pode encontrar matérias

sobre os 50 anos do Jornal Linhas de Elvas

e o Lançamento deste livro

 

Nº 2.538 -- 14 - Janeiro-1999

Nº 2.539 -- 21-Janeiro-2000

Nº 2.542 -- 11-Fevereiro-2000

Nº 2.571 -- 8-Setembro-2000

Nº 2.582 -- 24-Novembro-2000

Nº 2.583 -- 1-Dezembro-2000

Nº 2.584 -- 8-Dezembro-2000

Nº 2.586 -- 22-Dezembro-2000

 

Jornal Crónica do Alentejo -- Nº50 - 24-Setembro-2001 - por J.O.R.

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:50

Rezas e Benzeduras – XVI

Segunda-feira, 12.11.07

“A Relíquia”

 (( Desenhos de Manuel Jesus))

              Os pequenos da família tinham crescido sem que contabilizássemos o tempo

              Cada ano, nas datas próprias, faziam-se as festas de aniversários, compravam-se as prendas, juntavam-se tios e primos, apareciam, sem convite, os amigos íntimos, esperávamos o Avô que chegava, como que por acaso e, como sempre, presidia à reunião, calado, mas via-se muito bem que – feliz.

              Saudosas suspirávamos: parece mentira!

              Já 18...

              Já 19...

              Já 20...

Parece que foi ontem...e continuávamos a falar dos garotos, dos pequenos...

             Um belo dia, porém, acordamos para a realidade.

              Os seus nomes começaram a constar dos editais dos mancebos que deviam ir à inspecção.

              Os” garotos “iam à tropa.

              Iam viver essa experiência.

A seguir à comoção, à estranheza... o quê?!! Os garotos!... Àquele calor estranho que conforta e assusta simultaneamente, enchendo corpo e alma quando se repara, se olha e vê, que os garotos fazem a barba, mudaram de voz, fazem noitadas... a seguir, logo a seguir, veio aquela dor aguda como uma punhalada.

               E, se os garotos, vão para o Ultramar?..

               E....

               E....

Afinal, a guerra lá de longe batia-nos à porta

               E bateu.

               E entrou

               E comeu connosco à mesa.

               Dormiu connosco, nas nossas camas, como uma chaga viva nos nossos corações. Levou-nos a alegria. Deixou-nos o medo do que poderia acontecer e a esperança de que nada acontecesse.

               Fizeram-se recomendações atrás de recomendações.

               Fingiram-se orgulhos, valentias.

               Exacerbaram-se patriotismos, inventou-se coragem para dar e para viver , num fazer e desfazer de quem anda à roda, em círculos, convencido de que está a avançar no caminho.

               Então, cada qual, descobriu que isto e mais aquilo, poderia servir de talismã.

               Quando em grupo, com uma falsa serenidade, dizíamos depreciativamente – crendices, superstições...

               Depois à sucapa, cada qual com um certo ar displicente, passava de mão a mão a sua lembrancinha.

                Trago esta medalha ao pescoço desde o dia do meu baptizado. Deu-ma minha Madrinha. Leva-a! Vai-te dar sorte.

               Guarda contigo este livrito. É a ”Imitação de Cristo” Tenho-o sempre cabeceira. Verás que nele encontras resposta para todas as tuas dúvidas.

                Os dias passaram.

                A data do embarque aproximava-se...

                Então, naquele dia, o Avô que a tudo assistira em silêncio com os olhos a brilhar, usando uma brusquidão que não enganava ninguém, mas que lhe parecia disfarçar a sua vontade de chorar disse:

                Toma! - Leva contigo.

                Era um saquinho de brocado vermelho, puído, quase roto, cosido e recosido à mão com pontos miudinhos, esmerados. Fechado como uma almofadinha. Com cinco centímetros no máximo de dimensão.

                O que é isto? - Foi a pergunta.

                Tem dentro os Credos escritos em cruz, uma relíquia do Santo Lenho e uns fios do manto de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

Costurou-o tua Avó, que Deus tem, e coseu-mo no forro da farda quando fui para a França na guerra de 14.

                Agora é para ti!

                Como uma criança apanhada em falta o Avô tinha o rosto vermelho e um ar confuso.

                Mas eu nunca vi isso! - Exclamou a filha absolutamente surpreendida.

                Mudei-o sempre de bolso para bolso, até do pijama, confessou.

                Todos guardamos segredos acrescentou. Não há ninguém sem mistérios!

                Devolvo-lho quando voltar disse o rapaz abraçando-o.

                Cá te espero – respondeu o Avô, afastando-se apressado.

     

                E, assim se despediram...

 

                                                              Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.450 – 24-Abril-1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser adquirido

no Jornal Linhas de Elvas

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:09

Rezas e Benzeduras XV

Sábado, 10.11.07

“Uma boa achega”

 

            Uma ilustre elvense destas que a profissão ou a vida situou lá longe – e vivem não sei como! Pois que têm o coração por aqui. - Enviou-me uma preciosa achega para esta série de ”rezas e benzeduras”.

            Trata-se, como também, com Maria Isabel de Mendonça Soares, de outra ilustre escritora, refiro-me a: Maria do Céu Cavalheiro Ponce Dentinho.

            Logicamente que nunca me atreveria a trocar uma vírgula sequer da bela história que me foi oferecida -. a mim e aos meus leitores - aliás, cada oração que na infância se decorou traz com ela ao ser recordada todo o peso das circunstâncias que com ela se viveram e às vezes até a voz de quem connosco ou  para nós a rezou .

            Céu Dentinho, lembra assim:

            “Havia na casa uma tradição, só de mulheres, a realizar uma vez por ano mas com pompa e circunstância...

 

.           No dia 25 de Março, da Anunciação, era costume de as senhoras da Família se reunirem em casa da mais velha, ao tempo dos meus poucos anos era a avó Maria do Carmo, para cumprir uma devoção. No seu lindo quarto de vestir estava o oratório, cheio de imagens, fitas, dourados e velas e em frente nos ajoelhávamos. A luz vinha de um pátio com clarabóia. Era uma oração que era uma poesia, em que a gente se persignava cem vezes e rezava cem Avé-Marias, alternadamente e a cada uma se levantava e ajoelhava, portanto cem vezes...

Como  se fossem dois terços. E em cada mistério vinha a oração que era assim:   

                             (( desenhos de Manuel Jesus))                                                

Ergue-te, alma minha,

com Deus e a Virgem Maria,

Lembra-te que morrerás,

Não morrerás mas viverás.

      

No vale de Josafá

O inimigo encontrarás,

Da parte de Deus lhe dirás

Arreda de mim Satanás

Que em mim parte não terás...

 

Porque no mundo aonde andei

Cem vezes me ajoelhei

Cem vezes me persignei

Cem vezes disse Amen.

No dia em que a Virgem

Encarnou o Verbo Divino, Amen.

 

            A Avó dirigia. Começava – todas respondíamos. E era também a Avó que ralhava – porque havia sempre quem tivesse vontade de rir ou se enganasse no ritual – novos risos. Depois, havia interrupções – felizmente! De uma vez veio alguém avisar que os bolos estavam fintos, de outra passou uma procissão e lá fomos todos para a janela. E havia sempre chá e enchovalhada para completar a tarde.

 

            Assim rezávamos aquela poesia que era uma oração, as 100 Avé-Marias tradicionais. Essa, a tradição, é que já não tinha anos para serem contados. Parou quando a Avó partiu para o outro lado da vida. Mais uma conta do rosário dos perdidos.”

           

            Enquanto alguém recorda as coisas que estando longe no tempo se conservam na lembrança continuamos a poder dizer que permanecem vivas nos nossos corações... 

 

 

 

                                             Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas                                                                                                                   

Nº 2.448 – 10-Abril – 1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras poderá ser adquirido

na redacão do Jornal Linhas de Elvas

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:59

Rezas e Benzeduras XIV

Quarta-feira, 07.11.07

A Loja do senhor Camacho

                                (( Desenhos de Manuel Jesus))

           A loja fazia esquina com a estrada nova (assim era designada a estrada nacional) e uma ruela mal calcetada como, alias, eram todas as ruas das aldeias do Baixo Alentejo há 50 anos.

        Havia na aldeia uma certa profusão de “vendas”, mas, loja, loja, digna desse nome só mesmo aquela o que conferia ao seu proprietário e família um estatuto de pessoas importantes.

        Não que tivesse montra ou qualquer sinal de beleza; apenas uma tabuleta esmaltada com o símbolo dos C.T.T, assinalava funções diferentes. Nas ”vendas” para além de algumas bugigangas o que mais se procurava era vinho, enquanto que na loja havia meadas de linhas para dobar e fazer meias, riscados, cotins, serrubecas, pano cru, chitas, flanelas, estamenha, xailes, lenços, – que, crepe da China e popelines, só por encomenda. Como sinal de civilização vendia jornais, – o Século, e o Notícias mas, apenas dois ou três exemplares (que ler era um luxo) e selos de correio, mas também, feijão, grão, e muitas outras coisas mais... cordas, ratoeiras, armadilhas para pássaros, chocalhos para o gado, etc. etc. etc...

        Até na forma de vestir o senhor Camacho era diferente.

        Jamais alguém se poderia gabar de o ver por detrás do balcão da sua loja sem estar de casaco, colete, gravata e camisa de colarinho engomado.

        Às vezes usava guarda - pó, mas, mesmo esse “bibe” de riscado cinzento listadinho de preto lhe conferia um ar de dignidade que ia a matar com o seu rosto sério, o seu bigode muito bem aparado e a sua barba muito escanhoada. O senhor Camacho era um dos grandes da aldeia; como era o ferrador (investido também na dignidade de regedor) e o dono da moagem. A estes distinguia-os o facto de não serem analfabetos porque os outros homens importantes eram os lavradores e, a esses, como aos fidalgos no exército, nada mais lhe era requerido. Do que ser rico ou ser fidalgo.      

Nos dias de receber a jorna ou, quando acabavam as “adiafas” o movimento da loja crescia de forma inopinada, não tinha nada que ver com a ronceirice do dia a dia. Então, a dona Aninhas, sua recatada esposa, abria a porta de ligação entre a casa e a loja dirigia um cumprimento a todos em geral, instalava-se à secretária, pegava no livro dos assentos e ia dando baixa nas listas do: - ” aponte aí, tenha lá paciência, qu’ê cá levo fiado mas, pago assim quê possa!”que enchiam o livro comprido e estreito, de capa preta, que guardava o registo da penúria daquela pobre gente que, tal como as searas, dependiam do tempo a favor para crescer, também dependiam do tempo para trabalhar e ter que comer.

            Dona Aninhas era mouca, e tal como o marido, sem ser velha, também não se diria que fosse jovem, tinha um tom de voz velado, um arzinho nostálgico de funda tristeza (sofria de enxaquecas, males, que o povo não entendia, nem podia entender, já que tinha boa mesa o ano inteiro e criada ao seu serviço que, aliás viera junto com o bragal de casa de seus pais); assim que todas as conversas com ela começavam invariavelmente pela delicada informação das melhoras da senhora que curvando-se um pouco para o interessado amavelmente lhe estendia a corneta acústica para receber a resposta. As comunicações não passavam mesmo disso, já que com aquela minúscula

Campânula de gramofone de permeio o constrangimento entre credor e devedor sofria mais esse atrito.

            Dona Aninhas dizia: - uma quarta de toucinho, dois côvados de cotim, uma onça de linha roxa, tantos arrateis de açúcar...etc. etc. etc...

            A freguesa conferia as parcelas enumeradas pelo monte de papelinhos que trazia fechados na mão, então, molhado o aparo no tinteiro de tinta vermelha, com uma cruz por cima do apontamento se amortalhava o débito.

            Algumas vezes, porém, o rame, rame, desta contabilidade era cortado; bastava começarem-se a ouvir ao longe as guiseiras do macho da carrinha do correio. Então como formigas num formigueiro esventrado, atabalhoadamente, quase em atropelo a loja enchia-se de gente espectante de curiosidade.

            Aberta a mala da correspondência começava a distribuição.

        Numa voz clara o senhor Camacho lia os nomes. Mãos ávidas recebiam cartas e

 postais. E, afastavam-se quase tão rapidamente como tinham surgido. Discretamente, pelos cantos, iam apenas ficando aqueles que não sabendo ler e não tendo em casa quem lho fizesse dependiam de dona Aninhas ou do senhor Camacho para a decifração das mensagens.

            Para Mariquinhas, a filha do casal, era essa a hora mágica do deslumbramento! - e  quando seu pai começava aquelas leituras, apertava ainda mais ao peito a sua boneca francesa com cara de porcelana, e ficava imóvel como que petrificada com os olhitos estrábicos emoldurados pelos enormes óculos  redondos fixando a cena sem pestanejar ... 

                                       “ Mana Zefa

             A tal mulheri que tinha o livro de S. Supriano já nã mora no monte do olivali.

             Contou-me a nora dela, a Ludres, você alembra-se? era aquela qu’era falada com o managero; qu’o patrão assim que esconfiou qu’ela fazia aquelas bruxices e détava as cartas e esputava alfinetes nos sapos p’ra fazer mal ás criaturas, pos‘i-a no olho da rua.                                                                              

              A modos que se voceia queri chegari ás falas com ela, peça à Marianita do correio qu’a traga na carrinha qu’ela agora ‘stá morando p’rós lados da Mina na casa do neto aquele que le chamam o Chico Torto.

              Se voceia quer tirar as provas já sabe. Mas ouvi dezer que comeri um ovo de cigonha frito bubido com vinho forvido com funcho faz desenmaginar da bubida e p´ra mais reze-le a reza que le mando por mor de le sair o diabo do corpo e do esprito-cruzes ,cruzes, cruzes !... De resto faça-le a cruz de sali pro baxo do cólchão e vai a ver qu ‘ele s’emenda, dexa as buboderas e dexa de le dar porrada. A gente est’ano tem uma bela lera de pupinos e uma grande novidade de molões.

          Se voceia vieri leva p’ra si e p’rós mocinhos.

          Atão já sabi. O pessoal daqui manda-le visitas         

          Sua ermã

                         Donzelica

           

            Atão a reza é assim : Oração para afastar o diabo - Olhe, foi a Custoidinha do Posto da ‘scola qu’a tirou p’ra ela do livro de S. Supriano e agora deu-ma a mim p’ra ê l’a dari a si .É boa criatura sempre dá uma mão òs pobres”

                                               Eu me entrego a Jesus

                                              e à Santíssima Cruz,

                                               ao Santíssimo Sacramento,

 

ás três relíquias que tem dentro,

ás três missas de Natal,

                                               que me não aconteça nenhum mal.

                                               Maria Santíssima seja sempre

 

                                               comigo, o anjo da minha guarda

                                               me guarde e me livre

                                               das astucias de Satanás.

                                              

                                               Pai Nosso

                                               Ave Maria

 

                                          

 

                                                                       Maria José Rijo                  

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.446 – 27-Março-1998

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Este livro de Rezas e Benzeduras pode ser

adquirido no Jornal Linhas de Elvas

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publicado por Maria José Rijo às 21:41

Rezas e benzeduras XIII

Domingo, 04.11.07

   

“As linhas torcidas”

 

         A senhora Isauraa Ti Isarua – como era conhecida no monte e nas redondezas era especialista em benzeduras.

            Viera numa leva de ceifeiros na força dum Verão ainda mais inclemente do que era habitual. Chegou com o bando dos “ratinhos” e foi ficando...ficando..., agora por isto, logo por aquilo, que ela era pau para toda a obra, e, às tantas, a bem dizer, já fazia parte da mobília! --       Ti Isarua faz a boia, - Ti Isarua vá lá aparar o bezerrinho, que o raio da vaca está com’á galinha pedrês – tem o ovo atravessado! -ti Isarua mate lá um frango, – Ti Isarua vá lá entreter as crianças...para tudo a Ti Isarua tinha préstimo.

            Ti Isarua tem que cuidar do amojo da cabra malhada que na certa foi mamada por cobra, está luzindo de inchaço... e, assim por aí adiante!     

Porem onde o seu saber tinha cátedra era no conserto de ossos fora do sítio, espinhelas caídas, entorces e outras maleitas afins.

            Quase sempre à tardinha, se era no Verão, ou antes do almoço, se era no tempo dos dias pequenos, apareciam os mitigantes da sua sabedoria

Ti Isaura era ossuda, fortalhaça, pouco ou nada devia à formosura, mas tinha um jeito doce que agradava, era paciente com as lamúrias dos queixosos e tinha aquela habilidade de mãos que seduzia e sabia confortar.

Era solicitada com frequência para trabalhos fora, e por vezes, levava por lá dias e dias até voltar.

Então cochichava-se à boca pequena, isto e mais aquilo, -envenções como ela dizia, dessas malucas que nem sabem prantar um jantar ao lume!

Tá-se memo a ver que nem les respondo e acabou-se! Isso era o qu’elas queriam! Logo se calam! - Toda a conversa òs três dias esmorece.

E, assim, com estes despachos, encerrava o seu expediente.

Naquela tarde chegou uma cliente ainda nova empurrando à sua frente de escantilhão “de tabefe em tabefe “um rapazito que lamuriava sem cessar.

O que é isso mulher? - Largue o garoto e diga lá o que aconteceu, interveio conciliadora a ti Isaura que já havia sido avisada da necessidade de abrir a “consulta”        Ora o que havera de ser! Voceia já sabe como são-nos moços; por mais qu’a gente diga. Pranta-te quedo! - Pranta-te quedo! Nã senhora, colam por cima dos tarrões e ospois vá de esmurrar as ventas e trocer as linhas.

Dexi-o a tomar conta das manas; qu’é fui fazeri uns mandados por mor de ganhar umas molhaduras e quando volti tinha desapracido e déchou as mocinhas fechadas à chave. Voceia já viu o cabrão do gaiato? - Já viu? - Isto só partindo-le os cornos e ospois ainda me volta desasado!

Já s’ontro dia se nã chego à justa matava -me a ermã mais pequena. Atão nã le ia dar o lete na almintolia do pitrole?

Já viu o que m’havia de cabedari? - Já viu?

            Só a mim è que me cabeda esta sina...

Oh, moçada dum cabrão- com sua alicença - nem com uma calda de porrada de manhêm e outra à noite a gente os assocegava !

Entretanto mãe e filho carpiam as suas lástimas a Ti Isarua tirava da panela de ferro que se eternizava ao rés do lume uma pucarada de água fervente e dobrava-lhe sobre a boca uma toalha turca.

Sobre o pano humedecido com o vapor de água quente ajeitaram o cotovelo do rapazinho que imediatamente o retirou rezingando: está quente, porra!

Habituada a tal léxico Ti Isarua continuava, sem esmorecer, as suas funções

Sob a ameaça de mais algumas “orelhadas”o franganote magoado e ofendido acabou por acatar as recomendações e colaborar.

Quando eu precurar: o que é que ê coso tu dás de resposta: carne quebrada e nervo torto. Nã te esqueças mod’a reza dar certa qu’ê cá precuro tres vezes.

 Então assumindo uns ares de seriedade de quem estivesse investida em poderes secretos começava, a Ti Isarua, depois de ter esfregado a região doente com azeite, a coser e recoser com uma agulha desenfiada num novelo de linhas e a recitar a milagrosa benzedura:

                             (Desenhos de Manuel Jesus)

Coso!

O que é que eu coso?

            Vinha a resposta: - carne quebrada e nervo torto

            Isso mesmo é que eu coso

            Carne quebrada volte ao seu lugar

            Nervo torto volte ao seu posto

            Melhor cose a Virgem que eu coso

            Que eu coso pela carne

            E a Virgem cose pelo osso

            Em louvor de Deus e da Virgem Maria

            Padre-nosso e Avé – Maria

 

           O rapazote, a fungar, esfregava o nariz na manga do braço são, para enxugar o pingo e as lágrimas mas submetia-se com docilidade.

            Voltando a friccionar o cotovelo, – que na circunstância já estava vermelho como um pimento, – outra vez com azeite, terminava o tratamento que se repetiria três dias seguidos e sempre seria acompanhado da mesma recomendação: - agora agasalha bem o cotovelo p’ra não constipares o braço não seja o caso de ainda por cima apanhares erisipela!

            Depois com uma palmadinha amigável, discretamente, a Ti Isarua meteu uma guloseima no bolso do rapazinho que, finalmente, mostrou um sorriso aberto de criança.

            Respondendo: - não é nada! Deixe-se lá dessas coisas...à inquietação da consolente, Ti Isarua ficou encostada à parede do “monte” a vê-los afastar.

A mãe já serena pusera o braço sobre os ombros do garoto aconchegando-o a si.

            Nos ouvidos de Ti Isarua a frase de despedida:

            A pobreza é uma desgraça! - A gente pede às crienças favores qu’eles nã têm-na idade de fazer, mas é a precisão... e ospois, coitadnhos, ainda “as mamam” por cima....

                                          Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.445 – 20 – Março - 1998

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publicado por Maria José Rijo às 18:51

Rezas e benzeduras XII

Sexta-feira, 02.11.07

Entro na sala de espera do Hospital da Vila e, depois de cumprimentar, sento-me entre gentes da terra e enovelo-me no meu abafo semicerrando os olhos, como se dormitasse, para que pudesse recomeçar o falatório, que, pressinto, cessara com a minha aparição.

                              ( desenhos de Manuel Jesus)

Ainda não aquecera lugar, quando um velhote, no outro canto, comentou, julgando falar baixo:

- A que fede?

- A água de chêro --  respondeu-lhe a mulher.

- Empesturices! - Resmungou ele.

- Cala-te qu’a criatura ouve; julgas qu’é tudo mouco com’a ti?

-- Tá bem, dêxa! - Tornou ele a rezingar, voltando-se de costas para a companheira, em jeito de amúo.

 (O mulherio presente ria à sucapa com gozo matreiro, olhando-me) Nem pestanejei com receio de denunciar o meu deleite pela cena, e assim, a breve trecho, a conversa retomou o fio.)

-......atão foi memo na tu rua e tu nã deste por nada?

-Nã di! - Nã di! - Nã bradaram por nenguém, nem ouvi falas, ó chôros de rijo...

-Ê cá ouvi os dobres, mas pensi que fosse a asilada que está p’ra acabar desde transantontem

.           Transantontem? --Ò tempo que o doutor a despediu!

           - Mandem apregoar a pobre! Queres veri qu’ a mulher comeu carne de grou sem saberi?

           -Xi! S`é parva!

           - Parva a quêi? - Tem havido casos... é só o pregoêro, ir à meia-noite, bradar a três esquinas:

            “Senhor fulano de tal

            Deus o quera perdoari

           Quer passari e nã passou

            Porque comeu carne de grou!”

e a criatura assocega logo!    

          --  Então a que já comentara: xi s’é parva! - Disse risonha:

          -- Olha, como o pregoêro já morreu, apregoa-a tu, já que nem pranteaste a tu vizinha Parreirinha.

         --Vái mangar pr’a uma parte qu ‘ê cá sei - respondeu a interpelada, que acrescentou :

           - Estas, em pondem as moças no “circulo”, até parece que tamém têm letras - sabem de tudo !

          - Nã di por isso ! - Nã di, atão!

            Nã se vá sem resposta, - atalhou outra, - que quando morreu o mê tio, agente morava nos baxos e a nha tia, pr’a nã acordar nenguém, andou descalça a vesti-lo e amortalhá-lo e só de manhã é que deu a saberi à genti.

            O quêi?... - Interferiu a que galhofara do pregão - atão morre-le o homem e ela fica-se só com o defunto sem abrir olho nem buraco ?

            Atão! É mulher de corage!

            Corage? - Pergunta-le lá, se ela já tinha algum “amigo” escondido debaxo da cama, e nã queria qu’ o vissem fugiri!

           Cada um, éi, como éi! Replica a “sobrinha” agastada, mas, logo o velho a tossir, sacudido de riso, diz bem alto:

           - Raio de mulheri qu’é mesmo desbocada!

            E, depois já mais calmo e ainda risonho acrescentou:

           - Essa mulheri, essa tal Parreirinha – tive cá pensando – era da minha edade

            Tinha os seus oitenta e quatro – ainda balhi com ela quando eramos moços

            -Alarvêrão! - Já nem ata as botas, mas dos balhos alembra-se...

            (Não resisti. Ri, como toda a gente, tanto mais que o velho com os seus olhinhos escuros brilhando de malícia levantou a mão simulando ameaça e disse jovial:

            -Queres uma orelhada? Queris?

             -Alarverão! - Repetiu a mulher confusa sorrindo e corando com um pudor antigo de rapariga.

             -Ela morreu soltêra? - Insistiu curiosa a folgazona.

             -Pois! - Assentiu o velho que explicou: - Nunca di que namorasse.

            - Mas ela nã teve fora lá pr’o Barrero, ó pr’o Lavradio, a coidar duma madrinha que lhe dexou as casas!

             -Teve, teve! Concordaram todos

             -Atão pode ser que tenha namorado por lá! - –Confortou-se esperançada a brincalhona  muito séria desta vez.

              Depois, levantou-se, foi abanar a amiga que persistia calada no seu ar ofendido; e disse-lhe com bondade:

             -Desenchofra-te mulheri! Qu’ê fali de reinação! - E sem mais palavras foi encostar-se à janela que abriu de par em par e ficou a olhar para fora, pensativamente.

             O ar dos campos inundou o ambiente.

             Então o velho respirando fundo, disse com prazer:

             Chêra bem! Chêra a terra acabada de lavrari!...  

                                                              

 

                                            Maria José Rijo

@@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.443 – 6-Março-1998

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Este livro foi publicado em Novembro de 2000

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