Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Rejeitar e aplaudir
Estar em desacordo, pode significar a rejeição de uma ideia, de uma opinião, de um parecer, uma atitude.
Aplaudir, é a posição oposta. É estar de acordo, louvar, estar em sintonia com as opiniões expressas.
Lidar com o aplauso, por norma, talvez, seja mais fácil, embora possa ser enganador.
As questões de amor-próprio, são de muito melindre.
Se o aplauso afaga o amor-próprio, a censura, se frontal e assumida olhos nos olhos – impõe a reflexão – é preciosa.
Conviver com a crítica, não significa aceitar o insulto. Uma coisa não se compadece com a outra.
O SIM, por norma, é o sorriso. O NÃO, é o esgar.
Quando numa contenda, pareceres divergentes se enfrentam, desde que haja honestidade entre os intervenientes, a discussão é salutar, mas, não havendo empate, da diferença sairá um vencido e um vencedor.
Há quem saiba perder, há quem saiba ganhar. Também há quem não saiba nem, perder, nem ganhar.
Há quem odeie o opositor porque foi vencido. Há quem o humilhe por confundir, ganhar com arrogância.
Há quem vença com modéstia.
Há quem perca e na cilada se desforre, sem parar um momento, sequer, a avaliar até que ponto terá ocasionado o mal de que acusa o mundo inteiro.
Se porém todo o mundo se entende, – mesmo na concórdia – é sempre saudável não perder de vista, que, isso não autoriza – quem quer que seja – a concluir que estão encontrados os donos da verdade única.
Rejeitar ou aplaudir são opções de consciência.
Caminhos normais de vida.
E, a Vida, não é feita de um só caminho!
Difícil é conviver com a traição, porque a traição não tem rosto. E, quem, por inocência, ou por má fé, se deixa enredar pela ambição, pela aparência de falsos poderes, nem sempre tem sorte na escolha.
Muitas vezes acontece que quem induz ao erro, na hora de assumir as suas responsabilidades libertando da armadilha quem o serviu, e reconduzindo a vítima ao ponto certo, não o faz. Acusa, salva a pele, transferindo para outros o consequente resultado da sua astúcia. Ensinou Santo Agostinho que “viver é conviver”. Mas conviver sempre será uma moeda de duas faces. Com seu anverso e seu reverso. No jogo da vida, entre rejeições e aplausos, se fazem os nossos percursos, ponderando da justiça de aplausos e censuras. Bom, é quando se caminha tranquilo sabendo que lágrimas e risos são frutos “desse” percurso e sabendo aceitar que jamais alguém estará acima de críticas porque ninguém é intocável. Mas, sem esquecer que jamais alguém, quer nos louve, quer nos insulte, ouvirá como qualquer de nós – ouve e escuta – a sua própria consciência – esse sussurro de Deus – que permite dormir em paz, quer entre palmas, quer entre apupos. Maria José Rijo @@@@ Jornal Linhas de Elvas Nº 2.954 – 31 de Janeiro-2008 Conversas Soltas ![]()
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Até parece fácil!
“O eterno é a reunião de todo o passado e todo o futuro num só instante, a eternidade é o instante.”
Esta frase, este pensamento, de Santo Agostinho é um verdadeiro manancial de sabedoria.

Fechando, embora, um conceito adquirido pela sua percepção e pelos conhecimentos do seu espírito, ela abre, para nós, portas a um mundo infindável de caminhos da razão.
Todos nós, já pensamos ou dissemos a propósito de alguém: - à última hora, ou, no último instante, redimiu-se, arrependeu-se...concertou o mal que tinha feito.
A sabedoria popular, afirma: - até ao lavar dos cestos é vindima...
A fé assegura-nos que até ao último momento da Vida, da Vida de qualquer um de nós, ainda é tempo de como qualquer filho pródigo voltar a casa do Pai – e ser recebido em festa!
Na verdade, a Vida terrena é apenas um pequeno percurso no tempo, uma fracção ínfima de um todo infinito.
Um ponto numa linha cujo começo não se identifica e cujo termino não se determina.
Na verdade, a Vida, é apenas a conquista do instante que nos concede a entrada na eternidade.
Sendo assim, se assim for, a morte é tão-somente o mergulho no infinito, no eterno.
O regresso à mão que nos concedeu a oportunidade da experiência de ser.
Até parece fácil pretender a gente embrenhar-se no pensamento de um Santo que até aos 32 anos foi frívolo, amante de mulheres, mas, ao que contam os seus biógrafos: sempre ávido de Deus.
Não será também essa a tradução dos nossos anseios de perfeição, sucesso, poder, e tudo o mais que interpretamos como caminhos de felicidade e realização pessoal?
Não será tudo isso, apenas e somente um anseio de Deus, concebido à medida pequena da nossa pequeníssima dimensão?
Maria José Rijo
@@@@@@
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.713 – 6/Junho/03
Conversas Soltas
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Coisas e loisas
Ás vezes decido calar! Depois, reconsidero e procuro prudentemente intervir. Não é porque as coisas me digam particularmente respeito a mim. Não. É porque é a participar que se vive.
Viver é conviver, disse – segundo creio –
Santo Agostinho. Conviver é viver com os outros e, se como disse o poeta Michel Quoist – eu sou o outro – necessariamente, o outro sou eu.
Resulta assim evidente que o respeito que tivermos por nós próprios, se reflecte na forma como se convive com o próximo. Assim que a nossa atitude pessoal tenha que ser avaliada, não isoladamente do conjunto em que estamos inseridos. Daí que, se enquanto pessoa me pode enternecer a ingenuidade que permite estender roupa a secar nas traseiras do palácio da Justiça – como elemento duma sociedade, como “outro” parte dum colectivo (a cidade, neste caso) – esse facto agride pelo que representa de impreparação social, pelo que representa de atitude de sub-mundo pelo que destoa tal uso, feito de tal local…
Verdade que uma ou outra vez já temos visto também algum pacífico borrego a pastar na cerca que se sonhou jardim do dito Palácio da Justiça. Verdade também que sempre se pensa que o borrego está bem na pastagem vicejante… A pastagem é que lá não está certa…
Julgo que esta insólita nota de “folclore local” adicionada às cordas de roupa a secar à entrada do Jardim Municipal, mais a profusão de tabuletas, muito das quais escritas em espanhol, não são coisas que enobreçam ou embelezem esta nossa terra.
Aplauso deve ficar aqui, sim, para o repovoamento protegido de árvores que foi feito e cuja falta desdentava, tristemente, a bordadura de praças e avenidas…
E porque cada um de nós, para além da sua qualidade de individuo, é parte deste todo que é a cidade, por cuja dignidade somos responsáveis, será bom que não nos deixemos adormecer sobre esse plano inclinado que começa por resvalar da incúria para o desleixo, que abre o caminho à degradação,
Coisas e loisas esparsas
Como a ferrugem – se pica
Como a lama dos caminhos
Se pisada… nos salpica.
Maria José Rijo
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A
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.727 – 23-Março-1984
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Ler e pensar
Também através da leitura se pode fazer, um pouco, o percurso da vida de cada um de nós ,quando o hábito de ler nos acompanha ao longo dela.
Começa-se ,quase sempre pelas histórias em quadradinhos, seguem-se-lhes os contos - dantes, eram de fadas - passa-se para as aventuras, depois, vêm as novelas e os romances.
A certa altura, começamos a reparar na forma como as intrigas romanescas nos são contadas e embora aderindo emocionalmente ao enredo ultrapassa-se a fase dos prantos pelos agravos e desditas porque passam os personagens e ganha-se objectividade sobre o que se lê.
Então começa a etapa mais frutuosa, que é a de ler e pensar, que se segue à de ler e apenas sentir.
Começam-se a definir critérios de escolha e preferências.
Fazem-se incursões por caminhos diversos. Deixa-se a ficção um pouco de parte. Procuram-se biografias, relatos de viagens, cartas, romances históricos. Com um pouco de sorte ganha-se o jeito de ler poesia também.
Então o livro deixa de ser apenas o entretenimento a pura curiosidade pelo fio da meada e ganha o valor acrescentado de ser o amigo e o mestre.
Para encher tempo, até as velhas revistas das salas de espera dos consultórios dão uma certa ajuda. Embora se tratem quase sempre como se faz com os esporádicos encontros de rua . diz-se-lhes - Olá! e segue-se
Com os livros passa-se a mesma coisa. Para os ter à mão, perto de nós , para que nos sirvam de companhia, têm que nos saber falar ao coração e à inteligência, têm que despertar em nós qualquer espécie de interesse, têm que nos ajudar a entender quem somos, têm que nos abrir caminhos. É que, como acontece com as pessoas, também o livro pode ser um bom ou um mau companheiro. Pode ser uma benção ou um veneno.
Daí o cuidado com que se escolhem, se guardam, se olham, se recordam, se revisitam em leituras meditadas ou fugazes de trechos que se sublinharam, marcaram, e quase se sabem de cor.
Manusear um livro é um prazer. Afagar-lhe a capa, tacteando-a, é como sentir o perfume de uma flor antes de a colher ,é o bater à porta da aventura de iniciar a leitura, é o afago no que desperta em nós afecto e estima, é o abraço no encontro do amigo.
Mais cedo ou mais tarde, para quem gosta realmente de livros, para quem não concebe viver sem a sua companhia, acaba por chegar a hora de procurar nos livros o que se espera dos mestres - a sabedoria.
Escolhem-se então autores que na juventude nos pareciam fastidiosos, excessivamente solenes e descobrimos como as suas palavras são cheias de mensagens, como esclarecem as nossas dúvidas, como nos abrem novos caminhos, como nos ajudam a encontrar respostas dentro de nós.
Como lidaram com as suas próprias interrogações, as suas perplexidades, como construíram os seus percursos íntimos.
Perdida a “voracidade” com que na juventude se devorava tudo quanto aparecesse em frente dos olhos para ler, enreda-se o nosso interesse com temas, que nessa época nos pereciam incapazes de merecer o nosso interesse , quanto mais o nosso entusiasmo. As Confissões de Santo Agostinho,

- No Coração do Infinito e,
Cartas Abertas de Jean Guitton , -
As Aproximações do professor Agostinho da Silva
a que juntei agora - Os Evangelhos de 2001-
do professor Marcelo Rebelo de Sousa
são o mestres que ando a reverenciar...
Tenho, neles, pano para mangas.
Dariam para uma vida inteira.
Aprender até morrer ,diz o ditado.
Aproveitemos então, para ler e pensar.
Maria José Rijo
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Revista Norte Alentejo -- Crónica
Nº 10 – Março/Abril 2001

