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UMA CARTA

Domingo, 30.10.11

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.968 – 9 de Dezembro de 1988

A La Minute

UMA CARTA

 

Inesperadamente, chegou às minhas mãos, uma carta de JOANA LUISA, que foi mulher de SEBASTIÃO DA GAMA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Maio, eu escrevi aqui, “A presença do Poeta” referindo Sebastião da Gama. Foi este o motivo.

Não foi a primeira vez que me escreveram cartas, postais, ou me telefonaram a falar de apontamentos que aqui faço. Em boa verdade, isso tem acontecido com alguma frequência, o que, confesso, embora me seja grato, muito me responsabiliza.

Sempre, que me disponho a apontar algumas ideias, procuro fazê-lo subordinando-me a alguns princípios que me norteiam – honestidade e rigor.

 

Sendo a opinião que se expressa um exercício resultante de um critério assumido por escolha e eleição de valores que tomamos por padrão, toda a opinião, agradável ou desagradável, envolve juízo crítico – e se torna por sua vez passível de ser criticada.

Não admira pois que ao ler: “… gostei do que escreveu e achei enternecedora a forma como captou a personalidade de Sebastião transmitida pelo pais saudosos” - me tenha, com estas palavras inesperadas, sentido compensada pela falta  de outras – que, por vezes, não vieram, daqueles que, na opinião do nosso coração, no-las deviam.

Falar de alguém que se conheceu, se conhece, se admirou ou admira – não é – penso eu, a tarefa fácil que pode parecer.

Quem mereceu ou merece a nossa estima ou admiração e fazendo-nos nascer esses sentimentos enriquece a nossa vida – merece o nosso respeito e tem direito ao rigor de que formos capazes, porque aí reside o segredo da admiração e a qualidade da amizade que lhe votamos.

Ter de pessoas ou obras o conhecimento que permita o conhecimento de que nos é lícito delas falar aguça o gosto de o fazer e o medo de falsear a imagem que se evoca pela facilidade de mistificar a que, o amor, predispõe.

Assim que, a carta de Joana Luísa, (a que ainda não respondi) se me afigurou a carta natural, “da mulher” de Sebastião da Gama, como ela ternamente escreve.

Joana Luísa não me escreveu por eu ter dito de Sebastião o que dele merece ser dito, - escreveu-me porque sentiu que era isso que eu gostaria de ter feito – e, por isso, lhe estou grata.

Vou procurar entre a minha papelada o retrato de que falei no tal artigo, para lho enviar, como seu expresso desejo – e mais uns outros que julgo ainda conservar. Às vezes pedem-me estas coisas e quando percebo que o interesse é verdadeiro – vou-as dando. As colecções, de jornais, completas, já as dei quase todas.

De qualquer modo, um destes dias, se Deus quiser, vou-lhe escrever para agradecer a carta que me forneceu a oportunidade, que me tornou feliz, de ter “encontrado” Joana Luísa no rasto de beleza que deixou a vida e a poesia de Sebastião da Gama.

 

Maria José Rijo

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 11:19

A Presença do Poeta…

Quarta-feira, 29.07.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.942 – 27 de Maio de 1988

 A Presença do Poeta…

 Muitas vezes me lembro de Sebastião da Gama. Não só como poeta, mas também, e muito especialmente, como pessoa.

Não que o tivesse visto alguma vez, a não ser em fotografias. Guardo, até uma, em que ele veste uma camisa de quadrados largos e usa uma boina na cabeça, tanto ao jeito dos pescadores, que é isso que mais parece – um deles – até pela feição de homem do povo e pelo tom de pele tostada que lhe dava o sol da sua “Serra Mãe” – a sua Arrábida.

          

Durante alguns anos, lá pelos meses de Julho e Agosto, rumávamos ao Portinho e, na Pousada, depois do almoço, ou o pai de Sebastião ou a mãe, ou ambos, por vezes, vinham para a nossa mesa depois das refeições, tomar café e desfiar saudades.

Assim, a pouco e pouco, foi-me possível juntar ao conhecimento da poesia, a descoberta do Poeta, na sua qualidade de pessoa, e entender melhor o todo que ambos formavam.

                                     

Quando anos mais tarde li o seu diário, frente a algumas reflexões nele encontradas, lembrei-me das conversas que sobre Sebastião tivera com sua mãe, porque a cada passo surgia evidente, o seu rigor e honestidade, a sua doçura de carácter, a sua bondade, a sua alegria e gosto pela vida.

Talvez por tudo isto e também pelo deslumbramento, que também a mim, me causava a Arrábida, habituei-me a pensar em Sebastião da Gama como uma presença viva junto de mim.

            

Talvez também por isso quando quaisquer circunstâncias me confundem digo para comigo:

- Vou fazer como Sebastião nas aulas com alunos desatentos, e pergunto-me:

- O que deveria eu ter feito que não fiz?

E é partindo de mim, como ele fazia, que procuro e encontro – quando encontro – o caminho que me leva aos outros.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:24

Estava eu a ler Fernão Capelo Gaivota

Quinta-feira, 04.06.09

Á LÁ MINUTE

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.923 – 15 de Janeiro de 1988

Estava eu a ler Fernão Capelo Gaivota

 

http://www.youtube.com/watch?v=veDtCRBlCII 

 

“… Tu que tens a liberdade de ser tu próprio,

o teu verdadeiro eu, aqui e agora:

nada se pode interpor no teu caminho.”

 gaivota.jpg picture by movimentoequi

“…,vocês têm de compreender que uma gaivota é uma ideia ilimitada de Liberdade…”

 

Foi então, que pensei: uma gaiola, por via de regra destina-se a ser ocupada por um pássaro.

Bem sei que as há bem pequenas, criadas de propósito para aprisionar grilos, e eu, que em criança tanto gostava de os caçar fazendo-os sair das suas pequenas luras com um

                                                  

junco ou uma palhinha seca, vejo agora como era cruel o que me parecia, então, uma inocente brincadeira.

Quem, aliás, que eu saiba, tratou esta situação com mais sensibilidade e humana ternura foi Sebastião da Gama quando escreveu:

 

http://www.youtube.com/watch?v=kkkQdv-fhns

               

“Os pássaros cantam é na linha dos telefones,

nas árvores, na beira dos telhados…”

 

Os grilos é na toca ou ao pé da serralha. Na gaiola, É o fado dos ferros.

Mas os que abriram a grade não entendem! Se eles abriram a grade! … e vá de não perceber que o fato preto de grilo já é outro, já não é o fato de trazer: o de luto. De luto por si mesmo.

         

Recordei estas coisas a propósito de outras bem distintas, mas que têm muito a ver com liberdade.

Um pássaro, é sempre um pássaro, e mal vai a vida quando para que o reconheçam como sendo o que é – ele tenha que aceitar a pata anilhada ou a gaiola.

                                        O grilo na gaiola azul por zwigmar.

Aliás, as aves, tendo tanto de semelhante como seja bico, asas, penas… são tão distintas nos tamanhos, cores e maneiras de voar ou nidificar que será curto de vistas quem não se aperceber da espécie, a que pertencem e só fechada na mão a entenda…

                   

Porquê! … depois! … depois … como diz Fernão Capelo Gaivota

 

“Vê mais longe a gaivota que voa mais alto”

 

Maria José Rijo

 

                                 

    

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:55

Este blog faz 2 anos

Sábado, 07.02.09

No dia em que se celebra o 57º aniversário

do desaparecimento

de Sebastião da Gama

por pura coincidência

este blog fáz dois anos.

fica bem aos pequenos saudar os grandes

registamos aqui

a nossa homenagem!

..

 

Sebastião da Gama in "Serra-Mãe"
.

"O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra
nunca alcançou."

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:02

Lembremos Sebastião da Gama

Segunda-feira, 19.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.293 – de 31 de Março de 1995

Conversas Soltas

                                               o poeta, o professor, o homem 

Desde que, há anos – que já nem posso contar -me caiu sob os olhos um poema de Sebastião da Gama, ganhei o gosto de ir lendo tudo quanto dele, se fosse publicando.

Depois, por acaso, cruzei-me, nestes caminhos de viver com grandes amigos seus profundos conhecedores e apaixonados da sua obra.

Pelo Sonho é que vamos

Antigos companheiros de Faculdade que, se recordavam do Poeta pela qualidade dos seus poemas, amassavam sempre essas lembranças com a qualidade do Homem que Sebastião era – que Sebastião – foi.

Pelo que dele ia sabendo, quer através da saudade da Matilde Araújo, quer pela evocação de João Falcato, colhi a certeza de que toda a gente – toda a gente sem excepção – que um dia conheceu Sebastião da Gama – à sua maneira – amou esse Homem Poeta – mesmo quando dele não sabia dizer, de cor, qualquer verso.

 

Para completar esta “devoção” tivemos, meu marido e eu, a oportunidade de privar durante algum tempo com os Pais e irmão de Sebastião que tinham uma “Estalagem” na Serra da Arrábida para onde costumávamos ir no Verão.

               Arrabida

Foi através das pequeninas histórias da infância de Sebastião que sua doce Mãe me contava que “aprendi” a ver o menino me contava que “aprendi” a ver o menino que ele fora, ali mesmo, no coração da “Serra Mãe” que tanto sustentou a sua alma de Poeta.

Ora, não é que um dia, o acaso trouxe até mim: - Joana Luísa - sua mulher!

Pois, foi agora, de suas mãos, que recebi, enternecida e muito grata, um exemplar do primeiro volume das suas cartas.

Cartas que se lêem a correr, a correr, com pressa de chegar ao fim. Para depois serem relidas, uma e outra, outras vezes, com vagar – para lhes tomar melhor o gosto.

 

Cartas, de que se decoram sem dar por isso, retalhinhos – palavras – versos – intenções, que nos ficam no coração e nos adoçam a vida.

A edição é: “Ática”.

A introdução, selecção e notas é de Joana Luísa da Gama.

O prefácio é de Maria de Lurdes Belchior que a certo passo diz:”… O poeta tem a consciência da “diferença” e o leitor das suas cartas admira nelas a espontaneidade, a beleza, a generosidade, e vai decifrando, deslumbrado, o itinerário de um homem bom”

“… O seu convívio quotidiano revelano-lo como um extrovertido, em certas horas esfuziante de alegria, sempre atento aos outros, em especial os mais humildes”.

“…Mas por detrás do homem comunicativo, brincalhão, há o outro, o que sofre interiormente as agruras de medos e pavores que só Deus serena.”

Há nestas cartas/textos de autologia sobre o conceito ou conceitos de poesia que são os meus, há alusões aos poetas que admira e que considera seus mestres.

Apenas duas ou três citações que o testemunham assim:

Cheguei à conclusão de que a missão do Poeta é, não só explicar aos outros a grandeza da Criação Divina, – e nisso há também grandeza ou, antes bondade de Deus em no-la mostrar mas tentar o aperfeiçoamento do Homem.

Ou

Os meus versos são uma espécie de montra onde eu exponho toda a minha alma.

Ou ainda:

Sabes qual é o único projecto que eu tenho no campo da minha Poesia?

É conservar-lhe sempre a honestidade e o tom íntimo…

 

… O leitor terá de entender ou pelo menos respeitar os códigos por que se pautou a vida do poeta que se propunha:

Converter as coisas, procurar toda a beleza contida nas coisas, para se não viver em vão”.

- Julgo que se alguém esteve comigo nesta Conversa Solta – até aqui – só terá agora que ler o livro de que estivéssemos a falar e abre com este pequeno poema:

 

Aconchega-te, Amor, em minha vida

Entra na minha vida e fica lá,

Sem ocupar lugar.

Que eu te não veja com os olhos querida,

 

Que não sinta sequer que tu ficaste,

Mas adivinha que sem ti ali

À minha vida, quarto aonde entraste,

nem ao menos podia chamar vida

 

Sebastião da Gama

Azeitão, 25 de Julho de 1944

 

Acho.

Acho, mesmo, que este é o recadinho do mais íntimo da nossa alma que, qualquer um de nós – sem disso se dar conta – quis, pelo menos uma vez, enviar a alguém…

Ser poeta é também isso: anseio de mais alto, entrega e cumplicidade com o mistério das coisas.

Das palavras que Joana Luísa escreveu – nada direi.

Fixo-me apenas no que ela fez.

Ela, deu-nos estas cartas.

Rendo-me à sua corajosa generosidade tão à medida de Sebastião Artur e abraço-a:

Obrigada!

 

 

Maria José Rijo

.

 

Biografia de Sebastião da Gama

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publicado por Maria José Rijo às 16:58

Elos da mesma cadeia”

Terça-feira, 06.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.463 – 24-Julho-1998

Conversas Soltas

 

              

Isto de ter fé – fé no sentido de não ter dúvidas de que na vida – (e, aqui apetece-me escrever Vida com letra maiúscula - como me ensinaram que Sebastião da Gama no sua deslumbrada gratidão por esse Dom de Deus, sempre fazia,) – isto, dizia eu, de sentir que até a erva mais rasteira tem sentido na criação – obriga-nos a uma postura de humildade que paradoxalmente nos conduz a atitudes, por vezes muito controversas.

                    SebastiaoGama.jpg

Penso que a coragem faz parte da dignidade de ser humilde!

E, porque assim creio, e creio-o firmemente, obrigo-me, por desígnio íntimo e irrecusável a criar o meu próprio desconforto em troca de um bem maior que considero imprescindível: a minha paz interior, resultante do meu esforço de coerência entre ser e parecer.

Tenho aqui, frente aos meus olhos, pano para mangas, como é de uso dizer-se quando se olha, quer entender o caminho dos acontecimentos e nos obrigamos, por consciência cívica a reflectir sobre o que se vê fazer, e o que se intui como motivação e causa do que vai acontecendo.

Claro que muitas e muitas vezes a dúvida se apossa de nós. Longe que estamos de nos pensarmos melhores do que outros e sempre conscientes da fragilidade intrínseca à condição de sermos gente e, como tal, falíveis.

Então, aí, como conta a oração das” Pegadas ”, Deus, por vezes compadece-se e leva-nos ao colo e a gente entende em vozes com outro eco a justiça de alguns dos nossos reparos e só tem que ajoelhar dentro do seu próprio coração, agradecer e aceitar a ajuda e o ensinamento que com tanta misericórdia nos é oferecido.

Mais uma vez assim aconteceu.

Daí, que, sem comentários, me permita citar alguns excertos de dois artigos insertos na revistaA Grande Reportagem – deste mês de Julho

Está lá escrito assim:

“A especulação imobiliária, a selvajaria urbanística, a devastação ambiental e paisagística, só terão fim no dia em que as autarquias deixarem de receber receitas da sisa e da contribuição autárquica. No dia em que a sua única fonte de financiamento for o Orçamento do Estado e em dependência do cumprimento das leis e dos planos aprovados.

Enquanto isso não sucede, os autarcas continuarão alegremente a autorizar tudo e mais alguma coisa. Porque, quanto mais autorizarem, mais receitas têm; e, quanto mais receitas tiverem, mais “obra” mostrarão; e, quanto mais “obra” mostrarem, mais votos colherão.

Este sistema de gestão local é apenas uma forma de democracia corrompida, na sua essência. Quando falo em corrupção, não me refiro apenas aos que metem dinheiro ao bolso, a troco de contrapartidas. Refiro-me também a este sistema instalado na gestão das autarquias, em que se trocam urbanizações e “contrapartidas” por vitórias eleitorais”.

Espero ter aguçado o apetite daqueles que se interessam pelo futuro e bem-estar das suas terras para a lucidez, coragem e honestidade que transpiram deste texto de Miguel de Sousa Tavares.

Sobre a gravidade destas situações traz a mesma revista um artigo sobre a trágica maneira como a “ferro e betão” se está descaracterizando a lendária beleza de Sintra.

Assina a denúncia Pedro Almeida Vieira.

Vale a pena deixar um pouco de lado o nosso comodismo e tomar contacto com a escrita de quem não se esconde, e, muito pelo contrário, sem ambiguidades afirma:

“Com a maioria absoluta, Edite Estrela ficou com “a faca e o queijo na mão ”.E decidiu fazer renascer das cinzas a versão com maiores índices de ocupação urbana e de solo urbanizável ”

Em tempos chamou-se orgulhosamente à Quinta do Bispo «a Versalhes »

Chamemos-lhe agora piedosamente “a nossa versão de Sintra”

turistas

Depois, pasmemos de como se pode ter a coragem de tentar cativar para Elvas os turistas que demandam a Expo alardeando (como num belo e recente folheto se faz) as maravilhas dos bens que, sem pejo nem mágoa, tão afoitamente se destroem.

Ao enumerar as belezas de Elvas pode ler-se assim:”a paisagem preservada dos arredores da cidade”

Vou só fixar a minha atenção no que da minha janela os meus olhos abarcam.

Será que se referem ao cabeço pelado onde havia um velho olival (testemunha viva da história do Santuário) – destruído sem ressalva de uma faixa que fazendo fronteira mantivesse o carisma do local e, para onde, se sonha agora, um loteamento que há-de permitir que se sacudam os tapetes das habitações para cima da procissão dos Pendões?

Será que já se evoca o desequilíbrio da qualidade de vida que os prédios projectados para a Quinta do Bispo – violentamente morta à sede – vão gerar com a sua sobrecarga da densidade populacional – para alem do mais já dito e redito?

          Será que meu filho usa drogas

Será que o nosso brio de cidadãos pode permitir mais horrores como aquela monstruosidade cortando a linha do horizonte a quem alargar o olhar para os lados do bairro Europa?

Tudo isto e muito mais se encadeia. Só que os elos desta mesma cadeia são fundidos com a nossa complacência...

Quem somos nós afinal?

Soubera eu a resposta! - Que vo-la daria já.

Isso posso assegurar.

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:27

“Quand il est mort le Poéte, tous ses amís ont pleuré”

Segunda-feira, 17.03.08

É difícil determinar, por vezes, quais são as proporções acertadas para acentuar cada circunstância.

As grandes parangonas que os jornais usam para veicular uma notícia – nem por se ajustarem com sinceridade à emoção do momento – se adaptam, na maior parte dos casos, mais exactamente à verdade que pretendem sublinhar, como igual, para toda a gente.

        Gaivotas ...

A objectividade precisa de um olhar largo, que, às vezes, a emoção não consente. Cada pessoa tende para fazer pender a balança para o seu lado, olhando do ângulo que mais a conquista.

Qualquer tendência partidária, não é, necessariamente mais importante, ou mais sincera do que a outra.

Os factos históricos, só vistos à distância, sem paixão, adquirem as proporções mais certas – o que, não significa – menores!

Com as pessoas também assim pode acontecer. Só o tempo lhes alongará a presença ou a sombra…

                                      José Gomes Ferreira

Algumas porém, como José Gomes Ferreira, adquirem em vida, tal dimensão, que,

quando um dia partem – todos se apercebem de que, apenas continuam! – mais presentes talvez, na medida em que transcendendo os limites da sua existência humana – foi pelo pensamento que se tornaram vivos na consciência dos seus contemporâneos.

Mas… para falar de um Poeta – o melhor é a sua poesia:

                  Voei como Fernão Capelo Gaivota...

“Leva-me os olhos, gaivota”

 

Leva-me os olhos, gaivota,

e deixa-os cair lá longe naquela

ilha sem rota…

Lá…

onde os cravos e os jasmins

nunca se repetem nos jardins…

Lá…

onde nunca a mesma aranha tece

a mesma teia

na mesma escuridão das

mesmas casas…

Lá…

onde toda a noite canta uma

sereia

… e a lua tem asas…

Lá…

 

Deixo aqui, hoje – “lá dessa ilha sem rota” os “cravos e os jasmins” – numa molhada de mágoa que, com a minha mão anónima deponho à memória do Poeta e, alongo a homenagem a Nuno de Bragança, que também morreu agora, e,

                                       Sebastião da Gama

     

cuja presença não pára de crescer embora este mês se cumpra mais de três dezenas de anos sobre a sua morte.

 

                              Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.774 – 22 Fevereiro 1985

Á Lá Minute

        

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publicado por Maria José Rijo às 20:26

As cores e o luto

Quinta-feira, 29.11.07

Sebastião da Gama, poeta de “ O Segredo é Amar”, olhando com piedade, o drama da perda de liberdade, de um insignificante grilo, preso numa gaiola, escreveu um texto – belo e lúcido, como tudo que nascido da sua alma – em que interpreta, como luto, a cor negra da asa aprisionada - que antes, por natureza, era apenas de cor negra.


Muitas, muitas vezes, penso neste texto, porque, muitas, muitas vezes, penso no valor da Liberdade, e nas múltiplas formas de forçar a sua privação, quando vejo sem grades nem gaiolas, cercea-la aos mais fracos, talvez da forma mais perversa, a forma sub-reptícia
Assim, quando alguém faz um trabalho e outro o apresenta como seu empoleirando-se numa qualquer falsa hierarquia, não há da vitória, branco, ou cor, que ressalte, porque a supressão da verdade, abafa a liberdade que assim fica de luto.
- É dos livros!...
Mas, por gostar do texto referido e por paixão pela obra de Sebastião da Gama tive curiosidade de investigar que espécie de insecto é o grilo.
Tenho a firme convicção de que, à parte o cri-cri do seu canto, bem conhecido, e da crença popular de que os de asas amarelas cantam mais e melhor, nada mais deles se sabe.
Que se distinguem das grilas porque elas têm os élitros mais curtos e pelo número das pequenas caudas, também é da sabedoria corrente.
Da história de animal tão presente nos nossos campos, pouco, ou nada mais, se refere.
Investiguei um pouco, e do seu caracter aprendi: - é anti-social, manifestam uns pelos outros inter-repulsão. São tão belicosos que os chineses os treinam e usam para combates, que transpostos para a nossa escala seriam aterradores e no final o vencedor devora o vencido!
“Afirma-se ainda, que, só na altura de acasalar, têm relações mais civilizadas com os seus congéneres e que os que nascem da mesma postura vivem algum tempo juntos mas, breve, parte cada qual para seu destino solitário. Que defendem duramente o seu pequeno território contra os seus congéneres embora a riqueza que os seus intratáveis cérebros guardam, seja apenas um pequeno e escuro túnel.” [in: Os grandes enigmas da vida animal- citação]
Quem diria que bichinho tão decorativo era capaz de feitos tais...
Mas, a verdade é que tendo as características que tem, porque faz cri-cri, tolera-se, desde que não cante demais, porque então irrita, cansa e desassossega. O seu habitat é o campo, embora às vezes apareçam nas ruas dos povoados, onde, logo chamam a atenção.
É que, saindo da erva verde, onde pastam e se escondem, quem os avista logo tenta caça-los o que não é fácil, porque saltitam, mostram-se, aparecem e desaparecem e lá se vão escapando.


Um dos meus sobrinhos, o Luís, quando criança, caçava-os e guardava-os no boné. Quando o víamos rir sem razão aparente já se sabia que eram os grilos a fazer-lhe cócegas na cabeça.
Até dizia que quando crescesse queria ter um filho para lhe chamar – Zé Grilo. Afinal é pai de um João e de um Pedro!
De onde se depreende que há quem goste, e goste muito.
Pois, quem me diria que bicho tão insignificante – pelo menos na aparência – que até diverte as crianças se pode tornar tão agressivo para os seus semelhantes.
Mas, eu vinha falar, não de um insecto, mas de cores e de Liberdade.
O saudoso Senhor Professor Agostinho da Silva, afirmava que a Liberdade era o maior bem do homem.
Os partidos, ditos democráticos, não sei com que convicção, fazem da Liberdade, bandeira, mas cada qual, tenta subjugar os outros...
Porém, sejam os seus símbolos de cor vermelha, rosa, laranja, branca ou às pintinhas, com a visita ao nosso País, de “Hugo da Venezuela” – que pelo que se viu, não faz tenção de se calar e diz o que lhe dá na gana – não restam dúvidas, que a liberdade ao que se confirmou, na nossa era, nasce, vive e floresce nos poços de petróleo, o que torna as cores diferentes com o constrangimento da subordinação à realidade que se impõe.
Assim, qualquer cor, para quem necessita de petróleo, por mais vibrante que seja, será apenas como o preto da asa do triste grilo engaiolado – luto.

 

           Maria José Rijo

      @@@@@

CONVERSAS SOLTAS

Nº 2.945

29 de Novembro de 2007

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:39

O segredo é amar

Sábado, 14.07.07

Era um dia igual a outros dias.

Na varanda da vizinha, lambia-se fazendo a sua higiene da manhã o mesmo gato cinzento que gosta de se espreguiçar ao sol, e eu já considero como elemento indispensável do meu horizonte quotidiano...

No mesmo horário, o jovem marido faz um adeusinho dengoso à mulher, que ainda despenteada lhe acena por detrás da vidraça, enquanto ele põe o carro em marcha...

Raparigas e rapazes vestidos de igual na comodidade negligente das calças de ganga e blusões chamam-nos à indicação do calendário de que as aulas estão a começar...

Rebolando na rua, a rosnar com alegria dois cachorros - fugidos por instantes dum portão aberto por distracção - fingem morder-se e, na brincadeira, disparam numa corrida desenfreada...

Entra e sai gente das portas. Há janelas a bater...

Um arzinho fresco com cheiro, já de Outono, afaga-nos o rosto...

No pavimento tisnado de alcatrão, bailam e rastejam as primeiras folhas das árvores que lentamente se despem da pujança das copas frondosas...

Das chaminés das casas sai fumo que com o vento desenha pinturas que o próprio vento esvai...

Voam pombos rente às casas...e a cidade ouve-lhes o roçagar das penas das asas...como murmúrios dos céus...

É a cidade a viver.

É um dia igual aos outros...

Mas é onze de Setembro e o telefone toca. A pergunta vem: - tem a televisão aberta? - então abra...

...Os repórteres, os jornalistas, os políticos, todos quantos têm acesso aos meios de comunicação de qualquer espécie, têm escrito e falado e mostrado a destruição das torres de Nova Iorque e o ataque ao Pentágono, com que os terroristas surpreenderam o mundo.

13 de setembro de 2001: bombeiro de Nova Iorque olha para o que sobrou da Torre Sul do World Trade Center

E que o mundo viu em directo.

E todos, sem excepção, falam na forma de retaliar tão hedionda façanha.

Como todas as demais pessoas, sigo com preocupação e interesse o desenrolar das negociações entre os povos ainda não refeitos da surpresa e do horror do sucedido.

Volto à janela. Está tudo lá. Porém, nada mais é igual...

Como todas as demais pessoas, comungo no desejo de que se possa exercer justiça castigando os verdadeiros culpados; e no receio de que sendo difícil conseguir tão milagroso feito, voltem muito mais justos a pagar pelos pecadores.

Paisagem assustadora de fumaça envolvendo os arranha-céus.

Cresce nas consciências o terror de que a justiça descambe para a vingança. Na convicção assumida de que ódio não se sara com ódio altos responsáveis alertam para a prudência...

Fixei - num dos apontamentos de reportagem a que assisti uma frase que me martela no cérebro como um acenar de esperança...

Uma das vítimas, a bordo de um dos aviões, ao aperceber-se que beirava o fim da sua vida, telefonou ao marido só para lhe dizer que o amava.

Também um filho numa das torres já em derrocada fez outro tanto dirigindo-se a sua mãe.

Nem ódio nem vingança.

Uma mensagem com o gosto de um beijo de adeus...

Uma mensagem de AMOR.

Sem quase me aperceber pensei em Sebastião da Gama,0001gf74 o Poeta da Arrábida. O poeta do amor à VIDA, que sempre soube que trazia consigo a morte que cedo o levaria...

Talvez, também, por isso, nunca desaprendeu, quando adulto, o que quase todos esquecemos desde que deixamos de ser meninos, e foi a sua oração de VIDA: -“ O segredo é amar”

Fiquei então remoendo na lembrança dois versos de um soneto - seu - que tem esse mesmo titulo:

                      “Ah! bem me parece que o Amor melhora

                       Quanto a graça de Deus não fez bonito.

                       Há lá coisa mais linda do que um grito

                       quando foi o Amor que o pôs cá fora!...”

 

                                                       Maria José Rijo

                                                Escritora,poetisa e Pintora

 

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Revista Norte Alentejo

Set./Out. –nº 14  -- 2001

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publicado por Maria José Rijo às 13:19





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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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