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Em tempo certo

Terça-feira, 09.12.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.468 – 4-Setembro-1998

Conversas Soltas

           

Aqui o temos - como todos os outros - em tempo certo!

É o nono, é Setembro!

Quando ele se aproxima, o meu coração de elvense, tem um vibrar diferente.

É verdade! - E, penso que, como também acontece num qualquer Natal, assim acontece nesta época, com todos os elvenses.

Setembro é o mês das evocações, é o mês das saudades, o mês das celebrações.

Começo pela casa: -“ o nosso Linhas”, completa quarenta e oito anos de idade.

É data de festa para celebrar - celebremos !

                        

Celebremos com a alegria e a responsabilidade que a efeméride suscita a todos quantos reconhecem que por mérito próprio, muito principalmente, um jornal de província, não desmerece ao longo de quase meio século do apreço e estima dos seus leitores e assinantes.

Saudemos com gratidão e amizade quem o produz, – desde quem o pagina a quem o escreve e a quem por ele se responsabiliza e lhe traça com coragem e isenção o caminho do futuro, e, também, a quem discreta e obscuramente lhe dá vida

Saudemos os seus assinantes e leitores, todos quantos lhe querem bem!

Depois, inevitàvelmente, outras lembranças se perfilam na memória.

Foi em Setembro que o seu fundador partiu. Vão oito anos, já, depois desse dia.

Evoco Ernesto Ranita Alves e Almeida!

Honremos com saudade e respeito a sua memória e, evoquemos também o “Fausto”e todos quantos deram, a seu jeito , muito da sua alma a este jornal  e também já partiram.

Escrevo como paradigma um outro nome.

Um nome apenas: - que mais não é necessário: - José Tello.

Por estas e outras demais razões eu sinto que Setembro com a aproximação das festas cria na nossa cidade um clima diferente só comparável em emoção com a envolvente ternura dum Natal.

Não há coração de pobre ou rico que não guarde uma referência por pequena que seja relacionada com as festas de Setembro, a data aglutinadora, por excelência das gentes da nossa região, em que todos correm para o abraço de familiares e amigos e para ajoelhar crentes e submissos aos pés do Senhor Jesus da Piedade. - Para o calcorrear vezes sem conto arraial acima e abaixo - até ter os pés cheios de bolhas... e os olhos a fecharem-se de cansaço.

É assim Setembro - cheio de lembranças, de presenças, reais ou virtuais , mas, sempre pleno de vida interior que o prenuncio do Outono envolve nesta “nossa” luz doce, suave,  com tons difusos de violeta e rosa  como não há igual .

************

Para aqueles dos meus possíveis leitores para quem estas datas são revividas pelas memórias da saudade, deixo, de presente, uma carta que escrevi para agradecer um belo botão de rosa e um sorriso de amizade que recebi...em tempo certo.

 

É que: - Vida! É sempre: - Vida! Apesar de todos os pesares...

 

Carta

(oito dias depois do dia da Mãe)

 

A rosa que me deste

Morreu hoje

Chegou em promessa, – fechada num botão

como fechada

estava a tua mão que a segurava...

Com ternura de mãe

a recebi, a amei e lhe sorri

Sorria-lhe todas as manhãs, desde então,

agradecendo - em silêncio - a sua companhia...

que renovava no meu coração, a esperança,

que é sempre filho e flor...

Depois, todo o tempo ela comigo compartia,

a beleza que a fazia ser rosa! - me vergava a seus pés,

e que eu recebia, como se, só para mim, ela fosse nascida...

... Há cada vaidade nesta vida!

Ontem - achei-a diferente

Ela já não me correspondeu...

Tinha a cabeça curvada

O ar vencido de quem tudo teve

e tudo já perdeu...

Hoje - recolhi-a pétala a pétala

Era ela toda - e já era nada!

Toda na minha mão fechada

e toda desfolhada...

Como penas de ave - sem  voo - sem bater de coração..

Já nem era, nem fresca, nem formosa.

Já nem era rosa...

Era ausência e frio

Sem calor de vida – nem era sorriso...

... mais... um arrepio...

Mas...sempre, lembrança doce e triste e linda,

que na alma se fecha silenciada

e, como perfume emanado da rosa...

dela se guarda a ventura que se goza...

Na alegria pura, como a pura dor...

de viver um sonho

ainda que breve

...como um tempo de flor...

 

Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 20:14

QUATRO EXCLAMAÇÕES

Quarta-feira, 06.08.08

À Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1804 – 20 de Setembro de 1985

São Mateus 1985

Quando um ventinho assobia e só servem os sentidos

para saber entanguidos, e engadanhados de frio,

os dedos entorpecidos de articulações doloridas,

e nas botas empedernidas – mais duras do que torrões –

em que a terra se tornou, e onde se avança aos baldões,

com todas as intempéries…

-- os pés são pesos de chumbo…

-- É o Inverno, com chuvas, vento,trovões,

e geadas de rachar…

-- Ao proteger o gado, afrontando o temporal…

-- “Ah, vida dum filha da mãe!

      Raio de tempo dum sacana!”

      Desabafa o maioral!...

            

Quando a seara desponta, e só servem os sentidos

para atentar se é bem nascida (o que é o pão da vida)

        

de quem na terra trabalha…

-- Quando é a perder de vista

verde, verde, o que se avista…

-- Se a azeitona deu bem, e os lagares ainda gemem…

-- E o Fevereiro não veio quente (com o diabo no ventre).

-- Se de tudo há novidade na sezão em que era esperada…

-- Vendo de longe a mulher que veio espreitar à porta

               

para ver chegar o marido, o aguarda no umbral

-- Sorrindo – orelha a orelha,

acena com gesto largo…

“Olha lá pr’a este enlevo!

  Disto não me lembro igual!

  Vai um ano dum sacana!...

Diz a esperança que canta nas falas do maioral.

 

Quando o calor zumbe aos ouvidos, e só servem os sentidos

para ter medo de os perder…

     

-- Quando o ar que se respira parece estar a arder,

e a garganta e os pulmões se engasgam com o suão…

e, coitado, o coração bate apressadamente, aflito

como um pobre pardalito, fechado na mão de alguém!

           O tempo no Alentejo ...

-- Sem dar perdão a ninguém, a canícula avassala!

-- “É dura a vida dos pobres!

      Ah! Calorina real

      Raio de tempo dum sacana”

-- Desabafa e limpa o suor, ofegante o maioral!

 

Quando toda a safra acaba, e só servem os sentidos

para almejar uns festejos,

convívios com gente amiga que só se vê de ano a ano…

-- E o que lembra é um copo, uma cerveja fresquinha,

cantar umas brejeirices, largar umas baboseiras,

galhofar de tudo e nada…

reinventar a mocidade

(onde aparece que coube tudo o que se soube)

-- E a feira de São Mateus

-- Festas, jogo e arraiais!

     e ao chegar à Piedade

-- Com o azeite da promessa – em prudência inteligente,

alinha os seus pensamentos,

(de joelhos – cheio de fiel ar beato - agradecido )

desfia o que a alma sente:

“Rezo pouco e cá p’ra mim!

  Oh, meu Deus – não é por mal!

-- É que a gente tem pendência p’ra…

     P’ra largar só asneiradas…”

Remedia ainda a tempo

bem contrito o maioral.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:41

PENSO QUE DEVO

Sexta-feira, 04.04.08

Enquanto eu viver, enquanto cada um de nós viver, por muito que uns concordem e outros discordem – enquanto eu viver, enquanto cada um de nós viver – estou e estarei, estamos e estaremos no nosso tempo.

            Porque o meu tempo, - o tempo de cada um de nós -  o nosso tempo, não se cinge apenas à duração da nossa juventude.

O nosso tempo é o tempo das nossas vidas. 

Quando muito, poderemos dizer: - quando eu era jovem.

Quando éramos jovens...

Ou, também:- na época da minha juventude, ou, na época da nossa juventude mas , nunca, em caso algum, referir o passado como o nosso tempo , e afirmar que o presente já não nos diz respeito.

Admitir que terminada a juventude a vida se nos esgotou, e que o presente é apenas um património dos jovens onde por tolerância nos consentem ser testemunhas presenciais, não é nem verdadeiro, nem honesto.

É, na minha opinião, e, penso que devo dize-lo – uma atitude mentirosa e cobarde.

E, se assim a designo é porque ela se me afigura como uma falsa premissa que faz intuir que a inteligência e o conhecimento variam na razão directa da musculação e resistência física.

Às vezes, não tão poucas quanto seria desejável, ouço na televisão e leio em jornais criticas a pessoas que, já com uma certa idade, ainda não saíram da cena política e insistem em emitir pareceres que, “esses tais críticos” consideram fora de propósito

Como se ancião e imbecil fossem sinónimos.

Penso que, quem assim critica, ainda não parou para reconhecer que aos seus, embora muito grandes saberes, pode também, faltar algo que só o tempo lhe dará se lá chegar – a sabedoria da idade – a experiência de quem tem uma vivência que só o peso dos anos permitiu.

Também não iremos cair no exagero de afirmar que as virtudes são apenas apanágio da idade.

Parece-me ser justo afirmar que as pessoas que gozam a plenitude das suas faculdades, têm o direito e , até o dever de dar o seu testemunho, porque assim se faz a história – sobre o registo e  memória do passado.

Essa, é alias, a base da evolução e do progresso: - somar ao conhecimento adquirido por uns as experiências e descobertas de outros.

Também houve que tivesse desejado a resignação do Santo Padre João Paulo II.

          

Dão-se hoje graças a Deus, porque tal não aconteceu.

Embora as vidas não se avaliam pela extensão, também não se poderá afirmar que quer a longevidade quer a fragilidade física alterem ou fatalmente anulem a qualidade moral e intelectual do valor do testemunho de uma existência.

             Flyyy way...

Vida, é Vida desde o primeiro até ao último momento e, sempre única para qualquer idade.

Não se pode viver para se ser agradável ou simpático ou para dizer e fazer o que outros, por muito importantes que se julguem neste mundo, queiram que seja dito ou feito.

Vive-se para se dar testemunho de ser gente – ser pessoa – cada um de nós – filho único de Deus.

Procuro, por isso, fazer o que penso que devo.

                           Maria José Rijo

 

@@@@@@

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.810 -- 21-Abril – 2005

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 16:10

POEMA – RAZÃO SEM RAZÃO

Segunda-feira, 10.03.08

Olho-me!

Desprezo-me!

A doença saiu, mas já não sou quem era

Foi inútil ser criança e estar à espera

Que o tempo me deixasse ser mulher!

 

Suporto-me!

Existo!

Porque esta vida aonde entrei sem querer,

Deu a uma mulher, porque a fez Mãe,

A razão que eu não tenho p’ra viver!

 

Maria José Rijo

20 – Novembro – 1953

                                                                             

Poema nº 10

Pag – 57

I Livro de Poemas

… E VIM CANTAR

Desenhos da autora

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:52

O Tema

Quarta-feira, 20.02.08

Por vezes, quando um assunto, que por qualquer razão de acaso me é sugerido, penso: - ora aqui está um tema para as Conversas Soltas. Depois é só agarra-lo e deixar correr as ideias.  

Noutras ocasiões, é o tema que se me impõe, ou pela actualidade ou pelo interesse que oferece, e, sou eu que lhe fujo.

E, fujo pensando: - para que me vou meter nisto?

             Porque me hei-de eu incomodar se não resolvo nada sozinha, e tão boa gente que se deveria pronunciar se queda refugiada num silêncio confortável e acomodado, como se nada de quanto se passa lhes dissesse respeito?

              

             Então aí, fico dialogando com a minha própria consciência, e perguntando-me se, por acaso, ando, ainda, por cá, só para ver andar os outros e se preciso de cabeças alheias, para identificar os meus deveres e os meus direitos.

              Depressa tiro as minhas conclusões, e, lá vou ao caminho, com a serenidade possível nas circunstâncias.

              Misturada em qualquer acção que se empreenda pode subsistir uma sombra de dúvida, mas também haverá um clarão de esperança, e uma irreprimível consciência de que ao que se tem como dever, não se pode fugir por maior que seja o desconforto que nos cause.

E, assim com estas e outras conjectures se escolhe, ou foge dum assunto que era, ou poderia ser um bom tema para conversar.

                              

È dos livros, quero dizer, é velho o subterfúgio de fugir a compromissos, equívocos, mal entendidos e outras situações mais ou menos ambíguas, falando do tempo.

Esse é, por excelência o tema ideal para que todos pareçamos corteses e bem-educados.

Que me conste, nunca o tempo veio pedir satisfações a ninguém por ter dito em tom azedo ou, mesmo bonacheirão que o tempo está feio, horrível ou qualquer outra designação por mais desprimorosa que ela tivesse sido.   

Ele aguenta que dele se diga que tem carranca, carantonha, que está manhoso, horrível, tórrido, gélido, farrusco e sei lá de que mais todos se lembram de o apelidar.

Verdade seja dita que segue com o seu bom ou mau humor, diga-se dele o que se disser!

Ora sendo assim, temos, sem rebuço, a franqueza de confessar que não há melhor tema de conversa.

Mas, que ninguém se iluda! – Que o tempo, que tudo ouve, e tudo consente, nada esquece. No tempo, tudo, como que sobrepondo-se sedimenta e permanece. Uns acontecimentos encobrem os outros. Formam como que uma crosta, que engrossa dando suporte a tudo o mais que vá acontecendo.

Que se lhe chame feio ou bonito, não interessa!

                                             

De tudo e todos pode, o tempo, rir, por mais grave que se considere o insulto que lhe dirijam.

No fundo, ele sabe, que a qualquer hora, em qualquer momento, tudo mostra e descobre porque o tempo é o único dono da verdade

Só no tempo, a seu tempo, chegam Vida e morte.

                              Maria José Rijo

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.717 – 4 / 7/ 2003

Conversas Soltas

  

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:52

Costumes

Sábado, 16.02.08

Num destes encontros de acaso que acontecem a quem para viajar compra um bilhete de camioneta e não pode imaginar sequer quem lhe calhará por companhia no assento ao lado, caiu-me em sorte uma velhota algarvia.

Era uma mulher do campo, gasta pelo trabalho, cheia de rugas no rosto ainda expressivo e com restos de beleza que uns olhos espertos dum azul incrível iluminavam como sois num céu.

Claro que levava farnel.

Claro que me ofereceu partilha-lo insistentemente, e, assim começou a conversa que preencheu o tempo da nossa viagem em comum, e, penso que daria até hoje, não fora o caso do percurso dela terminar em Quarteira.

                   

Acontece que grande parte da minha meninice foi vivida em casa de meus avós no Algarve, e, daí que fosse fácil termos pano para mangas na nossa conversa.

Cada qual puxava das suas memórias e, eram tantas e tão idênticas as evocações que nos fizeram rir quase todo o tempo.

Coisas houve porém, de que eu já perdera a memória, e que pela sua singularidade me pareceu oportuno trazer aqui à conversa.

Muitos costumes ancestrais se mantém ainda hoje no nosso dia a dia mas na aplicação de outros houve tais evoluções que contados agora parecem puras fantasias ou invenções.

                   As águas calmas e mornas das praias e o bucolismo da paisagem do Algarve.

Por exemplo: quem acreditará, hoje ao passar a ferro a roupa com um bom ferro a vapor, que ainda há poucas dezenas de anos se usavam ferrinhos de mão que se aqueciam sobre o lume e com eles “se corria” a roupa a ferro, como então se dizia.

Mais tarde os ferros passaram a ser aquecidos com as brasas no seu interior, porque alguém com sentido prático inventou essa nova e muito mais funcional maneira de, com menos esforço, conseguir mais eficiência no labor pretendido.

O tempo foi passando, o surto de invenções não pára jamais e aos primeiros ferros eléctricos, pesados e cansativos sucederam os ferros a vapor, leves, desenhados como obras de arte, em formas aerodinâmicas como carros de competição. São coisas tão banais tão do quotidiano de todos nós que nem sequer nelas se pensa.

                                   

Mas, eis que numa viagem de acaso, atravessando o Algarve, uma velha mulher, cheia de sabedoria de vida e de memórias do passado entre um mundo de recordações que ambas evocávamos me pergunta: - e... de quando se borrifava a roupa com os bochechos de água que se punham na boca! Lembra-se?

E, não é que me lembrava de ficar pasmada a olhar a caseira lá do monte de copo de água e jarro ao lado dando despacho a tal empreitada!

Como também a recordo ajeitando o “caparão para aparar a farinha sob as pequenas mós de pedra. A mó de cima tinha um furo no centro para onde a pouco e pouco se deitava o milho. Além do furo tinha também uma pega de madeira onde se agarrava para a fazer girar sobre a outra, moendo as sementes.

Assim nascia o ”xarém” com que se confeccionava a base do seu sustento: - as papas.

São lembranças de tempos passados, talvez pareçam até fantasiosas, mas que é bom lembrar que fazem parte da história de vida do povo que somos.

                            Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.831 – 15 / Setembro / 2005

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 17:56

Reminiscências – O tempo e as cantigas

Sábado, 02.02.08

Estava a ouvir algumas cantigas que um homem vestido de preto, entoa ao som duma concertina tocando e saltitando em palco, sempre de chapéu na cabeça, como se estivesse numa romaria. Estava a ouvir, a olhar e a pensar, como até através das cantigas, se podem de certo modo caracterizar as diferentes épocas e os seus costumes e linguagem.

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Os cantores populares de agora, de uma maneira geral, cantam de forma mais ou menos brejeira histórias cujo tema é o sexo, fazendo trocadilhos com o significado real das palavras e o sentido picante que em gíria se lhes pode atribuir.

Assim cantigas que em cantes ao despique, ou nas “ velhas” nos Açores têm todo o sentido pelo seu enquadramento intrínseco em festas populares e arraiais, aparecem, na minha opinião, por vezes muito fora do contexto inseridas em programas onde ganham uma certa perversidade por não terem neles igual cabimento.

Resulta um pouco como se alguém que aprecie touradas, em lugar de ir a um redondel apreciar o espectáculo, ou vê-lo em filmes em casa, ou no cinema, resolvesse trazer o touro para a sala.

Mas, queria eu, assim, dizer que em todos os tempos até as cantigas dão informação da linguagem e usos de cada época.

Lá na aldeia, onde passei a minha infância, ninguém ousaria nessa altura, cantar o cheiro ou o tempero do bacalhau de qualquer Maria ou graça quejanda, mas, cantavam-se coisas tais como:

“ É o luxo dos rapazes,    ( é a moda)

chapéu preto e cachinéi   (cache-nez)

todos têm meixão alta    (missão, profissão importante)

meu amor tão baxo éi     ( tão modesto, tão humilde)

meu amor tão baxo éi

quirido do coração

olha a menina que já ‘stá noiva

p`ra se casar no fim do Verão”

 

Fico agora a pensar se será ainda possível, depois do advento da televisão que, para além das suas muitas e inegáveis virtudes, também muito tem contribuído, sustentado e promovido a banalização, miscigenação e normalização – por baixo – de usos e costumes, se seria – ou, será - ainda possível em qualquer recanto do nosso país nascerem canções ingénuas que falem de esperança de trabalho e de amor sem trocadilhos de gosto duvidoso ou referências a sexo.

Verdade que gostaria de acreditar.

Entretanto, ecoam na minha lembrança reminiscências das vozes sadias que cantavam:

“Fui-te ver

Estavas lavando, no rio, sem ter sabão

Lavas-te em água de rosas, fica-te o cheiro na mão

Fica-te o cheiro na mão, fica-te o cheiro no fato

Se eu morrer e tu ficares, adora-me no meu retrato

Adora-me no meu retrato, vai-me ver à sepultura

Se eu morrer e tu ficares, adora a minha figura.”

 

 

Lavava-se no rio, não nas máquinas – é evidente! – Mas cantava-se o cheiro das rosas, não do bacalhau, também é evidente!

 

É na verdade diferenciado o perfume dos tempos.

                          Maria José Rijo

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Jornal linhas de Elvas

Nº 2.820 – 30 / Junho / 2005

.Conversas Soltas

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 13:36

O TEMPORA! O MORES!

Segunda-feira, 14.01.08

Assim clamava Cícero contra a perversidade dos homens do seu tempo!

Olho as árvores plantadas outro dia e já morrendo quebradas, e apetece-me clamar como Cícero:Cícero

               Oh! Tempos! Oh! Costumes!

Mas, tenho fé. Tenho fé que hão-de vir tempos que se hão-de prolongar até ao fim dos tempos em que deixará de haver motivos para tal exclamação. Tenho fé que hão-de vir tempos que cada ser humano ao rezar o Padre-nosso há-de pronunciar cada palavra como se a estivesse a descobrir.

Há-de formular cada palavra como se estivesse inventado uma maneira sua de contar o que sente, há-de tomar-lhe o gosto como se a provasse. Há-de sentir na sua alma o seu significado como se a estivesse a dar à luz, e sentirá na pele o arrepio maravilhado da surpresa.

Tenho fé que ao dizer: o pão-nosso de cada dia nos dai hoje…

Ao pronunciar o que às vezes se diz em repetições sem sentido, há-de saber que espécie de pão, é esse pão que pede.

Há-de saber que se Deus criou ao homem corpo e alma – esse pão – é o alimento do todo.

Há-de saber que o alimento da alma, do deleite de viver faz parte o gosto de usufruir com todos os sentidos tudo quanto Deus criou.

Então os homens hão-de saber o Amor que devem ao rio, ao mar, ao respeito por todas as manifestações de vida.

Tenho fé que então não haverá mais flores pisadas, árvores arrancadas, animais maltratados por puro jogo, ignorante malvadez.

E será como filhos de Deus – à Sua imagem criadas – conscientes e agradecidos que havemos de viver a esperança de merecer o direito a esse grito de amor: Pai-nosso!

Seja cada dia um fruto

Cada fruto uma semente

Cada semente o produto

Dos passos dados em frente.

 

                             Maria José Rijo

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Á La Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.729 – 6 de Abril de 1984

 

 

                                                                                                                                                                                      

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publicado por Maria José Rijo às 16:18

“PRANTO por uma menina de outros tempos”

Quinta-feira, 10.01.08

Voltou como desejava o poeta: para “dormir o sono eterno abrindo junto ao berço a sepultura”.

Retornou quem com outras meninas da sua geração fez a Primavera viva da nossa cidade, no seu tempo.

Talvez ela até gostasse assim!

-- Morrer antes de envelhecer de corpo e espírito.

-- Morrer como gostava de ser, e foi até ao fim: esbelta, bonita, cativante.

-- Talvez… para que dela fique, como de sua Mãe já ficara, um rasto de saudade inconformada, um magoado recordar que a faz ser evocada, por quantos a conheceram, com o jeito sonhador de quem conta uma lenda: …

-- Era tão bonita!...

E… também canta outro poeta: “por morrer uma andorinha não acaba a Primavera…”

Mas…

              

                 Quando na vida se perde

                 Um amigo ou um parente,

                 P’ra que serve a Primavera?

                 - Se o frio está dentro da gente.

 

 

                                          Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

A la Minute

Nº 1724 – 2 Março de 1984

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:38

Hoje - 2007

Domingo, 30.12.07

             

... Com desejos de Boas – Festas e os melhores votos para o Novo Ano – apenas – uma citação que encontrei num precioso catálogo de uma Exposição Itinerante da Junta de Andalucia – “El Chaparrón – El roto” – que um Amigo partilhou comigo e, dá para ler, ver, pensar e reflectir.

O autor – quase diria: - o agressor - é Andrés Rábago que de forma satírica e crua faz o alerta para a insensatez criminosa como o homem agride o ambiente.

Como cada um de nós ajuda a destruir o ambiente.

Escuso-me de acrescentar mais palavras minhas.

Frente à citação de – Horácio – tudo é pequeno e inútil.

 

“Como el almendro florido has de ser en los rigores

Si un fuerte golpe recibe, suelta una lluvia de flores”

               

 

Deus seja louvado – com as nossas palavras e obras – em cada dia do tempo

do “nosso” tempo.

 

Mais uma vez: Boas-Festas - Saúde – Paz – Fraternidade.

                                             

                               Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.949 – 28-Dezembro-07

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 11:01





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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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