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As palavras e a gente

Quinta-feira, 02.09.10

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3086 de 2 Setembro de 2010  

Conversas Soltas

As palavras e a gente

 

Um grupo de escritores, amigos de Miguel Torga, resolveu certa vez, oferecer-lhe uma palavra. Depois de muito pensarem e discutirem, decidiram por unanimidade que, para Torga, a mais certa, a que melhor lhe quadrava, e, então lhe foi oferecida, foi a palavra – telúrico.

Sempre achei esta história que me foi contada por um elemento do grupo do qual, também fazia parte Virgílio Ferreira, uma delícia.

 Quem leu poesia sua, os seus diários, ou estudou alguma coisa sobre a personalidade de Torga, não tem dúvidas de como a essência da palavra lhe assenta como uma feição. Sóbria, escorreita, sem arrebiques, nem artifícios, promissora como terra generosa e fértil.

Daí que muitas vezes, quando recordo este episódio, me detenha a pensar nas palavras que gostaria, também, de ser eu a oferecer a algumas pessoas em determinados momentos ou circunstâncias ou, naquelas outras com que qualquer de nós ficaria feliz se fosse presenteado.

Porque as palavras, como a música, são uma forma de mostrar como se vê o mundo, como se sente a gente entre a outra gente, com que força de alma, com que olhos, com que amor se abarca a Vida.

 

Quem diz: - meu amor, ou meu querido, ou minha querida, beija com as palavras seja qual for a distância a que se encontre da pessoa a quem se dirige - porque a palavra não é apenas um conjunto de letras. A palavra é um cofre de emoções que se abre especialmente para o coração, para o entendimento de quem a recebe, de quem a escuta, a guarda, a recorda.

Oferecer uma palavra, pode ser como oferecer uma flor, um fruto. Porque a palavra também pode ser olhada com fruto de um sentimento, como flor de um afecto, como a ternura de um sorriso

A palavra tanto pode afagar, mimar, salvar, como também, pode gerar todas as situações opostas.

Com a palavra também se pode brincar, embora a palavra nunca seja um brinquedo.

Então hoje, lembrando o aniversário de o jornal “ Linhas de Elvas”que, como toda a imprensa vive da palavra, ocorreu-me ponderar qual, ou quais seriam aquelas que lhe poderiam ser oferecidas.

Quais as que lhe assentariam, como retrato, quais as que, olhadas fosse por quem fosse, que o conhecesse, dele falassem, como o sorriso a gargalhada, o tom de voz, identifica qualquer pessoa da nossa intimidade.

Como lembrar é um dos privilégios de quem viveu muito…

 

Recordei o dia em que o vi nascer e só me ocorreu -Sonho!

Recordei perseguições políticas e escrevi – Coragem!

Recordei aplausos e vitórias e escrevi – Reconhecimento!

Recordei adversidades suportadas sem soçobrar e escrevi – Dignidade!

Recordei o serviço de amor a Elvas e escrevi – Fidelidade

Recordei a democrática aceitação de diferentes ideais e escrevi – Imparcialidade!

Recordei o culto da Verdade e escrevi – Honra

Quis escolher uma palavra apenas, mas, não sabia qual escolher . Reconheci que somadas contam uma – VIDA – a vida de um jornal que nasceu sob a custódia do nome da – talvez mais importante batalha para a independência de Portugal – LINHAS DE ELVAS – que, como um estigma, marca a sua génese e o seu percurso.

Então, sentindo quanto, e como, todas lhe cabem por justiça, dei-me conta de que, juntas, são apenas por uma:

“ LINHAS”

Assim, e, todo o coração, como quem reza, só fui capaz de pensar

e escrever:

Escorreita e nobre a tua Vida, companheiro!

 

Parabéns!

 

 

  Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 11:34

Até que a voz me doa...

Quarta-feira, 08.10.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1789 – 7 Junho de 1985

Á Lá Minute

 

           foto de over_acting1 em 18-04-2008 

Ouvindo Maria da Fé cantar o seu fado: “Até que a voz me doa”; Recordando a Amália que tão bem cantava: “Amália”,

               

quis Deus que fosse meu nome”, pensei que me caberia a mim, que não canto, escolher para meu fado – repetir até que a voz me doa – a minha oração de fé! – Acredito que:

---- Se às crianças fosse dado desde o berço, com a regularidade, sinceridade e insistência com que se lhes fornece o biberão – a certeza de que Sebastião da Gama falava verdade quando dizia:

“ O segredo é amar!

   

-- Acredito, que não seria possível, quando adolescente ou adulto, alguém, por exemplo: arrancar, em menos de 24 horas após a sua colocação 100 pés de cedro, de sebe que a Câmara mandou plantar como bordadura, para embelezar a estrada que conduz ao Viaduto.

-- Acredito que: - se depois de serem docemente embaladas com a certeza de que “Amar é o segredo” – as crianças tivessem nas escolas uma disciplina que as ajudasse a sentir – que o ar que se respira, para além da sua composição (analisável) é também o espaço da asa –

-- Que a pedra do banco de jardim que vemos partir em descuidada brincadeira – faz parte do segredo da terra que a deixa aflorar à superfície como elemento embelezador da paisagem, abrigo de vidas, indício e promessa de pedreira, alta escarpa onde a águia faz o ninho, cume de montanha onde gelos e neves moram por séculos…

       

-- Que a simples colher de pau – essa humilde auxiliar da feitura da sopa do dia a dia – até essa – nos pode trazer a mensagem da serrania onde, quando ainda pinheiro, falou a sós com o céu em longas noites de frias luas… ou as lembranças da beira-mar, onde escutou falas de altas ondas e temporais, cantigas de amigo do Senhor Rei D. Dinis e, onde provou, talvez pela primeira vez, o gosto do sal em respingos de espuma espalhadas pelo vento…

-- Acredito que se havia de perceber como tudo se entrelaça e como é violência não deixar crescer e florir a planta – não proteger o animal, poluir o rio que corre e o mar que o bebe…

-- Acredito que se entenderia que é violência não respeitar seja o que for que Deus tenha criado…

                               Photobucket

-- Acredito que por toda a parte com a fé de um Padre-Nosso se murmuraria o poema de Torga, o “Cântico de Inteligência”:

 

“Não destruas!

 

Toda a fúria é maldade

Ouve, que te não minto:

À tua volta a vida é como um cinto

De castidade

 

Constrói o mundo!

A sinfonia tem de ser inteira!

Junto o teu canto à melodia!

Não deixes que uma nuvem de poeira

Tolde a luz que te guia!

Dura!

Existe humanamente, e sê feliz!

Céu que não possas ver com olhos teus,

Deixa-o a Deus

- A ideia que tiveste e te não quis.”

 

Maria José Rijo

Gato Norueguês da Floresta

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:49

Primavera

Domingo, 03.06.07

http://olhares-meus.blogspot.com/

Como em muitos outros anos, ontem, fui cumprimentar a Primavera na beleza quase asfixiante das olaias em flor.

Comecei, como sempre, pelo Jardim Municipal, onde um parque de jogos que teria cabido em qualquer outro local, substituiu um encantador e velho bosque onde enamorada daqueles troncos carcomidos que floresciam como galhos frescos sempre me apetecia repetir baixinho um poema de Cecília Meireles

 

Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

Sou poeta

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

-          não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo

 

Sei que canto. E a canção é tudo,

Tem sangue eterno e asa rimada

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada

 

Desta vez, rezei-o no coração, junto à lembrança do bosque, porque era de Torga: - Cântico da inteligência, o que me ocorria:

Não destruas!

Toda a fúria é maldade

Ouve, que te não minto:

À tua volta a vida é como um cinto

De Castidade.

 

Constrói o mundo!

A sinfonia tem de ser inteira!

Junta o teu canto à melodia!

Não deixes que uma nuvem de poeira

Tolde a luz que

e te guia!

 

Dura!

Existe humanamente, e sê feliz!

Céu que não possas ver com os olhos

Deixa-o a Deus

- A ideia que tiveste e não te quis  

 

Assim pensando segui na minha “via-sacra” para saudar, outras nobres resistentes, que embelezam portões de quintas abandonadas ou se preparam para alcatifar os caminhos, como sempre acontece ali por “Forte de Botas” , ou mesmo aqui na curva da estrada que nos leva à Piedade, onde , por esta altura, se pode contrapor a mancha rosada do chão, ao verde macio que, também, nesta época do ano, veste a paisagem que  se avista até aos limites do   horizonte imenso do nosso Alentejo.

Deixei depois, que meus olhos falassem de tudo isto aos carcomidos troncos das ancestrais oliveiras que venero como deuses campestres que guardam segredos dos mistérios da terra que lhes alimenta a vida, e que os séculos encarquilham mas não emudecem. Porque tudo que a terra dá, ou se nega a dar, faz parte das falas, da mensagem, que os céus escrevem em flor – em cada Primavera - para quem procurar o fruto que cabe em colheita a cada Vida.

 

Eis como voltei a casa ao entardecer, sem receio da noite, apenas guiada pela luz Outono/ Inverno do tempo das minhas memórias.

                                                          Maria José Rijo

                                            Escritora e Poetisa

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

29--Março-07

Nº 2.911

  

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publicado por Maria José Rijo às 19:33





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