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REQUIEM POR UM RIO – NOTICIAS DE JUROMENHA - 2008

Sexta-feira, 18.10.19

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Dias 5 e 6 de A gosto – ou seja: sábado e domingo próximos – Juromenha vai reviver a sua tradição de honrar com festejos religiosos e populares a Santa Padroeira da sua Igreja e povoação.

Assim, oferece às pessoas que durante todo o ano, lá habitam e por lá labutam, dois dias de intervalo no rame-rame das suas honradas vidas modestas e pacatas para de forma mais alegre e aberta conviverem.

De todos os lados chegam familiares, forasteiros e amigos, por esta altura do ano.

Vêm matar saudades e abrilhantar as festas.

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Fazem-se touradas, petisqueiras, solta-se fogo de artifício. Dá-se largas à alegria.

Baila-se nas ruas. Conversa-se e ri-se.

Vivem-se revivendo-as, amizades, tradições, recordações comuns.

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Mas… se as festas têm o nome de Nossa Senhora do Loreto – a cujo culto – o nosso rei D. Dinis consagrou a então muito importante Praça de Juromenha – lá por esses longínquos, séc. XIII/XIV – a componente religiosa a tudo o mais se sobrepõe.

No Sábado, dia 5, ás 16 horas, a Missa será celebrada por alma dos filhos da terra que Deus já chamou a si.

No domingo, dia 6, às 16.30 será a Missa solene seguida de procissão.

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A vila é pequena. Aninha-se num alto, à sombra dum castelo, como nos contos de fadas. Vale a pena ir espreitá-la!...

A procissão, segue o percurso dos passeios turísticos de qualquer forasteiro.

Afasta-se um pouco das casas e caminha pela estradinha modesta que se desenha entre os campos e a Fortaleza – separando-os.

Cenário constante do quotidiano dos seus naturais.

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Depois, lá ao fundo, num pequeno largo do Arrabalde de S. Lazaro – dá a volta para mostrar o rio à mãe de Jesus e regressa pacatamente ao povoado para repor a imagem no seu altar – que o seu culto – esse - está  entronizado no coração de toda a população.

A Banda, solenemente toca e o sol acende faíscas, como brasas, nos metais reluzentes dos instrumentos musicais…

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Só que, este ano… Este ano – não há rio! No seu leito vazio – como numa cama de hospital, onde a morte recentemente tivesse passado, restam as marcas de quem a ocupou – então, neste caso, metros sem fim de grossas mangueiras a dar testemunho das tranfusões que o rio suportou até exaurir.

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O rio foi sugado até dele restarem apenas poças, como rastos de chuvadas em terras de lama, ou manchas de sangue em locais de crime. O rio foi morto na pátria onde nasceu vítima do uso desabusado do seu sangue – a sua água.

Nas suas margens, glorificando o crime, vicejam exuberantes pomares cuja sede excede as generosas capacidades de dádiva do rio.

Na geografia da Península – aprendia-se assim:

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Guadiana – nasce na Lagoa da Regedora em Espanha e corre, beneficiando terras, gentes e bichos, até ao Atlântico, que encontra em Vila Real de Santo António, no Algarve – Portugal.

Os seus afluentes principais, no nosso país são, Xévora, Ceia, Degebe, Vascão e Odeleite na margem direita. Na margem esquerda: Ardila e Chanca. Porém …

Em nome de um desenfreado progresso – Será progresso, meu Deus? – O Homem que inventa necessidades que ultrapassam as suas reais necessidades e, até, a generosidade da terra, do mar, dos rios da própria atmosfera – tudo modifica.

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Prende os rios. Sufoca-lhes o destino. E, em lugar de neles se deleitar, pescar e dos rios beber – bebe-os! Inverte tudo. Brinca aos deuses.

Faz pomares em terras de Oliveiras sóbrias e chaparros protectores da humidade dos solos…

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Determina as árvores que são proscritas; como se alguma vez, alguma árvore, não tivesse sentido de existir… e, delirante, glorifica o excesso de outras.

Se em democracia se afirma que as regalias de um indivíduo acabam onde começam os direitos de outro indivíduo…

As regalias de todos os habitantes do planeta acabam, necessariamente, onde começa a perigar o equilíbrio da própria Natureza.

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É tão lógico, tão evidente como: não estender o pé além do lençol – coisa que o Povo ensina, apenas, por intuição.

Requiem por um rio, que morre com seus peixes, seus cágados, seus mil bichos de água…

Requiem por um rio, que Deus criou também para embelezar a vida espelhando, árvores, tufos de loendros, céus, sóis e luar e, do céu, beber as chuvas.

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Requiem por um rio, onde o gado bebia, de onde os pobres sustentavam o verde dos seus hortejos nas margens… e perfumava as noites quentes do Alentejo com cheiros de hortelã, mantrasto e poejos…

Requiem por um caminheiro que sonhava o mar e, a má-fé, cruelmente interrompem o seu destino…

Mas… Requiem, também, pelo Homem que quer aprisionar o sonho de seu Criador para o acomodar à sua precária medida.

Ámen!

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Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 12:20

A minha gatinha Kika - 2011

Quinta-feira, 17.10.19
Pagina de Diário - 21- Março -2011
A minha gatinha KIKA

 

Kika, a minha gatinha, na brincadeira, fez-me um pequeno arranhão na mão direita. Nada que tenha importância - no entanto, achei conveniente desinfectar – acabo de escrever desinfectar, paro e penso: - desde que me lembro nunca hesitei como agora para escrever uma palavra! - ponho c, antes do t ,ou não? -isto do novo acordo ortográfico deixa-me com vontade de mandar passear quem o decidiu e fazer como meus Pais fizeram no seu tempo – continuaram a escrever como tinham aprendido indiferentes às mudanças de farmácia com ou sem ph, etc. etc…

Mas, não foi a nova moda da escrita que me prendeu a atenção, o que me fez confrontar com a minha realidade foram as minhas mãos. De repente tive a sensação que estava a cuidar das mãos da minha Avó quando me pedia ajuda por se ter arranhado ao cuidar das suas flores.

 

Por esse tempo, lembro-me de ficar comovida e triste quando ela com um ar nostálgico dizia: chamam-se a estas manchas “ rosas do túmulo” e, com uma das mãos afagava as costas da outra alisando a pele, enrugada e murcha cheia de pequenas manchas castanhas como sardas.

Ocorreu-me isso, agora, fixando as minhas próprias mãos, e logo me lembrei da Querida Matilde Araújo passando a sua mão macia pelas minhas, calejadas e ásperas dos canivetes, limas e formões na época em que eu fazia figurinhas em pau de buxo, dizendo-me, com apreço, naquele seu jeito de falar quase entoado – as suas mãos são as suas obreiras, Maria José!

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As mãos, são o ponto que fixo, observo e mais me encanta em qualquer pessoa. Nas fotografias, é para onde olho em primeiro lugar. A linguagem das mãos seduz-me e apaixona-me. As mãos casam-se com os olhos para falar da alma. Completam-se.

Também num dos meus primeiros livros de escola, havia uma lição que começava assim: “ fora daquelas mãos estilizadas que os pintores debuxam nos seus quadros, não há mãos bonitas na sociedade propriamente dita”.

E, depois, vinha a frase de que eu mais gostava "as mãos de minha mãe tinham um calo de abrir e fechar a porta da despensa”

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Eu via essa mãe, o molho das chaves e, sentia-me mimalha pedindo como se de minha própria Mãe se tratasse: - deixe-me ver, eu não mexo em nada, e olhava em volta corando como se alguém ouvisse a voz do meu desejo. 

Por estas e outras lembranças, muitas vezes penso na responsabilidade de quem educa crianças.

O mundo delas não cabe no nosso…abrange-o, mas ultrapassa-o.

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Quase oitenta anos depois, ainda vejo as imagens que o meu coração desenhava lendo ou ouvindo estas pequenas coisas.

Beijou-lhe as mãos…Apertou-lhe a mão…

Mordeu a mão que o amparou…

Afinal, as mãos, são, mais do que as extremidades dos membros superiores. Sem deixar de o ser, são ainda, também, e muito principalmente: - as “extremidades frágeis de nossos gestos imperfeitos, onde às vezes nascem flores” – ou não…

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 Maria José Travelho Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 13:55

POEMA - MARIA LUZIA

Sexta-feira, 18.04.08

Às vezes, saio à rua contente

À escolher os meus filhos

Entre os da outra gente!

 .

À minha filha mais velha,

A que eu sonhei primeiro,

Encontrei-a ontem

Quando já tinha,

E comigo levava,

A saudade doutros filhos,

Mais novos que ela

E que eu conhecera

A andar na rua

Ou a olhar da minha janela!...

 .

Mas a mais velha…

Ontem – vi-a

E pus-lhe de nome:

Maria Luiza!

Tinha de ser…

Com aquele olhar,

Doce – suave,

Longas pestanas,

Faces magras, pálidas,

(Está na idade ingrata)

Coitadinha!

Quase uma mulher…

Uma mulherzinha!...

Não tem formas…

É um tronco novo, airoso, esguio,

Onde a Primavera

Ainda não surgiu!

E é uma menina!

Tem cabelos loiros

Lisos, escorridos

(Eu queria em caracóis)

Mas amei-os assim,

Sedosos, compridos!...

Que saberá da vida

Aquela cabecinha?

O que pensaria

No momento

Em que eu a conhecia?

 .

Estava parada

Olhando um menino.

O que pensaria?

-- Que também ela

Seria mãe um dia?

 .

Ou só o sentiria,

Sem o perceber,

Naquele jeito de olhar

E mais sonhar, que ver?

Sim, era!

Seria!

Porque assim,

Só assim, eu queria

A luz dos meus olhos,

À minha Luzia!

 .

Maria José Rijo

24 – 12 – 1955

Vila Boim

.

II Livro de Poemas

PAISAGEM

Poema nº 16

Pág – 73

Desenhos da Autora

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:01





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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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